ABNoRmAL BRAiNs Pte I: A CoNcLAve CiEntíFica Versus ThE ANgRy mOB ou: BEWARE EGRÉGORAS

O clima é Tarantino´s Mind, aquela conversa metade cotidiana e outra metade conspiratória, que acontece num boteco ou restaurante bastante popular, e revela, entre cerveja americana e catchup sobre fritura, teorias fabulosas e bastante verossímeis sobre os grandes mistérios da humanidade. Não porque esse fosse um encontro disfarçadamente épico entre duas figuras poderosas em cujo redor os moinhos da história secreta dos homens gira, mas entre um grupo de caras só porque gostavam de falar sobre isso. Pesquisavam, especulavam, faziam aquilo que denominavam NeoMitoSofia, um pouco método pós-moderno (ui!) que tenta fundir vocabulário antiacadêmico, desintenção de ciência, & magia de rua, magika do caos; & dessa mistura promover arte, incentivar toda expressão artística, em todo lugar. Sem pastas, sem dinheiro, sem projetos aprovados pela lei rouanet, só a palavra certa no momento mais oportuno, germinar sementes encantadas em conversas de bar, afinal, se importar.

Depois que inventaram o termo “feed back” ninguém mais tem tempo pra ouvir ninguém, nem pra ler seu material, ou pra criticar seus versos. Fazer das esquinas aquele clima das Haus der Gertrude Stein é cada vez mais difícil. Às vezes acontece, um pouco por malacabadagem, insubordinação, somada a, perdão por dizer, pura sorte. Enfim, conversavam esses caras sobre esses segredos, conforme gravação transcrita a seguir:

– E a pesquisa dos prometéicos, a quantas anda?

– Desdobrou-se em outras personagens-conceito. O ser prometéico já nasce versus o cientista genial (expresso no imaginário popular pela alcunha-clichê “Cientista Maluco”); então, toda a pesquisa parte de uma espécie de tabela, na verdade uma lista espelhada de cientistas, hierofantes de diversos paradigmas e suas respectivas Criaturas Prometéicas. E quanto mais cavamos, ao modo dos buracos de minhoca que fazem a ponte Einstein-Rosen, não só descobrimos mais como nos teleportamos para outros universos de análise. Outro ponto de vista em nível multidimensional. SUPER ALTERIDADE. Sensibilidade intergalática… Por uma Ciência Mutante contra a Mutação Científica: o olhar deve mudar à mesma velocidade com que muda o objeto. E o corpo deve resistir à coisificação, que já inicia no próprio saber em s..* (!)

– Tá, tá, calaboca ti! Não fica histérico!

– Tava construindo minha narrativa pra berrar “IT´S ALAAAAAAAAAIVE” em um minuto e meio e você arruinou tudo…

– Claro! Mas qual a tal nova personagem? Ou são novas? Porque já temos um panteão de arquétipos para medir estudos neomitosóficos do mundo…

– Sim! Estudamos os mutantes, de diversos pontos de vista; depois os desmortos e seus muitos anti-reflexos… os nephelins, as deidades Antigas, as inteligências alienígenas…

– Porra responde a pergunta!

– A princípio mais uma: A Egrégora. Esse conceito é fundamental para estudarmos o fenômeno prometéico. Homens unindo-se para criar versus homens temendo em conjunto: tudo isso gera egrégoras, que são seres vivos, tal qual qualquer idéia, mas costurada por um coletivo de mentes, uma idéia gigante, muito mais forte, muito mais duradoura que qualquer outra idéia.

– Segundo o grande livro wikipédico da verdade universal virtualmente compartilhada, Egrégora (do grego egrêgorein, Velar, vigiar), é como se denomina a entidade criada a partir do coletivo pertencente a uma assembléia, ou seja, é um campo de energia criado no plano astral a partir da energia emitida por um grupo de pessoas através dos seus padrões mentais e emocionais. Morô?

