moNsTrOS NO ESPELHO excertos do caderno segundo: O teRCEiro OlhO inVertido

Na série Marvel Zombies IV, uma espécie de super metazumbi genéticamente modificado aparece nas últimas duas edições para ameaçar os nobres heróis da Legião dos Monstros. Na primeira aparição do uber zombie sua única fala é “Verdade. Justiça. E o modo de ser corporativo.” Na aparição seguinte, (já na última edição da série, #4, datada de setembro de 2009), sua única e contumaz fala é:

“Consumo. Consumo fomenta a economia da carne. A carne vence a recessão.”

– Crítica de Marvel Zombies IV assinada pelo coletivo NeoMitoSofia

“Eu sou um vampiro! Sou um zumbi! SOU UM ZUMBIRO! Não posso ser detido!”

Dr. Morbius em Marvel Zombies III #4 (março/2009)

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Para tudo há o seu negativo. Que nem na lição de Hermes (o Trimegisto), um inverso avesso. O vampirismo é caracterizado por dezenas de símbolos, sinais icônicos que o caracterizam: desmorte, morcegos, a noite, sangue… cada um deles é relativo à algum sintoma, faz referência a algum desdobramento do fenômeno, uma manifestação ou efeito colateral. Mas o vampirismo tem essencialmente a ver com o chacra frontal, o AJNA, controlado pela glândula pituitária, a hipófise. Aquele que concede a terceira visão.

Estudiosos concordaram com a sigla P.E.S. para denominar as muitas manifestações de sensitividade; e aí há uma necessidade de organização da nomenclatura conceitual: A estagnação do desenvolvimento do potencial humano estabeleceu uma lamentável classificação estanque da “humanidade” em si (exceto, é claro, pela filosofia, mas mesmo essa seara engessada por vícios em paradigmas dominantes e ângulos confortáveis para análise); de maneira que temos que considerar todas essas manifestações de Percepção Extra Sensorial como algo pós-humano.

Pós-humanidade: Uma condição magnífica, sublime, auto-elevada de potencial e capacidades. Já as mutações e sobretudo os casos de desmorte, são tidos como sobre (ou anti) naturais: algo que depende de condições específicas, pontuais, para ocorrer. Existem muitas formas de desenvolver a mente, a visão, os sentidos. O alinhamento de chacras é uma habilidade que pode ser, com algum treino e dedicação, desenvolvida por qualquer um.

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O ponto é que o vampirismo parece ser um desvirtuamento, uma corrupção de processos adiantados de P.E.S. Do ponto de vista semiótico, temos a figura do terceiro olho, representando a terceira visão – enquanto a origem etimológica da palavra vampiro advém de vii que quer dizer cílios ou pálpebras – ou seja, um olho fadado a enxergar sempre primeiro a si próprio e todo o resto somente através de suas próprias terminações e determinações. Crianças que nascem com as cabeças cobertas pelo resto de suas vidas enxergarão através de um véu e esse véu será sua pele. Um egoísmo literalmente visceral: o terceiro olho invertido.

Se entendermos bem os fundamentos da maldição, os riscos caem drasticamente. O primeiro fundamento é o contágio. Uma vez usurpado pelo vampiro, uma vez que tenha cedido à sua sedução, há uma semente potencial plantada na sua alma. Tudo opera pela visão e a estrutura na qual estamos trabalhando é a esfera do paradigma que, por sua vez, nas raízes germânicas da palavra, significa visão de mundo. Uma vez mordido, a multiplicidade de ângulos para posicionar sua visão fica drasticamente restrita, reduzida a cada vez menos, a cada vez que é exposto à mordida novamente, mais infectado de convicções se fica, mais encantado pelas tradições, o comportamento burocratizado é evidência clara de uma mente contaminada, como se minúsculos insetos reptilianos tivessem depositados ovos e larvas em seus cérebros, insensibilizando-os para outras perspectivas, habituando-os ao conforto da servidão eterna da morte em vida.

A própria sedução é também uma figura de linguagem eficiente. O desejo propriamente dito, combustível de toda ambição, acelerador da ganância, é também ferramenta e finalidade para essa categoria de morto-vivo. Aquilo representado pelos caninos afiados, pela boca vermelha, o beijo do vampiro, é a vontade de consumar, de consumir. A ânsia, o salivar, a disposição. A ereção nada mais é que todo o sangue do corpo querendo latejar num só lugar. Agora algo válido de ressaltar é que o canino e a dentição são meramente simbólicas, na realidade os vampiros desenvolvem uma espécie de estrutura probóscide, um apêndice de nutrição, que se estende de seu corpo – normalmente da sua boca (embora nem sempre) – e fixando-se no alvo muitas vezes sem que esse nem mesmo se de conta disso. Esse apêndice muitas vezes é perceptível somente no campo astral, através da sensitividade pode-se visualizar o invisível: linhas ligando corpos de amantes, os tais laços de sangue; embora existam casos documentados de vampiros que foram mortos por caçadores etíopes e cujos corpos, depois de inteiramente desmembrados afim de que permanecessem efetivamente mortos, apresentavam alguns traços comuns ao aardvark, o chamado porco-da-terra em afrikaner. Já foram documentados também vampiros exterminados cuja parte interna da caixa craniana exibia uma série de paralelos com a anatomia de mosquitos, o que incluía a tromba (probóscide), que quando retraída ocupava toda sua garganta, laringe, faringe e esôfago, e cuja musculatura aparentava ser adaptada para a sucção de líquidos, ainda dotada de um ferrão que tanto facilitava a penetração quanto ainda é capaz de injetar uma substância que ao mesmo tempo contamina a vítima e embarga seus sentidos para sua própria presença e subsequente predação.

