O tempo da Contra-Cultura

“A história diz que uma Revolução conquista ‘permanência’, ou pelo menos alguma duração, enquanto o levante é ‘temporário’. Nesse sentido, um levante é uma ‘experiência de pico’ se comparada ao padrão ‘normal’ de consciência e experiência. Como os festivais, os levantes não podem acontecer todos os dias – ou não seriam ‘extraordinários’. Mas tais momentos de intensidade moldam e dão sentido a toda uma vida.”

A década de 1960 foi um dos períodos mais marcantes do século XX. Período conturbado, a Segunda Guerra não fazia 30 anos ainda, o mundo continuava em choque e cada dia que passava era mais evidente um conflito atômico entre as potências, porém, a radiação não obedece a fronteiras, estourasse uma guerra atômica e o mundo entraria em colapso. A sensação dos homens da época era de impotência diante das armas e dos poderes centrais. Eram anos difíceis para se acreditar na vida e no ser humano.

Surge nesse cenário um novo personagem. O Jovem, a juventude. Essa juventude indignada e com medo decide agir! Agir contra o poder, contra a guerra nuclear, contra a rotina, contra o consumismo, contra o preconceito. Organiza-se de forma desorganizada, e desconstrói, irrita e cutuca todo tipo de repressão, pelo simples motivo de não querer participar da lógica sangrenta que a modernidade e o capitalismo trouxeram. Com eles vão surgir os Hippies, os situacionistas, os Provos, novos anarquistas, pacifistas, todos em busca de um novo meio de vida. Faça amor, não faça guerra…

Estes são momentos de intensidade, momentos de pico, que se configuram temporariamente, nunca de forma permanente, mas que marcam a sociedade eternamente. E como os levantes devem ser eles agem como uma grande festa, grandes festivais, badernas, exposições, são verdadeiros Happenings quase que generalizados durante a década, onde um termina, outro começa.

E não foi diferente na Holanda onde grupos de jovens cabeludos, baderneiros, inspirados por anarquistas realizam sua própria TAZ, “uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la.” O Provo não era partido nem movimento, formou um grupo instável e heterogêneo, que no ápice de seu sucesso não contava com mais de vinte pessoas, e se dissolve, pois como um jogo deve ser rápido

“Como ação sagrada, o jogo pode servir para a sanidade do grupo, mas agora com modos e meios diferentes dos que foram empregados para a imediata satisfação das necessidades vitais. O jogo se distingue da vida habitual por lugar e duração. Ele se caracteriza pela sua natureza acabada, sua limitação (…)”

Durante a década de 1960 jovens holandeses descidem que não querem viver na sociedade de consumo capitalista e começam a questionar dentro de suas cidades o quão prejudicial esse sistema pode ser a vida do planeta e das pessoas. São formados cultos como a Igreja da Dependência Consciente da Nicotina, jogos como o Marihu Project que para zombar da polícia cria cigarros com ervas secas do parque, maconha, palha, algas, cortiça e raminhos, para serem distribuídos pela cidade de Amsterdam com as regras do jogo que consistiam em trinta regras completamente absurdas e um sistema de pontos que “além dos pontos que podem ser encontrados dentro dos pacotes de Marihu, os participantes podem obter mais pontos, se forem interrogados pela polícia (10 pontos), se sua casa for revistada (50 pontos), se forem presos (100 pontos) ou se, de vontade própria, fizerem uma visita aos agentes de narcóticos (150 pontos).”

Experiências com o próprio corpo são testadas como o “pastor” da Igreja da Dependência Consciente da Nicotina que recolhia os cigarros para si para livrar o mundo do vicio e do “Kanker” (câncer) causados pela indústria do cigarro. Ou então um jovem cientista e cobaia com experiências com LSD que a partir de pesquisas conclui que a melhor maneira de expandir a consciência sem fumar uma ótima cannabis indiana ou ficar durante quinze minutos com a cabeça baixa é a trepanação do cérebro, formando assim uma espécie de terceiro olho, enquanto seus colegas de forma artística decidem tirar as roupas e colocá-las para lavar.

