moNsTrOS_NO ESPELHO excertos do caderno primeiro: Aqui é a Transilvânia

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“Para a geração originária da guerra do Vietnã, o monstro não era o outro – o monstro éramos nós. Ser normal era apoiar o complexo industrial-militar e compartilhar da responsabilidade pelos crimes com o napalm, My Lai, a poluição, a abastança corporativa e a arrogância presidencial. A única maneira de ser ético era ser um outsider, ficar fora do sistema, ser um freak, ou seja, um monstro.” – FRANKENSTEIN, as muitas faces de um monstro – Susan Tyler Hitchcock

A NeoMitoSofia dedicou-se a estudar a relação entre criação&criatura que resultou uma série de interpretações e reflexões acerca do que passamos a chamar de seres prometéicos. Decerto é sabido que da relação entre criação&criatura, mesmo com todas suas tensões e conflitos inerentes, inevitavelmente haverá TRANSFORMAÇÃO. E talvez esse seja o conceito que nos transportará para outra série de estudos… um tanto mais… objetiva.

“MURDA THEM” é uma expressão anglo-jamaicana pra MATE-OS! que expressa uma identificação radical do que é o opressor e uma ação de resistência imediata contra sua dominação. Não é um convite para o homicídio e o terrorismo irrestrito e irrefletido, pelo contrário, é uma convocação para uma matança de idéias. Ideias vivas e nocivas. Ideias que são veículos para o vampirismo. O vampirismo consiste numa transformação do pensamento que provoca uma série de naturalizações. Identificá-lo é primeiro passo para a ação. Imunizar-se para a Caçada. Ascender. Ser um homem no sentido de Ser humano.

Essa nova série de publicações tem por objetivo oferecer elementos para a identificação dessas transformações monstruosas, a qual estamos todos, direta ou indiretamente, submetidos, afim de desvendar pelo menos três movimentos transformadores: as variações licantrópicas da vida – algo primitivo e ancestral em proporções pré-históricas, um fenômeno do tempo das feras, mas que na modernidade, torna-se como uma reação natural a ameaça vampírica, a natureza buscando caminhos para a adaptação à desmorte, tendo o corolário da febre da lua como o último uivo de resistência digna ante a onda monstruosa da estase morta-viva, rangendo os dentes contra a horrível imobilidade confortável dos seus inimigos naturais; as infecções vampirescas na vida – com todas as suas variações gramaticais, semânticas, culturais, judiciais, financeiras, hierárquicas, burocráticas, institucionais, corporativas e eclesiásticas; e sobretudo as condições e/ou instalações necessárias para a resistência da sensibilidade humana na vida – ou seja os caçadores de vampiros.

Slay, vampire

Old vampires
Like to see youth suffer
A vampire
Only trod upon creation
Unno set of vampires

The younger generation

(Mid)night, and now humble when it’s daylight
Oh…

Old vampires
Only like to see blood running
Make sure you know it’s fire burning
(fire bun, fire bun)

Unno old vampires
Only…

Unno old vampires

Set of vampires

(Crea)tion
You fight against everything good for the younger generation

You bloody meditation
Unno set of vampires

Vampires
Doing wickedness at midnight
And…

Fire bun !

Unno old vampires
Unno old vampires
Unno old vampires

Outequity worker (Vampire)

Unno old vampires
Unno old vampires
(Vampire)
(Vampire)

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“VLAD: Ponha sua fé de lado. Não acredite nesses penduricalhos enganosos. Aqui é a Transilvânia. Transilvânia não é a Inglaterra. Nossos costumes não são seus costumes. Haverá muitas coisas estranhas.

JHONATAN HARKER: Sim! Eu já vi muitas coisas estranhas! Lobos me perseguindo num inferno azul!

(UIVOS)

VLAD: Oh. Ouça-os! As crianças da noite… Que doce música fazem!”

– Drácula de Bram Stoker

Adaptação livre.

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“We can´t stop here, this is bat country!”

– Hunter S. Thompson, Fear and Loathing in Las Vegas

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Na primeira metade da década de 90 do século passado, lembro ter presenciado pela primeira vez uma onda de moda generalizada por vampiros. Tudo o que era revista, jornal e programa de tevê se agilizava para publicar um “especial vampiros”. As pessoas buscavam saber mais, mas principalmente, consumir mais! Um tanto irônico se formos pensar, já que o vampirismo enquanto conceito trata justamente de consumo descontrolado.

