AS 7 fuçAs do dotô CÃo………………………(homo Canidae Santamarensis)

«Mas a linguagem tem seu próprio objetivo e razão de existir. Os parapsicólogos podem argumentar em favor da percepção extra-sensorial; psicólogos e neurologistas podem declarar que tal coisa não existe; mas aqueles que amam os livros e amam a linguagem sabem que a palavra escrita é realmente uma espécie de telepatia. Na maioria dos casos, o escritor faz seu trabalho em silêncio, expressando pensamentos em símbolos compostos de letras em grupos, separadas uma das outras por espaço em branco, e , na maioria das vezes, o leitor faz seu trabalho em silêncio, lendo os símbolos e reintegrando-os em pensamentos e imagem. Louis Zukofsky, o poeta (A, entre outros livros), defendia que até mesmo a aparência das palavras sobre a página – a abertura do parágrafo, a pontuação, o lugar da linha onde termina o parágrafo – tem sua própria história para contar. “A prosa”, dizia Zukofsky, “é poesia.”»

– Stephen King, Dança Macabra 

Contos da Crypta-HQ

Temos uma revista estilo Cripta do Terror nas mãos. O topo da capa abriga o título em caixa alta e fonte macabra. Junto à lombada, na borda esquerda, temos sete personagens, personas esquisitas, alter egos anfitriões, recebendo-nos e convidando-nos a mergulhar nas ideias adiante… Não serão exatamente contos, nem tampouco crônicas. Também não se tratam de tratados, artigos ou teses. Estão mais pra relatos, pedaços de registros de pensamentos que flutuam e orbitam ao redor de alguns estudiosos de temas obscuros em comum… Com vocês, AS SETE FUÇAS DO DOTÔ CÃO apresenta:

Um não tão aplicado estudante chamado Goetius, a luz das palavras de Tibérius N. discorre acerca da…

CICATRIZ HISTORIOGRÁFICA

Dotô, Doutor, douto: aquele que recebeu supremo grau em uma faculdade. Há muitas formas de se doutorar na vida. Se for homem, branco e de família abastada então, tudo fica bem mais fácil. Antigamente era só graduar-se em direito ou medicina, qualquer advogado ou homem formado era um doutor para a sociedade. Mas há a definição de doutor relacionada não apenas a uma patente de autoridade latente no homem formado, mas à sua competência no ofício de curar. Para o conhecimento civilizado, o douto é aquele imbuído das altas ciências e linguagens superiores, algo reconhecido por diplomas, trabalhos, graduações e dotoridades distintivas, mas para a sabedoria primieva, para os saberes selvagens, o doutor sempre será, antes de qualquer outra coisa, o curandeiro. E você chama de dotô, aquele em quem você reconhece a capacidade de te curar.

Nunca soube se aquele tal Tiberius N. tinha ou não doutorado, mas a julgar por seus hábitos parecia improvável que fosse qualquer tipo de curandeiro. Parecia mais do tipo pesquisador, investigador cabeção de coisas que fisgassem o seu interesse. Como uma criança velha obstinada por assuntos específicos, incansável até esgotá-los por completo. Filosofia, quadrinhos, filmes, desenhos animados, televisão, música… sua ideia de vida após a morte era responder um quiz épico sobre esses temas diretamente pra deus, diabo, o Incal, São Pedro, Jesus, Khrishna, Kali Durga, Exú, Ampú, Galactus, o Leão de Judá e o Lagarto Rei. Costumava ajudar com interpretação de documentos e fontes diversas. Era esse seu ofício, era isso que fazia. Ajudava a interpretar as coisas. Ajudava as pessoas a lerem melhor a intenção de determinados autores por trás das informações por eles registradas. Pelo menos era o que gostava de fazer. Quando eventualmente conseguia ser pago por isso, melhor. Costumava dizer que “O trabalho de texto científico nada mais é que emendar citações sobre citações ao redor de uma linha narrativa necessariamente atrelada à base teórica pré determinada.

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E ainda que “A verdade é objetivo dos investigadores, mas sobretudo dos espíritos mais tenazes. A verdade é muito mais facilmente percebida do que bradada. A aceitação é inimiga da verdade. A verdade só encontra ambiente fértil para vingar, no exercício da procura. A agonia da dúvida é seu oxigênio, seu habitat natural. Será a verdade mais algo que se procura do que algo a se produzir? Nove em dez vezes ou mais, uma verdade oferecida como resposta ou dogma não passará de outra ilusão fugaz e vulgar. Uma ofensa à inteligência viva e esperta de quem a escuta.

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Nessa época eu lia Clive Barker pela primeira vez, e foi uma sincronicidade danada ele ter dito isso ao mesmo tempo que eu, sentado no fundão, cabeça baixa, tentando ignorar seus discursos e tentativas de evocar a atenção das pessoas ao meu redor, acabava de devorar a passagem da narrativa em que Kirsty, a donzela insegura e meio abobada que flertava com os prazeres do inferno se deparava com seu algoz, Frank, nesse diálogo sublime:

“- Isto não está acontecendo – murmurou para si própria, mas a coisa riu.

– Eu costumava dizer isso pra mim mesmo – ele falou – Todo santo dia. Costumava tentar sonhar pra espantar a agonia. Mas não é possível, acredite em mim. Não dá. A agonia tem que ser sentida.

Ela sabia que ele dizia a verdade, o tipo de verdade repugnante que somente os monstros têm liberdade para contar. Ele não tinha necessidade de lisonjear ou adular; não tinha filosofia para debater ou um sermão a dar. A horrível nudez era um tipo de sofisticação. Ele superara as mentiras da fé e adentrara reinos mais puros.”

– Clive Barker, Hellraiser

Não foi algo que ele disse, ou algo que eu li. Foi o momento de confluência. Foi escutar aquilo ao mesmo tempo em que tentava ler isso. Foi o choque que me fez fechar o livro e prestar atenção no cara…

Esse dotô Tiberius costumava defender a tese de que as ideias são seres vivos. Que habitam as mentes, sorvendo delas a energia para seu sustento. Depois de ouvi-lo falar por um tempo, as ideias que passavam a te acompanhar… ficava difícil saber se eram suas ou dele… Mas ele era enfático ao afirmar: “Ideias não são de ninguém! Quanta arrogância pensar que “teve” uma ideia. As pessoas são acessadas por ideias. Não se possui uma ideia assim. Não deveria se possuir nada assim! Pelo menos não seres vivos…”.

Difícil suspender a húbris intelectual pra admitir-se como pouco mais que um cavalo espiritual pra ideias que vem e vão da tua cabeça ao seu bel prazer… Mas não se trata só disso, não é? A monstruosidade de certas verdades é descortinar os horrores e atrocidades da história. É mostrar onde as coisas foram (em muitos casos ainda são) mutiladas, distorcidas; e quais são as sequelas. Esse dotô Tiberius desenvolveu com mais uns parceiros cientistas loucos estudos que tratam desse tema, chamaram de Abnormal Brains, uma série de artigos sobre os assim chamados Seres Prometéicos, mas outros títulos foram trazidos à vida para denunciar a maneira como, pela perversão da techne pra se criar egrégoras, as ideias podiam ser corrompidas. O mito do prometeu foi multiplicado em infinitas reencarnações, pra frente e pra trás no tempo, desde Osíris até o Incrível Hulk e em todas elas, faz parte fundamental da narrativa, além da conquista do fogo divino (representação do molde e fundição da realidade segundo a luz da razão e o calor da vontade) e a vitória sobre a morte, um eterno suplício, o sofrimento acerca de sua própria natureza monstruosa. Continuar curando a si próprio só pra ser devorado por abutres, vermes, baratas novamente, no ciclo sem fim de pós-vida e não-morte. O caminho desviante da pós-humanidade. A outra alternativa afora o final feliz.

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Quando aplicado em uma persona individual, temos uma narrativa apaixonante de monstruosidade, quando aplicada a um modelo de sociedade, temos o projeto artificial vigente de modernidade contemporânea.

