MAGiK

“Feitiçaria: O cultivo sistemático de uma consciência aprimorada ou de uma percepção incomum

& sua aplicação no mundo das ações & objetos a fim de conseguir os resultados desejados.”

BEY, Hakim –

“CAOS: Terrorismo Poético e outros Crimes exemplares” 2003.

Não existe esse negócio de Magia Branca ou mesmo de Magia Negra. Fazer mal ou fazer bem não são ações facilmente distinguíveis ou identificáveis. Eliphas Levi dizia sobre a Alta Magia, algo que em alguns círculos foi grafado como magiKa (com ká) de forma que caracterizasse uma prática diferente do ilusionismo espetacular ou da feitiçaria vulgar de encantamentos e maldições. Seguir os passos de um ritual, repetir palavras que não pertencem à boca que as profere, executar receitas rigorosamente, temerosamente… isso pode soar um tanto ingênuo pra um Alto Mago ou, pro assim dito, magiko.

A Alta Magia requer, sim, rigor brutal, embora em absoluto embrutecedor, ao contrário, rigor esse que tornará o praticante ainda mais sensível, perceptivo e aberto para as influências invisíveis ao seu redor… Esse rigor não ocorre em reprodução de passos previamente concebidos, mas na produção de uma dinâmica intensa e absolutamente comprometida de estudo da realidade. Esse estudo, sempre engajado com a Verdade no sentido de descoberta genuína da verdade pessoal que habita cada espírito, resultará, como todo e qualquer estudo faz, num enlace entre mente/olhos&objeto-estudado – no caso, conforme dito, a realidade – & esse enlace levará inevitavelmente a uma apropriação. Logo o estudioso da realidade sentirá uma urgência de trazer suas mãos a esse enlace. Fazer algo com isso. Desatar, embaraçar, reenlaçar. Assim, faz-se amarração para o Amor, mas também pra vida e pra morte; mas a verdade é que a magia não se faz por intermédio de planos. Ela se dá por intermédio das mãos do mago. De sua palavra – abastecida por sua vontade; mas antes de tudo por sua percepção.

A Magia do Caos requer perceber os gatilhos e ativá-los, ou encontrar as fechaduras invisíveis e destravá-las. Lembro de uma escultura de Dali dum corpo repleto de gavetas… imagino que a maioria hoje esteja fechada para oferecer o que há em seu interior e também impossibilitada de ficar com algo que lhes seja dado. Não um objeto. Não um presente. Não um olhar, um carinho, um flerte. Não uma confissão. Tampouco um ensinamento. Nem lição. Nem desafio. Nem nada que possa ser realmente resolvido ou normalmente decodificado. Algo que não tem valor qualitativo ou significado intelectual. Ou mesmo sentido racional. Algo efêmero e eterno. O encantamento mágiko não é aquele que cria a ilusão, mas justamente a única coisa capaz de desfazê-la. Estamos sob camadas e mais camadas de ilusão. Soterrados tão, tão fundo que as ilusões sedimentaram, tornaram-se a nova crosta terrestre. O desenho das ilusões define a topografia de nossas vidas. Chama-se isso espetáculo. Começa com a simples, irrecusável e quase natural percepção. E tão já percebemos, também sentimos a ilusão. Sentindo-a, agimos com ela. Depois de um tempo somos apenas capazes de pensar dentro dos padrões ilusórios que nos são oferecidos. Logo nosso trabalho, lamentisfatóriamente, se resumirá a como contribuir mais com a Grande Ilusão. Logo tudo o que será possível fazer, falar, amar, será ilusão. Toda paixão também passiva de ilusão. Todo desejo: puramente ilusão. Todo vício. Todo medo. Tudo girando em torno das fumaças que jamais se dissipam. Todo mundo um grande truque de espelhos: luvas brancas mentirosas apontam a direção e as vaidades fazem todo o resto.

