Método NMS

A arte não é, como a ciência, uma lógica de referências, mas uma libertação da referência e uma expressão da experiência imediata: Uma apresentação de formas, imagens ou idéias de maneira a trazer em primeiro lugar não um conceito ou mesmo um sentimento, mas um impacto.

Joseph Campbell, As Máscaras de Deus VOL.1 – Mitologia Primitiva.

Desde que o post Magik foi escrito (https://neomitosofia.wordpress.com/2010/05/25/magik/), algo ficou no ar pedindo por uma extensão da pauta. Esse texto relaciona-se com ela, mas trata principalmente da metodologia neomitosófica.

Como já dissemos tantas vezes, a origem do nosso proceder filosofágico vem dos quadrinhos. Do estudo das HQs relacionado à reflexão filosófica. O poder de síntese das HQs capacitam-nas para ser o veículo ideal a transportar qualquer idéia. Como o carro do tarot, a carruagem sagrada.  Como o lápis dazuli na taboa de esmeralda ou o cavalo de oito patas de Odim.  Gostaríamos portanto, de nos aprofundar um pouco no procedimento NMS. Nossas táticas e estratégias de estudo. Nosso método por assim dizer.

Talvez de todos os veículos meméticos já observados, o cujo proceder mais se assemelha ao nosso é o da alquimia. Recorrendo ao compendium de Alexander Roob, o Museu Hermético da Alquimia & Misticismo, me pus a refletir sobre a forma com que a ficção moderna pode conter verdades filosóficas raramente encontradas em tratados teóricos, essa forma de transmissão do real pelo uso da fantasia, chamamos método neomitosófico:

“A literatura alquimista desenvolve, através dos seus representantes mais ilustres, uma linguagem de grande riqueza sugestiva pelo recurso a alegorias, homofonias e jogos de palavras que veio a influenciar profundamente a poesia dos românticos (Blake, Novalis), a filosofia do idealismo alemão (Hegel, Schelling) e a literatura moderna (Yeats, Joyce, Rimbaud, Breton, Artaud). As vozes que, dentro das próprias fileiras, se insurgiram contra o “modo de expressão obscuro” dos alquimistas formaram um coro polifônico. Revela-se igualmente pouco encorajante o que os próprios alquimistas tinham para divulgar sobre suas técnicas de comunicação: “Sempre que falávamos abertamente, nunca dissemos (verdadeiramente) nada. Mas sempre que usávamos uma linguagem cifrada ou recorremos a imagens, ocultávamos assim alguma verdade. (Rosarium philosophorum, edição de Weinhein, 1990).”

E ainda: “Quem, inadvertidamente, penetrar neste campo lingüístico, depara de súbito com um sistema caótico de referências, com uma rede de nomes de código e de símbolos relativos a substâncias arcanas em permanente mutação, em que aquilo que é aparente pode ter sempre um significado diferente e em que o próprio recurso léxico barroco especializado e às listas de sinônimos dos tempos modernos não oferece uma orientação segura.” Assim: “os filósofos herméticos podem ser entendidos de modo mais livre, senão mais evidente e mais claro, com um discurso mudo ou sem discurso, através da ilustração dos mistérios, do que através de palavras.

Dito isso, para exemplificar um pouco, é possível afirmar que em matéria de conteúdos, Promethea de Alan Moore e J.H.Williams III resume tudo o que de básico é preciso saber sobre magia. Assim como Planetary de Warren Ellis e John Cassaday contém toda a história da arte pulp desde seus primórdios até o que carrega de mais moderno: a livre metalingüística crítica e provocativa. Algo que funde em um só caldo polifonia e intertextualidade.

E para interpretar os conceitos enraizados nas camadas dessas (pra citar só 2) e outras [tantas] obras neomitosóficas, nos valemos dos caderninhos de anotações espiralados com folhas brancas e limpas (ou nem tanto) em que despejamos idéias e convidamo-nas a cruzar e rinhar… Ao mesmo tempo nosso caldeirão e nossa cuspideira. Instrumento que contém semelhantes proporções de poemas de amor e juras de maldição. A caligrafia, para os egípcios, era uma ação sagrada. Sua escrita era uma arte mágika. Não existia burocrafia. Não rabiscavam formulários de nada. Toda grafia era poese. Imaginamos que a caligrafia babilônica, hindu, zoroástrica seguissem, cada uma segundo seu sistema alfabético, a mesma lógica.

Temos na bolsa todo nosso laboratório alquímico. Componentes de experiências explosivas carregados na mochila; entre chaveiros cartunescos, alguns outros gibis, estojo, isqueiro, tinteiros de nanquim e pincéis atômicos para desenhar portas e abrir portais para outras dimensões.

Qualquer idéia viva vale a pena ser escrita na parede. Vale a pena entoar a voz dos mortos na fumaça urbana que tragamos. Escutar o impronunciável. Falar com o invisível.