Agne Tijuca comenta sobre seu velho conhecido Tican:

Abnormal Brains meets Mirror Monsters

Eu tava conversando a toa com ele. Falávamos bobagens de como a era da internet trouxe mais informação para as pessoas ou acabava por aliená-las ainda mais. Dilema já clássico em mesa de bar. Lembrou-me que, quando menina nos anos 80, era muito comum as pessoas confundirem Drácula com vampiro. Dizendo coisas como “Aí o mocinho foi mordido e se transformou num Drácula”. Nossa, como isso me irritava! Ele comentava que hoje em dia era difícil ver alguém cometendo esse tipo de erro. Camadas e mais camadas de mercadorias de vampiros e/ou do Drácula já se acumularam na vivência de seus imaginários o bastante para que já saibam distinguir uma coisa da outra. Mas depois, anos mais tarde, percebi que também fazia isso com relação à Medusa, que era apenas o nome de uma das três irmãs com serpentes no lugar dos cabelos e cujo olhar petrificava todos aqueles que as encarasse. Górgones. Havia também Esteno e Euríale. E vai saber quantas mais hoje em dia…

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99% de toda lenda é puro exagero” – um general de Drácula em

FEAR ITSELF: HULK VS DRACULA #2 (Novembro 2011)

Tican riu. Não era nem pretendia ser doutor de porra nenhuma, pelo contrário, pra ele quanto menos erudição melhor, uma vez que quanto mais erudição mais trabalho e evitar todo e qualquer esforço era seu objetivo máximo. Todavia acompanhava essas rodas de debate e discussão a qual chamavam por aí de neomitosofia. Ele gostava principalmente por causa dos gibis, primeiro pra apanhar alguns emprestados pra ler, e depois pra conversar sobre… Tican, não fazia alarde das ideias que balizava, mas fumando um cigarro no corredor era capaz de apontar ângulos bem inusitados para analisar velhos temas. Numa tarde preguiçosa assuntava assim “Outra coisa comum é confundir o registro das ideias com as ideias em si. Há muitas ideias que podem ser acessadas com determinadas combinações de palavras. Como chaves, selos, sigilos, como encantamentos de evocação e conjuração de ideias, mas que por si mesmos, não possuem mais do que o valor artístico, ínfimo e supremo que toda obra de arte tem. Veja por exemplo o Frankenstein:”

Recuperava o fôlego, fazia um triângulo de pele com o franzir da testa, e você já sabia por aquele olhar que ele ia longe.

“Frankenstein contém os horrores da primeira infância e seus longos prelúdios. Trata de como experiências de vidas pequenas e recém formadas influenciam os hábitos de toda uma rede cultural ao redor, e de como alegoricamente podemos pensar esse choque entre modernidade e contemporaneidade. Quer dizer, considerando nossa crença e fé cega no fenômeno de emancipação racional prometido, quase como um milagre democratizado pela modernidade, encaramos em nossas mãos trêmulas de ópio e estimulantes a habilidade e potencial de ressurreição instrumental, mas usar pedaços de ladrões e estupradores enforcados fará o que pela criatura? Se aquelas são suas mãos, pernas, corpo – entre uma e outra sutura – então como esperar que sua alma seja pura? Os corpos carregam sua história na pele. Na carne. Cada remendo uma narrativa, metáfora metalinguística da união entre o que foi, o que é e o que será. Do ponto de vista do apanhado de acontecimentos gerais que chamamos de história, essa neomitosofia serve pra nos fazer indagar que tipo de novo mundo bravio pode ser construído a partir dos horrores e atrocidades dos antigos impérios? Mesmo que esses estejam apodrecendo vivos, eternamente devorados e devoradores de sua condição monstruosa, ou ainda que sejam reduzidos a pedaços, desmembrado como os vampiros devem ser, para que sua sepultura possa descansar em paz.”

Hecate ia passando e Tican me deixava pensando.

O monstro vive, sim. Mas talvez a pergunta seja quantos monstros viveram para que esse se formasse? E quantos mais viverão só como consequência da sua existência? E lógico o grande dilema budista. A subversão da samsara. Como quebrar a lógica da repetição? Que transformações são necessárias?

Essa foi a indagação que Tican plantou na minha mente. Hoje eu olho pras práticas e costumes próprios da nossa sociedade e percebo o anacronismo da sua condição. Ainda sob efeito da colonização. Ainda sob ameaça da escravidão. Uma ameaça aprimorada até a invisibilidade. Onde a vergonha e indignidade da vítima é tamanha, que ela já não admitiria sua condição de escravizada, pelo contrário, imbuir-se-ia de violência e soberba para proteger os interesses e imagem de seu dominador, como se esse fosse seu deus.

Vampire_Children Ubud, Floresta dos Macacos, Bali, Indonesia.

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E quando Tican fala de “ideias que podem ser acessadas com determinadas combinações de palavras. Como chaves, selos, sigilos, como encantamentos de evocação e conjuração de ideias” ele está dizendo que esses encantamentos e conjurações não estão limitados a ritualística de estética mística que estamos acostumados a ver nas ficções de suspense, mas em ritos do cotidiano. Acostumar a repetir certas ações. Acostumar às sensações que essas ações repetidas geram em nossos corpos, à forma como essa produção emocional se propaga para as pessoas que convivem ao nosso redor. Criando uma cadeia de repetições. Uma cadeia invisível. A grande fazenda humana que é a civilização do trabalho. A exploração parasítica como cerne vital da nossa sociabilidade. Vivendo como gado. Marcados e felizes, como disse o poeta. Dominados e apaixonados. Amantes da própria dominação.

“Obedecer é morrer. Cada instante em que o homem se submete a uma vontade estranha é um instante que na sua própria vida ele elimina.
Quando um indivíduo se vê constrangido a efetuar um ato contrário ao seu desejo ou impedido de agir de acordo com a sua necessidade, deixa assim de viver a sua vida pessoal; ao mesmo tempo que o homem que dá ordens aumenta a sua dominação da vida, sugada à energia dos que se lhe submetem, aquele que obedece aniquila-se, vê-se absorvido por uma personalidade que lhe é estranha, passando a ser apenas força mecânica, ferramenta ao serviço de um dono.
Quando se trata da autoridade exercida por um homem sobre outros homens, por um soberano despótico sobre os súditos, por um patrão sobre os empregados, por um senhor sobre os criados, imediatamente se percebe que esta personalidade emprega a vida dos que lhe estão submetidos para dar satisfação aos seus prazeres, às suas necessidades ou aos seus interesses; ou seja, para melhorar e ampliar a sua vida pessoal em prejuízo da deles.

Aquilo que em geral não se percebe tão facilmente é a nefasta influência, em tudo isto, das autoridades de ordem abstrata: as idéias, os mitos religiosos ou de outro gênero, os costumes, etc. E no entanto todas as manifestações exteriores de autoridade têm origem numa autoridade mental. Nenhuma autoridade material, seja ela a das leis ou a dos indivíduos, contém atualmente força e razão em si. Nenhuma se exerce realmente por si mesma, todas se baseiam em ideias.”

– Alexandra David-Néel

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Os vampiros existem, é a primeira verdade que te faz arrepiar a nuca e dormir um sono agitado. Os vampiros governam, é a segunda verdade que te priva de todo sono e sossego e transforma sua consciência da sociedade em lampejos de ojeriza, asco e terror. A partir daí é entender os vampiros. Observar como funcionam. Como operam. A diversidade de sua cultura. A complexidade de seu projeto. E sabotá-los. Bom, é isso ou sucumbir ao seu poder de encantar e transformar todos seus amantes em putas.

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Não há diálogo aqui senão de um homem solitário com as vozes em sua cabeça. É chamado Tibes pelos amigos, dos quais se vê cada vez mais distante. Procura registrar, escrevendo avidamente em cadernos e mais cadernos, tudo o que descobrira sobre o império dos vampiros nas comunidades humanas. A forma como o contágio se transmite por pouco mais que um olhar e algumas palavras. No canto do quarto, escuta a respiração da sua mulher e filha. Só quer prepará-las para o pior. Garantir que saibam identificar o opressor oculto a primeira vista. Evitá-lo no geral, erradicá-lo da face da terra quando for oportuno e sabotar seus planos sempre que possível. Mas sobretudo descolonizar-se, para resistir a sua influência nefasta e permanente. Tibes escreve sobre…

AS TENAZES DA LINGUAGEM

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A linguagem é um vírus vindo do espaço

Esse código mágiko pra vetorizar pensamentos e emoções. A comunicação de ideias é muito mais do que simplesmente “comunicação de ideias”. Há transmissão de estados emocionais, vivenciados pela experiência da identificação. A chave para uma identificação efetiva é uma boa narrativa. E toda linguagem é parte de alguma narrativa.

“Três cara simples gostavam mais de ouvir e aprender até que fatalidades com certeza e é o seguinte sempre assim, maquiavelic maldade se percebe aqui cuidado é falsidade estopim dois mil grau é ser sobrevivente E nunca ser fã de canalha a luta nunca vale a experiência é Santo Amaro a Pirituba o pobre sofre, mas vive a chave é ter sempre resposta àquele que infringe a lei na blitz pobre tratado como um cafajeste nem sempre polícia aqui respeita alguém em casa invade dá soco ou fala baixo ou você sabe, maldade: uma mentira deles dez verdades.” – Sabotage, Um Bom Lugar

Há palavras capazes de gerar certos sentimentos e influenciar os comportamentos. Há palavras que geram reações imediatas. Há outras que ficam maturando na bile do ressentimento. Podemos estar inclinados a achar que isso depende apenas da personalidade de quem protagoniza o contato com as palavras, cabendo ao sujeito a autoridade ou autonomia para deixar-se abalar ou permitir-se ignorar as tais certas palavras. Mas não. Não só, pelo menos. As próprias palavras possuem seu poder. Sua força. Sua energia inerente. E vibram com efêmera radioatividade dentro dos corpos que as geram ou que as recebem.

Primeira regra da liderança: Se você não pode ganhar suas mentes, então ganhe seus corações.” – Samuel Sterns, vulgo Líder, ensinado os fundamentos da publicidade de Ed Bernays para crianças no episódio Future Shock (6º da 2ª temporada) na série de desenho animado HULK and the Agents of S.M.A.S.H.

