O Antimítico Civilizatório & o Monstro Civilizado

O anti-mítico poder assassino do anti-herói. A vivência plena e exploração máxima daquilo como renúncia da coisa. A contra-existência do trapaceiro. Uma prática indígena milenar: Ser ao contrário. O heroísmo como exercício da vilania.

Fazer isso em ambientes – espaços – controlados pode dar certo.  Como manipulação ativa de energia para um fim determinado. Vodu da realidade.

Ex: O boneco do morcego é a cidade: Gothan. Só que essa cidade – como toda cidade – tinha um espírito que se partiu. Compartilhamento mútuo de paranóias. Coletivo de loucuras. Esquizofrenia cultural.

A cidade faz reverberar tipos estranhos de telepatia, as cabeças criam realidades sinistras na cidade… A cidade se torna uma máquina. Uma máquina de projetar pensamentos. Um canhão psíquico apontado pro cosmos – um tiro cego em meio à poluição atmosférica. Uma egrégora de concreto. Grupos, coletivos mutualistas de bruxaria, desde sempre se juntaram em práticas de aliança para dar vida a idéias… abastecê-las ao redor da fogueira. A cidade tornou-se um labirinto onde soltar essas idéias e cultivar suas histórias… fortificando-as… fazendo-as crescer.E se a cidade, apesar de inserida em realidades absolutamente sub-existentes do que se sabe normalmente, representa um símbolo de civilização; o monstro, como anti-herói, representa a presença do lugar-além nessa cidade: o selvagem. A escuridão.

As portas e os caminhos para o submundo estão no espaço selvagem. O lugar além das fronteiras. As regiões nas quais a lei e a ordem orbitam ao redor das pessoas e não das placas, esquinas e contratos. É a vontade que determina. O nômade não permanece fora da cidade. Muito menos o caçador. Eles devem transitar. E a caçada – ambientada em ambiente controlado – pode ser catalisada em desenvolvimentos técnicos gigantescos e impressionantes… perdendo seu caráter de caçada, de livre transição&movimento, até em certo momento, algo se romper através desse desenvolvimento, de alguma forma na intenção de aniquilar qualquer caçada, nomadismo, ou ação autônoma de organização coletiva… substituindo isso pelo modo de produção industrial, basicamente o paradigma vigente de consumo e espetáculo em que estamos inseridos. Essa coisa que mata nossa habilidade de caçada, nosso nomadismo, porque atinge e compromete a paciência necessária para exercer essas funções.

Essa condição de anulação de autonomia acontece por meio de diversos sistemas operacionais em cadeias biológicas (e eventualmente vice-versa) e acaba aprisionando as pessoas em pseudo-dependências – em sua maioria exemplos perfeitos de necessidades que toda essa lógica de produção possui para continuar existindo.

A Autonomia responde a anseios Primitivos.

A Arte responde a sonhos Primordiais.

A civilização exige necessidades banais e uma compreensão efêmera e fugaz da realidade… enquanto o primitivismo exige necessidades animais e uma compreensão espiritualizada e frugal da realidade.

Em cada cidade, vilarejo, acampamento ou companhia, a civilização representa um desenvolvimento rápido e exagerado que possibilite restringir a visão das pessoas para o seu interior: Proibição do olhar PARA DENTRO. Não se distingue ambiente privativo de ambiente escondido.

Enquanto o paradigma selvagem pressupõe um incentivo à expedição PARA FORA, à exploração de novos limites, à empreitada pelo conquistar o outro… E o eventual esquecimento de suas próprias origens na admiração dessa descoberta.

O papel do herói, essa exploração selvagem, esse impulso de migração e conquista, de mergulho na jornada, pode haver nos seres “de fora” – cuja empreitada será invadindo a civilização; mas esses, uma vez na cidade, invariavelmente serão vistos como Monstros.

De qualquer forma, nessa passagem constante de uma condição para outra consiste a dialética do monstro civilizado realizando e auto-educando para a manutenção de uma civilização monstruosa ao passo que se submete ao horror ante a possibilidade de ter seu espaço invadido pelo horrível estrangeiro. A relação é tão irônica que a manifestação mitológica da monstruosidade quase sempre será pelo ícone do que vem “de fora”, do lugar-além, da mata, da noite, da escuridão; embora esse vazio, esse lugar ausente, nada mais seja que a sombra projetada pelo núcleo civilizatório. O seio da conquista e do sistema social vigente de consumo empreendido pelo espetáculo amamenta e fortalece a produção contínua de monstros. Monstros que, em realidade, existem primordialmente na mente civilizada, mas que socialmente acabam por ser projetados na figura do estrangeiro, do outro, do estranho.

E é assim que retornamos a questão original. A paradoxal condição que a cidade exerce sobre o entendimento das pessoas sobre a realidade: O paradigma civilizado é principalmente Anti-Mítico: renuncia ao mito alegando-o instrumento do obscurantismo, da ignorância, e veículo da violência selvagem. Mas ao passo que a razão civilizatória forma a racionalidade urbana, essa transforma-se em força inquisidora de absolutamente tudo o que possa representar diferença e incerteza tendendo a preencher espaços para além das fronteiras da cidade. O desconhecido, antes ad-mirado por uma aura mágica, mesmo que sob a distância e o receio calcados de temor, não representava motivo para um extermínio absoluto, apenas algo que oferece grande risco em empreitadas visando seu domínio e que, normalmente, é melhor ser evitado…

É dessa forma que percebemos no modo de vida primitivo uma prudência que não pode ser considerada outra coisa se não uma precaução inteligente, se não racionalista, notavelmente raciocinada. Ao passo que a esterilização civilizatória de todo e qualquer elemento desconhecido, alheio aos moldes de entendimento próprios e naturais desse paradigma acaba, nessa busca cega por controle e compreensão absoluta, gerando fantasmas&monstros em tudo o que não estiver sob as égides de sua estrutura filosófica. E na civilização não há diferença entre seus pilares e qualquer coisa que esteja em seu espaço interior: Se algo há na civilização, esse mesmo algo a sustenta. E qualquer coisa que não se encaixe nessas condições torna-se fator aberrante, abominação, elemento herético e digno de nada menos que o sacrifício.

Todavia as caixas de pandora de concreto continuam a exercer fascínio universal, atraindo toda sorte de criaturas grotescas para seu interior.

E assim, hordas forasteiras continuam a chegar todos os dias para serem sistematicamente discriminadas e caçadas cumprindo uma função ao mesmo tempo educacional e dominatória. Assim como, simultaneamente, não há redenção para aqueles que já nasceram na cidade, considerando que seu sistema cotidiano e modo de vida exercem uma dependência que altera a própria percepção desses, à maneira dos vícios mais poderosos.

Cabe a cada um plantar novas percepções do mundo, assumindo assim o risco de tornar-se monstro e ser exterminado como tal, mas sabendo e nutrindo-se da verdade, que na cidade, monstruosidade mesmo é permanecer nas sombras, sozinho, escondido.

ti<AN

há dois meses e um dia da morte de Glauco

e ainda muito puto (13-Maio-2010)

3 Respostas to “O Antimítico Civilizatório & o Monstro Civilizado”

  1. […] Para dar um pontapé inicial, sugiro a leitura desde post que achei animal: https://neomitosofia.wordpress.com/2010/05/13/700/ […]

  2. aratanbrasil Says:

    MTO BOM esse texto velho! O blog ta mto foda! Parabéns ao grupo!

  3. Valeu MAN!

    miss your songs!
    precisamos trocar arquivos!

    ABRAXX

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