MONStRoS nO ESpeLhO excertos do caderno TErceiro: Mini Manual do Caçador de Vampiros Urbano

peanuts.may.6.1970.

“Existem as pessoas mais sinistras que você

Dinheiro que vem fácil não é fruto do trabalho

Atalho que a babilônia pode oferecer

Frente a frente com os vampiros sem estaca cruz e alho”

Black Alien em PRIMEIRO DE DEZEMBRO (2004)

Cê fala bonito, mermão… Vamos ver agora o que pode fazer.

Porque eu vou acabar com todos os sanguessugas… e também vô cabá cocê.”

Blade em A TUMBA DO DRÁCULA # 10 (1973)

Se você é do tipo mais prático que se importa mais com a finalidade do que com a origem das coisas, não perca seu tempo lendo os próximos parágrafos, o link abaixo irá te interessar muito mais e leva ao mesmo destino.

http://www.anarquismo.com.br/wp-content/uploads/2013/07/carlos-marighella-manual-do-guerrilheiro-urbano.pdf

Agora, se você é do tipo investigador, que se rende aos calafrios da intuição, quando um latejar de subconsciente indica que há alguma coisa bastante errada com determinadas figuras e situações públicas… ou quando reconhece algum elemento reptiliano em certas pessoas, na tendência delas em tornar suas próprias figuras, bem como as situações nas quais se ensejam, ambas públicas, em fenômenos da esfera privada que possam estar sob controle rígido e permanente… ou se você sente-se atingido pela imensa onda de terror psíquico que avulta sobre todos os fenômenos sociais da cidade a impressão indelével da ameaça, se você sente no fundo dos seus órgãos, ao observar o comportamento infantil dos adultos e adulto dos infantes, que essa cidade simplesmente não é um ambiente saudável para se viver… bem, as notícias não são boas, mas pelo menos algumas hipóteses sobre os meandros dos poderes que geram essas sensações poderão ser encontradas nas linhas abaixo.

Como disse Mariga, o saudoso companheiro poeta, já citado aí em cima no primeiro link dessa que é a última parte desses posts de resistência: “O guerrilheiro urbano tem que ter uma grande capacidade de observação, tem que estar bem informado a respeito de tudo, em particular dos movimentos de seu inimigo, tem que estar constantemente alerta, procurando, e ter grande conhecimento sobre a área em que vive, opera, ou através da qual se movimenta.” Portanto não se trata aqui de dar voz aos alarmistas. Nem tornar mais pavoroso nosso cenário de terror urbano. Ao contrário. Monstros são tão terríveis quanto patéticos e divertidos de se destruir e é disso que se tratam essas ideias. Sempre intercaladas com músicas que evoquem vibrações positivas de imunização e altivez, essas são canções de caçada, são palavras para evocar a dança do guerreiro. Matar o inimigo com alegria no olhar. Com um enorme sorriso no rosto. Rindo enquanto a besta se contorce sob seus pés. Pois em tempos como os nossos, nada será mais revolucionário do que a genuína felicidade. E nada como ela nos preparará mais para a sobrevivência. Sorria e o mundo sorrirá contigo. Chore e será só mais um chorando no facebook.

Mombojó – Pro Sol (Video Letra) from Mombojó on Vimeo.

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“O exterminador abriu o armário de venenos, mostrando a Setrakian pacotes de iscas, armadilhas, vidros de halotano e alimento tóxico moído. Explicou que os ratos não possuem o mecanismo biológico que faz vomitar. A principal função da êmese é purgar o corpo de substâncias tóxicas, e é por isso que os ratos são particularmente suscetíveis ao envenenamento. E é também por isso que evoluíram e desenvolveram outras características para compensar essa deficiência. Uma dessas […] era que podiam ingerir praticamente tudo, inclusive substâncias que não fossem alimentos, tais como argila ou concreto, que ajudavam a diluir os efeitos de uma toxina em seus corpos, até que pudessem se livrar do veneno pelos dejetos.” – A QUEDA, Guillermo Del Toro & Chuck Hogan. pag. 168

 Então a turma tá curtindo walking dead a beça, né? Legal… Eu? Eu não. Já tentei e não gosto da série. Eu leio os quadrinhos, sabe? Aí fica difícil… Sou mais o Robert Kirkman desde o início… Mas queria aproveitar que ta todo mundo na onda dos zumbis e vampiros pra falar um pouquinho sobre isso… Já notou que eles existem mesmo?