Há pessoas que sabem fazer e ganhar muito dinheiro antevendo tendências e manipulando o consumo em massa devido ao uso aplicado da linguagem, através da construção de uma narrativa com grande poder de engajamento. A identificação emocional está sempre no cerne desse tipo de empreitada. Como um literal coração, músculo pulsante que confere força e faz circular o sistema vivo dessa linguagem. Exemplos incluem propaganda publicitária, patriotismo e outros discursos que transmitem o desejo de inserção em determinado grupo ou sociedade ou ainda a sensação de conforto com o estabelecimento de certos padrões de poder, tais como a meritocracia, a hierarquia, a fé religiosa. Todo o discurso que reforce a naturalização dessas narrativas encontrará maior facilidade de aderência, conferindo empuxo para que as ideias sob essas narrativas permaneçam em movimento e exercendo influência sobre as identidades.

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Em praticamente toda ação da vida diária, tanto nas esferas da política ou dos negócios, em nossa conduta social ou nosso pensamento ético, somos dominados por um número relativamente pequenos de pessoas. Aqueles que puxam os fios com o controle da mente pública.” – Edward Bernays, um puto que merece ser estudado. https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Bernays Em outra passagem ele diz: “Se entendermos a mecânica e os motivos da mentalidade de grupo, será possível controlar e regimentar as massas de acordo com nossa vontade, sem que tomem consciência disso.” – Interessante como ele muda sua associação de uma citação para a outra. Na primeira nós somos a massa dominada, na segunda nós somos os poucos controladores ocultos. Típico de alguém que aplicaria os preceitos da psicologia na publicidade e propaganda, mudando de lado segundo os sabores do vento. Os ventos dos negócios, por assim dizer http://www.activistpost.com/2015/09/the-american-dream-brought-to-you-by-edward-bernays.html. Ed Bernays será importante para fazer-nos entender como fundamenta-se o casamento entes os conceitos do simulacro e do cancro. Essenciais para nossos estudos anti-vampíricos: https://dewthedawn.com/2014/12/16/edward-bernays-and-mass-delusion/.

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Controla a língua, porque nela estão os maiores estragos da vida humana.” – o cão Cipião em O Colóquio dos Cachorros de Miguel de Cervantes (1613).

Há também a linguagem bruta da força. A linguagem da violência. Falar alto. Dar um cala a boca. Que pode estar associado à indignação – dar um basta – ou à autoridade (você sabe com quem está falando [meu bem]?). A autoridade oficial expressa já na sua imagem essa linguagem. Um rato fardado não precisa perguntar “você sabe com quem está falando?!”, a farda fala por si, [& com a identificação escondida no bolso ele provavelmente prefere que seu interlocutor nem saiba com quem está “falando”]. A oficialidade encurta as etapas de comunicação na linguagem da violência. A hierarquia naturaliza essa oficialização. Deixa de existir o humano com quem eu posso me identificar enquanto humano e surge o outro, aquela entidade (in)coorporativa do discurso oficial. Nada pessoal, eu só trabalho aqui. Ordens são ordens. Você tem que aceitar o deus pai. Está comprovado, é científico!

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“He who covers his mouth, covers his life. God give you two ears and one mouth. You talk less and listen more. Cover your mouth!”

Há de se ter uma preocupação com a linguagem. A linguagem também tem o poder de comprometer um sujeito no tempo e no espaço. A deusa natureza te fez com 2 olhos, 2 orelhas, 2 narinas, mas só 1 boca. Veja muito. Ouça muito. Perceba muito. Fale pouco. O sábio tem fala curta. O tolo tem boca solta. As palavras podem conduzir e também marcar. Todo vício, todo mal, está fadado à repetição. A condição cíclica de tudo. O jeitinho especial do universo tentar ensinar pro espírito errado machucado como se endireitar aprumar. Todo vampiro é secular e imortal porque toda sensação de perfídia traz no cerne da sua dor a eternidade. Toda dor que não é banal, é eterna. Por isso o vampiro é ao mesmo tempo um eterno sofredor e um eterno filho da puta. Outra ideia também recorrente nesses manuscritos, a contaminação vampírica é uma representação eficaz do poder transformador e corruptor da linguagem. Observem que o poder E o ponto fraco do vampiro clássico está em sua boca. A vampirização é uma perversão da amamentação: alimentar a sua prole com o fruto do seu corpo, e assim criar um vínculo com ela, um laço tão poderoso que sobrepuja a vontade do mestre sobre a da sua cria. Agora pense nesse fruto como uma ideia, envolvida num tipo de narrativa. Tive a impressão de que Guillermo DelToro e Chuck Hogan se basearam bastante na antiga revista da Marvel, A Tumba do Drácula, sumo do gótico americano em plena dinastia hippie, quando resolveram bolar a trilogia THE STRAIN (levando o conceito de dominação vampírica universal para o patamar epidêmico). Em THE TOMB OF DRACULA #8 (maio/1973) Marv Wolfman conduz uma trama lindamente ilustrada por Gene Colan e Ernie Chua, na qual vemos o anacrônico, mesquinho, um tanto covarde e misógino Conde Drácula perseguindo o artefato tecnológico chamado apenas de “PROJETOR” e que tem a aparência mais ou menos idêntica a de um projetor de cinema comum já pra depois da metade do século XX. Temos aí um Drácula deslumbrado com as possibilidades que esse projetor poderá propiciar-lhe quando combinado aos seus próprios poderes de dominação. Abraçando o artefato e rindo histericamente, o lorde vampiresco, como manda o dogma-clichê, explica seu plano bradando-o alto: “Percebeu, enfim, o escopo do meu plano? Criar todos os soldados de que preciso normalmente levaria anos… mas com o projetor, poderei fazer essa noite, aqui, no cemitério…” – vai pensando que a indústria cultural é só besteirol inofensivo… Tem muitas camadas narrativas operando, mesmo nas banalidades mais vulgares da tv e da revista. É necessário interpretar direitinho issaê…

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“Me digue me explique direito é bem melhor assim, man… Vou questionar os demais operacionais itens” – Noticiário Estéreo, Sombra do álbum Fantástico Mundo Popular (2013).

Vamos então saltar das páginas de um gibi pra outro, temos alguns pontos em comum buscando sinal pra ligação: vamps, projetores e um plano de dominação mundial. Usemos nossa maçaneta mágica e o giz encantado pra abrir uma porta que nos transporte até INESCRITO em Jud Süss Parte 1: O Mentiroso, no qual Mike Carey & Peter Gross generosamente ensinam como opera o conceito do cancro. As personagens Tom Taylor, o mago, Richie Savoy, o jornalista e Lizzie Hexam, uma genial estudante de literatura, veem-se aportados na Stuttgart de 1940, ocupada (na verdade infestada por todos os cantos) pelos nazistas.

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Flanando entre as incongruências da materialidade, o trio de protagonistas se depara com ninguém menos que Josef Goebbels, o famigerado ministro da propaganda de Hitler, que apresenta para uma plateia de nazistas o filme Jud Süss, dizendo assim:

E esse é o Jud Süss. O nosso Jud Süss. Comentários?” – ao que algum nazi da plateia rasga a seda para a produção, sentindo seu anti-semitismo totalmente contemplado pela obra cinematográfica que acabara de testemunhar, dizendo todo afetado de poder: “Isso… Eu não teria acreditado, Herr Reichsminister. Levando em conta a origem… Esse filme é uma obra-prima da era moderna! Cada cidadão e cada soldado da Alemanha deviam assistir.” – a origem mencionada pelo anônimo nazista será explicada melhor nos próximos comentários, e mais adiante, pelas próprias personagens, quando Lizzie Hexan, como se diz por aí, colocar os pingos nos is explicando-nos tudo tim tim por tim tim. Ainda assim, vamos por partes: Virando a página, temos na mesma cena, outro nazi, esse menos entusiasmado e mais amedrontado, compartilhando com o ministro seu receio: “Mas… as pessoas não vão se lembrar do romance? No romance a religião do judeu é o que o salva.” Ao que herr Goebbels justifica prontamente: “E quantas pessoas da nossa plateia leem ficção literária densa? Eu mesmo respondo: Uma em cada mil. O alcance do cinema é maior do que qualquer romance. E, enquanto as pessoas assistem às belas imagens, absorvem a moral da história.”. Indigesto, né? Mas Mike Carey não vai facilitar nem um pouco pro seu leitor em O Inescrito, e nessa altura da saga ele está só começando. O próprio Goebbels apontando para o pôster de Jud Süss, para a imagem que se tornaria um dos maiores ícones do anti-semitismo, explica placidamente, com a calma hipócrita que só um torturador pode ter: “A nova Alemanha precisa de novos mitos. Novos monstros. Não gigantes e dragões, mas representações pungentes das ameaças reais que nosso reich enfrenta.”. Tenso. Tão atual. É evidente que o cancro como técnica narrativa para finalidade de controle dos imaginários, foi utilizada com eficiência germânica pelos nazistas, mas nos tramites entre Aliados e Eixo (todos sabemos que a relação foi bem mais amigável do que os filmes e gibis de herói costumam contar), Estados Unidos da América não só absorveram e apropriaram-se dessa técnica, como aperfeiçoaram-na a um extremo inimaginável fundando com Hollywood a Meca do controle e domínio mental por meio de imagens projetadas e traumas pontualmente ministrados e alimentados. De toda forma, o ministro da propaganda e avô da publicidade explica o poder da sua obra ao que Tom Taylor aponta para o livro original Jud Süss que repousa emblematicamente sobre a lata do rolo de filme da sua adaptação perversa: “O livro, você diz? Foi o material que usamos para nos inspirar. Um romance escrito por um dissidente judeu que fugiu para os estados unidos. Fizemos certas mudanças, claro. No romance, um judeu mundano serve a um nobre corrupto. Assim ganha fortuna e poder, e usa-os de maneira implacável. Mas quando tem a filha assassinada, se arrepende e descobre uma verdade mais espiritual. Esse aspecto da história não me interessa.” Em algum momento do diálogo, o ferino jornalista Richie Savoy ainda indaga a Goebbels se ele “acredita nessa merda ou só tenta vender essa ideia?”, mas a resposta do nazista é implacável: “Acredito que outros devem acreditar. Crenças são coleiras às quais podemos prender as correias.”. Agora procure indagar-se e investigar: Quais são as crenças predominantes da sociedade em que habita? E quem as controla?

