Imaginário neurótico

PS inicial, este texto contém espoilers importantes do filme “Fight Club”. Quem não assistiu, eu recomendo.

Porões cheios de homens, voluntários brigam, roda de espectadores esperando a sua vez, nenhuma aposta é feita, não existe um prêmio em dinheiro, eles lutam simplesmente pela vontade de sentir algo diferente; assim surge parte do nosso imaginário atual sobre a loucura. Como um marco cinematográfico das teorias psicológicas, o filme “Fight Club” (Clube da Luta), ilustra bem como o imaginário está enfermo, doente, decadente e mais triste que tudo indesejado.

Quando falamos de sonhos, ideais, virtudes, espiritualidades, desejos, mitologias, etc; estamos falando de algum modo dos nossos imaginários, pelo menos do ponto de vista mais otimista. Porém quando temos um conjunto de imagens, que representam um certos valores (tanto emocionais quanto racionais), corrompidas pelo excesso de informações e pela conseqüente alimentação descontrolada dos espectadores; o cenário que se vê não é dos mais animadores.

Com isso todos nós urbanos somos diagnosticados no mínimo como neuróticos. Mas essas “simples” neuroses tendem a evoluir para patologias um pouco mais complicadas; como: disfunções, esquizofrenias,  psicoses, etc.

No filme vemos que essas patologias podem ser encontradas nas pessoas que menos sugerem um potencial para essas neuroses evoluídas; como é o caso do protagonista, que nem o nome nós sabemos, sabemos só o nome de sua outra personalidade (Tyler Durden). Um fato curioso em relação aos nomes, é que tanto o Tyler Durden quanto a Marla Singer, são nomes que se gravaram em minha memória de um jeito meio estranho, já que quase nunca lembro nomes de personagens e muito menos seus sobrenomes. No começo do filme, aparentemente não encontramos nada fora do normal no psicológico dele; mesmo depois de sua mudança de casa, mesmo com a visível decadência social e econômica, ainda não conseguimos enxergar nada psicologicamente anormal nele; mesmo participando das brigas poderíamos argumentar que ele estava apenas descontando a raiva, ou que não era nenhum crime, ou que faz parte da natureza do sexo masculino, ou algo assim. Quando o grupo deixa de lutar entre si e começa a lutar contra o “sistema”,  os argumentos em defesa da sanidade dele perdem um pouco da força, mas ainda podemos dizer que não é uma patologia das mais sérias, que os idealistas radicais, podem ser tão violentos e terroristas quanto, que ainda pode ser apenas uma neurose. Mas depois de acreditarmos que o verdadeiro psicótico era Tyler, durante quase todo o filme, a surpresa da dupla personalidade nos mostra a loucura patológica do ponto de vista de um louco que tem a consciência da própria loucura.

Levando em conta o conceito de imaginário no filme (FC), apesar de seus desejos serem os mesmos da grande maioria dos seres humanos, esses desejos são moldados de acordo com as vontades de um imaginário coletivo, que de algum modo hipnotiza e captura as vontades do imaginário individual. Como a aparência é tudo no mundo de hoje, a intenção, como motivação e movimento para uma ação, vem perdendo cada vez mais suas forças para com os indivíduos, já que para o coletivo ela já não tem quase nenhum valor. A falta dessa intenção deixou nosso imaginário cada vez mais pessimista; filmes e notícias sobre guerra, violência urbana, catástrofes e por que não pornografia tem sido cada vez mais comuns e até mais radicais; em contra-partida, os filmes e notícias sobre fantasias, romances e heróis que não sejam platônicos, nem utópicos para os parâmetros atuais, são cada vez mais raros. É só vermos o que o oscar vem premiando…

Mas apesar de doente, esse imaginário não está morto. Filmes como “Upperdog” (desconsiderem o nome, pois meio que depõem contra o filme, vale mesmo a pena) que nos mostra a beleza nas imperfeições, ou a alegria em situações estranhas, renovam as esperanças de que esse imaginário ainda irá gritar a plenos pulmões: BASTA, QUE SE FASSA A LUZ!!! Ainda temos imagens que podem nos encantar ou nos enfeitiçar, em vez de hipnotizar, basta procurar um pouco mais e ter paciência.

Mas mesmo assim “O mundo perece por falta de magia” – Ahmed Al Hasan –  imagens de qualidade (tanto estética, quanto ética, quanto lógica) estão cada vez mais em falta. Mas isso não impede o personagem principal de expressar seus sentimentos no fim do filme “Fight Club”, tanto como Tyler, quanto como “Cornélios”, ou como “Humpert” (nomes que ele usa no começo do filme, esse último não tenho certeza), ficando com a Marla e explodindo prédios. O que me leva a pensar qual era o imaginário mais saudável pra ele, o que ele tinha no começo do filme, o que ele tinha no meio, ou o que ele tinha no fim? Mesmo a imagia marginal do consciente coletivo – deixando de lado a brincadeira de palavras – a expressão autêntica, autoral e underground do nosso imaginário coletivo, produz atualmente principalmente a apologia ao hiper-realismo, onde a emoção e a magia raramente são objetos da expressão e da interpretação. Afinal a beleza está nos olhos de quem vê, não é? E se a beleza realmente fosse mais genérica, menos padronizada, será que teríamos essas neuroses que temos atualmente? A beleza está nos olhos de quem vê, ou de quem sente? Afinal a beleza é melhor representada pela imagem, ou pela magia?

Ao vermos o nascer do Sol, várias coisas podem nos parecer belas, em princípio a imagem é a mais importante neste quesito, mas poucas vezes evocamos o lado misterioso, espiritual e mais emocional; quando pensamos nessa beleza abstrata, de algum modo estamos mais próximos de um mesmo sentimento. Por isso nada mais justo do que intensificarmos nossas interações subjetivamente consideradas belas. Sem magias, sonhos, ideais, virtudes, espiritualidades, desejos, mitologias, alegrias, belezas abstratas, imaginários individuais,  o mundo morre um pouco mais a cada dia.

PS: Sonhe o sonho do sonho de você sonhando que está sonhando pra idealizar o ideal do seu ideal mais ideal do ponto de vista ideal magicamente mágico onde o espírito vaga pelo campo espiritual em busca do elo espírito-coletivo no espirito-corpo desejando o desejo dos desejos mais desejado dos desejados desejável e desejante mito das mitologias mitológicas virtuosa virtude alegremente alegre que gera alegria e belas abstrações da beleza interpretada abstratamente imaginada individualmente como uma imagem mágica de magia e sem margem onde o mundo florece em seu fulgor lúdico.

Abraços PLAUNS

Uma resposta to “Imaginário neurótico”

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