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Que o consumo descontrolado e raivoso e pretensamente eterno e imortal é uma realidade social? Não é a primeira vez que a gang nms entra numas de falar disso: Já andava encucado com o assunto em 2010 https://neomitosofia.wordpress.com/2010/12/23/desmorte/ e após muitas reuniões secretas tramando quedas de burocratas e costurando bonecas vodú de mega empresários, saíram um punhados de excertos de cadernos que resultaram estudos sobre a automonstrologia aplicada  https://neomitosofia.wordpress.com/2014/10/28/monstros_no-espelho-excertos-do-caderno-primeiro-aqui-e-a-transilvania/ & https://neomitosofia.wordpress.com/2014/12/19/monstros-no-espelho-excertos-do-caderno-segundo-o-terceiro-olho-invertido/ e sempre da perspectiva da resistência, da integridade, da proteção da vida e da valorização da liberdade, contamos com estratégias de esquiva e contra-ataque enriquecidas tanto com o jornalismo gonzo cicloativista http://bikeelegal.com/noticia/2932/narcisismo-carrocrata quanto com lições ancestrais de tartarugas rednecks cantantes, yokais da guarda nos protegendo e fazendo justiça feito são jorge e dragão reunidos numa super-equipe https://neomitosofia.wordpress.com/2015/05/15/yokai-kappa-fyah-burn-by-regis-y/. Um kung fu mental embala os 形 katas 型 dos nossos argumentos. Acordamos enfezados e estamos a fim de jihad. Isso é pra declarar a disposição do texto e dizer que trata-se de um assunto recorrente, mas não de uma repetição. Tem zumbis no walkin dead, na guerra dos tronos, na novela das oito e no boteco do seu otto, entre a 9 de julho e a consolação. Vampiro então, deus me livre! Os chupadores foram promovidos a gerentes da civilização. Entrando na cidade, pela Régis, Castelo Branco ou Bandeirantes, mesmo na garoa chuvascada de gotas pesadas e frias, pode-se ver sobre os postes, as imensas aves cinzentas, como borrões de sujeira que ganharam asas e vivem pra sua fome. Outros são minúsculos e finos, tornam-se transparentes dependendo do ângulo, invisíveis quando em harmonia com o cenário. Foram faraós esses Aedes aegypti que nos governam. Ainda vivemos a dinastia Chikungunya. Temos internos facilitando pros invasores de corpos. O executivo do estado é executor contratado de outros estados. Tudo em família. Tudo acertado. Em contratos  gordos, pastas cheias e eleições previamente financiadas.  Algum historiador escreveu que “o povo” (esse terrível termo naturalizador de desigualdades) assistiu bestializado ao processo da independência em mileoitocentos e qualquer coisa. E desde que isso foi escrito, tem se tornado gradativamente mais verdade através do tempo. A história, pelo poder que tem a palavra, torna-se mais que a ciência das mentiras, transforma-se numa espécie de autômato, como a ilha do Morel, uma estranha máquina de criar realidades artificiais.

História, n. Uma compilação quase inteiramente falsa de eventos menos importantes, trazida a nós por governadores meio mercenários, e por soldados meio idiotas.
– Ambrose Pierce, O Dicionário do Diabo. 

amvampcrop eddie terzi Algumas viram gente e até aparecem na tevê. Todo produtor de cena sabe que a cutis dos vampiros fica melhor na luz. Fotografar os vampiros, ao contrário do que dizem daquele mito do espelho, é um arraso! Apresentadores de telejornal, quase todos, bebedores malditos de sangue. Aquele estilo metrosexual indefectível esconde as veias azuladas e as genitais substituídas por apêndices grotescos feitos para sugar a essência vital das pessoas sem que elas percebam.

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Mas fala sério, quem não ama uma cerebridade?!

