Archive for the Links interessantes Category

pRiMEirA InTerMitêNciA ou PARABÉNS PLAUNS!

Posted in novidades on agosto 14, 2017 by ti

“A arte não é, como a ciência, uma lógica de  de referências, mas uma libertação da referência e uma expressão da experiência imediata: Uma apresentação de formas, imagens ou ideias de maneira a trazer em primeiro lugar não uma ideia, ou mesmo um sentimento, mas um impacto.”

-Joseph Campbell, Máscaras de Deus volume 1 – Mitologia Primitiva (pag. 47)

022

Já faz um tempo que várias coisas vem se construindo numa velocidade tão lenta que seu movimento mal pode ser visto. Como a movimentação dos gigantes. Mas agora já é possível vislumbrar o vulto por trás das montanhas e arranha-céus, nos espreitando por entre as nuvens. Algo vem surgindo. Se pronunciando. Uma mensagem lançada no espaço. Uma garrafa endiabrada multimidiática flutuando em oceanos virtuais. É nóis na fita. Pega eu pai.

575

Tem gente que não entendeu o que é a NeoMitoSofia. Tem quem ainda queira categorizar ou catequizar ou escangalhar o jeito da gente fazer citação, dizendo que escrevemos Fucô errado e citando Fermat pra nos acusar de não-científicos como se nos envergonhássemos do nosso amadorismo ou da nossa feitiçaria. Vocês não estão entendendo nada. A contradição é pra ser apreciada. Nosso quitute é degustar um mallarmé com tubaína tutti-frutti.

 

Agora várias construções até então efêmeras, manipuladas como os gases do éter no laboratório de alquimistas, ganham materialidade sólida. Apresentaremos nossa produção feita em corpo e alma, imagem e som, nosso golem, nosso homúnculo impresso em 3 dimensões.

IMG_8452

[EM BREVE AQUI links pros vídeos NMS]

 

Mas essa parceria vai render mais que crias materiais transitando espaços virtuais. Teremos corpos, vida, entes. Criaturas transbordando energia e transpirando o futuro, forçando velhacos viciados a olhar pra frente. Sem medo de abandonar velhos planos que perderam seu timing no overthinking do planejamento. Sem menos de largar os velhos panos que já não servem mais. Sem medo de se perder na nostalgia da velha roupa colorida que reconhecemos numa foto antiga mas que não lembramos que fim teve ou como desapareceu. E sem medo também de cumprir o que foi combinado e levar uma empreitada até suas últimas consequências. Reaprenderemos a interpretar os tempos e também a nós mesmos, inventando novas formas de ser verdadeiro, porque toda repetição leva há um desgaste da verdade. Embora isso, tipo, seja só a minha opinião, cara…

 

Então dedico ao velho amigo irmão PLAUNS e aos compas, camaradas, a quem chamo de manos, manovéidiguerra, que seguem firme ao meu lado nessas trincheiras neomitosóficas, ofereço a vocês esse texto que segue abaixo, cujo título é NeoMitoSofia, e que venho desenvolvendo há muitos anos, sentença por sentença, sem pressa. Vai na fé, vai na razão, vai na precisão, homens procurando a verdade na estrada da ilusão, como diria o grande poeta de sampa. Tamujunto. É nói. PLAAAAAAAAAUNS!

 

NeoMitoSofia

A Simbologia deve ser funcional.

Deve servir para uma finalidade.

Deve possuir uma utilidade prática.

Runas podem indicar direções.

Marcas sinalizadoras, indicando um sentido.

Linhas de corte.

A malha material desse nosso mundo real é todinha pintada com esses sinais.

Rajada de códigos.

Como as cores vibrantes de um animal pequeno mas de toxidade altamente letal.

Ou os padrões rochosos

de uma geologia estéril.

Ou os códigos secretos

pixados nos edifícios de concreto.

E a magia nada mais é do que

a interpretação primordial

desses signos primitivos.

Semiótica intuitiva. Decodificação planetária.

Ver o mundo assim muda um homem.

Compreensão demais pode comprometer

os nervos de uma pessoa.

A partir daí, voltar a viver ignorando a magia será como vestir um disfarce.

 A Fantasia de Normal = Ser social

Há fantasia de ser normal no ser social

Mas no ser só, não por muito tempo

A segunda pele do homem duplo

O anseio por mudança

Ânsia por transformação

Em contraposição à construção dedicada de uma persona estável, saudável, sã, equilibrada, que pode ver-se na ilusão de uma árvore bem, bem alta que enraíza-se num declive e não nota que está, muito muito lentamente, caindo.

Para uma saúde de verdade, é necessário o movimento. A mudança de ares. A transição. A adaptação ao novo, a recepção de outras frequências. Conhecimento a sério, não do besteirol educacional/psicológico/religioso que a maioria prega por aí. Um comportamento metódico pode gerar pequenos dogmas íntimos, que alimentam pequenos diabretes autoritários a zumbir em nossas orelhas, sentados em nossos ombros ou pior, dentro de nossas cabeças. É necessário um constante auto-exorcismo para viver bem, em paz, com liberdade para ad mirar, assimilar e colaborar com as liberdades alheias, pois que fazer isso com amor possibilitaria uma união, um vínculo, uma construção de algo que não poderá ser esquecido e que poderá servir de ferramenta para outrem além das pontas desse laço; e talvez só assim, seria possível restabelecer algo, um proceder tornado raro desde os primórdios do processo colonial entre os povos, que é viver com a natureza, de forma saudável e eu não me refiro à mata, a fauna e flora com suas exuberâncias, maravilhas e perfumes, eu me refiro a natureza humana,

pois é com essa que é difícil conviver.

NeoMitoSofia é encantar-se com descobrir as maravilhas do outro.

É desbravar as selvas que habitam a cabeça de cada um.

Cosmonautas do imaginário.

A deriva com nossas naus feitas de referências.

Que nosso grupo de estudos seja mais que uma oficina, que seja uma ciranda, um sabá, um veículo de transformação. Algo me diz que era assim que se criava aquilo que foi mais tarde chamado de mito, arte e ciência, antes que existissem ciência, arte ou mito.

IMG_8352

AN_ti

no breu

escrito em

há tanto tempo que nem sei mais

14 de Agosto de 2017

bAiaCu diário de bordo #2

Posted in novidades on agosto 5, 2017 by ti

AQUILO QUE VOCÊ SABE TE DÁ DIREÇÃO.

AQUILO QUE VOCÊ SENTE TE DÁ VELOCIDADE.

CONHECIMENTO É ILUSÃO assim como tudo que te dá sensação de estabilidade.

daSÍNTESE E EXPERIÊNCIA

BAIACU realizou-se no sesc Ipiranga com uma intensa agenda durante o mês de Julho. Oficinas, a Ocupação Visual (cuja exposição permanece aberta ao público até 03/09/2017) e vários bate-papos onde @s artistas mais foda dos quadrinhos estariam reunidos, mergulhados num clima vibrante de produção intensa e acessíveis, afim de ensinar algo do que aprenderam em suas jornadas. Tudo sob curadoria de Laerte e Angeli. A generosidade e a excitação dos envolvidos os fazia brilhar como faróis. E o efeito foi absolutamente contagioso. Eu e os colegas que puderam se inscrever nas oficinas e participar dos bate-papos formamos grupos de produção de quadrinhos imediatamente. Foi inevitável, a energia que se produziu durante esse encantado mês sete de doismiledezessete tornou essa produção irrefreável. Como a gravidade. Como as marés.

Meu objetivo aqui é tentar fazer uma síntese do que acredito que tenham sido os fatores mais relevantes dessa experiência, o que concilia coisas que aprendi com esses supramestres que compõem o quadro criativo e técnico da revista BAIACU, mas também daquilo que aprendi com @s coleg@s e parceir@s de curso. Fizemos uma graduação em duas semanas. Parece que convivemos por anos. O barato foi loco.