A alta magia rejeita a vaidade, mas conclama toda beleza desejando intensamente gozá-la; uma beleza absoluta voraz como o Sol, como a cabeça de passarinho de Trimigesto, O Cara I: Magika não é usar o espelho pra mostrar algo que não está lá, mas atirar-lhe uma pedra e deixar que o ruído ardido e explosivo do estilhaçar seja ouvido não com as orelhas, ou mesmo com a cabeça, mas pelo ventre, um rápido golpe de éter no coração, algo que por um nanosegundo parece um susto, pra então revelar-se surpreendentemente como um alívio. Não é preciso massoterapia pra se apalpar um pouco e encontrar nós sob a pele. A magia ajuda a desatá-los. Ajuda também a sobreviver. A descobrir tudo ancestralmente antes, mas só se dar conta um segundo depois.

(Até 2 ou três séculos atrás absolutamente qualquer ser humano já nascia com fórmulas magikas inscritas em seu código genético. Parece que o espetáculo pode possuir o poder de esterilizar esse potencial. E por mais que seja difícil ignorar numa criança o spark milagroso & miraculoso de magia pura&bruta a pulsar-lhe nos gestos e voz, só olhar o modo de vida civilizado de relance e já temos de lamentavelmente reconhecer o potencial castrativo do espetáculo.)

Esses nós que se formam sob a pele, quando muito acumulados viram bócios e pústulas e tumores de gordura. A medicina chinesa diagnosticaria como Acúmulo de energia ou energia parada num ponto onde falta fluidez. O resultados podem ser horrendos: A frágil grandiosidade da síndrome de Proteu. Carapaças se formam. Toda morosidade sofre doença e deformidade. Degeneração (outro conceito subvertido pelo nazismo e do qual poucos expõem-se a discutir – provando como a subversão lingüística pode ser capaz de transmitir mais idéia do que o sentido original da palavra). Não é que o mundo pós holocausto trabalha para um mundo sem magia; nem que antes, o nascimento da indústria colaborou para um mundo desprovido de magia. A magia é um fenômeno natural e climático que opera por meio das pessoas, mas também pelo ambiente que as envolve. Isso nunca deixou de existir. Nunca vai. Mas a transformação mágika pode gerar monstruosidades: A sombra da hecatombe iminente. A doença cujo nome não pode ser pronunciado. Pessoa-pus, pessoas-porre, pessoa-parasita. Almas apodrecidas e novidades sempre cada vez mais catastróficas.

Alta Magia é chave mestra. Tranca nenhuma é tão bem guardada. Cofre nenhum é tão seguro. A magika entende os mecanismos e reinventa os segredos. E embora haja crítica entre entender&reinventar, também só há um “&”. A magika de transmutação – seja ela pessoal ou ambiental – consiste em conhecer incrivelmente bem os 2 extremos estados no qual pode estar o objeto transmutado. Talvez tudo o que haja nesse ínterim, durante a metamorfose, seja incerto, surpreendente e imprevisível, mas os estados e conhecimento de suas propriedades são elementares pro mago.

Talvez não seja só ontologia entre o estudante e o estudioso. Talvez não seja só poesia entre o mágico e o mago. Talvez haja mais. E é nisso, e só nisso, que consiste todo o saber mágiko: Talvez haja mais. Simpatias e orações estão limitadas pelo temor ao superior. A feitiçaria, nigromancia infernalista, está condenada pela ambição de controle sobre o que é inferior. A Magia do Caos dita seus procedimentos enquanto se faz. É preciso ser bem ligeiro pra perceber e aproveitar cada oportunidade que se desdobra à sua frente. Não cabe na prática da Alta Magia o exercício do bem ou do mal. Ex: Hoje resolvi, após tantos anos relutante, escrever sobre magia. Há pouco, quando falava da (de)formação de monstruosidades que a civilização produz e alimenta em escala massiva, me veio a mente uma palavra com pê – aparentemente tão elucidativa – mas que num instante me fugiu. Esqueci-a completamente. Mal. Temi. Lamentei. Quase desesperei. Percebi minha perda de tempo e segui em frente. Lembrei que hoje também me dei conta de ter perdido um canivete. Uma pequena lâmina retrátil que costumo carregar no bolso há mais de ano. Pensei que talvez fosse isso um sacrifício que me prive amanhã de apunhalar alguém por sucumbir ao ódio. Ou de cortar-me de novo por dependência de dor. A magika aconteceu em todos os seus ditames caóticos e imprevisíveis, mas como toda magika, por intermédio da minha vontade (de superar o ódio e a dor), das minhas mãos (adestradas como 2 aranhas gigantes a registrar as palavras que penso) e d’mentespírito (inveteradamente esquecido, avoado e sempre a um passo de estar distraído). A mágika acontece. Nada invisível, nem vagamente oculta; e ainda assim raramente perceptível.