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Lembro que, com meus doze ou treze anos, fui assistir sozinho ao Drácula de Bram Stoker no cinema do shopping. Foi um deleite. Até hoje um dos filmes mais lindos que já vi. Dois anos depois adaptaram Entrevista com Vampiro da Anne Rice com grande elenco. Era a época em que o RPG Vampire: the Masquerade causava grande frisson entre a adolescência nerd-underground. Os conservadores tremiam ante o surgimento de seitas de jovens niilistas que bebiam sangue de verdade. Em alguns lugares isso aconteceu mesmo, mas provavelmente não tinha nada a ver com filmes, RPG ou literatura. Provavelmente nem tinha a ver com essa onda de modismo e generalização estética. Na real, os conservadores não querem saber do que rola no mundo das perversões contanto que isso aconteça da porta de suas casas pra fora. E isso é justamente o que torna suas casas ímãs vivos de perversão e monstruosidade.

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Mais de uma década depois observo uma segunda onda, maior, ainda mais massificante, dessa vez com um tipo de caracterização estética que dilui o sangue em água com açúcar. As garotinhas vão ao delírio com os vampiros-do-bem-que-só-são-do-mal-de-vez-em-quando-e-quase-sempre-pela-causa-do-amor. Lançam-se astros e ícones, cuja vida íntima é policiada pelos fãs, nos moldes do vampirismo-celebridade. Sugando com os olhos a energia vital de outrem. Aqui no futuro, no século XXI, a proporção de todas as relações, sejam transações financeiras, profissionais ou mesmo de contato pessoal, foram aprimoradas em quantidade, alcance e velocidade. Se em qualidade isso ainda é bastante polêmico, mas em geral tudo sempre parece mais ou maior do que realmente é hoje em dia.

I see the mark of the beast on their ugly faces Eu vejo a marca da besta em suas caras feias
I see them congregating in evil places Eu os vejo congregados em locais do mal
I said mi know them a wicked Eu digo conheça aos malditos
What have I done to be incriminated O que eu fiz para ser incriminado
What have I done to be humiliated O que eu fiz para ser humilhado
I said mi know hoonoo wicked Eu sei quem é quem entre os ímpios amaldiçoados
So you can go on Então você pode seguir
Go free my be smoke ganja Ser livre pra queimar um
‘Cause I know hoonoo dey a fi ganja Porque eu sei é quem entre quem queima
I said mi know them a wicked Eu digo conheça os malditos
They make pledges to destroy even their mothers Eles fazem promessas de destruir até mesmo suas mães
So you can imagine what he would do to my brother Então você pode imaginar o que ele faria com o meu irmão
I said mi know hoonoo wicked Eu digo deves conhecer quem é quem entre os malditos
What have I done to be convicted O que eu fiz para ser condenado
What have I got to be coveted O que eu tenho de ser cobiçado
I said mi know them a wicked Eu digo conheça os maus, ímpios e malditos
I am so careful of them smiling faces Tenho muito cuidado com suas faces sorridentes
‘Cause underneath them are some evil traces Porque debaixo são só traços do mal
I said mi know them a wicked Eu digo meu amigo é melhor conhecer os malditos
 

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De qualquer maneira, o vampirismo é possivelmente a atividade mais bem sucedida da nossa sociedade. Cada vez mais pessoas interessadas em tirar algo sem trocar nada. Sem retribuir ao próximo ou ao meio-ambiente sua colheita. E tal qual o folclore, o vampiro contamina aquele de quem ceifa o fruto. Fazendo outro esfomeado igual a ele. Há um contágio cultural no comportamento geral da civilização globalizada. Zumbis, vampiros, mortos-vivos em geral, são lendas e arquétipos antiqüíssimos do folclore mundial, mas nunca representaram tão bem a sociedade moderna como um todo quanto no século XXI.


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Dessa forma, tentarei a ousadia de fazer uma comparação que amarre a ponta mais profunda da raiz do mito com sua expressão mais contemporânea. Minha hipótese é que o vampirismo surge com as primeiras civilizações, ou pouco depois disso. Nascendo junto com o registro da linguagem escrita. Os seres das criptas sendo irmãos gêmeos da criptografia.