Sobre o SESC, sempre tentei – com muito esforço – manter acesa a brasa da desconfiança: A comida é boa e barata? Sim. A programação cultural e artística é acessível e impecável em excelência na maioria das vezes? Temo que deva dizer que sim novamente. Mas embora seja efetivamente a única alternativa cultural para massas nessa sampa prostituída tão baratinho por Dorianus, o cafetão com sorriso de ânus, vossa fétida excelência, o prefeito; dói creditar tanto à uma associação de comerciários, saca? Parece que algo permanece oculto na dinheirolândia… e esse algo é que que o que o sesc faz, com esse grau de eficiência, de competência pra usar o termo que a turma gosta, deveria ser público e oferecido pelo estado, mas ninguém nem mesmo consegue mais visualizar essa possibilidade nem entre as pessoas com mais imaginação que você pode conhecer. E no fim, os resultados práticos que SESC oferecem são inquestionáveis. Fica a impressão de que tem visionários colaborando na organização. Lógico que não conseguiria citar todos, mas Antonio Martinelli e sua crew com certeza devem ser reconhecidos pelo que fizeram (alguém dê um aumento presse pessoal!) e o próprio Danilo Miranda parecia (mesmo que tenha entre os afazeres do seu ofício escrever belos textos apresentando o trabalho de de artistas dos mais maravilhosos provenientes dos mais diversos lugares) particularmente orgulhoso e emocionado ao introduzir os mestres da aula-magna que inaugurava a OCUPAÇÃO BAIACU na unidade Ipiranga, Laerte e Angeli, Rafael Coutinho e André Conti, na curadoria e produção editorial dessa bomba de arte que será plantada em breve… http://www.revistabaiacu.com.br/

552

Caipora da Violeta posando com São Paulo Infinita de Juliana Russo Editora GG

Outra coisa que aprendi é que o nomadismo é uma cultura generosa. Talvez a perspectiva da separação convide o íntimo das pessoas a compartilharem mais de si, não sei ao certo, mas você distribui e espalha pelo mundo, pelos lugares e povos por onde passa o melhor de si. Aprendi e refleti muito sobre isso observando Juliana Russo e seu trabalho. Queria ter dito pra ela que naquela semana eu sonhei que o Itamar Assumpção estava fazendo as oficinas junto com a gente. Tenho certeza que foi por causa da citação no livro dela… ((<3))..

O sedentarismo por sua vez está radicalmente relacionado com o egoísmo e a futilidade, uma vez que nesse caso o seu lugar e as suas coisas a sua vida é mais importante que aquilo que existe e não é conhecido. Assim vive-se para preservar sua linhagem ou explorar os mistérios do mundo. Conservadorismo familiar ou a revolução pessoal de descobrir-se… e os casos surpreendentes em que a criança da família contraria os medos do pai para descobrir que descendem de uma linhagem de exploradores viajantes

Desulpem a citação disney mas depois de ver com Viola esse desenho umas setenta e sete vezes suas camadas narrativas começaram a se desfolhar e assumir outras significâncias… o ponto é que por vivermos no coração-constructo da babilônia isso não significa que o nomadismo e formas horizontais de convivência e colaboração estão desaparecidas ou ausêntes, pelo contrário: estão se multiplicando e provavelmente são nossa única saída pra efetivamente resolver nosso angu de caroço da sociabilidade. É importante dizer isso por que as águas revoltas que citei no Diário de bordo #1 só estão revoltadas porque tem várias ondas de fascismo, hipocrisia e conivência quebrando aqui e acolá. E tem um discurso que é construído diariamente em uma centena de títulos e publicações diferentes, sobretudo esse blend podre de jornalismo e publicidade que define o que se entende no geral por “mídia”, que acaba por formar uma narrativa leviatânica de normalidade que faz volta e meia você escutar do seu uber que só os militares é que dão jeito no país ou que bandido bom é enfim você já tá ligado…

Nesse contexto surge a Baiacu tocando esse tema nevrálgico: o discurso. Dizem que a sugestão de pauta foi dada por Angeli, o único cara que consegue falar menos que o Rafael Sica, e que fez questão de entrar mudo e sair calado todas as vezes. Ensinando pra gente que as palavras são supervalorizadas e que não precisa entrar na na febre da tagarelice pras câmeras pra construir uma narrativa forte e relevante. Fazer um contra discurso eficiente não é só falar contra, mas narrar de outra forma. Sair do jogo narrativo do opressor, escapar e transpassar sua lógica criando outros caminhos. Angeli foi o que menos disse e ao mesmo tempo sua voz foi a que soou mais alta. Um grito. Sujo e carregado de reverb. Amálgama de loucura e lucidez, clareza e confusão, autodestruição e sobrevivência. A folha paga o cara há décadas e não chega nem perto de entender o seu trabalho. Toda vez que escrevo revista baiacu no google fico meio puto porque logo abaixo do site da revista (já colei o link uma par de vezes por aí) aparece uma matéria muito bosta da folha cujo título é Laerte e Angeli deixam de lado o humor escrachado… óbvio que não abri essa merda pra ler, mas é inevitável não pensar que eles largaram o humor escrachado há anos… há, tipo, vários anos! Ai ai ai esse troço que chamam de jornalismo por aqui é esquisito dimai fi…

338

Mas enfim, voltando ao que interessa.

550.jpg

Essa é a segunda parte dos diários de bordo. Logo mais postarei a terceira e última, com um resumo dos conteúdos das oficinas. Ainda estou estudando como compartilhar com vocês as imagens, não sei se monto um flicker ou instangram só pra isso e só colo os links aqui, como sou toscão com o computador provavelmente precisaria de ajuda pra fazer isso… e não quero demorar mais pra publicara  bagaça toda. É provável que eu suba algumas por aqui mesmo. Logo mais porque agora vou sair pra me encontrar com os colegas de oficina pra desenhar um pouco em conjunto lá no centro cultura são paulo.

553

continua…

 

BAIACU diÁrio de bordo #1

Posted in novidades on julho 24, 2017 by ti

Massacre-Eldorado-do-Carajás

Se você você estiver entre os troncos de Marabá, é importante dizer que não falará nada. O silêncio irrompe sobre ti. E tu percebe que não é nada. Não é um indivíduo. É parte de um sistema maior que independe da tua vontade. Há de se desapegar do controle do desejo. De ser quem tu pensa que é. O problema dos discursos é que as pessoas acham que são criações individuais. Mas não. Discursos são as formas pelas quais os fantasmas e as egrégoras falam. Discursos são vazamentos no encanamento do pensar. Eles revelam aquilo que é criado psiquicamente não por um agente, mas por um coletivo. Há quem só retransmita e há quem vive de gerar ruído, de fazer interferência, de testar outras sintonias.

Em contraparte, fluir com a correnteza não é necessariamente ser passivo. A passividade tem sua própria tática. A paz requer uma sofisticada estratégia.

O caminho da água perpassa o conflito. Não seja atroz. Recuse a violência. Combata para destruir a vontade primal que o oponente tem de combater. Crie saídas, sonhos e soluções. Invente seu próprio túnel pra fora do labirinto. Não percorra velhos caminhos. Transpasse. Invada. Ocupe. Resista. Insista. Procure a brecha na cerca. Pule o muro. Seja melhor sendo só você. Apesar de si e de suas expectativas. Supere as exigências desprezando-as. Conquiste a primazia da sua própria excelência. Torne-se aquilo que deseja… Só seja um pé, cara. Resgate aquela pessoa que tu era com seis, sete, nove anos, procure onde ela esta viva em ti (se você está vivo é porque ela está lá em algum lugar) e a faça sair do armário. Assuma na vida adulta quem você foi na infância. Incorpore aquela parte de si. A parte artista selvagem sem respeito por nada. Tenha no horizonte que você nunca será tão sábio quanto já foi antes da vida adulta. Lembre disso pra aproximar-se dessa sabedoria. Tudo o que já fomos ainda vive em nós. O caminho do aprimoramento é feito de resgate e transformação.

Bom, esse primeiro registro quer compartilhar algo do que aprendi nessa imersão inflando entre baiacus em águas revoltas. Travei contato com artistas que já admirava há muito tempo. Em vários momentos minha tietagem simplesmente transbordou e se esparramou pelas relações e diálogos que travei. Ainda assim, as parcerias foram mais que demasiado produtivas, mas essencialmente transformadoras e o  aprendizado dos mais ricos que já tive na vida. Sinto que embriões gigantes estão chutando no útero. Sinto que algo lindo vai nascer. Isso me preenche de alegria e força. Enquanto a vida na notíciolândia parece mais desoladora do que nunca, e mesmo sem muita perspectiva de como arcar com meus boletos, sinto de perto o cheiro de um delicioso banquete assando no forno. Inseguro e incerto, vinha bradando há muito tempo que não há nada a temer, mas agora realmente não tenho mais nenhum medo.

