(Último) INFORME NMS de 2009: 16/DEZ

Reflexões nos olhos espelhados de Molly (como um olhar pode não ter expressão e ainda ser tão sexy?):

Machado de Assis já disse: “Futurismo é coisa do Passado”. É cada vez mais (ou menos) surpreendente como conceitos que nasceram da ficção não só fazem parte da nossa realidade como até de certa forma tornam-se obsoletos, superados pela capacidade pró-criativa do mundo em re-fabricar-se a partir de suas ruínas todos os dias. Um amigo cineasta (Salve Romulão!) colocou a questão: Julio Verne previu ou criou o futuro? E com base nisso, o NeoMitoSofia conclama a hecatombe vigente: Aí, Apocalipse: Pode vir que eu truco!

Dá um certo orgulho inquietante pensar que minha geração pode ter sido a última do mundo urbano-civilizado a não nascer diretamente conectada à Matrix. Mesmo assim, cresceu imersa nos ruídos da TV, matando aula em fliperamas, drogando-se com a cidade e aprendendo mais sua língua em cada viagem. Nutrindo-se de junky food e tiroteios na hora do jantar, pirulitos sabor ácido, doces que fazem a língua mudar de cor…

Os anos 90 trouxeram a polêmica sobre a morte ou não do Punk, mas é claro que o Punk não morreu; apenas trocou seus órgãos mais comprometidos por cyber-implantes no mercado negro. Mas nem só resistentes resistem, assim como ainda existem moralismos criogenados, estendendo sua pseudo-vida parasita com a riquesa acumulada da usurpação não-natural – nobres bastardos! Que hackers crakeiem as defesas de seus sistemas e os façam derreter numa madrugada quente de verão… seu cadáver mal-cheiroso como uma poça de goteira no corredor mofado, como uma geladeira quebrada, como um monstro patético e agonizante de Ray Bradbury…

Durante todo o ano de 2009 estudamos as psicopatias de relação, doenças modernas de comportamento, loucura, depressão, demência e normose… Não nos sentimos mais sãos, mas de certa forma nos sentimos mais fortes, como cyborgues nietzschianos praticantes de um Neo-Mitridatismo Urbano Radical (Mitridatismo significa a prática de ingerir pequenas doses de um veneno para adquirir imunidade a ele). Consumir lixo, expirar luxo, desapegar da abstinência e chafurdar na beleza do vício… &ainda assim continuar querendo! O desejo já não nos incomoda. Tesão e ódio se fundem e nos fodem. Antecipar a batida, disfarçar, falar baixo verdades obcenas, gritar em código no aeroporto: Códex Maia! Códex Mendonça! Código de banco, de branco, caucasiano insuspeito! Bomba! Bomba! ALah! Jihad! Explosivos! Não temos medo do TERROR!!! Por que ninguém presta atenção no quanto um terno e gravata podem ser suspeitos? Um terno Armani é o preço da inocência. Quantos assaltos? Quantos atrasos? Que se foda! 2009 acabou e aqui estamos: sanidade guardada do lado de dentro, bem no fundo: (in)sanidade! E do lado de fora, uma loucura gentil, discreta, elegante. Uma psicose que delicadamente coloca discos de vinil de Vince Guaraldi Trio pra tocar e discute Einstein e Crise nas Infinitas Terras bebericando conhaque numa taça de papelão. Minha patologia é um bichinho de estimação: tem seu próprio humor, as vezes está recluso e as vezes quer brincar, tenta sempre ser sincero e até que é bonitinho… Nada domada mas relativamente domesticada… sem mais delongas pára a frase no meio pra se alongar…

E as férias de verão que virão já passaram e nós, não menos descansados do que antes, nos encontramos surpreendentemente prontos pra mais um ano de atividades subversivas… rejeitando a onda que tornou a burrice uma coisa sensual. Rejeitando a sensualidade como forma de fomentar a burrice. Pensando, sobretudo pensando – até quando irrecuperavelmente embriagados. Traçando planos pra nos proteger do terremoto temporal que vai embaralhar as noções cronológicas de acontecimento e fato, confundindo causa e efeito, construindo com gibis e piadas que só nerds entendem (embora raramente achem graça) a balsa que nos guiará pra longe da dimensão Ficção X Realidade. Eu queria falar sobre essa força, esse impulso louco e antropofágico que nos faz confluir todos os temas na mesma discussão, ensaiá-la por anos a fio semanalmente e então emendá-la e costurar seus pedaços transformando-a com relâmpagos numa inteligência viva e pulsante: Os tais constructos prometéicos de que tanto falamos nada mais são que nossas mentes, unidas em referências mortas e ressucitadas. Frankenstein está vivo em Richard Cheese cantando “More Human than Human” do Rob Zombie num cassino em Buenos Aires… Eu ouço sua voz cantando “Down with the sickness” e gargalho por dentro toda a doença pra fora do meu corpo… e ele estranhamente me faz vivo também. Monstro e belo como Boris Karloff. Talentoso e dramático como Lon Chaney. Elegante e estiloso como Bela Lugosi. Nisso consiste a Adoração Pagânica, a adoração primitiva: Devorar seus deuses, fagocitá-los, transformá-los em si mesmo. Nada de agir como Jesus agiria, nada de buscar o Zen que Buda um dia alcançou. Mas ingerí-los, digerí-los, cagá-los e ficar naturalmente um pouco mais parecido com eles a cada nova refeição. Eis a prática NeoMitoSófica: Trocar imitação por alimentação. Trocar idolatração por adoração. Nutrir-se de teorias e relizar em segredo práticas e ações inenarráveis, indizíveis, impronunciáveis.Imaginação é o super-poder supremo. Quando imaginamos algo até a perfeição, essa coisa, em alguma dimensão, existe de fato. Independente do que crêem os chatos sobre realidade e materialismo. É possível curar câncer com a imaginação. É possível matar gatos e embrulhá-los pra presente com o poder da mente. Magia negra pode colorir um dia cinzento e a lei do tríplice retorno eventualmente vai, vem e acaba indo novamente sem interferir muito em sua vida…