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Mais adiante, outro assassinato depois, na próxima edição intitulada Jud Süss Parte 2: O Cancro, finalmente Lizzie Hexan mata a charada e elucida de forma direta e simples do que se trata o tal terrível fenômeno. Savoy ainda não se deu conta da importância que o imaginário ficcional representa para a realidade como um todo (mesmo estando dentro de um livro que está dentro de uma HQ!), então inquire: “O que tem de tão especial a respeito de Jud Süss?” permitindo a Lizzie nos educar sobre algo que pode ser identificado claramente em 9 de cada 10 filmes produzidos por Hollywood, seja adaptação ou obra original, pois que o proprio modus operandi da relação entre produção, roteiro, casting e direção, no meio cinematográfico, já inclui a perversão da distorção em seu cerne mais cotidiano… enfim, ela vai direto ao ponto respondendo que “Goebbels virou o filme do avesso.Transformou-o no próprio oposto. Foi um romance escrito por um judeu da perspectiva de um judeu. E se transformou no filme mais anti-semita de todos os tempos. Pense bem. É um cancro. Se você tortura uma história, ela se transforma em um cancro.” – Carey & Gross, O Inescrito #11 (Maio/2010).

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Quando pensamos ou vemos o símbolo da Suástica, sempre associamos ao Nazismo. Porém, a Suástica tem origem de pelo menos 5 mil anos a. C., utilizados por diferentes povos e contendo diferentes significados. A palavra Suástica, deriva fo Sânscrito, “Svastika”; ou seja,”AQUILO QUE TRAZ SORTE”. Para termos uma ideia mais clara, o Suástica ou “cruz gamada”, tem diferente significado; se estiver virado para o sentido horário, tem significado de atrair forças de destruição (O sentido da Suástica usada pelo Nazismo), aliás Hitler, sempre teve atração pelo ocultismo e magia, e acreditava que queria atrair a destruição de seus opositores e atração e magnetismo pessoal. Virada para o sentido horário; atração das forcas energias do bem e também uma referência ao deus sol. A Suástica foi usada por exemplo: Mesopotâmia, se cunhava moeda com o símbolo, há 3 mil anos a.C., no tempo dos primeiros cristãos, pelo povos Maias e até por Índios da America do Norte, os Navajos. OBS: O Nazismo utilizada a Suástica, através da Cabala que evocava o elemento terra, o MALCHUT, em números, era representada pelo 666, o nunero da besta. Na foto fica evidenciado o sentido anti horario.

Isso catalisa as possibilidades de agressão por mal-entendimento e ignorância. Isso prolifera hábitos e entendimentos de maneira epidêmica. Isso colabora para que os paradigmas, as visões de mundo que cada um tem, tendam para uma homogeneização. E isso fundamenta as bases das hegemonias político-econômicas vigentes. O substrato da cultura massificada. Provocará a pichação situ: “A CULTURA? Mas essa é a mercadoria ideal, que obriga a comprar todas as outras. Não é estranho que você queira oferecê-la a todos…”; contraponha essa interpretação a definição do mesmo conceito “A Cultura, aquilo que é próprio, entendido como o que nos distingue e singulariza diante de outras culturas.” – Villoro, Luis. Aproximaciones a uma ética de la cultura. Revista Casa Del Tiempo, n.94, março-abril de 1990, PP. 3-14.

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O criquilhar da crítica. O que mais faz infeliz, dizer da ação Ou dizer da pessoa? Palavras que caracterizem alguém são um forma horrível de violência. A maldição. Transformar a pessoa “naquilo”. Como Barnabás Collins, um vampiro contaminado não por mordida, mas por sortilégio de uma bruxa invejosa. Ou mesmo Drácula, o vlad Tepesh de Stoker, que vampirizou-se amaldiçoando a si mesmo (usando deus como interlocutor). E assim também foi, dizem, com os primeiros lobisomens. Homens marcados por praga de feiticeira ou de padre devido à sua animosidade e assim condenados a vagar como animais. E não esquecemo-nos de citar Cain, o maldito original. Foi com dizeres e um símbolo grafado na testa que deus o condenou… Palavras contribuem para a realidade. Fazem-na acontecer. Palavras são oscilações no longo ritmo de Maya, o mundo-ilusão.

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“O passado não acabou. Nem sequer é passado.” – William Faulkner

E tudo que é proferido ecoa nas espirais da existência. DESDIGA! Desdiga já o que disse de mim! Mas não há de verdade essa coisa de “retiro o que eu disse” ou de “não está mais aqui quem falou” (exceto quando literalmente quem falou já não está lá). Entre 4 paredes, o inferno de OZMO é estar permanentemente sob a ótica de alguém, sendo “aquilo” pra sempre. Então talvez o paraíso seja estar sempre entre gente diferente, ou poder estar só; e poder mudar e ser outra coisa. Poder ser melhor. Ser diferente. Mas toda essa paranoia cristã de céuzão e inferninhos depende da auto-permissão, a sensação de merecimento. Um psicótico lúcido e consciente como Ozmo jamais iria prum paraíso. Ele, mesmo não sendo cristão, nem judeu, nem islâmico, nem temente a deus ou fantasma nenhum, sabe que não merece porque conhece o sofrimento que causou. Céu e inferno não tem tanto a ver com a autoridade de um deus quanto com autocrítica. Pensar no inferno de Ozmo me diz que esse tipo místico e transcendental de sofrimento depende de uma memória perfeita. Uma permanente restauração plena de todas as lembranças. Ou melhor ainda, a total privação do esquecimento.

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O passado é um cachorro morto. Você precisa deixá-lo na sarjeta com as folhas molhadas, as camisinhas usadas e o lixo. Vá embora. Não olhe pra trás. Assim não poderá vê-lo caminhando atrás de você.” – Rapunzel em As Mais Belas Fábulas #2 – O Reino Oculto, por Lauren Beukes, Bill Willingham, Inaki Miranda e Barry Kitson

O esquecimento é a morte dos fantasmas. É a extinção do efêmero. O oblívio é o alívio da existência. O momento vazio depois de um longo último expirar. Promessa e prenúncio do nada. Sozinho só descansar.

“Você acredita que o passado pode voltar?

– Mais do que isso. Ele nunca nos deixa. É o que somos.”

Penny Dreadfull – diálogo entre Ethan Chandler e Vanessa Ives no 1º episódio da 2ª temporada Fresh Hell.

As palavras erguem os mortos então. Traz de volta coisas perdidas nonada. As palavras certas proferida de maneira correta podem fatiar nuvens, trazer pra órbita um cometa, ressuscitar os mortos e curar os vivos. Pode transformar substâncias e energias fluídicas, pode dobrar as forças da natureza. Como ter essa certeza? Por todas as vezes em que já testemunhou o contrário. Todas as vezes em que a palavra errada dita da maneira tão errada arruína tudo ao redor, gera medos, vícios e traumas, faz transbordar lama, chover lixo e cultivar veneno. Palavras erradas imperdoáveis. A infâmia. Ódio e desprezo profundo por si. Então repetir qualquer bobagem que escutou por aí. Só pra preencher a calma opressora do silêncio. Aquele estupro particularmente covarde em que se intoxica a consciência de alguém para lhe abusar, aplicada não a uma vítima de carne e osso, mas à noção de verdade e a subsequente construção de uma “realidade comum”. Dois conceitos são necessários à formulação desse debate: o simulacro e o cancro. Ou talvez só seja importante notar como estão envolvidos.

“Eles estão fazendo um fetiche.

– Que é?

– Uma boneca de vodu. Provavelmente. As Necromantes valorizam o simulacro, as coisas que tomam a aparência de outras coisas. Então é mais fácil de enfeitiçá-las” – Vanessa Ives em Penny Dreadfull Episódio 5 da 2ª Temporada – Above the Vaulted Sky

Corte pra outra cena.