A palavra, dita, falada com a simplicidade integral da glote, já é mágika por si só. O princípio da Cabala interpreta esse fenômeno explícito pela simples tradução do fonema ABRACADABRA que do aramaico quer dizer “eu crio enquanto falo”. Talvez essa seja a magia mais poderosa já feita por alguém. E é sabido que a mesquinharia, a ambição, o desvio das necessidades, dos sentimentos, a corrupção da alma, faz brotar, em algum momento nalgum espaço-tempo, vontade de mais poder, o impulso pela hegemonia, pela subjugação, o desejo por supremacia. No olho dessa tempestade de confusão e ilusões desreprimidas surge a fé num antigo ritual, o rito de sacrifício. A ideia de que destruindo uma vida eu possa acumular sua energia, sua força, seu poder. Nada parecido com as tradições mágicas primitivas, que aproveitam os fluxos já existentes pra pegar caronas trocando forças, trocando fazeres e gozando seus ocasionais poderes. Em algum ponto alguém percebeu que a corrupção possui também suas propriedades alquímicas, podendo ser uma via para a transformação mágika, resultando transformações realmente impressionantes, ainda que para pior.

O estudo tradicionalista mais conservador da história dita “natural” gerará conflitos e questões tais como: E afinal qual civilização não foi erigida sobre a exploração da energia do outro? Sabemos que o intuito principal desses discursos tradicionais da história seriam naturalizar a dominação, sugerindo que a servidão e a tirania são traços naturais da condição humana – o que é tremendamente discutível. Entretanto, daremos o braço a torcer só aqui para reconhecer que é difícil imaginar que os homens se voluntariaram para carregar as pedras por gerações a fim de construir os monumentos fúnebres de seus líderes… Então o que? Considerando que os mecanismos de controle tais como a burocratização do trabalho, a industrialização dos desejos e a escravização por enriquecimento monetário e débito ainda estavam a milênios de serem inventados, também é difícil de engolir que possam ter mantido tantos trabalhadores acorrentados por gerações inteiras trabalhando por toda a vida nos grandes monumentos. O que teria exercido esse poder sobre seus corpos? Teria sido o orgulho? Teriam sido desafiados a fracassar? Teriam sido convenciodos por uma lógica proeminente de ideias alienígenas? Seria a dominação uma espécie de linguagem viral? Uma contaminação que se instala a partir da troca de signos comunicativos que, somados ou dispostos de determinada maneira, geram significações epidêmicas, expressas pela violência, pela discriminação, pela insensibilização, traduzidas por preconceito, racismo, ditames totalitários?

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Sabemos que ponto de vista mágiko, explorando mesmo que superficialmente a concepção sagrada do uso da palavra para os egípcios, para as tribos semíticas e os geomantes do oriente próximo, tem-se que, articular verbetes, criar códigos e comunicar-se, já é, em si, uma transformação mágika da realidade, gerando efeitos fulminantes no mundo material, sendo responsáveis igualmente por gerar no universo sexo e assassinato, distrair o tédio, entreter ou registrar e moldar o mundo segundo sua história.

hermes-trimegisto-3Assim sendo, temos que os riscos cuneiformes talhados no barro, as subsequentes estruturas linguísticas proto-sinaíticas que deram origem às línguas pré-egípcias, fenícias e semíticas, e os sistemas gramaticais subsequintes, aqueles sistemas de onde brotaram como água viva o árabe, o hebraico, o devanagari, o aramaico e o grego – mais tarde torcido no cirílico – foram imensos feitiços da antiguidade. Meu palpite é que esse feitiço seja do tipo corruptor.

E cujo efeito foi, basicamente, passar uma cola entre grupos de indivíduos que antes tendiam a coexistir mais separadamente. Construíram então as primeiras cidadelas fortificadas, idos de Çatal Huyuc e Jericó, na costa do continente nasceu o sentimento de que o poder humano poderia dobrar o mundo e a natureza e desse sentimento vieram os pedaços do que será mais tarde chamado de Mesopotâmia.