E por falar em cérebros:

Sabe que quando alguem morre, dizem, a primeira parte do corpo a se decompor é o cérebro. Formado majoritariamente de líquidos eletricamente ionizados, a massa cinzenta se liquefaz em pouco mais que alguns dias…

Partindo desse pressuposto, poder-se-ia imaginar que um zumbi teria seu crânio oco já no primeiro mês de pós vida… No entanto, é comum comprovar após a experiência de sobrevivência pela matança tão própria desse século XXI distópico, que a cabeça de um morto-vivo está recheada com um cérebro feito não da tal massa cinzenta, mas de uma biomassa rubra, febril, que estoura fumegante aos tiros de diversos calibres, cacetadas com as mais variadas armas brancas ou dos já clássicos vintage golpes de machado.

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De qualquer maneira, destruir com a cabeça desses parasitas é provavelmente o método mais eficaz de acabar com eles. A estratégia Cal McDonald acaba reduzindo bastante o glamour do caçador de monstros cheio de especializações técnicas e/ou místicas para rastrear, identificar e abater seus algozes, dizendo que “primeiramente… balas de prata, crucifixos., estacas no coração… tudo isso é merda. A verdade é que não tem nada que caminhe na terra que não possa ser derrubado com um teco ou um balaço no meio da cara.” Isso simplifica muito a questão dos mortos-vivos e outros espectros dominadores vivendo entre nós na sociedade contemporânea, e diminui bastante a margem de erro considerar que a destruição da cabeça costuma exterminar qualquer coisa, de qualquer gênero, espécie ou estirpe.

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Assim sendo, a destruição de monstros, em si, conforme Cal McDonald comprova, é a parte fácil. Mas é de identificação que estamos tratando aqui.

Entender porque desmortos como zumbis ou vampiros não ostentam líquidos e sucos cerebrais lhes vazando pelos ouvidos, nariz, olhos e boca, ajuda-nos a compreender um pouco melhor o funcionamento necrobiológico desses seres. Seus ciclos de força e fraqueza, seus ritmos de predação e hibernação. Sua anti-natureza.

Lembrar então que muitas vezes estão mesmo escorrendo por dentro, parecem adoentados e frágeis… Talvez a grande diferença entre um zumbi e um vampiro seja a preocupação, intenção (ou ausência dela) em esconder, ocultar, disfarçar sua verdadeira natureza macabra.

Digamos que zumbis são vampiros que foram descobertos. Essa deshierarquização ultraja vampiros vaidosos e outros conservadores ortodoxos. Onde já se viu serem comparados a ralé do mundo desmorto?! Então o século XXI parece querer brindar uma espécie de moda vampiresca, onde ser um filhodaputa anti-ético adquire lá suas vantagens estéticas… E tão logo, a zumbificação subsequente vira também uma sub-moda, uma versão hiper-popular de conivência vampiresca pela alienação e apatia. Dizem “Eles que se suguem” nem sempre percebendo que seu próprio pescoço foi tomado.

Outra coisa que faz os vampiros parecerem mais poderosos e portanto superiores à seus primos dorme-sujos, massas de caminhantes noiados que proliferam sobretudo em shoppings e bolsas de valores, é que elaboram complexas redes de caça, na qual a presa envolve-se em situações de doação de sua própria energia, tais como aqueles horríveis peixes abissais que atraem a presa com um apêndice invisível em cuja extremidade há uma luzinha brilhante e maravilhosa, a ocultar a terrível face faminta ansiando nas sombras o momento de dar o bote.

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Será uma questão de status quo ou de estratégia de caça?

Os zumbis é certo que despedaçam-se e andam pra esse tipo de bobagem e para nós na resistência, desmistificar, ironizar e vulgarizar são outros métodos eficientes para combater esses monstros. Porque saibam, é no verbo que jaz a diferença entre um vampiro e um zumbi. Zumbis estão totalmente consumidos por seu desejo, pelo imediatismo da próxima bocanhada… não se importam com nada. São consumidores niilistas ultra-radicais. Já os vampiros traçam planos, ficam entediados, tentam em vão ser mais criativos, gostam da sensação de ferir a distância e imperceptivelmente. Gostam de prolongar o processo de exploração, fruindo da dor decorrente como quem destila seu próprio licor. Gostam de explorar inclusive formas mais amplas de aprofundamento da dominação. Gostam não só de destruir a vida da vítima, mas de conduzí-la a fazer isso ela própria. Forçar a natureza alheia a tomar outro curso. Corromper, perverter, deformar.