– Saquei…

– Já tinha ouvido falar disso…

– O ponto é. Tem as egrégoras, que já são como super-idéias bombadas e eu ando pirando na possibilidade de existirem algo como Frankensteins Invisíveis Gigantes, que seriam egrégoras prometéicas construídas com pedaços de outras egrégoras, animadas por uma neo-alquimia que funde física astral, Ars aplicada e auricultura… Há muita força nessas Frankenidéias Invisíveis Gigantes, e do ser prometéico, da criatura, de qualquer golem ou homúnculo, pode-se esperar que logo deseje criar também ou que queira uma noiva com quem possa criar em conjunto…

– Será a redenção da criatura tornar-se criador?

– Certo, esse é o drama básico.

– O maior clichê de todos: Humanizar-se, afinal! Será possível? Será impossível? Será meramente provável?

– E há determinados momentos da história, em que as egrégoras acumulam-se no plano astral como se o céu pesasse antes duma tempestade. Muita coisa… coisa demais… Antigamente, quando egrégoras eram mais sólidas, esse choque entre Frankenuvens Invisíveis Gigantes poderia resultar um raio que transcendesse os planos e ferisse o mundo material, dando vida a algo real, de verdade, aqui na mesma Terra-Realidade que a nossa.

– Terra 79888621.

– Nerd.

– Sifudê.

– Sacaram porra?! Tão me acompanhando aqui?– A primeira possibilidade interessante que essa teoria nos oferece é quebrar com a estrutura de espelhamento entre criador e criatura que estávamos estabelecendo… tipo: Victor Frankenstein –> O Monstro de Frankenstein; Gepeto –> Pinóquio; Rabino Maharal –> O Golem; Jeováh -> Adam… de certa forma, todos os monstros foram criados por todos esses cientistas loucos, bem como por si mesmos! Isso nos oferece uma bela metáfora sobre a rede complexa da vida e de como o ato de criação oferece muitas arestas e pontos de intersecção invisíveis e alheios ao simplismo do deus-criador –> adãocriatura… aproveitando o desapego dessa óptica pra destacar seu caráter patriarcal. Todos esses pares de personagens em algum momento exibem seu poder projetando sombras sobre as personagens femininas que, sabemos todos, detêm o direito natural da criação, embora não sobre a criação, o que o universo imaginário do gênero masculino parece possuir graves problemas de compreensão ou no mínimo aceitação… sobretudo quando influenciado por um projeto de dominação global que possui vivos em seu cerne o machismo, o racismo, o antropocentrismo, os nacionalismos como forma de expressão coletiva, aplicados das formas mais intensas e equivocadas de relacionamento social. O drama entre criador e criado gira em torno de outros conceitos que raramente são mencionados nesses mitos, pelo menos não direta ou explicitamente, tais como herança, descendência, direito de posse e de propriedade…

parla

– Outra possibilidade é percebermos o quão mais amplo é o complexo social que ascendeu e alimentou as egrégoras que mais tarde se chocariam para fazer encarnar um ser vivo real no mundo. Será irônico sofrermos nas mãos dos monstros que criamos? É justo e prazeroso ver Victor alucinar de loucura e depressão no pólo norte, encontrando como último alento desabafar suas memórias prum marinheiro solitário. E então perecer, numa fogueira no gelo, uma morte que traz na semiologia da sua imagem o signo da aniquilação absoluta após decadência gradual e violenta.

– É! Foda-se o Doutor!

– Pau no cú de dotô!

– Aquele presunçoso! Egocêntrico! Iluminista!

– VAMOS ATÉ SUA CASA COM FORCADOS E TOCHAS!

– …

– O que me leva à terceira possibilidade interessante: A anti-Egregóra. Uma Egrégora feita de não-pensamento. De não-idéias. Como uma bactéria, a não-idéia tenta devorar as idéias e as idéias-das-idéias… algumas, depois de muito tempo, até podem perecer, mas em geral, só quem realmente sofre, dor material, dano, morte física, com a não-idéia, são os veículos de todo esse universo astral de que estamos falando: os seres humanos. Nós.

– Nóis quem cara-pálida?