Mas o objetivo é passar conhecimento. Passar a frente: ensinar é conseqüência pra todo e qualquer estudioso. Palavras não tão belas devem ser minimamente práticas. É enfadonho citar todos os anteriores, numa reverência ao(s) Antigo(s), num mar memorial de citações óbvias de Crowley, Dee, Blake, Moore, Morrison, Jodorowski, Ahmed Al Hassan, Papa Dessaiville Espady, Mama Paquita… É preciso buscá-los, mas eles clamam por si só. Também é inútil retransmitir o cerimonial já registrado, os círculos de proteção, os pontos riscados, os versos de pontos riscados, as oferendas, ebós, rituais… ou a importância do verbo,  os símbolos e o sentido do Sephirot. Nada mais idiota e desnecessário que explicar o abracadabra. Proponho então alguns questionamentos: O quanto da nossa vida não é simplesmente construir um personagem pra nós? E o quanto realmente nos dedicamos a esse processo criativo? Quantas das nossas “influências externas” de fato só não nos influenciam porque assim permitimos? O quanto nos deixamos influenciar só por não nos sentirmos aptos a criar algo melhor pra nós mesmos? Por que diabos a criatividade é tão sub-valorizada?

Nada está definido. Nada nunca é determinado. Não existe ciência realmente exata. Até o monstro de Frankenstein, constructo cuja gênese vem de pedaços mortos de criminosos, crianças raptadas, obsessão e loucura, pode conclamar pra si mesmo um nome (Frankenstein) e tornar-se ele próprio um estudioso. Um criador. Um herói. Talvez o iconoclasta de hoje seja o corrupto de amanhã, é verdade. Mas com a mesma lógica é possível enxergar outro amanhã, no qual surja do despertar dum desinteressado qualquer outro iconoclasta.

Tudo na existência é auto-criação. Afinal, tudo é conquista. Aceitar a dor faz entender o ódio. Aceitar o medo da escassez faz entender a mesquinharia. Aceitar o outro faz entender a si mesmo. É preciso lembrar que a realidade é sempre a sua realidade. E nada mais. Belo e precioso, mas nada mais. O outro ponto de vista é tudo o que vale a pena ser Sagrado. Como os budistas que solenemente se curvam ante qualquer um, reconhecendo Deus.

Enfim, aceitar o passado faz entender o presente.

E o futuro?

O futuro já é(RA!).

“O UNIVERSO QUER BRINCAR.”

-Hakim Bey

ti<AN: 4à6/Fevereiro/2010…………………………………………………………………………………………

5 Respostas to “MAGiK”

  1. Depois de ter postado esse texto, percebi que a pauta é muito mais extensa… Acho que será o caso de providenciar continuações…

  2. Inebriantemente verdadeiro!

  3. […] que o post Magik foi escrito (https://neomitosofia.wordpress.com/2010/05/25/magik/), algo ficou no ar pedindo por uma extensão da pauta. Esse texto relaciona-se com ela, mas trata […]

  4. Mage the ascension, em busca do paradoxo, ou da ascenssão? Mais vale o caos e a loucura, ou a ordem a sanidade?

    • o Mage: the ascension propôe conceitos acertados, mas a dinâmica de jogo muitas vezes os dicotomiza, de maneira errada. A magia do caos é uma eventual consciência da sincronia que se tem com o caos em si, matéria prima de que são feitas todas as coisas.. surfar nesse caos é uma constante para todos os seres vivos.. estarmos despertos, consciêntes para isso, é o tal “estado de graça” de q tantas doutrinas místicas e/ou gnósticas tratam.. paradoxo e ascensão são como duas pernas numa mesma caminhada.. ordem é um mito estranho, incompreensível e inalcansável, sem nenhuma relação com nada disso.. sanidade é outro mito estranho, como a ordem, cuja finalidade é dominar e manter cativas as cosnciências, loucura e sanidade não existem de verdade, são só palavras que exprimem certas incapacidades comunicativas/expressivas..
      obrigado pelo comentário, Z. Me fez pensar + 1 pouco sobre tudo isso.

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