KLAR-CA-EL ILUMINADO PELO CÉU

Nuvens se dissipam sobre o oceano.

Outras acarpetam o céu, brincando de fazê-lo parecer mais morno.

Algumas disfarçam o mar de céu, sumindo como rastros discretos de um movimento breve e passageiro.

Há aquelas que são uma névoa solitária, vivendo reclusas e distantes do solo. Não querem nada com o chão, com o calor ou com o barulho dos animais. Tudo o que desejam é viver seu caso de paixão com o céu. Trocando beijos com os ventos gelados do firmamento…

Daqui de cima, é possível afirmar com certeza: Todos os supostos anjos, os super-heróis alados, são totalmente imbecis… Se pudessem fazer daqui seu habitat natural e ainda assim mantivessem seu padrão de pensamento como o nosso:

Seres humanos são animais rastejantes, como todo o resto. Voar com liberdade, só pelo impulso da vontade, deveria ser um estado de graça…

homem_voando

KLAR-CA-EL ILUMINADO PELO CÉU

 

11.582m

876km/h

Agora vejo os rios brasilis, veias barrentas fazendo fluir por essa terra sangrenta os detritos da minha gente. Em questão de 7hs vi os Alpes brancos que se estendem entre Leon e Genebra, sobrevoei a terra rubra do norte africano. Inspirei distante e apressado, infelizmente sem tempo de parar, o aroma picante da cidade de Marrakesh. E então o oceano, imenso, quase infinito. Me desdobro para alçar seus caminhos. Triplico minha velocidade, mergulho, submerjo, emerjo, alço os ares novamente, busco o Sol… Mas ele já está totalmente em mim quando estou no planeta Terra (o talismã da terra é um Sol interno). Acompanho sua luz enquanto dura minha euforia por estar voando, depois desacelero… relembrando o que ficou para trás… e num suspiro me deixo cair pelo espaço durante os instantes que duram o anoitecer no hemisfério sul, assim, também anoitece em mim as lembranças saudosas do que deixei do outro lado do mundo:

O que é? Um ideal? Uma causa? Uma bandeira? É claro que não! Tudo isso é vão impecilho do pensamento livre.

Eu lembro de uma garota, naturalmente. Posso não ser daqui, mas como disse Muddy Walters um dia: “Sou um Homem![1]”.

Ao meu redor, quilômetros e mais quilômetros de selva. Rios menores do que os que vi ao norte me lembram cobras mortas enegrecendo em uma estrada de terra, mas tudo transpira muita vida por aqui… Esse cheiro fresco e puro de brutalidade imaculada acende em mim um instinto que abafa um pouco minha melancolia. O crepúsculo está cessando e com a noite acendem as cidades e os olhos das bestas caçadoras. Singro raso, a mil metros das copas das árvores, em direção ao calor da cidade mais próxima. Outros rios cortam o solo. Couro de cobra escoando faunas e floras, desenhando símbolos arcanos que só o tempo das eras pode desvendar.

Mantenho-me relativamente próximo ao litoral porque aprecio o perfume do oceano, espio à direita e vejo as luzes de Ouro Preto e Belo Horizonte. Mais a frente Niterói sua sexo, música e violência. Um pouco mais adiante, a vermelhidão de um Sol resistente ainda tinge o horizonte poente de um tom dourado que jamais será reproduzido pela arte humana. Algo que só existe durante poucos instantes, mais do que necessários pra provar que a beleza realmente existe, e está ao alcance de todos, de forma que até os cegos podem sentir o prazer de contemplar a maior tela do mundo, um quadro sem bordas, o expirar de mais um dia.

11588m

833km/h

Alço alturas maiores só pelo prazer de prolongar um pouco mais essa vista, então inclino-me para São Paulo, cativa, cerceada de uma horrenda garra gigante de nuvens negras, relampejando uma chuva encardida e oleosa. As cidades normalmente faíscam sua luz alaranjada como que acenando para mim. Vibrando eletricidade, sussurros e segredos. Mas São Paulo me cospe, me bane, me repele como repele a tudo e a todos. Uma cidade que, como tantas outras atingiu seu limite, mas parece ser capaz de manter-se nesse estado limítrofe de sobrevivência por uma eternidade indefinível de anos. Já posso ouvir o murmúrio, a calamidade mecânica, os disparos e maldições. Como podem viver assim? Por quê vivem assim?Por que não se espalham, buscam por uma paz distante, enfrentam o frio solitário da estrada? (…)

Logo vou pousar. Devo me concentrar, me disfarçar de homem comum. Ignorar a perspectiva que os céus concedem ao homem pássaro, ao anjo encarnado, ao super-homem… Preciso estar atento. Me comunicar. Preciso tentar entender.

Não importa quantas vezes eu pise o chão de asfalto… Em Metrópoles, Nova Iorque, Paris, Berlim, Gothan, São Paulo… não importa. Acho que nunca vou entender por que o homem mantém-se junto na cidade. Por quê alimenta essa gigantesca máquina descontrolada com sua própria alma? Qual o valor desse sacrifício? Qual a razão?

Nuvens se adensam perante minha chegada. Relâmpagos triscam como botes de serpentes fantasma. Sinalizam os perigos da cidade. As nuvens não são mais nuvens-totens do ar brincando no céu; são cadáveres de nuvens. Nuvens mortas, sujas e cinzentas. Tão logo me enjôo com o aroma da cidade, me acostumo com ele.

A cidade tem luz pra ofuscar até as estrelas do firmamento, mas ainda não consegue dissipar as trevas de suas próprias entranhas sombrias: Os becos, ruelas, esquinas.

Por mais que eu não entenda o que mantém o homem vivendo assim, a sabedoria humana já me surpreendeu mais de uma vez. Até em sua oscilação mental, espasmos psíquicos que eles chamam “intelectualidade”, são contraditórios e incongruentes: Tão imersos em ignorância e permanente contradição e ainda assim eventualmente produzindo um pensar capaz de, por alguns instantes de graça ou loucura (ao que parece nem eles são capazes de definir com clareza a diferença entre esses dois conceitos) compreender com clareza os motivos de seu próprio penar. E ainda assim, persistem penando. Por quê? Por quê?

(…)

Espero aprender algo essa noite na cidade.

São Paulo

Brasilândia, Zona Norte.

Nível da Rua.

Ele pousa e caminha entre os homens outra vez.

 


Escrito por Tiago Abreu

12 de Janeiro de 2008

Inspirado na Canção:

Siriema

-de Salloma Salomão.


[1] I am man: Clássico do blues. Música de Willie Dixon imortalizada por Muddy Walters mas cantada por dezenas de músicos.

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