PRiMiTiVoS URBAnOS ………………………………………………………….[ou baLada de un cucArAchA]

Foi dito aqui que procuraríamos publicar material antigo, principalmente as tabelas conceituais que nosso coletivo neomitosófico vêm estudando e desenvolvendo desde meados de 2004. O material que eu apresento agora faz referência diretíssima – e a queima roupa – à talvez uma das principais dicotomias conceituais com qual apreciamos entrar em discussão, ora a maneira científica e pontual, dissecação da verdade, ora como em briga de foice. Sem delongas, já adianto o tema:

CIVILIZAÇÃO X(vs)X PRIMITIVISMO

De qualquer forma, é habitual do proceder neomitosófico posicionar-se sem medo em situações de amor&ódio com o conhecimento, e já admito que esse tema em particular me persegue e assombra há décadas. Enxergo-o em uma infinidade de gibis, livros e filmes e é provável que me flagrem discorrendo sobre isso mais de uma vez. Mas em especial houve um texto escrito em abril do ano de 2002, praticamente psicografado no busão, escrito por mãos cansadas sob comando de uma cabeça tão cheia de fumaça, encantamento e desilusão que conjuraram palavras que não são exatamente minhas… são de uma legião, viva, pulsante, manifesta que prolifera-se faminta pelo futuro.

São um canto, uma homenagem à sobrevivência. Carregam um apelo quase desesperado por alguma esperança, pela idéia de que seja lá o que sobreviva ao próximo fim-de-mundo, que (por favor!) seja algo melhor do que isto: E isto, no caso, é a Civilização em sua concepção mais radical. Suas abastadas conquistas: as esteiras de tanque chamadas progresso metralhado pra todas as direções que um satélite pode triangular; um procedimento suíno – mixórdia de mesquinharia e desperdício – e, enfim, o produto final: um conforto que transforma o homem em um arremedo pálido e flácido do que poderia ser.

Mas a idéia, lá em 2002, não era cantar pra esses civilizados, mas pros seus belos algozes, seu nêmesis supremo, o Primitivo. Porque manter-se primitivo, nesses tempos cyberpunks do século XXI, é tarefa cada vez mais difícil. De forma que os primitivos que resistem certamente estão cada vez mais fortes.

MANIFESTO PRIMITIVO URBANO

Acontece que os Primitivos Urbanos são sobre muitas coisas.

Primitivismo Urbano é uma metáfora tentando, por meio da indelicadeza e da agressividade, se emancipar da condição de metáfora. Metáforas não surpreendem mais, não trazem nada de novo, por isso o primitivismo urbano – através do uso ancestral de substâncias entorpensantes e atividades ilibertárias – busca a transgressão de uma realidade a outra. E a metáfora transcendente se transforma em terrorismo futurista. E o terror se transforma em poese.

Terrorismo poético, essa é uma boa forma de se interpretar o primitivismo urbano, mas não só de terror e poese vive o primitivo urbano, ele também existe apesar da soma e da ancestralidade dessas duas manifestações do primitivismo urbano. A soma obviamente será parte de alguma ação de sabotagem, sua ancestralidade é o inconformismo e absoluto desencaixe com qualquer modelo ou sistema que esteja posto para uma coletividade e, apesar desses fatores o Primitivo Urbano atua primordialmente em função da sobrevivência, mesmo que o caminho para ela passe pela autodestruição.

O primitivismo urbano tem há ver com dar um basta. Dizer chega à uma existência performática, teatralizada, contida e exagerada para fins fúteis e mentirosos, porém capazes de realizar encantos poderosos, induzir o transe e gerar paralisia, através de seus sedutores discursos, de suas tentadoras promessas. O Primitivo Urbano desenvolveu sua percepção e sensibilidade para reconhecer um mentiroso quando olha para um. O Primitivo Urbano está farto de mentiras, cinismo, fingimento e ilusionismo, está pronto para negar o mais sensual convite à traição.

Mas apesar do vigor da negação, o Primitivo Urbano caminha na direção do pleno desenvolvimento das capacidades físicas, mentais, psíquicas e transcendentais do ser.

Assim sendo, o primitivismo urbano preenche o indivíduo em manifestação porque torna-o completo e absoluto apesar de tudo o que há em volta. O Primitivo Urbano sabe que o grande segredo do universo é que, nele (o universo), tudo o que há além dele (o Primitivo Urbano) é território, e que todo sucesso no sentido da sobrevivência só depende do seu posicionamento territorial.