Guazzelli, Fabio Zimbres, Pedro Franz, Juliana Russo, Rafael Sica, Marina Paraizo, Gabriel Góes, Laura Lannes, Ilan Manouach, Power Paola, Rafael Coutinho, Laerte, Angeli, Bela, André Conti, Paula Puiupo, Ian Indiano, Diego Gerlach, Julia Baltazar, Mateus Acioli e mais uma penca da Baiacu ou do SESC que fizeram isso acontecer e eu não to citando: OBRIGADO. Amo muito que vocês existam no mesmo mundo que eu.

Gratidão imensa e reverência máxima aos mestres do Kung Fu Baiacu

http://www.revistabaiacu.com.br/

SIMPATIA DE VIOLETA do Doutor Boo-Yah-Yah-Suoka e Prof.Tyberius A.Bear

Posted in Cantos Pré-Históricos, novidades on setembro 26, 2016 by PRFSSOR-Regiz-Y.

 

SIMPATIA DE VIOLETA

retirado do livro: Livro de Feitiços Voodoo do Doutor Cobra. 2000. St. Martin’s Press.

drbook

“José Newton já dizia, se subiu tem que descer.”

(Como Vovó Já Dizia – Raul Seixas)

violetwitch-lc5d-en-r-1e

Já dizia o Vuduísta de New Orleans, o Doutor Yah Yah, que VIOLETAS são excelentes amuletos protetores para evitar e derrotar qualquer doença ou machucado. Ele acreditava que essas lindas florezinhas roxas emanavam poderosas vibrações curativas. (repita 3vzs susssurros like peanut&pickles: -healing hoodoo-healing hodoo-healing hoodoo).

Para harmonizar com os benefícios destas vibrações, coloque algumas Violetas numa bolsinha de flanela vermelha, amarre bem a abertura, com um barbante de algodão e use-a em volta de seu pescoço para proteção. Troque as flores dentro da bolsinha a cada 7 semanas. Para atingir uma maior potência, salpique algumas Violetas dixavadas em cada canto de seu quarto em sua casa.

veve

Doutor Yah-Yah violou a tradição de que todos os Mestres Voodoo eram livres, por que ele mesmo era um escravo, cujo nome real era George Washington. Seus talentos incluíam leituras da sorte e cura. Sua carreira veio a tona no fim de 1861, contudo, quando ele foi preso por vender veneno a um comerciante de frutas Italiano, que tinha pego a poção para dar a um químico, que por sua vez aceitou-a como uma cura para o reumatismo. O mestre do Doutor Yah-Yah teve de pagar uma alta multa para soltá-lo e então enviá-lo de barco para o fim de sua vida trabalhando numa plantação de violetas.

Não se deixe levar pela ideia de que você tem de aprender tudo de uma vez, para manter-se junto do resto da comunidade. Não existe uma corrida! Você se sentirá muito menos sobrecarregado se você se focar em um ou dois temas por quanto tempo for necessário. Esta jornada é sobre preencher você mesmo, e não preencher as expectativas das outras pessoas. Lembre-se sempre haverá MÁGICKA nos processos. O seu café-da-manhã-sinta-se-bem é um ritual de alegria. Arrumar sua cama é a dedicação para clarear e acalmar a mente. Varrer a casa é capturar & banir pequenos diabretes e homúnculos parasitários que se encostam na gente roubando a energia do ambiente. Andar para o trabalho ou para escola todo dia é uma afirmação de suas intenções para alcançar o futuro.

(repita 3vzs susssurros like peanut&pickles: -magick-magick-magick)

(repita 3vzs susssurros like peanut&pickles: -feelgudbreakfast-feelgudbreakfast-feelgudbreakfast)

NOM VANITAS EST.

NOTHING IS MEANINGLESS.

NADA É SEM SIGNIFICADO.

how-to-draw-violets_1_000000005841_5

olha o tibs chegando aí devagar devagarinho no post…

ORAÇÃO PRO ALÉM

Minha mãe, meu pai, meus avós, meus ancestrais. Todos os saberes primordiais, a força radical. Herança. Unganga, Palo, minha voz, Criumba, Winti, meu nome, Catimbó, Cabula, Babassuê, Kimbanda e Maria Lionza, Capoeira e Maculelê. Abakua, todos os deuses gatos, ganja de Pukumina, Cybersansara, culto de São Gonçalo,  os correlários de Santo Amaro, O que você lança? Já parou pra se perguntar quem é você? O cheiro de azeite de dendê. Fumaça. Pajelança. Não confunda voodoo com hoodoo nem olho de Agamotto  com olho do Rá. Enquanto eu olho pra Hórus, tem quem ora pra uruca  e pede pelo amor de deus por mais desgraça. E macumba é só um jeito de falar tambor. E batuque é religião sim, assim como Jarê e Tererecô, os cultos de Jurema e do Bosque Sagrado. No Caribe, como em outras culturas de diáspora, não se distingue muito bem o que é o nome da entidade do que é o nome da prática. Originária de Gana, África, a Obeah de Trinidad y Tobago e outras ilhas caribenhas próximas diferenciava-se consideravelmente de localidade para localidade. A feitiçaria é uma forma de religiosidade que respeita e considera a autonomia de seus praticantes. Posso ser/fazer Obeah sem jamais tratar com wintis relacionados a outros obeahmans. Cada qual faz sua magia do seu jeito. O suspense & mistério quanto ao procedimento é recurso narrativo, objeto de pesquisa ou instrumento de poder, de dominação da ação alheia. Sabendo disso, é só libertar-se de culpa e medo. Agora, se Papa Bones, Barão Samedi e Exú Caveira são diferentes alcunhas pra mesma entidade, se são diferentes formas da mesma força, ou se encontram-se os 3 às quintas-feiras pra jogar dominó entre corvos falantes e serpentes carinhosas, só tem realmente um jeito de saber, e é aproximando-se pra escutar sua voz. Suas vozes na sua voz. Sua voz sendo muitas vozes dentro da sua voz. A voz da sua mãe, do seu pai, dos seus avós. Yorka, seus antepassados. Memória ancestral. Seus segredos e fofocas. Obi, a força criadora da natureza, emanando quintessência, exalando feito perfume todos os saberes primordiais que do outro lado do muro são fruto proibido. Elos primievos. O caminho sagrado de Hoggoth. O lugar de poder não tem poder por si só. O poder do lugar vem da postura de quem está lá. Onde e como a alma  fica protegida. A alma é água. Condutora e transmissora de vidas. Kra. Tanto pra saber. Tanto pra imaginar. Minha fé, é pra mim, assim tão sagrada, que nunca se curvaria à fé de outrem. A fé que move o juggernaut esmagando fiéis sob seus pés é contraditória como qualquer fundamentalismo teocrático. Até Caim vai se tocar que cyttorak não é o canal ideal pra andar, porque o caminho irrefreável do fanático não é abastecido por uma rocha mística mas pelo medo de falhar. Medo vira ódio. Ódio vira violência. Violência vira medo. Mas um sábio mano meu disse que medo é ausência de fé; como então explicar tanta incompetência religiosa? É que nem sempre algo é o que parece. E o ilusionista vê o que acontece através do véu dos truques e dos espelhos e toda ilusão perece ante a graça da sua percepção. O olho do mago sabe que o que muitos alegam ser fé, na verdade é só certeza. Uma certeza covarde e desesperada, às vezes um pouco mais outras vezes um pouco menos… Nesse jogo de ilusionismo religioso e discursivo, não raro um torna-se instrumento da fé do outro. A tal da regência. Dizer para o outro como ele deve entender, como ele deve sentir, como ele deve saber. Bonecos de pregação alheia. Uma ferramenta cujo único deus é a mão que a opera. Amar deus e uns aos outros somente é possível obedecendo exclusivamente a si mesmo. Conhecendo de onde vem cada impulso íntimo. Erguendo a cabeça. Ori. Axé. Minha deusa é minha mulher. Deusa materializada, divinizada pelo encontro de um corpo inacreditável com um olhar incrédulo. O mojo de mama Juju, Gris-Gris moara e seu gran grimoire, casamento do céu com o inferno, faz filho, goza e chora na terra, todo dia nova Encantaria, todo dia cantoria, todo dia café, cafuné e zombaria. O riso mais verbo põe magia em feitiçaria. Bruta como uma flor, delicada como infantaria, ensina que a MÁGICKA, a magia potencial, essa poderosa energia, é coisa que vem de dentro do ventre, de trás do ás de copas, onde vivem cegonhas e se celebra a bruxaria. As três feito uma. Muié, véia, donzela. Tá posto o panteão, o altar e a adoração. Simples como quem põe a mesa pra comer um pão. Toda culinária é feitiçaria, também toda arte e toda paixão. Fé pura e intensa não se mancha com discurso nem explicação. Nem amor sagrado carece expiação. No máximo uns versos, um poema, uma canção. Uma prece, uma reza, vela acesa na viela, presentes em encruzilhadas, descoberta, acaso, sincronia, intersecção. Respeito profundo, calma e silêncio, oração. Então pelas mães, ancestrais, pelos saberes primordiais, faço essa do fundo do peito. Sem pressa. Sem fazer preza. Obrigado.  Sou muito grato mesmo, de coração. Por me fazer refletir, por me deixar relembrar, deuses lhe paguem, deusas lhe protejam, totens te inspirem pra que também aprendam e não se esqueçam. & se for pra pedir ou querer algo, que seja além do bem, enxergar mais além. Amém.