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Tudo começou na invenção da escrita. O feitiço original de dobrar a realidade naquilo que é escrito dela. Se escreve algo, torna aquilo um passo mais próximo de algo realmente realizável, por que já é, naquele universo material encerrado na superfície grafada. Noticiar é moldar o mundo segundo as notícias dadas. Narrar é domar o ritmo freestyle da narrativa incessante dos mares, dos ventos, das estrelas, das matas e dos animais. A primeira grafia, supostamente datada de seis mil e tantos anos atrás, quis inaugurar seus contos e versos dizendo que o homem já não era outro animal, podendo então narrar outras histórias, inserir-se em outras mitosofias e que era da sua natureza humana a habilidade de realizar feitos impossíveis, arrombar a fechadura do reino dos céus, destronar deuses antigos e governar o firmamento tal qual fosse seu. A ciência cuneiforme foi um estupro da realidade, a partir do qual instituiu-se os domínios do homem sobre a terra. Cunhar termos, palavras e conceitos é sempre uma violência, no mínimo para com as outras possibilidades de existência do objeto cuja palavra é cunhada. Só que durante muito tempo, boa parte desses seis miletantos anos, a maioria das pessoas nem ligava pra isso de ser ou não humano, e muito menos às complicadas idiossincrasias da transformação caligráfica e linguística. Nômades, caçadores e espíritos livres e/ou práticos em geral estão focados em problemáticas mais concretas do que as das letras. Infelizmente, de uns tempos pra cá, vêem-se cada vez mais inescapavelmente submetidos aos caprichos e demandas destas.

Então não é o cérebro e nem o coração. Mirem suas estacas nas bocas. Nas línguas. Nas palavras.

Se possível envenenando a longo prazo as ideias sobre as quais se sustentam.

“I thirst!”: Barnabas Collins, Lone Ranger, Clovis and Carolyn Cooper

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Nelson Liano Jr. em seu livro de ocultismo cult MANUAL PRÁTICO DO VAMPIRISMO, apesar de dúbio e bastante moralista, nos oferece algumas técnicas interessantes para contra-atacar ou fechar-se para a influencia vampiresca. Na quinta parte de seu tratado “Esconjurações, Salmos, Ladainhas, Litanias e Exorcismos para afastar um vampiro” ele nos diz que “os que se crêem perseguidos por vampiros devem pintar numa tela esses vampiros, ou desenhá-los num papel. Uma vez pintados ou desenhados, os vampiros ficam presos, e deixam de importunar os seres humanos”. Expor sua imagem, reproduzi-la contra si. O eterno jogo de virar feitiço contra feiticeiro. Se é da promoção da auto imagem e de seus discursos que o vampiro despoja os outros, pronunciando sua língua-apêndice escrota pra usurpar e sugar impunemente, então façamos inverter seus discursos com contra-discursos, com versos inversos, rimas invertidas que os revelem como os seres pérfidos que são. Se vampiros temem espelhos, então multipliquemos suas imagens, apontando claramente que ISTO NÃO É UM HOMEM:

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cunha plantando vermes psíquicos com seus poderes hipnóticos. A TV é como os punhados de terra natal com os quais se vê obrigado a dormir em seu caixão, lhe conferindo a força magnética nociva de que usufrui. A TV é seu solo natal, sua caverna, seu santuário.