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Reza a lenda que não foram realmente as primeiras civilizações, mas as primeiras após o grande cataclismo que destruiu as antigas civilizações ocultas da história… Surgem nomes como Mur, a Atlântida cuja lembrança habitava os sonhos de Platão… A língua é a origem do vampiro, as civilizações são sua nidificação. As palavras são o solo sagrado que eles teimam carregar em seus caixões, o mar e a água corrente representam fraquezas porque às marés e o fluxo dos rios podem silenciar o homem e enfraquecer o poder de suas palavras.

O mito da Babilônia expressa todos os sinais. O primeiro objetivo de construir a grande torre de Babel é invadir o paraíso, arrombar os portões do reino dos céus, violar o Éden. O vírus das diferentes línguas surge então – segundo o mito – como uma espécie de sistema imunológico divino. Os vampiros são algo como os glóbulos brancos enquanto o sistema civilizatório humano é a ferida. Surgem da babilônia e desde então de tudo o que é babilônico, dos vícios, do diz-que-me-diz, do reino das aparências, da ambição, da ganância… A partir daí, os sistemas de dominação, a exploração do trabalho alheio, o autoritarismo, são inflamações da humanidade de onde se materializa a infecção vampiresca.

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Em comparação com esses monstros, os metamorfos, os homens-animais, são ainda mais antigos, remetendo ao imaginário totêmico paleolítico. As raízes de suas manifestações são pré-históricas, o que os torna – enquanto entes – mais antigos que os vampiros, todavia, lobisomens raramente conseguem atingir idade suficiente pra ficarem mais velhos do que os vampiros.

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A leitura da serpente da proscrição do Éden estava correta. Nós éramos nossas próprias imagens divinas, não esculpidas, mas de carne e osso, e Deus encolhia diante da luz de nossa divindade. Cristo nasceu de uma virgem e ele próprio morreu virgem. O que ele sabia? As verdades do corpo eram nossas, não dele. O amor humano não erradicava Deus, mas colocava-o apropriadamente em um distante segundo lugar.” – Jake Marlowe em O Último Lobisomem de Glen Duncan.

Mas qual seria o propósito da comparação entre lobisomens e vampiros? E por que também não compará-los à Múmia ou a Criatura da Lagoa Negra? Estamos ainda falando sobre condições prometéicas – no sentido de criadoras de monstros, ou criadora de vida por vias não-naturais? Sim estamos costurando muitos tecidos estranhos nessa tapeçaria monstruosa, mas o propósito – SEMPRE – é aproximarmo-nos das verdades ocultas acerca de nós mesmos. Humanos por definição, registro e espécie… tão raramente por comportamento. A criatura espreitando dentro do espelho. Ademais, talvez seja esclarecedor confessar que o objetivo do presente artigo é identificar sobretudo manifestações vampirescas no meio social em que estamos imersos, seja ele nosso bairro, local de trabalho, ambientes familiares ou mesmo espaços virtuais como os das redes sociais. É o vampiro nosso alvo de estudo. A estaca em seus corações é o objetivo. Os lobisomens só vão nos ajudar a farejá-los melhor.

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O filósofo Giorgio Agamben associa a representação da figura do lobisomem ao conceito político de homo saccer, o homem sacrificável, aquele que é banido para as margens, que não cativa mais empatia que um bicho qualquer, e que, uma vez próximo às fronteiras, está liberado para ser vítima de assassinato por qualquer um, sem risco de penalidade, sem repreensões.

A civilização está sempre autorizada a caçar os monstros na mesma medida que a própria civilização é regida pelos primos monstruosos destes, ou, independente de por quem, por ações dotadas de monstruosidade na indiferença para com suas consequências. Os vampiros, senhores imortais dos poderes, das famílias dinásticas, das letras, dos tesouros faraônicos. Também chamados revenans, aqueles que retornam, que sempre voltam para seus familiares quando partem – inclusive do derradeiro destino. Aqueles mortos-vivos cujas primeiras vítimas são os Entes Queridos, os familiares. O vampirismo está intrinsecamente associado com a preservação do acúmulo material, seja ele poder político, riquezas ou mesmo o próprio corpo. O vampiro é o conservador mais radical que pode existir.