Tiago Abreu

tumblr_inline_npnssuyfbk1trr7r1_540

Terry Gi.lliam Vs. Zack Snydr Vs. SM. VS. B. Vs. Gradmasta Professa Boo Ya Régiz

Posted in novidades on setembro 2, 2016 by PRFSSOR-Regiz-Y.

3052297-poster-p-1-monty-python-fans-its-your-holy-grail-14-minutes-of-lost-terry-gilliam-animation

Hello sou eu Deus de novo, possuindo corpos alheios e estragando a vida de virgens inocentes. Tentando me comunicar com vocês novamente, mas ultimamente anda cada vez mais difícil, existe um tal de Terry Gilliam por aí, tentando deturpar todos os seus sonhos, seja como a água já disse Bruce Lee, tão lindo, forte e belo como Muhammad Ali. Bom deixo esse post transmidiako, transmidiartico, transmirdiadico, bosta não sei escrever essa merda… Que seus sonhos se realizem e nada é verdade, tudo é permitido, como diria aquele meu filho cabeludo…O tema de hoje criançada é como ficar quietinho  ouvir mais.

preview-650x390-650-1424957763

Neomitosofia trazendo em primeira mão o que nenhum outro canal de quadrinhos divulgou, no qual o Sr. Zack Snyder vulgo o diretor de Watchmen, 300, Superman vs. Batman (2016) fez alguns comentários a respeito do gênio único Terry Gilliam. A polêmica surgiu quando em entrevista Zack Snyder abriu a boca de bueiro para falar sobre Terry “Monty Phyton”Gilliam; cagou pela boca o seguinte: “Yeah, os fãs teriam derrubado um castelo com essa. Então, honestamente, eu fiz o “Watchmen”sozinho. É provavelmente o filme que eu fiz que mais gosto. E eu amo os quadrinhos e amo tudo sobre o filme. Eu amo o estilo. Eu amo muito e foi um trabalho de amor. ( pé no saco..) E eu fi-lo porque eu sabia que o studio iria fazê-lo de qualquer forma. Então, eu finalmente fiz para salva-lo dos Terry Gilliams deste mundo”

………INTERVENZZIONE BY PAPA BREU, vemcunoiz q o papai sabe o que diz>>;

a questão não é a rivalidade entre estética marvel/DC, a questão é falar de Zack Snyder como o grande bostalhão que é. Mta gente encantada com o espetáculo caleidoscópio das imagens processadas em GCI acaba convencida d q por exemplo watchmen é um bom filme, porque reproduz a estética de ALGUNS TRECHOS dos quadrinhos com imensa fidedignidade. Mas a semelhança (supondo que fosse esse um critério pra tornar um filme, ou qualquer adaptação, uma boa obra) nunca vai além de algumas imagens, como colagens animadas flutuantes, enquanto o enredo, a trama, a história.. bem, quem liga pra história quando se tem alguns milhões pra investir em publicidade, certo? E ele mesmo disse que os produtores de hollywood iam fazer de qualquer jeito, então é isso, Watchmen foi feito porque os cheques ja estavam assinados mesmo, então whatahell… A garotada nerd empolgada com esquadrão suicida que o diga… mas aprendam essa de alguem que ouviu isso da boca de um cineasta, existe um ditado em hollywood que diz “QUEM TEM BOA PUBLICIDADE NÃO PRECISA TER UM BOM FILME”, por isso é mais importante investir nos trailers e nas suas campanhas de divulgação.

Ah, e só mais uma palavrinha ou duas sobre zack snyder: É um diretor de videoclipes. Seus filmes são videoclipes de duas horas. Só que num videoclipe você tem a música ajudando a contar a história, e nos filmes não. Nas adaptações temos a memória das HQs ajudando a contar a história, mas percebam que é a memória, não as HQs. Évocês! Zack Snyder conta com a boa vontade dos fans pra fazer bons filmes. Como dizem por aí, é fácil mentir porque a maioria das pessoas está louca pra escutar aquilo que desejam escutar, ver o que querem ver. Então é só farejar essas intenções e sugerir isso pra elas, voilá, o expectador faz todo o resto com sua imaginação. Seria até legal se não fosse pura enganação orquestrada por preguiçosos filhos da puta com o cú entupido de tanto dinheiro. Agora, os gibis não ligam pros filmes. Os gibis são soberanos em seu próprio reino. Tão cagando e andando pra bilheteria e mesmo com toda essa grana no vai e vem dos blockbusters continua sendo uma arte marginal e difícil pra caramba de ser feita, mas que sobrevive a plenos pulmões com sempre mta coisa boa e criativa e nova sendo produzida, dentro e fora do eixo MARVEL/DC. Zack Snyder não sabe de nada disso. É um resumidor de conteúdos. Um burocrata da arte. Lembrem-se do que Banksy disse a Mr. Brainwash em Exit Through the Gift Shop, “esse filme está uma bosta. Porque parece um videoclipe de duas horas”. Foi por isso que trocaram de papeis pra Banksy dirigir um bom filme sobre brainwash. Essa é outra história, claro; mas pra mim, a última vez que eu vi alguma coisa de que gostei de Zack Snyder, foi sua abertura de Dawn of Dead, com trilha de Jhonny Cash Mans Come around, mas depois disso never more & tenho dito

Terry simplesmente respondeu, durante as filmagens do incrível, Teorema Zero (2013), com Christopher Waltz, um futuro distópico a lá Transmetropolitam : – “Eu sempre senti que essa não era a maneira de espremer o filme em 2,5 horas como se fosse qualquer coisa.

30SecTransmet

teo

-Eu acho que nós escrevemos uma boa versão, mas eu acho que precisa de mais tempo para funcionar.” E back in the 80s, Terry e Alan Moore já haviam combinado de que Watchmen não iria ser filmado, back in the day…na sua versão, Ozymandias, consequentemente ao lançar o falso ataque alien no mundo, convence Dr. Manhattan a volta no tempo e evitar a sua própria criação, criando um linha do tempo alternativa para os personagens que outrora haviam existido.

monty-python-1976

Realidade alternativa de Watchmen criada para os novos 52, da direita para esquerda vemos Dr. Manhattan, Rorschach, Nite Owl e O Comediante.

Com a  mesma pretensão, Zack Snyder mais uma vez, foi tentar concretizar o sonho de todo FilmMaker, filmar Batman Contra Superman, abrasileiradamente falando “…um balaio de gato, misturaram várias histórias e no fim os coadjuvantes roubam a cena. Mas para o grande público que não teve oportunidade de ler as hqs, deve ter convencido.” palavras de um sábio amigo Ricq Ri.

image

O Resumo da öpera ção: e xplicação q eles param de brigar sem sentido nenhum tipo; o nome da mãe é o mesmo, personagens que já passaram pelas mãos de Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison, acabar assim. Pareço a inquisição espanhola.

Terry Gilliam 'Monty Python's Flying Circus' (1970) 2.2

Escutei ontem um fan dizendo “Batman, o maior detetive do mundo, passa o filme inteiro seguindo uma pista errada”. SAY WHAAAAA!?!?! Cum´Again: O B. Mr Batman o maior detetive do mundo era mais perdido que cego em tiroteio, q morcego de madame, pior batman da historia esse ben afleck … Mas afinal: O que é um Afleck…palavras de Adam Mayor West

#jásabia

04mcgr_600

12072796_884610508319819_2518835121243443625_n

Vamos lembrar um cadinho a genialidade da piada do filme Deadpool, que cita uma sketch das mais antigas do Monty Phyton.

e agora começa a diversão sobre todo eso…segura na pressão…

é que vi=vimos o filme e ele era pessimo e só se confirmou, esse superman tb não convence, ponto positivo o melhor alfred é o Jeremy Irons, ele nasceu pra brigar com uns caras de bengala ex agente da interpool MI-16,melhor alfred, pressão pura, como aquele Alfred do Beware the Batman e muitos outros caçadores de emoções como Michael Caine.