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Evocando a satirização radical, até com alguma poese, pode-se usar contra os vampiros seu próprio feitiço mais poderoso: inverter o sentido, macular o significado, infectar a significância. As palavras tem poder porque são veículos de outros sentidos para as coisas que existem independentemente delas. Tão entendendo? Se eles transformam o sentido das coisas com as palavras, quantificando vidas em coisas num vice-versa prometéico de dar vida a coisas e de guardar almas em chips de memória e aprisionar atrás dos códigos de barra; pelo mesmo alakazan narrativo deveria ser possível destransformar, desdeformar, desdemonizar santos pecadores e redimir os deuses exilados da vida sem trabalho, sem relógio, sem calendário, sem a interferência do poder alheio no seu (nosso – sei lá pra quem escrevo: É século XXI e ninguém lê nada com mais de dois parágrafos curtos afinal, então por que se importar?) tempo e energia.

“Então se as mãos já estão manchadas com as cinzas do progresso, se o custo do conforto é todo esse sangue disperso, apontemos nossas armas pro que une todo complexo, as figuras de poder financiam lucros perversos, parasitas almas do mal que de humanos são só um eco, se fazem tão mal pro mundo por quê mantê-los por perto? Eles querem seu sangue, moleque, fica esperto, eles querem seu pescoço, garoto, estão por perto. Não adianta rezar porque também tem deles no clero. São a monotonia, por isso volume no estéreo. Debocham da maioria, por isso lutamos sério. Lembrar que a primeira guerra não começou por um tiro sérvio, mostrar que o lugar dos vamps é dentro do cemitério.” (Trecho de MURDA DEM, versos em parceria ti aBREU & Regis Y.)

Foto de Roger Ballen

Foto de Roger Ballen

Nas trincheiras das ideias vivas, ataques teleguiados são desferidos, sentidos, trocados. Vodu e contra-vodu num tango infinito de punhaladas invisíveis. Versos são como balas de prata e estaca de madeira e carregam no oco das suas sílabas a pressão e a força da água corrente.

E o amanhecer, com cheiro de fogueira no ar, vai embalando os causos de caçada. A matança, afinal, não pode matar o potencial da risada.

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Aí eu to na internet e um amigo de outras bandas, desses que só a larga teia permite uma comunicação livre e irrestrita pois vive em outro país, me pergunta qual é minha paranoia com os vampiros. Tentei disfarçar, dizer que sou um nerd obcecado de fases e que teve um par de anos em que meu assunto era os robôs. Não convenci. Ele insistiu: Não, com os vampiros é diferente. Você entrou numas, por que? Então, pressionado e encurralado por argumentos bem encaixados naquele quadradinho do chat da rede social, admiti: É que temos casos graves de vampirismo real aqui em sampa. Meu colega, também morador de metrópole rebateu: Eu também, e aí? E eu: Não duvido. Mas aqui é foda porque são nossos governantes. O governador é dos maiores e mais macabros, mas são muitos. O vampiro-rei de são paulo é só um peão em outros tabuleiros, aqui, no entanto, dominando um exército de subalternos, ghuls paus-mandados em todos os segmentos sociais, vai tocando o feudo da grande SP como se fosse seu rancho. E uma horda de escravos psicocontrolados dando assistência. Doando mais que o sangue e o voto. Doando toda a energia, toda a inteligência e criatividade em troca de nada mais que medo e promessas não cumpridas e indiferença quanto a seu envolvimento com casos de corrupção e ilegalidade administrativa. E logo, enfim, já não era tão difícil pro meu amigo compreender minha paranoia. A internet funciona assim: não é só seu argumento e poder de retórica construindo a narrativa, mas as evidências todas espalhadas ao redor, em links e mais links de flagra gritante dos desmandos desse sedento governador e da forma como ele vem massacrando pinheirinho atrás de pinheirinho, comunidades e bairros inteiros condenados a uma realidade de guerra civil contra terroristas fardados só porque essas são as máquinas à sua mão pra governar e porque esses são os brinquedos com que mais gosta de brincar.