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Pense então num tipo de invisibilidade induzida. O contágio age na percepção, faz a presa ignorar seu parasita devido às substâncias que ele injeta no momento da sua nutrição. Passamos do contágio para o segundo aspecto icônico da condição vampírica: A invisibilidade, a ocultação, o disfarce em algo atraente, encantador, sedutor.

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Assim por meio do hermetismo dedutivo, é possível também, a partir de cada característica primordial dessas criaturas parasíticas, identificar também quais as melhores estratégias para bani-las, evitá-las ou mesmo destruí-las. Assim como a terceira visão enquanto percepção extra sensorial plena e saudável, concede aquele que a desenvolve uma transcendência da consciência, uma expansão da mente em muitas possibilidades e uma super sensibilização para formas diferentes de percepção e organização vital, o terceiro olho invertido dos vampiros faz exatamente o oposto, tornando-os gradativamente mais e mais ensimesmados e obtusos. Não são raras na história casos de vampiros velhos e poderosos que acabaram vítimas de sua própria teimosia e turronice.

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De qualquer forma, esperar que o inimigo falhe por si mesmo não é exatamente apontar para uma fraqueza útil do ponto de vista tático. Segundo o Professor Michellet Mürbieu em aula sobre natureza desmorta, “até os deformados, os horríveis, feios, quando vistos, exercem um tipo peculiar de fascinação – porque são coesos e o vampirismo é um tipo de coesão do espírito num corpo morto reanimado – gerado por um epicentro de vácuo entrópico chamado por eles de FOME ou SEDE, embora aproxime-se mais dos vícios mais violentos do que da necessidade por alimentação dos seres viventes.” Temos a partir desse comentário do professor M um importante apontamento quanto ao efeito que a figura vampírica exerce na consciência humana desavisada. Num primeiro momento, fascínio – uma atração, um sentimento de admiração avassalador, pois intuitivamente a percepção subentende que aquela alma venceu a morte animando um corpo que já não deveria estar animado. É claro que em alguns casos, indivíduos mais sensíveis podem simplesmente sentir um medo inexplicável do vampiro, pelos mesmos motivos que sua imagem irá atrair outros. O fascínio, o fator encantador, se dá devido a esse “vácuo entrópico”, hipnótico como as chamas de uma fogueira, como deve ser encarar de frente um buraco negro. Perceba que o nada exerce certo encanto, mas ao mesmo tempo, justamente por ser essencialmente vazio, tende a passar despercebido. Ficam explicados tanto a invisibilidade quanto os poderes de sedução dos vampiros, ocorrendo como uma espécie de faces diferentes e opostas de uma mesma ferramenta.

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Caçadores de vampiros experientes já sabiam identificar esses desdobramentos da personalidade vampírica e, quando em processo de investigação, costumam ficar muito atentos aos comentários das pessoas sobre os suspeitos, principalmente se esses comentários oscilam entre “sensual, sexualmente atrativo” e “assustador, pervertido, olhos estranhos, maníaco”. Do ponto de vista anatômico, essa “coesão” se dá em algum ponto do corpo do vampiro, normalmente seu coração, mas eventualmente em nódulos próximos das principais glândulas corporais ou na cabeça, e se contorce e reforça, numa espécie de nó de tripas mágiko ao redor do qual toda a entropia se estabelece, um nó que gera a tensão que irá animar um corpo sem pulsação, sem respiração, sem envelhecimento. Por isso a forma mais eficaz de dar cabo de um vampiro é estocar esse nó com madeira; os procedimentos clássicos incluem seguir adiante após o golpe fatal, decapitando, desmembrando, destruindo o coração e, preferencialmente, ateando fogo nos restos.

Interlúdio Segundo:

Esse texto foi encontrado entre esboços manuscritos de um professor universitário de uma renomada faculdade de medicina da América do norte. O dito professor, famoso doutor cirurgião, assumidamente alcoólatra, envolveu-se num trágico acidente de carro que se desdobrou num escândalo que desgraçaria sua vida para sempre. Capotou seu veículo de luxo na companhia de sua amante (uma estudante universitária de dezoito anos), destruindo permanentemente os tendões de suas mãos e deixando-a paraplégica. Segundo relatos de colegas e conhecidos, o doutor era mal visto pelos sêniors da cátedra, devido aos seus métodos e discursos pouco ortodoxos. Após recuperar-se do acidente o mínimo para poder ser levado a julgamento, expôs oficialmente pela primeira vez algumas das suas teorias sobre presença vampírica na universidade, na indústria farmacêutica, na administração hospitalar, entre os lobistas dos planos de saúde, etc. Nas sessões seguintes, suas acusações incluíam pedofilia, assédio moral e sexual, sonegação de impostos e falsidade ideológica. Condenado a 77 anos de prisão, ainda cumpre pena. Há rumores de que passa a maior parte do tempo em confinamento solitário.

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