– Temos que o Prometéico, nessa dialética entre criar e descriar sua própria condição de humanidade, também poderá representar, no âmbito das idéias, o mesmo que o Lobisomem representa no âmbito da geografia ou do espaço: o Ultimate Outcast, pária supremo, forever misplaced – hommo saccer – aquele a quem se pode livremente (tentar) assassinar pois não se encaixa no socialmente sacrificável… percebam a harmonia de combinação entre os termos “sacrificável” e “executável” quando junto a idéia de “sociedade”. Aquele que não serve pro grupo, aquilo que não se encaixa, que não é imediatamente reconhecível, esteticamente agradável, geralmente aceito, está imediatamente autorizado ao extermínio, ironicamente, essa medida será  última saída para que a sociedade se “execute” nesse indivíduo anormal. Ou aquele cujo cérebro que estala no crânio foi equivocadamente retirado do jarro cuja legenda era ANORMAL.

 Irrelevante para Igor, que nunca se preocupou em alfabetizar-se (e nem tâo pouco necessitou, bem como não necessitava também da retórica dos discursos, político ou científico, para controlar e manipular diversos desses cientistas malucos – muitos inclusive da mesma linhagem germânica dos Frankenstein – enquanto “servia-os” conduzia os experimentos para saciar seus sádicos, simplórios e mesquinhos desejos por terror e monstruosidade. Há quem diga que Igor é um serviçal vulgar, uma personagem antagônica a reforçar a idéia de autoridade (ou supremacia) intelectual no Doutor Stein… eu já acho que é o eterno assombro do caucasiano moderno impresso no vulto lowprofile do povo adentrando o espaço da elite, pela porta dos criados, sim, mas trazendo em seu coração o segredo de apetites requintados para o entretenimento…

– Você tem mesmo que subir na mesa pra falar tudo isso?

– Desculpe, me empolguei.

– Então, se estou acompanhando seu raciocínio, é imperativo que observemos o mito de Frankenstein e demais prometéicos através dos tempos não sob o viés da criatura ou dos criadores, mas dos criadores das egrégoras que os criaram em primeiro lugar… sua contextualização histórica…– Isso!

– O ideal é, partindo do próprio Prometeu Moderno…

– O Frankie.

– Façamos uma listagem de todos os artistas que contribuíram para montar algum tipo de Frankenstein, de Mary Shelley à James Whale, passando por produtores da indústria cultural norte-americana, atores sinistros dos Bálcãs, filósofos-maquiadores, roteiristas judeus fugidos da 2ª Grande Guerra, coreógrafos, figurinistas etc etc e etecetera e, aplicando essa lógica, considerar a produção coletiva como metodologia prometéica de criação da vida. Algo que confere a característica da super-força exagerada “força de 10 homens”, de 50, de mil… força que cede a sua própria condição e destrói indiscriminadamente e contra sua própria vontade. Quantas vezes o monstro não machucou sem querer? Como uma vítima de seu próprio poder primal. E não é esse o tema supremo da condição humana?

– Aí acho que já ta apelando pruma dramaticidade excessiva…– shutupdonnie. É isso: A questão da força incontrolável que se cria em comunidade, em conjunto, em grupo, é um tema central, nevrálgico, mas de alguma forma oculto no mito de Frankenstein. Afinal o cientista, nas páginas do romance, tende a isolar-se cada vez mais afim de dar vazão à sua genialidade, e, quanto mais afastado da sociedade, mais desajustado a ela se torna, imergindo no crime e na imoralidade e forma irreversível. Ao passo que a própria sociedade, por mais que nas palavras de seu velho professor e mentor assuma uma roupagem sábia e equilibrada, em geral justifica a distância máxima que possa haver entre o espírito autônomo e seus dogmas, preconceitos e injustiças, expressas principalmente na trágica figura de Justine que terminou amarrada como um sigelo lembrete do que reserva a justiça dos homens; ou dos demais personagens a adentrar esse palco de vidas atormentadas, como o supracitado Igor, o criminoso, ex-condenado, deformado, sobrevivente do cadafalso, mesquinho, covarde e simples como um cão selvagem, ou ainda Walden, rude lobo do mar, que observa atônito o terror ostentando a competência marinheira de içar velas e deixar tudo pra trás…

– ShxstÁis ingresho na EGRÉGORA?