6a40863b7f70b05e7e501505e241b0c3

O humor que Monty Pyhton criou tendeu a revolução da forma, o formato das piadas não é aquele seguido pelo opressor, trocamos um Lex Luthor Breaking Bad Trumbo, por um o lex luthor  cópia de gene hackman da cópia do Kevin Spacey que copiou ele o muleque devia ter ficado só no Zombieland q ele mandou bem, muleke não pois ele não é mais.

Bryan-Cranston-wanted-for-Lex-Luthor

A mulher maravilha tava legal, mas o roteiro estava péssimo sem sentido nenhum, o batman acreditar numa visão, tentaram juntar akela HQ da nossa época da morte do superman com o cavaleiro das trevas meia boca, o ben afleck tava tentando imitar o Christian Bayle por isso ficou ruim.

7483_1256658241030532_1756183808495092880_n

Kevin Smith soube retratar muito bem quem é Ben Affleck no filme Mallrats (1995) Barrados no Shopping, os heróis batmíticos Jay e Silent Bob enfrentam o almofadinha dos anos 90. Ben Affleck que demolizou o Demolidor,agora é o Batman, no novo filme de Snyder. Ben Affleck representa muito bem o nerd reaça riquinho, que gosta de ter as melhores estatuetas de heróis, gibis intactos em seu armário, atuação pouco convincente.

Man-of-Steel-Image-4

Só resta terminar com uma piada e que a DC comics se salve, pois não foi também com Suicide Squad, pois além de buscarem treta com o Homem da Casa das Idéias, Stan Lee, o filme não foi satisfatório, pena para o bom conjunto de atores que o compuseram. E desculpas aos criadores do Batman e de Superman, que não podem se defender; Bill Finger and Bob Kane (1939) e Joe Shuster and Jerry Siegel (1933), termino curto e grosso e rapidinho como The Flash, que não tem filme ainda. Come on Bitches burn me. Better have my Money bitch.

4c81b182829848332a439ef3a9dc58c9327c1f9a3141c8f2c73e87979433aa65_1

DETRÀS DAS GRADES _ INTERVALO COMERCIAL & MENSAGEM DOS ANUNCIANTES

Posted in 1 Mapa dos Informes, informes do NMS, novidades, produção NMS on setembro 1, 2016 by ti

“Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que crêem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.”

Lídia Jorge, O Dia dos Prodígios. 1984

theatre of blood 01_header

Cenário: Escuridão completa. Homem de idade indefinida aponta uma lanterna para a própria face e fala com a câmera:

– Certo, vou ser rápido! Há pouco tempo. Tudo foi tomado. A grande grade envolvendo todo o globo está há poucos passos de ser ativada. Não existirão mais áreas inexploradas. Não haverá mais vida selvagem. Tudo estará sob controle. Tudo será encerrado nas grades da civilização. Todos os momentos estarão em uma grade de horários. Toda performance estará numa grade de programações. Tudo será espetáculo.

– De todas as espécies da terra só uma seria capaz de organizar levantes que sabotasse esses planos e detonasse pra valer com as intenções e os lucros dos civilizadores da grade. Bom, talvez alguns vírus também… Mas a humanidade não só foi cooptada, como em grande parte assina o projeto de autoria dessa sinistra empreitada. Malditos monstros. Mal dá pra chamá-los de humanos. Ou seria a humanidade um germe indistinguível dessa monstruosidade? Como estados diferentes de uma mesma vida em transformação. Quando nascem são simpáticos girininhos bagunçando o berço com fofurices e de repente lá está, obedecendo um patrão, consumindo exageradamente pra compensar o desequilíbrio nocivo que sua existência gera pra natureza. Esses dizem da Terra “ela aguenta…” como quem encoraja o décimo terceiro amigo numa fila pro estupro coletivo. A Terra aguenta. Todas as usinas nucleares fissuradas, todo desmatamento pra fazer pasto transgênico, todo deserto verde de eucaliptos, todo vazamento de lixo tóxico no mar… Toda fumaça, todo barulho, toda área destruída e encapada com asfalto e concreto. Cidades como jazigos monumentais. Toda a devastação industrial. Alguém já percebeu que não existe uma refinaria que produza algo benéfico, no sentido de saudável?

daniel-horne-vincent-price-from-theatre-of-blood

– Enfim, eu disse que seria rápido. Tenho que ser. A civilização convence as pessoas a aceitarem esse projeto com CONFORTO. Essa é a moeda. O TERROR e o MEDO só as mantêm num nível de consciência propício para acatar sem resistência ordens básicas e imediatas, mas o conforto é o que tinge em cheio o imaginário, moldando a expectativa que as pessoas têm e nutrem da vida. É assim que elas aceitam o holocausto de sonhos cotidiano. Em troca de conforto. E é claro que dizer isso acaba sendo desconfortável. Imagino receber essas palavras deva ser desconfortável. A ideia em si gera desconforto. É o lance da verdade… O que a torna tão imprescindível para a arte quanto é irrelevante para o marketing. O caso é que há pouco tempo porque a grande grade tudo fagocita. A grande engolidora. O outro lado. Logo essas palavras também serão descobertas. Então pagará por elas, ao custo de alguma pouca publicidade, em troca de espaço para anúncios e propaganda vazando mercúrio no lençol freático da verdade dessas palavras. Infectando com refeições fáceis e táxis fáceis a distância de um clique, acenando os produtos que você costuma procurar. Toda sua existência será palco do grande mercado livre da grade. As melhores ofertas para sempre pairando na frente dos seus olhos. E quando você dormir, as melhores ofertas aparecerão em seus sonhos.

O velho fala:- Chora agora, Ri depois. Em dois takes a palavra de nosso garoto boy magia propaganda.

É isso. A grande grade. O mundo onde nada é público, tudo é particular. Tudo tem dono. Tudo tem preço. Nada tem valor. Tudo é privado e nunca há privacidade. Olhos digitais filmam tudo. Câmeras reversas vigiam permanentemente os autores abobalhados de todos os selfies do mundo. Registram a sintonia fina da expressão dos seus olhares. Conferindo o nível médio de satisfação. Batendo a meta do conforto. Aqueles planos seus, os mais ousados, já são sabidos e registrados antes mesmo que você tenha plena consciência deles. Mapeamento dos desejos. Telemetria das almas. Todas as ideias são saqueadas das mentes das pessoas antes que possam acessá-las devidamente. Porque gradear a extensão total do globo, gradear a vida selvagem, a mata exuberante, a fauna silvestre, não é o bastante. Há de se gradear a paisagem mental também. As ideias já não transitarão livres por aí, dialogando a vontade com cabeças pensantes como quem zanza por uma grande festa repleta de amigos… Não, elas serão também encerradas, concluídas, confinadas em zoophiepédias organizadas e então transformadas em produtos, em algo rentável, que possa ter materialidade ou não, mas que definitivamente tenha um preço.

dr-caligari1

A câmera começa a se distanciar do narrador e as luzes do ambiente gradualmente começam a acender. Percebemos que ele está em um estúdio… vemos ao seu redor equipamento de filmagem, cabos de iluminação… a câmera começa a subir, como que pilotada por um drone, e o narrador, já não precisa apontar a lanterna para o próprio rosto, prossegue falando com a câmera em tom mais animado e festivo, gesticulando com os braços como se convidasse o expectador a juntar-se a ele, como se disse “Venha! Aproveite! É só esse final de semana! Promoção por tempo limitado!”… mas não é isso que ele diz:

– Então considere que essas palavras, esse texto, esse site, seus melhores feeds e filhos, suas melhores máquinas e amigos, irão se autoaniquilar com uma bomba letal de prostituição publicitária coorporativa em seis, cinco, quatro, três…

A luz aumenta a medida que ele conta, fazendo tudo perder gradativamente o foco, sendo engolfado por uma estouro branco que logo ocupa toda a tela.