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O lobisomem, por outro lado, é o marginal supremo, sempre deslocado. Sempre na fresta entre mundos, não tem lugar nem geograficamente e nem biologicamente… quiçá nem mesmo espiritualmente. Talvez seja essa a origem da rivalidade entre os monstros parentes que tantos autores intuem na hora de produzir suas obras. Recorrendo aos escritos em diários de Jake Marlowe – O Último Lobisomem acerca da relação entre essas criaturas, é possível elucidar bastante o quanto as espécies estão entrelaçadas numa cultura de aversão e assassinato: “Na verdade, deixe-me lidar com isso da maneira mais objetiva possível: lobisomens e vampiros não se dão bem. A repulsa mútua é visceral e sem exceção – e isso antes de abordarmos a estratégia de sobrevivência dos chupadores de sangue, sua realpolitik, a qual, em um espírito de análise desinteressada, sou obrigado a admirar: há quase trezentos anos, as cinquenta mais poderosas famílias de vampiros formaram uma aliança e fizeram um acordo com a Igreja Católica. (A WOCOP (World Organization for the Control of Occult Phenomena) – ou SDL, como era chamada na época – era originalmente uma ramificação eclesiástica. Contudo, na metade do século XIX, tornara-se uma corporação secular com um exército particular.) Além de pagar uma porcentagem de todos os lucros dos vampiros para os representantes de Deus na terra (seres noturnos são homens de negócio incomparáveis), eles concordaram em manter a própria população mundial em torno de 5 mil vampiros. O que significa, já que sempre há alguns rebeldes infratores que não conseguem resistir à criação de novos vampiros, a eliminação anual de certa quantidade de membros da espécie. Imagine focas adultas batendo com varas nos filhotes. Em retribuição, a Caçada permite que as Cinquenta Famílias operem sem interferência. Houve explosões súbitas de violência, é claro, houve brigas (e, naturalmente, um pouco de manipulação dos números) mas, de modo geral, o acordo é mantido. Os Dons vampirescos mantém o controle de suas residências e as caixas registradoras da WOCOP cantam. Metade dos contratos de “reconstrução” para o Iraque pós-guerra foi concedida sem licitação para companhias de propriedade de vampiros (e cujos favores financeiros, querido Presidente Obama, os Republicanos recorrerão a qualquer momento). Uma delas, a Netzer-Böll, possui uma subsidiária fabricante de armas especializada não oficialmente em SFP – Sistemas de Fornecimento de Prata. Um punhado de chupadores especialmente cínicos efetivamente trabalham para a WOCOP. A Caçada utiliza-os como rastreadores. De lobisomens.” – entendam que segundo a diegese de Glen Duncan, a WOCOP supracitada é uma organização de caça de monstros. Seu objetivo é destruir indiscriminadamente lobisomens, tanto quanto supostos demônios encarnados, múmias revividas, djins, duendes e cada monstro anfíbio que restar no lago Ness, embora operem numa lógica de acordos políticos e alianças no que se deve ao extermínio, então seletivo, dos vampiros.

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Por isso é necessário que identifiquemos as características dessa espécie parasita, para compreender os meandros dos artifícios que lhes permitem infiltrarem-se e controlar inclusive as organizações engajadas no seu extermínio.

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A origem etimológica da palavra Vampiro remete à cultura das etnias eslavas. Temos a palavra ucraniana Vii que quer dizer ao mesmo tempo “cílios” ou “pálpebras” ou ainda dois verbos “serpentear” e “enroscar-se”. Disso temos a idéia de envolver pelo olhar, que nos remete a ação mais característica pela qual os vampiros são mundialmente conhecidos: a sedução pra fins de usurpação. O truste do aparentemente belo e jovial Dorian Gray que na verdade é um horrendo velhaco perverso.

This_Is_Bat_Country_by_metaLidiOt NoVampires horror-of-dracula-cushing-copyMarlowe, o Último Lobisomem de Glen Duncan, nos brinda com diversas doses de verdade que justificam uma inversão da lógica  de caça, tornando irrestrita a destruição premente dos vampiros, os sanguessugas, os incomensuráveis filhos-da-puta:

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“Você afia rapidamente um galho – não, um pé de cadeira – não, um cabo de vassoura – não, um lápis – não, um – maldições…” – Jake Marlowe, O Último Lobisomem – Glen Duncan. [pag.94]