– QUÊ?

– Xshchpralá.. toBÊbad..

– Será que alguma Egrégora nos gora?

– Nos gora?! De gorar?

– É! É disso que estamos falando: Egrégoras de Mau Agouro.

– DóóóóLaaaar, DóóóóLaaaar, DóóóóLaaaar… n´ TEeÉerRraaaa..

– Isso, como a tal da Anti-Egrégora, a não-idéia, que o super intelectual engajadíssimo Marba Barx chamaria alienação, ou que o cientista cabeção abstinente bicudo Sigfried Mroid chamaria de neurose, e que está tão emblematicamente representada pela presença da Angry Mob, a turba, com suas tochas e forcados e – apavorados&ignorantes – apedrejando e buscando destruir qualquer elemento desajustado.

– Caralho…

– Faz pensar sobre a responsabilidade de cada palavra proferida, pois tudo o que alimenta uma idéia pode virar um pedaço do monstro nascente…

– Vale citar Criolo, em palco, possuído por vários espíritos bons, que batia enfurecido a mão na caixa de som (que tinha uma vez e meia a sua altura) gritando: “Não entra pra grupo! Não entra pra grupo, mano!”… há uma preocupação crescente quanto a responsabilidade de simplesmente existir socialmente… em São Paulo, onde a filhadaputagem é procedimento padrão, registrado com ênfase nos gerúndios e impresso em scripts comportamentais das empresas, e que, conforme bem apontou a professora Marilena Chauí, passou a representar o imediato cognitivo para a palavra/conceito “Ética” em Sampa… e se apontar ou estranhar essa inversão de significados, se contestar esse engodo ao qual chamam “ética” então, as coisas tendem a ficar ainda mais ariscas…

– Itamar, que saudade de você Itamar! Tom Zé, mais alto véio! Reverberre!

– Vamos aprender a usar isca de polícia pra pescar porcas borboletas

– Xschifôda… ReVERberro t´nA RuA!

– De quem é esse pedaço?

– Apropriar-se dos meios de produção alquímicos que compõem esse cenário monstruoso.

– Dá pra fazer algo com isso?

– Não rejeitamos os monstros, os escolhemos! Nosso Frankenstein é construído com esmero!

CLICK (fim da gravação)

…………………………………………………………………………………………………

VI PIXADO NO MURO: ELEGUÁ FALA METATRONÊS FLUENTE

&tinha sido eu

esse post é um diálogo real com amigos imaginários ou diálogo imaginário com amigos reais?

DE qualquer forma, eis parte da linha que costurou essas idéias:

Foi escrito sob intensa influência dos estudos em http://auricultura.tumblr.com/  & http://paranoetics.tumblr.com/ em cujo arauto dessas ideias vi o conceito budista para a EGréGORA tão citada no diálogo acima: a TULPA (http://en.wikipedia.org/wiki/Tulpa): OBRIGADO pontodeinterrogação!;

E ainda lendo a linda pesquisa de Susan Tyler Hitchcok: Frankenstein as muitas faces do monstro em intervalos com Frankenstein Womb de Warren Ellis e Marek Oleksicki;

E afinal ficam nossos votos de que cada um, segundo seu gosto e método, saiba como usar as partes de suas desgraças despedaçadas para construir seu próprio monstro utópico de resistência, resiliência e procedimento 100%

 Cabe ao pescoço do criador o nó justo de nossos dedos, mas cabe à força desses mesmos dedos a responsa de criar algo melhor

puxando a alavanca

DR. IAGO tibenstein Terra 9-2X12

2 Respostas to “ABNoRmAL BRAiNs Pte I: A CoNcLAve CiEntíFica Versus ThE ANgRy mOB ou: BEWARE EGRÉGORAS”

  1. Ao persisistirem os médicos, os sintomas devem ser consultados…

  2. Em caso de alienação, neurose, não-idéia… Favor consultar o livro, ou obra prometéica, mais próxima; se os sintomas persistirem é aconselhado a criação, seja ela artística, científica, filosófica, ou cultural…

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