Papa Breu, um professor mal pago e maltrapilho, tirado de bêbado, viciado, hippie e vagabundo, tira as cartas de tarô para uma sala de aula. Uma situação totalmente incomum e inusitada, mas que, a despeito de sua anomalia contextual, realiza-se em relativa tranquilidade. É hora de invocar demônios interiores, evocar deuses anteriores, atiçar as curiosidades inferiores e provocar as certezas posteriores. Isto posto, prestemos atenção a aula que será dada hoje na…

PEDAGOGIA ORACULAR

2015 foi marcado como um ano de turbulento conflito entre gestão do governo do estado e unidades escolares do setor público de ensino. Um projeto agressivo de desmonte e sucateamento planejado intitulou-se “reorganização”; e em resposta um imenso levante insurrecional emergiu em centenas de ocupações do espaço escolar, o que forçou uma espécie de reorganização espontânea de verdade. Hoje, em 2016, os professores veem-se obrigados (do ponto de vista do senso de dever moral/ético) a transformar sua metodologia, o que significa democratizar não só o espaço físico escolar, mas o espaço de ensino, aceitar o protagonismo do outro envolve reinventar seus parâmetros pedagógicos com cada estudante, a cada relação. Respeitar o outro em seu tempo, cativá-lo no seu interesse, ajudá-lo a aprimorar-se como puder.

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Esse Papa Breu, ou dotô Breu, vinha com um chapelão de lona tipo de pescador, todo molhado da chuva encardida de sp, tinha barba e bigodão vasto já branqueado pelo cansaço, principalmente nos cavanhaques, de base larga e longa encrespando a ponta do queixo, vestia uma camisa frouxa e toda amarrotada, bem desabotoada nas golas, por onde se viam as guias e colares de contas e tiras de couro pra amuletos e pedaços de tatuagens escapando nas peles daqui nos peitos ou de lá nos braços, usava calças largas e vestia sandálias de couro. Seus dedos eram repletos de anéis. De dentro de uma bolsa pequena e simples que levava a tira colo, retirou um embrulho de pano de couro, um retalho pouco menor que uma toalha, com um furo e algumas runas inscritas, em seu interior estava um saquinho de papel com um maço de baralho dentro de uma caixinha de papelão e alguns objetos sortidos, tais como miniaturas de metal, bolas de gude, botons, um relógio de bolso, uma caixa de fósforo e um pequeno caderninho. Um livrinho das sombras. Dispôs tudo sobre a mesa e apanhou o baralho, que era um baralho normal, dos mais comuns feitos pra jogar canastra, truco, buraco, pôquer, dizendo aos estudantes estupefatos pela entrada estilo intervenção mística do professor esquisitão:

– Normalmente eu cobro pra fazer isso. 77 reais. É simbólico. Não posso ler o tarô sem ser pago por isso, se não, a leitura não acontece… Mas estou em dívida com vocês, então vou presenteá-los com meu segundo ofício oferecendo-lhes uma consulta como cortesia. Digamos um pequeno presente sortilégico pela deliciosa surra política que deram no governador ano passado. Espero que gostem.

Então começou a abrir as cartas.

O jogo constituía-se em virar três séries de três cartas e então interpretar os resultados:

4 de paus, 4 de espadas, 9 de copas.

Depois ás de copas, 5 de ouros, 9 de paus.

E então valete de ouro, 2 de copas e 9 de espadas.

– Algumas cartas possuem significado mais evidente e específico, tal qual o arcano maior do tarô de Marselha, outras serão interpretadas só pelo número e naipe, segundo seus significados simbólicos. Paus representa a madeira que cresce da terra, a natureza. Sua presença sugere criatividade e imaginação. A espada é a representação da mente humana. Sua capacidade mental de transformar o mundo a sua volta e impor sua vontade. O 9 de copas é carta arcana, a primeira do baralho vira-lata do Papa Breu, chamada O Cavaleiro, relacionada a realização ou promoção de projetos pessoais, considerada uma carta muito positiva. Essa primeira trinca era fabulosa porque realmente encaixava com a situação de tirar esse jogo para uma uma turma inteira em seu primeiro dia de aula, considerar isso e que a última carta da primeira trinca é a de número 1, torna tudo mágiko, sincrônico e especial, mas sem alarde, retomemos a interpretação das cartas…

Deu um gole na garrafinha de água ao seu lado na mesa e retomou a consulta:

– O ás de copas é uma perspectiva feminina direcionado aos homens, pra que exercitassem um espelho do gênero, pra se identificarem com suas companheiras enquanto seres humanos, pelo que possuem em comum mais do que por suas diferenças. Seguido de um 5 de ouros que indica uma medíocre estabilidade financeira, e concluída essa segunda trinca em outra carta arcana, a décima quarta, cujo nome é A Raposa, uma carta que é ao mesmo tempo positiva e negativa, uma carta de CAUTELA que adverte à esperteza, a mentira e a falta de escrúpulos.

Todos se entreolharam, uma certa tensão se formou na sala de aula… Breu prosseguiu:

– Concluímos com uma trinca invocadíssima, dois arcanos nas pontas e o 2 de copas no meio. A primeira é uma carta negativa (são raras no baralho), a décima, chamada A Foice. Representa a ceifa, um rompimento, um fim. Abrir mão de algo. As copas estão relacionadas a vida afetiva, a face emocional das coisas – que é onde acontecerá efetivamente a perda dessa turma de estudantes, pois que são do terceiro termo do ensino de jovens e adultos, ou seja, em vias de se formar ao fim do primeiro semestre.

Essa interpretação clara e nítida como relâmpagos numa tempestade elétrica ainda amarrou-se perfeitamente na última carta da última trinca, a qual o professor de história vodu explicava dizendo assim:

– Outra arcana, a trigésima quinta do baralho, de nome A Âncora, que representa segurança, estabilidade tanto financeira quanto emocional, assegurada por vias do desenvolvimento da crença pessoal, da fé em si próprio. Um ano positivo foi previsto pelo oráculo das cartas. E o mais incrível. As cartas que não eram arcanas apresentaram aos estudantes todos os 4 naipes, em seu significado simbólico, mas seus números, quando somados, 4, 4, 5, 2, totalizavam 15 que era exatamente o número de alunos presentes nesse primeiro dia de aula (mais tarde a turma formaria-se com mais de 50 estudantes, mas nesse primeiro dia, houve uma chuva torrencial e o sistema público de transporte entrou em colapso, de novo, resultando que apenas quinze conseguiram chegar).

Desse jeito as palavras, os signos, as marcas e símbolos e runas e algarismos e letras grafadas e inescritas bailam com a realidade, formando-a e transformando-a a cada passo desse tango encarniçado. Ninguém acredita ou aceita destino que for numa escola (ou numa vida) de luta, mas ainda assim o sistema oracular de um baralho vira-lata virado por um professor auto-iniciado em algum tipo de sacerdócio oculto infernal, é capaz de traduzir a verdade em todo seu esplendor.

 “Eu conheci a História tarde demais; em minha adolescência eu era orgulhoso demais para ler historiadores […] E por volta dos 40 anos descobri a história que tanto ignorava. Bem, eu fiquei aterrorizado […] Pegue qualquer época da história, estude-a a fundo e as conclusões que se tira são necessariamente terríveis […] Sempre tive uma visão, digamos, desagradável das coisas. Mas a partir do momento que descobri a história, perdi toda ilusão. Ela é verdadeiramente a obra do diabo!” – Cioran, Entrevistas.

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Ainda é ambiente escolar, esse, entretanto, mais conservador e decadente. Localizado num antigo casarão colonial em cujos tacos de madeira habitam os rangidos da passagem de pesquisadores de toda sorte e também da fragrância característica de livros velhos de páginas amareladas e capas de couro já refeitas muitas vezes. Tudo ali tem aspecto de restauração… o que talvez seja outra forma de dizer que tudo ali parece decadente e lutando bravamente contra a ação do tempo e do oblívio que a tecnologia impõe com avidez e intransigência. É nesse ambiente que assistiremos a última aula da noite. Uma voz rouca e monótona ecoa pelo corredor amadeirado. Façam anotações se acharem necessário, mas é improvável que esse conteúdo caia em alguma prova… Estamos tratando aqui de…

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SABERES ARCAICOS & CIÊNCIA ARCANA

Corte para o professor velho, encurvado, ressentido. Tiburcius era seu nome, Tiburcino para os poucos amigos que ainda estavam vivos. Que quando fala é todo respingos de perdigotos venenosos pontuando sarcasmos e ironias. Professor de sorriso débil e olhos opacos, professor niilista, que leva repousado em seu ombro um morcego de estimação só para aterrorizar os alunos de nervos mais frágeis. Atrás de si uma lousa imensa, dividida em três grandes colunas, absolutamente preenchida com os seguintes dados:

Russo Arcaico – Upir – Упирь – colofón datado de 6555 (1047 AD) num manuscrito do Livro dos Salmos – escrito por um padre que transcreve o livro do glago lítico para o cirílico, por encomenda do príncipe Volodymyr Yaroslavovych. O padre escreve que seu nome é Upir Likhyi – Оупирь Лихыи – o que é interpretado pelos historiadores como evidência de resistência pagã e uso de alcunhas ao assinar o nome.