Verdade. Veja em Filantropia dos Lobisomens. Negócios administrados por vampiros pagaram aos nazistas uma fortuna por dados genéticos obtidos por meios escusos durante a guerra (a busca deles por uma solução para o problema da noturnalidade continua) e aos Aliados uma fortuna pelo que restara depois. Eles fizeram uma fortuna atravessando tesouros apropriados pelo Reich, aumentada pela atividade paralela muito lucrativa de retirar clandestinamente criminosos de guerra da Europa. (Décadas depois, naturalmente, fizeram mais dinheiro vendendo informações sobre a localização dos antigos nazistas a judeus interessados, mas àquela altura eu desistira de interferir). Nos primeiros anos do pós-guerra, eu era o dinheiro por trás e, muitas vezes, o líder de uma dúzia de grupos diferentes convencido de que a ação direta contra certas organizações atendia às suas diferentes causas. Comunistas, anarquistas, defensores dos direitos dos animais, vigilantes, teóricos de conspirações – durante cerca de uma década, racionalizei o ativismo antivampiros através da proteção dos humanos, para compensar as perdas que eu mesmo estava impondo ao velho ser humano. Loucura, eu sei, mas é verdade.”   
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Já o vira-lobo, verte-pele, homem-fera tem suas raízes etimológicas diluídas numa idéia que precede sua transposição numa palavra. A ação de alinhar-se com a terra numa determinada sintonia, de modo que a confluência da lua ou as condições ambientais lhe permitam transformar-se em outra coisa, mais primitiva, mais feroz e definitivamente mais livre do que sua pele humana é capaz de proporcionar.

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Mas vampiros e lobisomens, mesmo reagindo tal qual antíteses absolutas uns dos outros, tangenciam diversos epicentros elementares comuns, formam-se também algumas semelhanças em sua mitologia. Aponto o diálogo constante com a questão do espaço, no caso do lobisomem, através do nomadismo, do vagar, do correr, cruzar sete encruzilhadas, sujar-se com a terra de sete cemitérios e profanar sete igrejas até a próxima lua cheia… A travessia de que falava Rosa quando escrevia sobre o sertão; enquanto para os vampiros, nas já supracitadas raízes, no fundamento da propriedade, o dever de sempre dormir imerso na terra do seu solo natal. Essa característica, inclusive mostra-se tão forte para o desmorto que também é reflexa na sua vulnerabilidade para atravessar mares ou oceanos, precisando do servilismo de seus lacaios para tanto e quando fazendo, tendo necessariamente que levar consigo na viagem um pouco dessa sua terra.

Isso remete a questão antropológica do relativismo cultural, sem o qual percebemos a crença do outro, daquele que é estranho a mim – civilizado – transformada em folclore. Mitologia é como chamamos a cultura do outro e é muitas vezes uma classificação que rebaixa determinado saber em detrimento das ciências ou das religiões vigentes da civilização. Transilvânia é um nome de perspectiva imperialista, uma vez que é como Londres chamava as terras através da selva, as paisagens rústicas de um povo que ainda vive próximo às florestas. É de lá que vêm os monstros. Das terras através das florestas. E talvez toda a adoração que nossa sociedade do consumo evoca em relação a esses seres lupinescos, lunáticos, uivadores, ermitões selvagens, represente um desejo inconsciente de também retornar ao seio das florestas, a uma vida rude e simples. Ou talvez a identificação para com os vampiros, o comportamento zumbilóide e essa desmorte epidêmica generalizada simplesmente represente uma fome que não pode ser saciada, um contágio comportamental, a vontade de, possuindo as mesmas coisas que vê outro possuir, consumir também a vida do semelhante, ou ainda a vontade de arrancar a própria pele e expressar sua inadequação da maneira mais sangrenta possível, ou o alívio de não deixar barato a exploração que sofre, explorando também sempre que possível.

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Essa última hipótese manifesta algo muito próximo do que teorizou o Professor Paulo Freire sobre o mecanismo psico-social de “hospedar o opressor”. Quem diria que haveria inusitada interdisciplinaridade entre os professores Paulo Freire e Van Helsing! Mas entre resolutos Setrakians e fanfarrões Peter Vincents, o negócio é aprender com quem pudermos, indiscriminadamente, o que for necessário, tanto pra sobreviver entre os monstros cotidianos, preservando-nos vivos de verdade, independente da exploração e indignidade que soframos, quanto pra reaprender todos os dias a viver nas terras cinzentas além das florestas, curando as mordidas com prata, temperando os desejos com alho e imunizando a alma com a rebeldia inerente daquele que honra a própria existência com o privilégio e a glória de se fazer caçador. E a principal arma de um bom caçador é conhecer muito bem sua presa, seus hábitos e a mecânica de seus instintos.