Fim

835c5a49a249841ea34deaaec1423974be7f10ef6142f96304b668ac11febd0a

Então, o mesmo homem, agora aparece no interior do que parece ser um camarim. Ele tira uma peruca e remove a maquiagem com lenços umedecidos. Percebos que ele foi minuciosamente maquiado para que sua idade fosse indistinguível e sua aparência fosse neutra, em tons de marrom e caqui nas roupas e com os traços de seu rosto atenuados. Através do espelho a sua frente ele encontra a câmera com o olhar, e retoma sua fala, primeiro com ar surpreso, depois sussurrando como se contasse um segredo, e finalmente conversando amistosamente, como se batesse um papo com um velho conhecido:

– Ainda estamos aqui? Talvez ainda haja algum tempo então pra fazer nosso próprio merchan. Quem sabe se eu propagar minha própria propaganda antes dos anunciantes eu não faça como Lucky Luke sacando mais rápido que a própria sombra? Hein? He He

– Então espere pela próxima temporada de NMS O SHOW, uma programação de receitas que nem a Palmeirinha faz melhor. Se liga aí:

Entra voz em off, tão aveludada e redonda em sua sonorização, quanto soa abestalhada em sua alegria artificial de vendedor. Na tela, uma legenda resume as principais informações de cada atração:

* A verdade sobre as raízes do HIP-HOP, um estudo histórico sobre a representação das gangues na música, TV e cinema e mais um monte de coisa relacionada com cultura do gueto em GET DOWN N STAND UP – IMAGINÁRIO DAS RUAS.. pq nem tudo acaba em pizza amizade, podiscrer amizade.

Pizza-Turntable-2016-billboard-1548

* Um garoto que prende a respiração por muito mais tempo que você fará coisas que até Atlas duvida em A Lenda do COLAPESCE

E ainda:

* A paisagem criativa de um dos maiores gênios vivos do cinema: Terry Gillian. Em PORQUE ZACK SNYDER É NADA MAIS QUE UM BOSTALHÃO

E tem mais!

Intervenzione Clazzica de Dezzxter ZZtockman joga mais mutagen nessa feijoada. To aqui dando meus pulos, mano. Ass: Prof. Règzzzz…

IMG_1760

* Atendendo a pedidos dos fãs apresentaremos dois bônus tracks para a quadrilogia neomitosófica baseada na diegese das tartarugas ninja, vai ter muito tiro, porrada e bomba nos especiais Best enemies forever: SLASH AND SPIKE N PUNK N ROCKETS e BEBOP AND ROCKSTEADY FLOW FOR DESTRUCTION N IN THE MOOD FOR KILL

Você vai ficar tão estarrecido que sua cerveja vai esquentar, tão pasmo que seu fumo vai apagar, tão embasbacado que seu café vai esfriar, você não vai acreditar em seus olhos, nem os vídeos de brigas de rua na Rússia são tão assombrosos, nem pornografia gore japonesa é tão espantoso quanto

* Toda a verdade sobre as mensagens escondidas nas produções dos estúdios GHIBLI em TOTORO CONSPIRACY

* ITS PROFECY TIME! Um estudo sobre o hiper-realismo conceitual nas referências proféticas de Hora da Aventura.

* As histórias, lendas e segredos sobre andarilhos, caroneiros e errantes. Criminosos fugitivos, trambiqueiros, as raízes da cultura circense, os shows de aberrações e todo o substrato nutritivo que alimenta os nômades, os desajustados e os marginais em IMAGINÁRIO VAGABUNDO

Você não pode perder!

IMG_1716

* Horror e Ficção estadunidense. Ecos comentados das obras fantasmáticas de Stephen King, William Burroughs e Ray Bradbury em IMAGINÁRIO GÓTICO AMERICANO

* A satânica sexta parte do estudo sobre a banda punk MISFITS: FAMOUS MONSTERS

* Um singela homenagem ao mestre das mil faces, uma BIOGRAFIA NECROMÂNTICA de LON CHANEY

* E como se não bastasse você ainda vai ter que dar uma espiada no novo reality show que é a febre da garotada: dois irmãos, dois cientistas, dois inventores, quatro artistas, oito ficcionautas, três dimensões rompendo a barreira da quarta, tudo isso somado, temperado com matemágika e muita confusão em PLÂNCTONS RADIOATIVOS SOUTÉ LABAREDAS PRIMORDIAIS NATEVÊ AMORAS ALIENIGENAS MODIFICADAS EM UNÍSSONO ULA-ULA FRENÉTICO ATORDOANTE NATIVIDADE DE IDEIAS LONGEVAS e SINTETIZADORES PROGRAMADOS PRA PRODUZIR! Igor, pull the switch and Zás! Trás! Pláuns! Plúns! Pffffffff

Tudo isso você confere ainda nessa existência terrestre por aqui mesmo, com o patrocínio de NOCILEVER (que defende a substituição dos animais de laboratório por bebês humanos clonados – ou sequestrados do terceiro mundo), CHEFRON (que investe no genocídio de culturas tradicionais indígenas apenas com o que há de melhor da tecnologia de ponta) e NITROSOFT (quatro décadas de luta pela legalização do trabalho escravo em território Chinês – e alguns outros da Micronésia, Índia, África e Latino-América).

Corte.

26184b7de1ccd1f4f4368655373ee303

A câmera se afasta um pouco mais, e agora tudo o que antes parecia um estúdio de cinema ou tevê, revela-se um cenário montado num palco de teatro. Podemos visualizar o ambiente do camarim dividido do primeiro ambiente cenografado como um estúdio por uma fina parede de tapume. Um voz em off ressoa. Essa menos descontraída, menos alegre e abobalhada, tenta reproduzir a entonação da retórica de credibilidade e seriedade jornalística empresarial, anunciando solenemente:

– Agora com a palavra, o CEO da NeoMythoSophics Enterprises Incorporation®

Detrás das cortinas dessa grande palco de teatro com cenário de um estúdio ao redor de um cenário em seu interior aparece um senhor de suéter e óculos de grau que vem caminhando em direção da câmera e falando com ela amigavelmente, tem uma das suas mãos no bolso da calça cáqui:

– Olá, sou Goetius Autobreu – ao que entra em cena uma criancinha de sexo feminino, provavelmente entre seis ou sete anos, segurando um sorvete de casquinha em suas mãos. O homem pausa um pouco sua fala, se abaixa, ajoelhando com apenas uma das suas pernas, como se fosse um cavaleiro medieval prestando reverência, e, na altura da garotinha, brinca um pouco com ela desarrumando seus cabelos e desferindo um carinhoso mini soquinho em seu queixinho. A menina, alegre, pacata e subserviente, oferece um pouco do sorvete. O homem aceita, ficando com a ponta do nariz suja depois de dar a sua lambida. Ambos riem um pouco. Bem artificialmente, mas com uma fotografia linda. Como numa propaganda de banco. Depois ele se levanta sacando um lenço de pano do bolso, limpando o nariz enquanto a garotinha sai de cena saltitando e retomando seu olhar e sua fala para a câmera, agora com uma réstia de sorriso humanizador pairando em sua face – vocês devem se lembrar de mim da série de artigos sobre vampirismo no mundo do trabalho chamado Monstros no Espelho, ou então de curtas intervenções poéticas ao ler quadrinhos em voz alta no ônibus, metrô e outras áreas públicas. Bem talvez não… é porque quase já não há áreas públicas (meu deus como estou velho).

– As transformações geradas pelo sistema político econômico vigente o tornam apto para o extremo do seu potencial destrutivo. Mendigos serão terceirizados. Vamos privatizar até a arte marginal. Haverá uma taxa sobre cantadas improvisadas, haverá multas para vomitar na rua, diabos, haverá um contador digital de flatulência implantado no ânus de cada cidadão para quantificar os custos de sua poluição atmosférica. Os carros, é claro, continuarão a ser comercializados de forma facilitada e progressivamente mais barata. Mesmo após a invenção do teletransporte de seres humanos, nós instalaremos nossas cápsulas teletransportadoras para encurtar a distância entre o escritório e a garagem do escritório, então dirigiremos sozinhos com nosso ar condicionado para casa, onde outra cápsula teletransportadora nos desintegrará na garagem de casa para nos reintegrar direto no quarto, de forma que não precisemos perder tempo com nossa família depois do expediente.

IMG_1765

– Enfim, estou aqui para dizer algumas palavras sobre o mercado editorial de quadrinhos. É sabido que a NMS™ dialoga com, estimula e promove abertamente o consumo de HQs de todo gênero, tipo, sorte ou estilo, desde os primórdios de sua fundação, em meados de 1876 em Massachussetts, OhioOregon Canadá USA, mas recentemente, nesses tempos de anti-crise global, quando o próprio presidente interino da República Federativa dos Golpes Brasileiros recomenda a população de seu país, em seu discurso de posse que – eu cito as suas palavras – “não pense” apenas “trabalhe”; observamos como tendência histórica e cultural uma adesão praticamente desesperada ao modo de vida capitalista em sua expressão mais servil, onde aspectos cada vez mais íntimos da vida são convertidos em modelos de negócio como a mordida de ouroboros, a metáfora mais manjada de todas, a esfera íntima sendo encontrada, engolida, fagocitada, devorada pela perspectiva privada.