Citando, e por citando entende-se lendo em voz alta, Alexander M. da Silva, o professor velhaco esclarece que “o primeiro registro escrito do termo que daria origem a palavra moderna “vampiro” surgiu no ano de 1047 da nossa era na forma de upir. Essa palavra de origem eslava surgiu em uma obra russa chamada O livro da profecia, escrita por Vladimir Jaroslov, príncipe de Novgorod, noroeste da Rússia. Nela um padre era chamado de upir lichy, ou seja, um “vampiro hediondo” dado o seu desvio de comportamento. Essa ligação entre o vampirismo e a religião cristã evoca o fato de a Rússia ter adotado o cristianismo oriental em 980 e, desde então, a Igreja local se esforçou para banir rituais e crenças pagãs eslavas sobre criaturas vampíricas. Ainda que o cristianismo tenha vencido a disputa pelo poder religioso, o vampiro sobreviveu no folclore do povo eslavo, tornando-se a personificação simbólica do convívio conflituoso entre cristianismo e paganismo”. Na coluna do meio ele foi escrevendo enquanto falava, em garranchos apressados de giz, assim:

Tratado antipagão intitulado “Diálogos de São Gregório” – datado entre os séculos XI e XIII – onde é registrado um culto pagão upyri. Então relatos que pipocam por regiões da Bulgária, Macedônia, Croácia, Checoslováquia, pelos próximos séculos e ainda mais tarde pela Polônia, Ucrânia, Russia, Bielorrussia. Escritos dos missionários S. Cirilo e S. Metódio…

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– Percebam por favor que estamos mapeando uma manifestação quase fúngica de pseudovida que irá proliferar nos vincos e umidades da formação dos primeiros projetos de estado-nação europeus… – e na lousa:

Sigismundo de Luxemburgo / Sigismundo da Germânia (14/2/1368 – 9/12/1437) – Rei da Hungria (1410 – 1437) Sacro Imperador Romano-Germânico, Rei da Germânia e Boêmia. Membro da Casa de Luxemburgo, marido de Maria da Hungria. Foi sucedido pelo genro, Alberto, pai ilegítimo de João Corvino, senhor do castelo Hunyadi e seu protegido e conselheiro.

Sobrou um espaço na base da coluna então disse apontando:

– Aqui vai alguns marcos importantes. Alguma historiografia pertinente ao tema. – e escreveu em tópicos:

* 484 – Cisma entre Igrejas (Oriente VS Ocidente); * 1054 – Nova Cisma da Igreja (idem); * 1190 – primeiros relatos sobre vampiros na Inglaterra -> vampiro de Berwick – norte da Inglaterra; * Peste vampírica no século XVII; família Alfort, Dillsboro, Carolina do Norte, EUA -> caça a vampiros em 1788 e 1789.

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Fórmula Montesi

– Entendam que podemos continuar pontuando, sem nem nos dar ao trabalho de levantar literatura, cinema e ficção em geral, através do desenvolvimento colonial e as decorrentes guerras mundiais. Esses períodos meio que dão a impressão de serem o filé dos temas abordados por historiadores críticos do progresso civilizatório. Mas como vocês, estudantes escolados, devem saber, isso daria conteúdo para um curso inteiro a parte… Ainda assim, perceba que as guerras mundiais só abrem as portas para o miolo da problemática contemporânea: a apropriação e subsequente aprimoramento dos métodos e tecnologia nazi-fascista pelas potências liberais do ocidente, o que nos levaria às ditaduras civil-militares ocorridas na América Latina e aí vocês já sabem, outro curso inteiro a parte. Infelizmente, por mais interessante que seja desenvolver esse aspecto de análise, a proposta desse curso é observar pontos de origem e cruzá-los com manifestações o mais contemporâneas possível…

https://en.wikipedia.org/wiki/Darkhold

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Passou então para a última coluna, arremessando um toco de giz na lixeira no outro canto da sala:

DEBT = SLAVERY -> DÍVIDA = ESCRAVIDÃO; Membros e arquitetos da dominação vampiresca: * J.D. Rockefeller; * Paul Wargurg; * J.P. Morgan; * Baron Rottschild -> O CONCILIÁBULO, A CAMARILLA; Peões a governar, escravos a dominar: * Edward Bernays -> mix de Sig Freud com Joseph Goebbels aplicado em Relações Públicas para Controle Social; * Walter Lippmann -> Opinião Pública massificação industrial da doma humana populacional; * Dwight Eisenhower -> Complexo Militar-Industrial, a ferramenta suprema da dominação vampírica; * Frank Carlucci -> Carlyle Group -> LBO – Leveraged Buyout; * George Soros: Atualização e aprimoramento industrial do mercado escravocrata.

– Alguém pode me ajudar com esse conceito? – inquiriu o professor Tiburcius, ao que alguém leu da Wikipédia pelo celular assim:

– Também conhecido como highly-leveraged transaction, refere-se a uma transação onde se adquire o controle acionário de empresa e uma parcela significativa do pagamento é financiada através de dívida.

– Isso. Obrigado. Percebam como a aliança entre cultura do crédito e opressão policial se aliam quase com a mesma harmonia que o clero e a monarquia de outrora, criando um modelo de estado-nação edificado sobre conceitos como, Força Neoconservadora; Políticas do Medo; Alerta de Terror e Estado Policial. – na lousa, é claro, estavam os conceitos na sua grafia original, o inglês:

* NEOCONSERVATIVE FORCE; *POLITICS OF FEAR; * TERROR ALERT; * POLICE STATE. Tudo ligado em flechas e hastes que apontavam para o conceito original, citado aí em cima: DEBT = SLAVERY. Ou seja: Dívida (ou Débito) é igual à Escravidão.

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Corte para outra cena

A ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE INVISÍVEL

“Por um salário infame, aqueles Nômades altivos haviam perdido a nobreza e a liberdade e viviam confinados em habitações miseráveis, prostrados por absurdas preocupações materiais, cada vez mais prolíficas, de que antes nem sequer tinham consciência. Eles, que haviam conhecido a eternidade dos horizontes, a limpidez do céu sobre os oásis verdejantes e o bem-estar dos despertares sob as tendas, tinham se tornado exilados dentro de seu próprio reino. Samantar seguidamente lamentava a sorte daqueles infelizes, potentados ambiciosos haviam reduzido à condição de escravos de uma potência estrangeira sem alma, a mais pérfida e a mais venal de todas as nações. Mas enquanto se desencaminhavam essas multidões, submetidas às normas de uma ética bárbara, aqui em Dofa a pobreza do país permitira que a vida transcorresse preguiçosamente e que o povo se dedicasse sem esforço aviltante a ocupações benéficas como a pesca, a horticultura, um artesanato confeccionado na indolência e na dignidade; esse povo assinalara, sobretudo, sua resistência às modas decadentes, continuando a se expressar numa linguagem humana. Era essa linguagem humana que encantava Samantar, uma linguagem que fora, no mundo inteiro, substituída por um idioma bastardo – juntado nas lixeiras do comércio e da publicidade – , que já não tinha a ver com o homem e do qual se excluía toda e qualquer noção de emoção ou sentimento.”

– Albert Cossery, Ambição no Deserto

Há alguns séculos, desde a própria criação da primeira universidade, que se fala aos sussurros em uma universidade invisível. Uma sociedade secreta reunida para estudar saberes ocultos. Místicos, conspiradores, malucos solitários e anarquistas eram o público geral, mas no geral, não se podia nomear unicamente um exemplar de estudante ou graduado nessa antiárea acadêmica. Acerca disso, temos alguns relatos de perspectiva esotérica bem organizados em seu registro, um ótimo exemplo é O Livro do Misterioso Desconhecido, de Robert Charroux, narrativa concebida no seio da AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz), que como tantas outras organizações secretas, brincava de criar uma hierarquia paralela, costurar no verso da civilização uma outra estrutura de empoderamento hierárquico dos saberes. Essas organizações, não raro, se autoafirmarão ser em verdade milenares, existindo desde o encontro da cronologia historiográfica moderna com a contagem mítica do tempo. Desde os dilúvios, desde as primeiras civilizações selvagens, desde o surgimento da cultura hebreia-cristã… etc.

Nada contra a filiação a esse tipo de organização. Independentemente da estética da fé, as pessoas parecem realmente gostar da ideia de que salvadores invisíveis vão moderar seu próprio superpoder em pró do desenvolvimento da nossa civilização. De qualquer forma, o lance com a universidade invisível é que essas seitas e clubes de cavalheiros não traduzem sua manifestação, embora persigam-na avidamente, farejando seu perfume criativo e apontando suas ferramentas em seu encalço. A universidade invisível, pra começo de conversa, não é organizada e nem possui hierarquia. É de magia do caos que estamos falando, então o caos é o método, a justificativa e o objetivo. Acontece que as universidades concretas, essas que possuem nomes e endereços, muito provavelmente hospedarão a universidade invisível, porque o ambiente do campus é favorável á sintonia mental desejada para o estudo. Mas a universidade invisível pode acontecer em qualquer lugar, uma escola, um bar, um beco, um banco de praça, uma plataforma do metrô… basta que dois iniciados se encontrem, se reconheçam (não muito difícil dado a leitura semiótica dos corpos e a empatia psíquica dialogada já nos olhares) e comecem a conversar. Então, respondendo ligeiro o subtítulo, a arquitetura da universidade invisível é qualquer uma. E desnecessária, já que os encontros originais, ao contrário do que pensavam aqueles franceses iluministas rosacrucianos, não era entre edificações e pirâmides de civilizações antiquíssimas, mas na floresta tendo como edifícios apenas a mata, como fruto da engenhosidade humana, no máximo, a fogueira, a dança, o transe e, tendo como margem territorial e vizinhança, as estrelas no céu noturno, a lua em seu balé de fases e as criaturas da noite e do dia.