Nesses caderninhos, misto de livro de receitas, caderno de estudos e anarquist coock-book of shadows, também encontramos espaço para outro método muito recorrente em nossos exercícios de interpretação neomitosófica: as tabelas conceituais. Prática inaugurada no grupo pelo integrante fundador PLAUNS, nelas organizamos em linhas e colunas situações e arquétipos de personagens fictícias para aplicar em realidade especulativa conceitos concretos e bem presentes na vida cotidiana. Essas tabelas nos permitem aplicar idéias e observá-las se movimentar; e do cruzamento entre conceitos verticais e horizontais, criam-se novas idéias, colhidas com a riqueza das trufas frescas e oferecidas como ebós em encruzilhadas.

São muitas e variadas as fontes de inspiração que acarretam uma construção/indagação/AD-Miração filosófica como a dessas tabelas. Muitas vezes elas surgem como um ou 2 conceitos/arquétipos relacionados que vão ganhando mais corpo a medida que transformamo-los  em perguntas e discutimos sobre isso… 1 exemplo:

Desde que o post magik foi publicado, senti-me idiota por não ter falado do Promethea… resolvi relê-la para comentá-la com mais propriedade e me vi cada vez mais intrigado com algumas relações lingüísticas relacionadas à magia. Estive em Buenos Aires e com o castelhano ainda ecoando na cabeça, juntei que Feiticeiro traduz-se para o espanhol Hechicero; atribuí como raiz semântica da palavra hechicero, o verbo hacer e aplicando a mesma lógica ao português, rastreamos feitiçaria à ação de fazer. Feitiço = algo feito.

Pensando um pouco sobre isso, levantei o que mais tarde começamos a chamar de tabela de feitiçaria ou quadro de feitos mágikos. À coluna de Feitos, levantamos outras duas de Efeitos. Uma com exemplos que recorram à nossa bagagem de referências pra ilustrar interpretações desses feitos, e outra com a mesma intenção, contudo desempenhando o propósito de forçar uma inversão valorativa, tentando romper vícios moralistas de entendimento desses feitos, buscando exemplos interpretativos que apontem num sentido radicalmente contrário do primeiro imaginado. A essa segunda versão, chamamos interpretação subversiva do conceito.

O resultado:

Tabela de Feitos Mágikos/ Feitiçaria

1 – CURA: Companhia/Conexão Direta/Permanente com a Vida/Morte

2 – ILUMINAÇÃO: Engrandecimento Interior/Desapego; Sámadhi/Nirvana

3 – MUTAÇÃO: Transformação/Ativação de Cadeia de Mudanças; Metamorfose

4 – CONVENCIMENTO: Trapaça/Truque/Persuasão

5 – ÊXTASE: Sensação Extrema

6 – CONSAGRAÇÃO: Fé/Unidade

7 – DOMÍNIO: Arte; Ars X Techné

Interpretações:

1 – O Xamã (Segundo estudos de Mircea Eliade e Joseph Campbell)

2 – Buda (A Saga de Sidarta Gautama)

3 – X-Men (conceito também bem explorado no filme Splice)

4 – O cigarro de J. Constantine (Hellblazer com intencional destaque para as fases de Warren Ellis e Brian Azzarello)

5 – As costas do Homem-Cavalo (Jesus Cristo de Nazaré é o exemplo mais óbvio, quis temperar com Um Homem Chamado Cavalo)

6 – Dër Wolk (Organismos sociais agressivos; nazifascismo; fundamentalismos)

7 – As Mãos de Stephen Strange {ou de Steve Ditko?} (Brincadeira que remete à habilidades extremas, exímia perfeição em desempenhar um ofício ou tarefa, a idéia de Karma-Yôga ou o conceito de perfeição pinkfloydiana)

Interpretações Subversivas:

1 – Vampiro/Desmorto (Sorver a vida alheia para prolongar sua existência)

2 – Popstar (Os poderes e a embriaguês do ego)

3 – Esquizo/Aberrante (Monstros em geral, Mr.Hide, Ed Gein, Charles Manson, Shoko Asahara e o Aum Shirinkyo)

4 – Político/Corrupto (Não carece exemplos né?)

5 – Viciado/Junk/ Ninfo (idem)

6 – $ (ibidem)

7 – Autômato/ A Maldição de Prometeu (trabalhador fabril, urbanóides neuróticos; também não faltam exemplos cotidianos)

E por aí vai…

Cada arquétipo vale não só uma reflexão acerca dum conceito, como ainda faz a ponte a outros exemplos que por sua vez levam a outros arquétipos e Samsara segue ouroborando seu rabo até o pescoço sem jamais engasgar…

O pensamento é escamas pra dentro e dentes pra fora. A Kundalini de todas as pessoas pode falar, é esse o segredo da religião bruxa de Alan Moore. Ela se alimenta e nutre (d)a criatividade. Movimento ao Pensamento; essa é a meta. O resto flui naturalmente. Aparece quando for de surgir. Desperta num bote e ataca a alma de alguém numa picada mortal. Ficamos mortificados. Sincronicidade existe. Funciona. É infalível e independe de qualquer coisa. Ocorre como o fenômeno mais fugaz da natureza; a brisa, uma nuvem de mosquitos, a aurora boreal.

Durante 2012 nosso blog vai editar mais das suas tabelas conceituais. Esperamos que gostem e que as mantenham em movimento.

“Só existe um conhecimento verdadeiro: o que ajuda a ser livre.

Qualquer outro é mera diversão.”

Vishnu Purana

ti<AN;1:16h 17-2-2X11

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