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Um governador vampiro com tamanha sede que foi capaz de secar uma cidade inteira. Mas não qualquer cidade. Sampa. Que além de ser uma das maiores do mundo, é certamente uma das mais próximas de um sistema natural aquífero tão rico, de água doce potável brotando livre com sabor de mata atlântica, que faz parecer um delírio inaceitável, ficção científica bem bizarra, que pudesse padecer de sede e secura. Mas não. Foi um projeto de longo prazo secar essa região. Não se trata só de preguiça, incompetência administrativa, falta de visão, desinteresse ou o exemplo de má gestão que for do seu interesse relembrar. Trata-se de um projeto que começa com o assassinato das áreas verdes ao redor de são paulo. Com o benefício irrestrito que o agro-negócio tem pra agir nessas gestões. Algo evidente em suas estreitas relações com a especulação imobiliária. Há um plano de assassinato ambiental em curso. A hora do espanto de sampa já havia raiado desde bem antes de 2001, quando assumiu como vice após drenar toda a energia do seu antecessor cujo destino, a cova, já estava pluralizado na grafia do seu nome.

http://www.brasilpost.com.br/2015/08/11/tce-crise-da-agua-sp_n_7970380.html?ncid=tweetlnkbrhpmg00000002

Mas aquele era só o início do seu império. Em 2018 ele pretende estender suas asas de couro por todo território nacional. Isso se sobreviver à predação de seus pares e aliados, certamente tão sedentos de sangue quanto. A expressão “cobra comendo cobra” parece encaixar como uma luva de couro de cascavel.

Mas ele gosta de pensar em si como um homem com um plano.
Foram anos e anos até que o governador superasse todos os gatilhos psicológicos que convertiam a enorme insegurança que sentia em ódio. Esse gatilho, era normalmente disparado por sua calvice. Mas não só. Seu rosto era a própria expressão da antipatia. Usava óculos de armação retangular para disfarçar seu olhar azedo de ave de rapina, aquele evidente fundo de desprezo que sente pelo mundo ao seu redor sempre brilhando nas lentes de vidro.

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Sua calvície, herdada tanto da parte da mãe quanto do pai, descendia de uma longa linhagem de carecas. Carequisse essa que era do tipo clássica, que coroa o topo da sua cabeça com a tonalidade caucasiana da sua pele leitosa, sobrando-lhe as bordas da cabeça e nuca com um cabelo castanho curto e bem aparado.

Na importância que dava para a ação da grafia, demonstrava desprezo por suas próprias palavras, reservando-se a tanto ler quanto escrever muito pouco em sua longuíssima vida. Como se na inação concentrasse força para a ação. Uma nobre justificativa para a enorme preguiça que sentia de elaborar qualquer coisa que fosse, mesmo suas estratégias de domínio e exploração. Abreviava com um simples “tô” ou um rude “min” suas assinaturas oficiais, um signo rúbrico que continha uma fração do significado de seu próprio nome, de modo que todos os seus documentos encerravam-se com a máxima “Ao que minto” – como que confirmando seu compromisso endossado contra a verdade. alckminamerican.vamp

Em seu íntimo, queria ter um nome mais popular, mais simples, como João ou Gilson. Sentia que seus pais tinham falhado com ele ao batizá-lo Geraldo. Um nome tão… descontraído, relaxado, um tanto bem humorado demais pro seu gosto e que depunha contra a embalagem estética de seriedade que ele gostava de compor ao seu redor.

Lembrava das crianças, ainda no jardim da infância, caçoando do seu nome com o prazer de repetí-lo infinitas vezes e sob as mais variadas entonações (sobretudo exagerando no L): Geraldo, GeraLdo, GeraaLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLDo!” etc… Queria poder descobrir onde estavam e como tocaram suas vidas cada um desses antigos “coleguinhas”, só pra destruir tudo o que já ousaram amar. De novo. 

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Pensava no seu totem tucano vampiro. Uma ave corrompida com comportamento predatório frenético e parasítico ( não necessariamente nessa ordem). Quando olhava praquela ave com olhos de tubarão em seu puleiro, lembrava de Bucéfalo, o cavalo de Alexandre, que tinha dentes afiados e comia carne humana no campo de batalha… Como o seu mascote, em cuja gaiola havia uma placa com seu nome gravado em chapa de bronze: “Democraticus”; mas a quem seu dono chamava carinhosamente: “Dem”.