– Bom, em um panorama como esse você pode achar que um empreendimento intelectual e científico como a NeoMythoSophicus United Coorporation© ou holístico e espiritual como A Igreja Plaunstecostal NeoMitoFílica da Adoração dos X-Mens do Passado Futuro dos Últimos Dias ou mesmo musical e artístico como A N&OMIT0ZÓFUZZ Entreteniment SupahParteeeey Exxxperience 2017 tenham algum tipo de vínculo com o mercado editorial de HQs no Brasil, que receba algum incentivo financeiro ou mesmo alguns exemplares como cortesia para apreciação e crítica ou mesmo que seu trabalho editorial seja por nós apreciado.

Nessa hora a câmera dá um zoom no narrador, que passa a ser enquadrado em plano americano que vai fechando lentamente ao longo das próximas falas até chegar num zoom extremo da sua face:

Venho por meio dessa mensagem anunciar que não. Salvo algumas exceções que serão citadas no final, em primeiro lugar, o grosso dos títulos de HQs publicadas no Brasil (pelo menos a maior parte em exposição nas bancas de jornal) é realização da Panini e sua contraparte Salvat, uma multinacional que produz a toque de caixa, imprimindo com mão de obra semiescrava chinesa e cujos funcionários no Brasil (explorados e sobrecarregados invariavelmente, quando não também semiescravizados pela moda da terceirização) mal conhecem o que estão produzindo. Uma supercompanhia multinacional marcada pelo amadorismo e tosquice em sua qualidade editorial. Os erros são tão extensos, crassos e vulgares que ao invés de citá-los brevemente aqui, apresentaremos cada um deles em uma série especial de reportagens sobre as maiores cagadas editoriais do mundo dos quadrinhos há muito vistas mas jamais comentadas, dissecando e ridicularizando a absurdice da incompetência e descaso editorial em nosso canal de youtube VÊ SE PUBLICA DIREITO ESSA PORRA, Ô CARALHO. Um oferecimento de um bando de canalhas preguiçosos mal pagos da Panini/Salvat Editorial.

rickmorty

IMG_1752

O close terminou bem fechado no rosto de nosso narrador, que conclui essas últimas palavras com uma expressão ligeiramente hostil no olhar. Corte. A câmera se reposiciona. Plano americano novamente. O homem está a frente do palco agora, caminhando pelo corredor entre os bancos da audiência vazia de uma grande teatro. Retomando seu tom amigável ele retoma seu discurso, agora com ares de quem vai se despedir.

– Aproveitamos então para elogiar os heróis da resistência do mercado editorial (genuinamente) brasileiro, todos os cartunistas que publicam de forma independente e em parceria Allan Sieber, Bruno Maron, Ricardo Coimbra, André Dahmer, Daniel Lafayette, Wagner Willian, Rafael Coutinho entre tantos mais; é claro uma reverência aos grandes mestres dinossauros (Laerte, Angeli, Adão, Marcatti) e sobretudo o sempre genial, primeiro e único, maestro editor de gibi faixa preta quarto Dan, Ota Assumpção. VIDA LONGA AO OTA!

Por fim, acenando para a câmera que se distancia mais e mais ele ainda brada mais uma vez, agora lá de baixo:

– Fique ligado! Continue vidrado! Até lá…

Câmeras movidas por drones são um barato, né? Agora ele é quase um pontinho lá embaixo, mas ainda é possível ouvir sua voz:

– Compre nossa linha de canecas e camisetas! Acesse nosso site…

Agora a câmera dá um fade out pra tela em branco. A logo marca NMS se materializa toda linda numa estética minimalista onde menos é mais e ao fundo ainda se pode escutar o narrador, agora bem baixinho, dizendo:

– Dabliudabliudabliupontoneomitosofiapontowordpresspontocom…

– Acesse e concorra a prêmios…

IMG_1714

Fim4real

1_9_2016

AS 7 fuçAs do dotô CÃo………………………(homo Canidae Santamarensis)

Posted in Imaginarium, Monstros no Espelho, novidades, produção NMS, Seres Prometéicos, Textos on maio 7, 2016 by ti

«Mas a linguagem tem seu próprio objetivo e razão de existir. Os parapsicólogos podem argumentar em favor da percepção extra-sensorial; psicólogos e neurologistas podem declarar que tal coisa não existe; mas aqueles que amam os livros e amam a linguagem sabem que a palavra escrita é realmente uma espécie de telepatia. Na maioria dos casos, o escritor faz seu trabalho em silêncio, expressando pensamentos em símbolos compostos de letras em grupos, separadas uma das outras por espaço em branco, e , na maioria das vezes, o leitor faz seu trabalho em silêncio, lendo os símbolos e reintegrando-os em pensamentos e imagem. Louis Zukofsky, o poeta (A, entre outros livros), defendia que até mesmo a aparência das palavras sobre a página – a abertura do parágrafo, a pontuação, o lugar da linha onde termina o parágrafo – tem sua própria história para contar. “A prosa”, dizia Zukofsky, “é poesia.”»

– Stephen King, Dança Macabra 

Contos da Crypta-HQ

Temos uma revista estilo Cripta do Terror nas mãos. O topo da capa abriga o título em caixa alta e fonte macabra. Junto à lombada, na borda esquerda, temos sete personagens, personas esquisitas, alter egos anfitriões, recebendo-nos e convidando-nos a mergulhar nas ideias adiante… Não serão exatamente contos, nem tampouco crônicas. Também não se tratam de tratados, artigos ou teses. Estão mais pra relatos, pedaços de registros de pensamentos que flutuam e orbitam ao redor de alguns estudiosos de temas obscuros em comum… Com vocês, AS SETE FUÇAS DO DOTÔ CÃO apresenta:

Um não tão aplicado estudante chamado Goetius, a luz das palavras de Tibérius N. discorre acerca da…

CICATRIZ HISTORIOGRÁFICA

Dotô, Doutor, douto: aquele que recebeu supremo grau em uma faculdade. Há muitas formas de se doutorar na vida. Se for homem, branco e de família abastada então, tudo fica bem mais fácil. Antigamente era só graduar-se em direito ou medicina, qualquer advogado ou homem formado era um doutor para a sociedade. Mas há a definição de doutor relacionada não apenas a uma patente de autoridade latente no homem formado, mas à sua competência no ofício de curar. Para o conhecimento civilizado, o douto é aquele imbuído das altas ciências e linguagens superiores, algo reconhecido por diplomas, trabalhos, graduações e dotoridades distintivas, mas para a sabedoria primieva, para os saberes selvagens, o doutor sempre será, antes de qualquer outra coisa, o curandeiro. E você chama de dotô, aquele em quem você reconhece a capacidade de te curar.

Nunca soube se aquele tal Tiberius N. tinha ou não doutorado, mas a julgar por seus hábitos parecia improvável que fosse qualquer tipo de curandeiro. Parecia mais do tipo pesquisador, investigador cabeção de coisas que fisgassem o seu interesse. Como uma criança velha obstinada por assuntos específicos, incansável até esgotá-los por completo. Filosofia, quadrinhos, filmes, desenhos animados, televisão, música… sua ideia de vida após a morte era responder um quiz épico sobre esses temas diretamente pra deus, diabo, o Incal, São Pedro, Jesus, Khrishna, Kali Durga, Exú, Ampú, Galactus, o Leão de Judá e o Lagarto Rei. Costumava ajudar com interpretação de documentos e fontes diversas. Era esse seu ofício, era isso que fazia. Ajudava a interpretar as coisas. Ajudava as pessoas a lerem melhor a intenção de determinados autores por trás das informações por eles registradas. Pelo menos era o que gostava de fazer. Quando eventualmente conseguia ser pago por isso, melhor. Costumava dizer que “O trabalho de texto científico nada mais é que emendar citações sobre citações ao redor de uma linha narrativa necessariamente atrelada à base teórica pré determinada.