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Adiante, nos excertos do segundo caderno, tentaremos estudar esse caráter corruptor inerente à feitiçaria vampírica original. A ideia é observar os movimentos da sua manifestação ao invés de desfiar um moralismo do tipo angry mob de ABAIXO O VAMPIRISMO, pois esse é justamente o método criticado pela neomitosofia desde sempre. Falam muito em serpentes sedutoras comprometendo o acesso dos humanos ao paraíso, mas os ovos da serpente são colocados por gente de cabelos bem aparados, barba feita toda a manhã, sapatos engraxados e um fundamentalismo bem intencionado ardendo no coração cujo calor pode ser sentido na pregação cheia de convencimento e convicção quanto a quem se deve odiar pois que são aqueles que deus odeia. “GOD HATE FANGS” na frente de uma igreja é uma imagem que sintetiza bem isso, apesar de que extraída de uma série cuja entrada é o que se tem de melhor.

Interlúdio primeiro:

O supracitado [título] “caderno primeiro” resume-se a um caderno espiralado de capa cartonada simples, repleto de anotações sobre aulas e também rascunhos de textos como o acima reproduzido. Esse texto, por exemplo, não tinha nenhum título indicado, sendo que “Aqui é a Transilvânia” faz menção à citação de Drácula anotada no topo da página.

O mais curioso sobre esse material misterioso é que ele foi colhido como evidência em diversos campus de universidades diferentes do continente americano (desde os estados unidos até a Argentina), em situações bizarras ou trágicas. Mortes inexplicáveis. Suicídios incongruentes e/ou surpreendentes. Muitos desaparecimentos noticiados. Devido a enorme distância geográfica, nunca nenhuma agência de investigação havia estabelecido uma ligação entre os casos, mas analisando o material escolar deixado para trás pelas “vítimas”, encontra-se muitos elementos comuns, entre eles o estudo e reflexões acerca de fenômenos chamados desmorte, mutações biológicas, e alguma organização chamada universidade invisível.

O texto acima, quando interpretado por especialistas da psicocaligrafia, demonstrou um autor com disposição positiva para a vida, ânimo e até bom humor. Infelizmente o bem humorado estudante que assinaria a autoria do caderno primeiro [preservaremos seus nomes confidenciais] foi encontrado morto no campus da universidade onde estudava (uma universidade real e não invisível, cuja localização também ficará oculta). Seu corpo largado entre as árvores, como se tivesse dormido embriagado e sofrido uma hipotermia. Sem marcas de ferimento. Todavia, após exumação encomendada pela agência que assina a autoria da presente compilação, comprovou-se que o rapaz morrera de hemorragia, ausência quase total de sangue no corpo.

Seu corpo fora colocado em quarentena. Caso reabra os olhos ou não, uma coisa é certa: O meninão já não estaria tão bem humorado. Enfim, sarcasmos à parte, cabe aqui uma reflexão: a citação confluiria com o sentido da frase, “Aqui é a Transilvânia” significando que estamos, todos das Américas, todos do hemisfério sul, todos dos terceiros mundos, todos cuja história está impregnada de colonialismo e escravidão, todos os vilões não são nascidos de sangue azul, todos os excluídos do coração retumbante do IMPÉRIO, todos que sofreram ou sofrem com a ação imperialista, taxados de países em desenvolvimento, bem… todos nós nesse resto do mundo somos da maldita Transilvânia.

E é aqui que temos vivido.

& sobrevivido

ti

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Uma resposta to “moNsTrOS_NO ESPELHO excertos do caderno primeiro: Aqui é a Transilvânia”

  1. […] um punhados de excertos de cadernos que resultaram estudos sobre a automonstrologia aplicada  https://neomitosofia.wordpress.com/2014/10/28/monstros_no-espelho-excertos-do-caderno-primeiro-aqui-… & […]

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