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Essa noite, a dupla infernal caminha orgulhosa pelo palácio dos bandeirantes, a imensa construção estatal, a sede do poder, a casa do governador, encruada nos matos do distrito da mosca verde, área de antigas matanças ancestrais convertida em bairro nobre mal assombrado; cheia de amplos gramados, policiais fortemente armados e paulistanos mal tratados ao redor. Estar só no palácio era um privilégio ao qual se guardava pelo menos uma ou duas vezes na semana. Sempre que podia, dava essas caminhadas, repassando em sua mente as frases feitas que disse, diria e dirá. Bradando em voz alta as que queria ter dito, para que ecoem os impropérios para todos seus mortos e criados ao redor ouvirem.

 A voz é muito importante no seu ramo e seu pássaro – agora empoleirado no seu antebraço como um falcão adestrado, o ensinou que cada um com caixa toráxica possui um complexo instrumento vocalizador capaz de produzir vibrações nas formas orgânicas, o que as colocarão sob certos sentimentos e portanto levadas a determinados comportamentos, sendo os mais almejados pelo governador, respectivamente, o medo e a submissão.

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Seu antepassado ideológico, dentro da cadeia dinástica do aparelho estatal tupinikin era de uma classe específica de demônio corruptor cuja assinatura também precede dizeres arcanos: “Mal” seguido da onomatopéia “uff!” – o que reafirmava sua dedicação ao exercício incansável do mal mais radical, bradado com ironia e sarcasmo abusado à todo momento. Eram tempos mais simples, podia-se ser mais agressivo e tratar disso com bom humor. Hoje, esse velhaco nunca antes chamado Saulo desabafa já cansado de fugir da justiça internacional que “nem se pode mais chamar um ser inferior e mandá-lo cumprir uma ordem sem ser acusado de racismo…”

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O governador relembrava as palavras de seu antecessor tentando saborear sua nostalgia, mas é incapaz de acessar certos sentimentos. É uma criatura fria demais, seus impulsos são mecânicos demais. Já o não-Saulo era todo bocas e caras e ensinara que pra mandar tem que falar palavrão… Nunca gravaram ele dizendo que “sabe como é, seu segurança não vai te respeitar sem que você o chame de preto filho da puta uma ou outra vez”, mas ele falava isso o tempo todo. Sua lição é que tem que ameaçar de forma velada, enfia0r um objeto de chantagem no bolso alheio acompanhado de tapinhas no rosto que mesmo sem que as palavras específicas sejam pronunciadas, significam claramente “você é meu”. ventrue

Governar é a arte de dominar a humanidade alheia. É preciso mais que um mandato e as forças militares pra fazer isso. É preciso uma personalidade, um olhar, que cativa no outro a obediência. E sendo um caipira complexado de canelas finas e careca reluzente entre tantas carecas mais antigas e lustrosas, esse Mr. Burns anabolizado só pode ter apelado para maneiras profanas de ajuste e treinamento desse olhar de comando. Foi fazer escola na america do norte. Laboratório de estadistas afinados com uma tendência neoliberal de desenvolvimento ultrakKkapitalista. Jardineiros vampiros de um mundo escravizado, pavimentam o ambiente propício para a proliferação dos vícios e da sua espécie viciosa e botam seus ovos em tudo quanto é território que um dia foi ou segue sendo colonizado.

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Essa escola baseava-se em colunas muito, mas muito velhas. Não velhas do ponto de vista natural, como existissem há muito tempo; mas uma velhice vampiresca, como se já tivessem existido de mais. São coisas como a frase: “Conhecimento é poder”. Uma crença reconfortante e que sedimenta os tijolos desse longo palácio. A ideia de que há poder acessível pelo conhecimento. Mas que conhecimento é esse? As formas de ensino, fundamental, médio ou técnico, estão colapsadas e seu projeto consiste claramente em ensinar a docilidade necessária para adentrar subservientemente no esquema de dominação e exploração do mercado de trabalho. A ciência é um pequeno departamento das indústrias, cuja repartição, idealmente imensos laboratórios cyberidílicos onde se projeta o futuro, raramente passam daquela salinha de luz fluorescente tremilicante logo abaixo dos imensos salões de baile e saguões frabris, entre as salas de autópsia e os armários de arquivo morto.