Surge nesse mesmo período o chamado: Provo. Este cria até uma espécie de provotariado. Um grupo de cabeludos anarquistas que disseminam idéias inovadoras e questionadoras pela cidade através de seu jornal. Alguns planos valem a pena serem citados para entendermos como liberam áreas geográficas, temporais e imaginativas sem confrontar o Estado diretamente.
Um desses planos é o Plano das Bicicletas Brancas. A bicicleta branca vem na contramão dos carros, estes por sua vez assassinos. Os carros tiram o espaço da arte, o espaço da dança para qual deveria servir a rua, eles reduzem os seres humanos a condição de pedestres. Eles matam o homem e a terra, pois a poluem com altos níveis de monóxido de carbono (assim como as chaminés das fábricas e para isso existe também o Plano das Chaminés Brancas). As bicicletas devem ser gratuitas em contraste com o alto preço dos carros, a bicicleta é de todos, indo contra a propriedade privada tão importante ao capitalismo.

O provotariado luta de maneira pacífica, utiliza-se de bombas de efeito moral para rir da cara das autoridades, agradece a cada surra que leva da polícia pelo grande espetáculo que ela causa, atira galinhas brancas na carruagem da rainha, fazem de tudo para irritar. E depois de uma grande encenação dispersam-se para juntarem-se novamente. Defendem os direitos das mulheres para que retornem ao seu estado natural de amantes da vida em contraposição a mulher passiva. A mulher que o provo quer é aquela que tem direito a contraceptivos, direito ao Aborto, direito a organizar e viver sua própria vida sendo independentes e recebendo sempre as informações necessárias e o material disponível para a prevenção da gravidez indesejada. Lutam pela polícia amiga do povo, que não usa armas, mas serve o povo nas suas necessidades como distribuição dos contraceptivos e suporte as bicicletas brancas quebradas.

Muitas outras questões poderiam ser tratadas para falar dos Provos, mas é importante notar que após dois anos de atividades eles decidem se dispersar, pois o seu meio de divulgação – a mídia – estavam os transformando em produtos, e isso não é nada bom… mas deixam um rastro gigante pelo caminho, marcando a cidade de Amsterdam para sempre e influenciando diretamente grupos que se juntam por toda a Europa e principalmente o Hippies de São Francisco

“Quanto tempo haverá de passar antes que a chamada esquerda acorde diante do que está acontecendo em Amsterdam, onde duzentos jovens de cabelos compridos e camisas floridas se manifestam contra os nossos homens do Ku Klux Klan que queimam os discos dos Beatles? Temos de ouvi-los nos dizer que o que a América está fazendo com os Beatles corresponde exatamente ao tratamento que a Alemanha reservou para Bertold Brecht há 33 anos? A quantos de nós ocorreu cantar rindo ‘estão cindo para nos levar embora, ah, ah, ah!’ quando a polícia chega para interromper nossos fúteis atos de desafio?”

E como todo jogo deve ser como toda festa deve terminar para que não deixe de ser extraordinária e deixe a sua lembrança quase que invisível ao mundo que nada vê cego pelo consumo e pela moral. É necessário que o fim chegue, algumas vezes de formas trágicas como ocorreu a muitos hereges cristãos no século XIII, XIV e XV e algumas de forma estratégica como os Hippies (que mesmo assim tornam-se produtos para serem vendidos durante todo o século) e os Provos que se despedem não lamentando mais propondo uma conscientização da juventude Alemã e pedindo autorização ao governo alemão para que possam acabar com a imagem de Hitler no país germânico. E como sempre há tempo para uma última piada ai vai:

“(…) os Provos espalham o boato, por intermédio de jornalistas complacentes, de que havia negociações em andamento para a venda do arquivo completo do movimento a uma universidade americana. Não só não existe nenhum comprador, como nem sequer existe um arquivo. A Universidade de Amsterdam, por orgulho, decide surrupiar o negócio dos colegas americanos e, após ter pago uma enorme quantia, dá por si tendo nas mãos uma caixa cheia de panfletos.”

3 Respostas to “O tempo da Contra-Cultura”

  1. Gabriel Loyola Says:

    BIBLIOGRAFIA:
    TAZ – HAKIM BEY
    PROVO – MATTEO GUARNACCIA

  2. a raça humana fez e faz, coisas mais assustadoras com o planeta, que qualquer força ancestral.

    que voltem os antigos.

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