E como bons sobreviventes os Primitivos Urbanos dominam com habilidade o uso de seu território, transformam-no em ferramenta de ataque, proteção, criação ou comunicação. Armadilhas, barricadas e passagens ou caminhos secretos, oficinas, feiras e grandes áreas comuns são parte presente e gritante da vida nas ruínas; e tudo isso coberto de sinais. Há todo o momento, a toda volta, estamos cercados de sinais. O primitivismo urbano ensina a lê-los, a compreendê-los. O Primitivo Urbano só se reconhece enquanto tal quando é capaz de gravar seus próprios sinais, seja no mundo, seja em si mesmo.

Os Primitivos Urbanos não são sobrenaturais, apenas permitiram-se capacitar-se além da falsa idéia de limite. Os Primitivos Urbanos não são místicos, apenas estão mais esclarecidos sobre a realidade que os cerca. Esclarecidos o bastante para enturvar com as cores da embriaguez os fragmentos de suas visões. Os Primitivos Urbanos não são crentes, eles desconfiam até das próprias sombras. Tão pouco são religiosos, apesar de, por meio de suas metamorfoses, religarem-se a todo momento, de formas diferentes, ao mundo e a si mesmos.

O Primitivo Urbano permite a si mesmo redescobrir-se, dessa maneira acaba sempre por surpreender-se salvando seu próprio rabo no último instante.

Ou não… muitos Primitivos Urbanos tombam no processo. É um mundo cruel. Não há como saber se foi sempre assim, mas no estágio em que as coisas estão é assim que vai ficar.

Mas antes de mais nada, o Primitivo Urbano está pronto para a morte. Sabe que ela não passa de um grande segredo, uma promissora revelação, da qual pode-se no máximo, através de arriscados flertes, extrair uma ou outra dica. Um nuance, um rápido reflexo, até uma sorriso encantador, mas nunca um beijo. Todos os beijos da morte são derradeiros, ninguém jamais a beijou e sobreviveu para contar a história.

E apesar de conhecer muito bem sua história, o Primitivo Urbano flerta tranqüilamente com a morte, e faz isso em parte porque sabe que o primitivismo urbano é como as baratas: um sinônimo de sobrevivência. E quando as baratas dominarem a superfície da terra, Primitivos Urbanos sairão dos subterrâneos para caminhar sobre, ou entre, elas e reconstruir-se a partir das ruínas. E os que não forem Primitivos Urbanos, aqueles que não estiverem prontos, vão ter que estar. Ou irão sucumbir. Vão cair como tudo o mais que já caiu no decorrer do armagedon.




O primitivismo urbano é profético porque no futuro será essencial. É pós-apocalíptico durante e antes do apocalipse porque prevê o fim dos tempos aceitando-o sem medo e desafiando sua importância.

Durante todo esse movimento de previsão da realidade historicamente comprovada — memorável, distante, inacessível— estará presente o primitivismo urbano, compreendendo toda a natureza como uma só e a si como parte do organismo. Parte que, através da realização mágika de suas potencialidades, somada à percepção libertária da realidade como possibilidade de autonomia em ação, poderia atuar como uma discreta célula: igual a tantas outras; ou como um elemento lisérgico subversivo: pintando com outras cores os olhares sobre o mundo; ou ainda como o vírus entrópico que corrói e deteriora implacavelmente sem jamais ser pego, isolado, tratado, combatido, quando não, em muitas vezes, nem sequer é detectado.

De qualquer forma, o Primitivo Urbano estará atento, consciente, sempre alerta a tudo que o cerca. Enquanto a diferença entre os Primitivos Urbanos e o resto dos habitantes de algum espaço, essa estará apenas na forma de pensar, na lógica que monta suas autoconsciências e no apego das mesmas às realidades responsáveis por mantê-las cativas.

Certos de que restarão, os Primitivos Urbanos continuam. Ávidos por viver mais história. Prontos para o pior.

Antenados e ligeiros.

Como as baratas.

ti<AN

13 de Abril de 2002; na Cardoso de Almeida, a bordo dum Pedra Branca sentido Cidade Universitária.

PS: Acrescento uma contribuição levantada pelo camarada Regis, que lá de Londres acertou uma flecha direto no coração desse post. Uma viagem primitiva por um contexto horrivelmente urbano:

3 Respostas to “PRiMiTiVoS URBAnOS ………………………………………………………….[ou baLada de un cucArAchA]”

  1. Vou fazer uma música primitiva para acompanhar!

  2. Só pra exemplificar de como o assunto rendeu, um debate do NMS q está relacionado pelo menos indiretamente ao assunto desse post, é a dicotomia entre os conceitos POP e PULP; que discutimos em várias ocasiões também.

    • Aí sim,!Gabriel!!! Curti muito!!! To ansioso pra ouvir!

      Certíssimo, PLauns!!!! Eu vou retomar um pouco a parte do PULP no post (em construção) sobre H.P.Lovecraft… em breve!!
      Valeuziz galera!!

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