Cantoria e esquizofrenia podem conjurar uma bela sinfonia. Vovó faz tricô usando uma jaqueta de couro surrada. Imagens são só o que desejamos que sejam. Se é possível ensinar história do egito pra uma sala repleta de Gremilins malignos alimentados após a meia-noite, então também deve ser possível crer em um espetáculo mais bem pago para a microcefalia&outras disfunções genéticas clássicas&espetaculares. Irmãos xipófagos se beijam na boca durante a novela “Rebeldes”. Será a “Lua Nova” o Crepúsculo dos romances ruins? Serão as garotinhas do século XXI ainda capazes de se masturbar lendo Bram Stoker? Não importa se Bansky é de fato genial, o legal do stencil é que qualquer um pode fazê-lo. Uma arte inalcançável torna-se triste como uma fórmula matemática. A Arte não deve ser admirada, mas mirada, planejada, realizada como um solo de assobio enquanto se espera o ônibus…

2009 foi um ano de morte, decadência e ressurgimento das cinzas. O nove indica final de ciclo, o onze e sua soma algarítimica (2) indica início de um novo caminho. 2010 será um passo adiante (3). Estamos no início de outra jornada, mas heróis calejados já percorreram muitas estradas… e nos contaram suas aventuras. Nos transportaram até elas. Em meus sonhos eu aprendi tudo o que preciso pra viver… e na minha vida insisto em ainda esquecer tudo o que preciso pra sonhar… mas não mais! O ceticismo ácido não pode ser mais que metodologia pra frases de efeito em jantares sem graça. A verdade requer crença genuína: A fé Verdadeira. Não a fé cega, mas a fé que nos permite fechar dois olhos pra enxergar com a alma. Download de consciência. Implantes subcutâneos de Amor. Minha esposa fez aniversário e tive amigos dormindo pelos cantos da minha casa… finalmente senti que não tinha mais pra onde ir sem que isso me fizesse querer chorar convulsivamente. Ao contrário, sorri. E fomos jogar boliche.

Posso não permanecer sorridente. Posso não estar saltitante. Mas em meu peito jaz a paz de quem crê&sabe: É possível! Assim como Joe Slate fotografava auras com sua velha câmera Kirlian ainda na primeira metade do século XX, também é possível retratar algo melhor que a faísca num duto de gás da miséria recorrente. Mais que isso, é imperativo IMAGINAR algo melhor. Por isso insisto: é possível! A magia é possível! E entendam, não sou um otimista nato e nem mesmo creio em talento inato. Quem me conhece de perto sabe que corre veneno em minhas veias. Mas se a lua transmuta meus humores e me presenteia com paixão&maldição, então disso eu tenho que a transformação é possível. A transmutação é possível. Uma cura é possível. Recuperar o maldito tapete injustamente urinado é possível. Jhonny Cash compôs a canção que eu uso pra acalmar a besta que ruge em meu peito. &A redenção, com a quantidade certa de embriaguês, descaso pela própria vaidade e humildade, afinal, é possível. “Regozige-se, companheiro: tudo é nosso!”

É possível salvar o mundo salvando-se do tédio… é possível salvar-se do tédio salvando o mundo.

Citações:

HQS:

– X-Club: Dr. Nemesis (Dr. James Bradley), Dr. Takigushi, Dra. Kavita Rao, Madison Jeffries, Warren Worthington III, Dr. Hank McCoy, Elisabeth Braddock.

– Crise Final (Grant Morrison para DC Comics).

Literatura:

– “Neuromancer”; “Count Zero”; “Monalisa Overdrive” – Willian Gibson

– GURPS CYBERPUNK (link pra download: http://www.4shared.com/file/8152608/bbe4119e/Blankenship_Loyd_-_GURPS_Cyberpunk__port__pdf_.html)

– Anarquist Coockbook: http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Anarchist_Cookbook

– “Caos” – Hakim Bey

– “Psicomagia” – Alejandro Jodorowski

Cinema:

– Zeitgeist (documentário sobre Mitologia moderna e controle sociocultural – novamente citado aqui no blog)

– “Pixo” – Documentário sobre pichadores de São Paulo.

– “Companhia de Lobos” (1984) Neil Jordan.

– “O Grande Lebowski” (Herói da minha geração)

Música:

– Richard Cheese (diversos álbuns: Tuxicity, Aperitif for Destruction, I’d Like a Virgin)

– “Coral Cênico Cidadãos Cantantes” e sua fabulosa interpretação de “Pirex” de Itamar Assumpção (conforme realizada no CCPC em 16 de Dezembro de 2009).

4 Respostas to “(Último) INFORME NMS de 2009: 16/DEZ”

  1. Camila Marciano Says:

    – “Neuromancer”; “Count Zero”; “Monalisa Overdrive” – Willian Gibson —> Só poderia tê-los colocado pra baixar aqui. Eu ficaria, no mínimo, agradecida =)

  2. Olá, Regis!

    Aqui é o André, amigo do Bodão. Nos falamos outro dia lá no CCPC, eu te mostrei meu blog e falamos de cursos e mostras de cinema… Adicionei o neomitosofia à lista de meus favoritos. Trocaremos mais ideias…

    Abs.

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