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Os educadores de vanguarda sabem que as melhores turmas, independente, obviamente, de coisas que as encerram, limitam e atrapalham – como classes e salas – são aquelas formadas pela livre associação. Agrupamentos que se formam emergencialmente, a partir de um tema em comum, de um objetivo, de uma realização. Operando nesse espectro, a transmissão de informação e a própria linguagem em exercício, assume uma amplitude e sofisticação transcendentais. A informação se transmite de muitas maneiras, a comunicação acontece de inúmeras formas. A maioria delas é invisível.

“Quem, inadvertidamente, penetrar neste campo linguístico, depara de súbito com um sistema caótico de referências, como uma rede de nomes de códigos e de símbolos relativos a substâncias arcanas em permanente mutação, em que aquilo que é aparente pode ter sempre um significado diferente e em que o próprio recurso ao léxico barroco especializado e ás listas de sinônimos dos tempos modernos não oferece uma orientação segura. Por outro lado, o crescimento igualmente desordenado de conceitos difusos sempre exigiu medidas de simplificação. Foi o caso da tentativa interpretativa do psicanalista suíço C. G. Jung (1875 – 1961), que veio a ter um enorme impacto. Jung considerava que a forma híbrida ou hermafrodita da alquimia constituía a sua face intrínseca, e que as obras químicas exteriores só podiam ser aceitas como uma projeção de fenômenos anímicos cientificamente manipuláveis.”

– Robb, Alexander, O Museu Hermético Alquimia e Misticismo

Do lado de fora da aula do velhaco Tiburcius há um beco, acesso estreito para a rua de trás, de onde desce uma escadaria até a avenida mais adiante. É o beco onde alguns dos estudantes se reúnem pra fumar antes das aulas começarem. Hoje, devido a chuva que caiu antes, estava vazio e molhado. Do mesmo jeito que a cidade ao redor, ligeiramente menos fétido do que num dia seco. Nesse beco está uma figura a qual chamaremos Tican. Ele está pixando o muro, já bastante carregado de intervenções. Vários atropelos, canetão sobre spray sobre rolinho… Ele assina ti<An. Dois vira-latas o acompanham, farejando ao redor das suas pernas. Ele observa a parede como um todo e percebe que há um padrão se formando naquela imundice informacional. Fareja a discussão sobre vamps do outro lado da parede… o som escapando pelas janelas abertas lá em cima. Sua boca se enche de água, não tem o que goste mais do que fazer os vamps sangrar. ti<An conhece muitos outros caçadores de vamps. A maioria deles é cigana ou rastafári, criaturas cujo habitat natural é a rua, pessoas que conversam mais com estranhos do que com família e amigos em seu dia a dia. Flanadores da cidade. Rastreadores. Rasta Slayahman. Alguns nascidos com sangue de dampiro. Possuem o mal do século nas veias, mas seu corpo é programado pra transformar veneno em antídoto sem laboratório, só com o fígado. Guerrilheiros, sabotadores e amigos.

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http://villains.wikia.com/wiki/Vampires_(Marvel)

Vampire_Killing_Kit. Boston. 1840

ti<AN vive na rua. Depois que lembrou suas vidas anteriores foi desapegando mais e mais das coisas. Objetos passaram a ficar cada vez mais pesados e desinteressantes. Isso acontece porque ele vai e volta na samsara – a roda da vida e da morte e da reencarnação – a cada vez que vem gente, noutras sete vem cão. Na maioria das vezes vira-lata de rua, mas umas ou outras de raças esquisitas e enclausuradas pela sociabilidade vampiresca dos humanos. Umas raras vezes, as suas favoritas, vem como um cão selvagem. Cachorro do mato. Que caça e vive e morre só da terra e dos seres que dela vieram e pra ela voltam. Às vezes sonha em nascer lobo.

Como se chama o folheto? – perguntou casulamente.- Intitula-se tratado do Lobo da Estepe. – Oh, Lobo da Estepe é excelente! E o lobo da estepe é você? Aplica-se a você? – Sim, sou eu. Sou uma espécie de meio-lobo, meio-homem, ou pelo menos alguém que se imagina assim.

– O Lobo da Estepe, Herman Hesse

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Por isso ele confunde um pouco as pessoas e os lugares às vezes. Ele é chamado de esquizofrênico com transtorno de múltipla personalidade, mas isso não é verdade, ele só não se apega tanto a detalhes como nomes, números e palavras. Ele nunca foi formalmente alfabetizado. Mas aprendeu a ler os muros da cidade fluentemente. Ele entende a linguagem de cada pixação, reconhece intuitivamente todas as tags. A lembrança de quando fora um alquimista preguiçoso e desleixado vem à tona. Quando no tratado de Robb, publicado pela editora Taschen, ele sugere que Jung referia-se a uma linguagem híbrida e hermafrodita, creio que esteja apontando para as sutilezas da grafia, usar letras para fazer desenhos e vice-versa. Qual a linha que difere? O que impõe uma fronteira que dividirá essas ações e intenções aparentemente tão dispares? Desenhar e escrever? Escrever ou desenhar? Como montéquios e capuletos? Que música soará desse encontro? Que valsa fará essas ações e intenções bailarem juntas?

É que, como já dissemos, antes toda a linguagem era assim. Antes toda grafia nascia do desejo de pintar, de tornar o mundo mais bonito com a marca da sua história nele. Então, o cancro, o simulacro. A perversão radical de conceitos. A transformação de algo no seu oposto absoluto… Já falamos em demasia sobre esse processo nos outros tratados de  segredos sujos prometeicosmonstros no espelho. As estradas interpretativas que trilhamos pra trazer essa pauta – A ascensão do império dos vampiros – a baila mais uma vez.

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Hoje a linguagem selvagem praticamente só sobrevive na margem. Quanto mais próxima dos marcos zeros de contaminação vampírica, mais propenso ao oblívio ou à contaminação ela está. Mas no coração de um sistema totalmente corrupto e comprometido, alguns artistas invisíveis trocam mensagens, falam através de narrativas ocultas, camuflados nas inconcebíveis quantidades da produção industrial de cultura. Ainda como os antigos alquimistas faziam, cruzando imagens e palavras:

“Sempre que falávamos (abertamente), nunca dissemos verdadeiramente nada. Mas sempre que usávamos uma linguagem cifrada ou recorremos às imagens, ocultávamos a verdade. (Rosarium philosophorum, edição de Weinhein, 1990)”

– idem

Robb conclui o raciocínio aqui apresentado, citando C Horlacher, dizendo que:

“Os filósofos herméticos podem ser entendidos de modo “mais livre, senão mais evidente e mais claro, com um discurso mudo ou sem discurso, através da ilustração dos mistérios com enigmans figurados do que através de palavras” (C. Horlacher, Kern und Stern…, Frankfurt, 1707).”

Burlar, esquivar, subverter o poder das palavras é algo necessário para os comprometidos com a verdade. Deixar que a ideia se manifeste livre a partir da chama que arde em cada um de nós, cada um que detém em sua alma a potência prometéica pra se autoiniciar nos poderes e nas teses que apelarem pros seus apetites.

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Grant Morrison fala um pouco sobre isso através do personagem Mason na primeira edição do segundo volume de Invisíveis, cujo arco que se inicia é intitulado Ciência Negra. Toda a célula de Invisíveis está reunida num restaurante de beira de estrada no melhor estilo cena de abertura de Natural Born Killers quando o assunto vem à baila. Procure acompanhar sua linha de raciocínio:

“Velocidade Máxima é sobre evolução, não é? Tá na cara. O ônibus é o mundo. Pode assistir de novo: Tem tudo que é nacionalidade. Não é só isso. O motorista que leva pro desastre tem uma maquiagem de Cro-magnon. Ou escolheram ele porque parece um Cro-magnon. Ele é nossa herança bruta da evolução, conduzindo o mundo ao armagedom enquanto todo mundo fica só discutindo. É tudo simbólico.”

Como se ele não estivesse sendo explícito o bastante com as referência de tema, conteúdo e estilo, ou como se o coloquialismo no texto não estivesse literal e realista o bastante (com as intervenções dos outros personagens meio que entediados da narrativa paranoica de Mason), ele insiste em seu ponto de vista:

“Vejam só quantas vezes aparece o número 23. Está em todas as cenas. Não é coincidência. É um código. Uma mensagem.”

Isso fica um pouco mais evidente conforme ele defende sua tese abertamente, a partir do diálogo com outras personagens à mesa. Mason insiste:

“E aí, no final, depois da jornada tântrica no metrô, eles saem na frente de um cinema onde está passando 2001: Uma odisseia no espaço…”

Ao que Robin complementa:

“Que trata da evolução do homem. Mason, você precisa de um psicólogo.”