Por hora, nenhum conhecimento que garanta o domínio absoluto do feudalismo tecnocrático almejado pelo governador. Seus poderes são vastos, amplos e profundos demais, sobretudo porque são quando não deveriam; e não por serem absolutos ou irreversíveis. A intuição, sensibilidade e a necessidade de sobrevivência hão de resgatar memórias de esconjurações, salmos, ladainhas, litanias e exorcismos para afastar os vampiros. Alho e olho aberto. Estaca afiada e coração esperto. Homem de alma preta, cor da lama do mundo, sangue pulsando do lado de dentro, vampiro nenhum da bico nem chega perto. EXORCITY.

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Mas também falta na cidade o conhecimento que possibilite à resistência, aos caçadores de vampiros, os tais quais Kebra Negast, descendentes das linhagens salomônicas de reis que dobram demônios e que disfarçam-se de mendigos sem vergonha, do tipo de nobreza que se faz não só no tom de voz, mas na altivez do desenho que tua sombra forma no chão… Mesmo pra esses falta o colar de alhos e rosas selvagens definitivo, que imunize seu sangue do empoderamento vampírico imbuindo seu toque, a força do seu trabalho em afiar estacas de madeira pra fincar no coração da farsa midiática, o agente mais nocivo da letalidade intransigente dos vampiros. Ao matar um matador se recupera uma vida? O homem que matou um homem mau era mal também? Pois mesmo o guerreiro de fé mais firmeza e em dia com sua própria realeza, está sujeito às sequelas da influência desses anhangás anhangueras batendo panela na janela. São Paulo é palco de uma guerrilha psíquica pesada. Voduísmo político e zumbificação comportamental. Por vampiro no poder dá nisso. 

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“Nossa, quem me dera eu pudesse controlar esse reflexo nervoso que me faz querer contar a verdade. É uma falha fatal. Principalmente num jornalista. E ninguém jamais engole. Nem uma vez. Porque ninguém quer, eu acho. A verdade não é nosso habitat. É um lugar áspero e espinhoso onde se pode morrer entre duas pulsações, só de se expor a ele. Histórias. Histórias são onde vivemos. Só que… não mais, talvez. O mundo está mudando. O Leviatã foi alvejado por um arpão de segunda mão. Pode estar morrendo em algum lugar. E o Leviatã era como nossa interface de usuário. Nosso meio de contatar as histórias. Entrar nelas. Então, as histórias pararam de significar qualquer coisa pra nós. Aos poucos, vamos nos afastando delas. Buscando alívios de curta duração na fofoca, na pornografia, no lixo pré-fabricado. Fazendo o possível pra não reparar em coisa alguma. – Mas no fim… – me disse certa vez uma velha senhora – … sem histórias… sem o dom de se distanciar dos fatos… de adentrar as hipóteses… a vida humana será insustentável. E o mais assustador é que acredito nela. Religião. Ciência. Política. Nossos relacionamentos. Nossa identidade. Tudo são histórias. Histórias que garantem nosso lugar no mundo. Porra, que transformam nosso mundo.” – Richie Savoy assim escreve em O Inescrito # 44 (Parte 1 de A Reiteração da Colheita de Cadáveres). Há em comum com nosso contexto social que Savoy é um jornalista E um vampiro. Todavia uma considerável diferença é que, a despeito da sua condição vital, existencial ou profissional, ele, ao contrário dos nossos, está comprometido com investigar e dizer a verdade.

assina esse post Tiago Abreu professor efetivo da rede estadual de ensino

há 59 dias em greve

10 de maio de 2015

[revisado em 13/08/2015, com Alckmin apelando até pro espectro ainda moribundo de Mario Covas pra justificar o calote que deu e permanentemente, de forma inveterada, dá, nos professores e cidadãos de SP]

http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,irritado–alckmin-compara-protestos-com-os-vividos-por-mario-covas,1735924

sinceramente

&c/ todo meu ódio

<p><a href=”https://vimeo.com/132253458″>Nick Cave And The Bad Seeds – “Stagger Lee”</a> from <a href=”https://vimeo.com/upup2012″>Up-Up</a&gt; on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

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