Mas ele não para por aí, e nem desconfia de suas faculdades psíquicas. Vai mais fundo:

“Eu vejo tudo que é coisa mística quando assisto filme. Sabem Pulp Fiction…? O troço que brilha na maleta “666” é a alma do Marcellus, não é? O band-aid que ele tem no pescoço, naquela cena do bar com o Bruce Willis… foi dalí que extraíram a alma. Dá pra ficar o dia inteiro falando disso. Mas assistam Velocidade Máxima. Aí fiquem na cabeça que o ônibus é o mundo e que aquele vão nas obras da rodovia é o apocalipse.”

Jolly Roger se irrita e quer partir logo ao que interessa:

“Tá legal, mas quer dizer o quê? Que diferença faz?”

Essa indicação permite a Mason concluir sua tese, ao mesmo tempo em que Fanny, a xamã trava do grupo vai ao banheiro:

“Quer dizer… Sei lá. Quer dizer que tem alguns filmes que são produzidos por invisíveis e que têm mensagens pros outros invisíveis. São os invisíveis conversando no idioma secreto… Os filmes são indicadores. Pra sabermos que tem outros por aí…”

King Mob, alter ego do próprio Gideon Stargrave (anagrama de Grant Morrison) em pessoa, ainda comenta com ironia metalinguística enquanto tenta encarar os corn flakes como “são servidos na América”:

“Mason, você acaba de transformar nossos últimos dez minutos numa cena do Tarantino.”

Ao que coroa sua argumentação com precisão conceitual memorável:

“É isso que eu chamo de triunfo do pós-modernismo.”

The Invisibles Vol. 2#1 (Fev. 1997), Ciência Negra. Parte 1: Socando.

A metalinguagem não é apenas um método estético, não se trata da forma ou do estilo. A metalinguagem é o hocus pocus da narrativa que se pretende emancipada. A metalinguagem permite à narrativa vazar as intenções para além das vias de comunicação que se encerram na grafia. Cruzando as referências e extrapolando as citações, o pensamento lubrifica-se e escapa da linha narrativa onde se viu originalmente cultivado in vitro, e mesmo que retorne a ela para segui-la até o fim, o fará intercalando outros voos, e multiplicando os ângulos de observação e os pontos de vista o bastante para que possa, empregando uma simples simpatia de criatividade mais memória, teletransportar-se para longe da doutrina e da disciplina e da violência linguística sempre que for possível. Perceba que a metalinguagem de Grant Morrison está povilhada por praticamente toda a sua obra. Homem-Animal, Patrulha do Destino, Joe o Bárbaro, Os Invisíveis, mesmo sua abordagem de títulos como a Liga da Justiça em Crise Final, os Sete Soldados da Vitória e Batman… a metalinguagem é o elixir que Morrison derrama na sua escrita. Seu objetivo: comunicar ideias que palavras e desenhos simplesmente não comportam, mas que podem sugerir. Porque em essência, toda mágica é pouco mais do que sugestão.

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Mas essa sugestão transforma toda a realidade, mesmo que por um instante. E isso é poderosíssimo. Como aqueles sapos ou aranhas de plástico com uma mangueirinha embaixo ligada a uma pequena bomba manual de ar, e que saltam com um apertão. E que em desavisados pode dar a ilusão de um animal que se move, um sustinho bobo, mesmo que por um micro milésimo de segundo… a engenhosidade, as condições ambientais, a mente do enganado e a malícia do magus confluem para transmutar genuinamente aquele brinquedo vulgar em um animal vivo de verdade. A magia é o suprassumo da rebeldia cultural. Magos são trapaceiros da realidade. Sabotam até mesmo as leis da física. Sobretudo praticantes das formas auto-iniciáticas de mágica do caos. Sem seitas nem hierarquias eclesiásticas, sem estruturação ritualística. O rito se apresenta pro seu autor no momento em que está sendo realizado, se muito.

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Baalists

Comuns os que os realizam sem sequer perceberem. Repetindo palavras de amarração, reproduzindo gestuário de maldição, alimentando egrégoras de ressentimento, travando pactos sinistros com as piores partes de si. Mais comum do que se pensa. Fecha os olhos, ergue as mãos, grita, pede, implora, reprime em nome do bem, crê com força num deus, mas quem responde é a catarse catalisada pelo medo. Toda mística é ameaça em potencial a toda ortodoxia. E toda ortodoxia realizará sua imposição pelo pavor, o terror de que se esteja “vivendo errado sem ela”, a dependência infantil de uma constante atualização da autorização concedida ao sistema de crenças e valores vigente.

“Medo. Todos acham que já sentiram medo. Pensam que sabem qual é a sensação. A vida passando diante dos olhos e tudo o mais. Besteira. A verdade é que a gente fica entorpecido. Desacelera, perde o controle… Você se torna uma casca com um pequeno “eu” enfiado em algum lugar lá dentro, assistindo.”

 – Tig em I, Vampire #5 (Dan Abnett & Andy Lanning + Fernando Blanco)

E a engrenagem fundamental desses motores que operam e transformam a realidade, é a linguagem. Insisto: Há de se ficar atento à linguagem! No livro Chuva de Estrelas, Peter Lamborn Wilson analisa, citando as palavras do estudioso francês Jean Bottéro, as origens primordiais dessa coisa de traçar riscados como feitiçaria pra alterar a (percepção da) realidade (e por consequência a realidade concreta propriamente dita):

Não devemos esquecer que os antigos habitantes da Mesopotâmia, inventores daquele que é o mais antigo sistema de escrita conhecido, criado três mil anos a.C., foram profundamente influenciados por essa inovação. Não apenas porque ela lhes permitia iniciar a tradição escrita, mas também devido ao fato de esse sistema ter inspirado e moldado, de certa forma, sua forma de pensar. A escrita era profundamente pictográfica em sua origem (e continuou parcialmente assim para sempre), o que quer dizer que ela aludia à mente coisas que teriam que ser expressas por símbolos que representavam tais coisas, tanto direta (como um grão para a palavra “cereal” ou um triângulo para “mulher”), quanto indiretamente (o perfil das montanhas significava “terra” e “terra estrangeira”, um pé significava “ficar de pé”, “andar”, “trazer” etc.). Na verdade, representavam conceitos e ações através de outras coisas, os próprios desenhos, que por sua vez se referiam aos objetos. Esse método incendiou a imaginação dos antigos mesopotâmicos e, como vemos, deu à sua “lógica” um certo número de padrões.”

Mais adiante, em suas próprias palavras, Wilson aproxima-se do ponto levantado nesse ensaio, justificando seu objeto de pesquisa assim:

Até mesmo a escrita cuneiforme não foi inventada para propósitos proféticos, ela imediatamente começou a informar a cultura da Mesopotâmia através de uma visão essencial do mundo, baseada na ressonância entre escrita e realidade. E mesmo se nós, felizes modernos, sabemos (graças a filologia comparativa etc.) que todos esses sistemas são arbitrários, não podemos declará-los insignificantes, nestes termos. Ao menos pelo bem do entendimento histórico, temos que admitir que “crenças” são tão importantes quanto “fatos” e que não há uma linha precisa para dividir as duas categorias.”

 – Chuva de Estrelas, O sonho iniciático no sufismo e taoísmo

Peter Lamborn Wilson.

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Então falar da metalinguagem – trazendo-a do campo da teorização para o empirismo da sua experiência de leitura – é falar da descrição textual do texto que se apresenta diante dos seus olhos: Surge como um texto de ensaio e estudo sobre aspectos aflitivos (em especial o vampirismo político) da sociabilidade contemporânea que evoca um gibi imaginário de terror para, desenvolver alguns subtemas e reflexões, inclusive citando passagens inteiras de outras obras, sejam elas HQs, cinema, séries de tv, música e o que mais tiver à mão, e o resultado é um baita post tentando amarrar uma série de outros posts, fragmentos do mesmo estudo, supracitados em hiperlinks, que reforçam basicamente a mesma ideia: A de que é observando bem a linguagem que se protege da influência vampiresca.

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No man ever seen the face of his foe no
He ain’t made of flesh and bone
He’s the one who sits up close beside you girl, and When he’s there you are alone

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

No man ever seen the face of my Lord no
Not since he left his skin
He’s the one you keep cold on the outside girl, he’s At your door let him in

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

I will forgive your wrongs, I am Abel
For my own I feel great shame
I will offer up a brick to the back of your head boy
If I was Cain

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

Anda ligeiro então. Bem cruzado e imunizado.

Corpo fechado & mente aberta.

Estado de espírito: Bastante desconfiado.

Alma acordada & cabeça esperta

&até a próxima edição… ou outro post relacionado…

2 Respostas to “AS 7 fuçAs do dotô CÃo………………………(homo Canidae Santamarensis)”

  1. “Language is a virus” William Burroughs The Ticket That Exploded
    “This is Heavy Doc” Marty Mcfly Back To The Future
    “The book will kill the edifice” Victor Hugo – The Hunchback of Notredame
    “Life is a lot like Skateboarding” Lil’Wayne

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