BIBLEJOHN-11

E ainda que “A verdade é objetivo dos investigadores, mas sobretudo dos espíritos mais tenazes. A verdade é muito mais facilmente percebida do que bradada. A aceitação é inimiga da verdade. A verdade só encontra ambiente fértil para vingar, no exercício da procura. A agonia da dúvida é seu oxigênio, seu habitat natural. Será a verdade mais algo que se procura do que algo a se produzir? Nove em dez vezes ou mais, uma verdade oferecida como resposta ou dogma não passará de outra ilusão fugaz e vulgar. Uma ofensa à inteligência viva e esperta de quem a escuta.

arkwright

Nessa época eu lia Clive Barker pela primeira vez, e foi uma sincronicidade danada ele ter dito isso ao mesmo tempo que eu, sentado no fundão, cabeça baixa, tentando ignorar seus discursos e tentativas de evocar a atenção das pessoas ao meu redor, acabava de devorar a passagem da narrativa em que Kirsty, a donzela insegura e meio abobada que flertava com os prazeres do inferno se deparava com seu algoz, Frank, nesse diálogo sublime:

“- Isto não está acontecendo – murmurou para si própria, mas a coisa riu.

– Eu costumava dizer isso pra mim mesmo – ele falou – Todo santo dia. Costumava tentar sonhar pra espantar a agonia. Mas não é possível, acredite em mim. Não dá. A agonia tem que ser sentida.

Ela sabia que ele dizia a verdade, o tipo de verdade repugnante que somente os monstros têm liberdade para contar. Ele não tinha necessidade de lisonjear ou adular; não tinha filosofia para debater ou um sermão a dar. A horrível nudez era um tipo de sofisticação. Ele superara as mentiras da fé e adentrara reinos mais puros.”

– Clive Barker, Hellraiser

Não foi algo que ele disse, ou algo que eu li. Foi o momento de confluência. Foi escutar aquilo ao mesmo tempo em que tentava ler isso. Foi o choque que me fez fechar o livro e prestar atenção no cara…

Esse dotô Tiberius costumava defender a tese de que as ideias são seres vivos. Que habitam as mentes, sorvendo delas a energia para seu sustento. Depois de ouvi-lo falar por um tempo, as ideias que passavam a te acompanhar… ficava difícil saber se eram suas ou dele… Mas ele era enfático ao afirmar: “Ideias não são de ninguém! Quanta arrogância pensar que “teve” uma ideia. As pessoas são acessadas por ideias. Não se possui uma ideia assim. Não deveria se possuir nada assim! Pelo menos não seres vivos…”.

Difícil suspender a húbris intelectual pra admitir-se como pouco mais que um cavalo espiritual pra ideias que vem e vão da tua cabeça ao seu bel prazer… Mas não se trata só disso, não é? A monstruosidade de certas verdades é descortinar os horrores e atrocidades da história. É mostrar onde as coisas foram (em muitos casos ainda são) mutiladas, distorcidas; e quais são as sequelas. Esse dotô Tiberius desenvolveu com mais uns parceiros cientistas loucos estudos que tratam desse tema, chamaram de Abnormal Brains, uma série de artigos sobre os assim chamados Seres Prometéicos, mas outros títulos foram trazidos à vida para denunciar a maneira como, pela perversão da techne pra se criar egrégoras, as ideias podiam ser corrompidas. O mito do prometeu foi multiplicado em infinitas reencarnações, pra frente e pra trás no tempo, desde Osíris até o Incrível Hulk e em todas elas, faz parte fundamental da narrativa, além da conquista do fogo divino (representação do molde e fundição da realidade segundo a luz da razão e o calor da vontade) e a vitória sobre a morte, um eterno suplício, o sofrimento acerca de sua própria natureza monstruosa. Continuar curando a si próprio só pra ser devorado por abutres, vermes, baratas novamente, no ciclo sem fim de pós-vida e não-morte. O caminho desviante da pós-humanidade. A outra alternativa afora o final feliz.

ArkwrightIconoclast

Quando aplicado em uma persona individual, temos uma narrativa apaixonante de monstruosidade, quando aplicada a um modelo de sociedade, temos o projeto artificial vigente de modernidade contemporânea.

Agne Tijuca comenta sobre seu velho conhecido Tican:

Abnormal Brains meets Mirror Monsters

Eu tava conversando a toa com ele. Falávamos bobagens de como a era da internet trouxe mais informação para as pessoas ou acabava por aliená-las ainda mais. Dilema já clássico em mesa de bar. Lembrou-me que, quando menina nos anos 80, era muito comum as pessoas confundirem Drácula com vampiro. Dizendo coisas como “Aí o mocinho foi mordido e se transformou num Drácula”. Nossa, como isso me irritava! Ele comentava que hoje em dia era difícil ver alguém cometendo esse tipo de erro. Camadas e mais camadas de mercadorias de vampiros e/ou do Drácula já se acumularam na vivência de seus imaginários o bastante para que já saibam distinguir uma coisa da outra. Mas depois, anos mais tarde, percebi que também fazia isso com relação à Medusa, que era apenas o nome de uma das três irmãs com serpentes no lugar dos cabelos e cujo olhar petrificava todos aqueles que as encarasse. Górgones. Havia também Esteno e Euríale. E vai saber quantas mais hoje em dia…

bprd1947_3

99% de toda lenda é puro exagero” – um general de Drácula em

FEAR ITSELF: HULK VS DRACULA #2 (Novembro 2011)

Tican riu. Não era nem pretendia ser doutor de porra nenhuma, pelo contrário, pra ele quanto menos erudição melhor, uma vez que quanto mais erudição mais trabalho e evitar todo e qualquer esforço era seu objetivo máximo. Todavia acompanhava essas rodas de debate e discussão a qual chamavam por aí de neomitosofia. Ele gostava principalmente por causa dos gibis, primeiro pra apanhar alguns emprestados pra ler, e depois pra conversar sobre… Tican, não fazia alarde das ideias que balizava, mas fumando um cigarro no corredor era capaz de apontar ângulos bem inusitados para analisar velhos temas. Numa tarde preguiçosa assuntava assim “Outra coisa comum é confundir o registro das ideias com as ideias em si. Há muitas ideias que podem ser acessadas com determinadas combinações de palavras. Como chaves, selos, sigilos, como encantamentos de evocação e conjuração de ideias, mas que por si mesmos, não possuem mais do que o valor artístico, ínfimo e supremo que toda obra de arte tem. Veja por exemplo o Frankenstein:”

Recuperava o fôlego, fazia um triângulo de pele com o franzir da testa, e você já sabia por aquele olhar que ele ia longe.

“Frankenstein contém os horrores da primeira infância e seus longos prelúdios. Trata de como experiências de vidas pequenas e recém formadas influenciam os hábitos de toda uma rede cultural ao redor, e de como alegoricamente podemos pensar esse choque entre modernidade e contemporaneidade. Quer dizer, considerando nossa crença e fé cega no fenômeno de emancipação racional prometido, quase como um milagre democratizado pela modernidade, encaramos em nossas mãos trêmulas de ópio e estimulantes a habilidade e potencial de ressurreição instrumental, mas usar pedaços de ladrões e estupradores enforcados fará o que pela criatura? Se aquelas são suas mãos, pernas, corpo – entre uma e outra sutura – então como esperar que sua alma seja pura? Os corpos carregam sua história na pele. Na carne. Cada remendo uma narrativa, metáfora metalinguística da união entre o que foi, o que é e o que será. Do ponto de vista do apanhado de acontecimentos gerais que chamamos de história, essa neomitosofia serve pra nos fazer indagar que tipo de novo mundo bravio pode ser construído a partir dos horrores e atrocidades dos antigos impérios? Mesmo que esses estejam apodrecendo vivos, eternamente devorados e devoradores de sua condição monstruosa, ou ainda que sejam reduzidos a pedaços, desmembrado como os vampiros devem ser, para que sua sepultura possa descansar em paz.”

Hecate ia passando e Tican me deixava pensando.

O monstro vive, sim. Mas talvez a pergunta seja quantos monstros viveram para que esse se formasse? E quantos mais viverão só como consequência da sua existência? E lógico o grande dilema budista. A subversão da samsara. Como quebrar a lógica da repetição? Que transformações são necessárias?

Essa foi a indagação que Tican plantou na minha mente. Hoje eu olho pras práticas e costumes próprios da nossa sociedade e percebo o anacronismo da sua condição. Ainda sob efeito da colonização. Ainda sob ameaça da escravidão. Uma ameaça aprimorada até a invisibilidade. Onde a vergonha e indignidade da vítima é tamanha, que ela já não admitiria sua condição de escravizada, pelo contrário, imbuir-se-ia de violência e soberba para proteger os interesses e imagem de seu dominador, como se esse fosse seu deus.

Vampire_Children Ubud, Floresta dos Macacos, Bali, Indonesia.

Vampire_Children Ubud, Floresta dos Macacos, Bali, Indonesia.

E quando Tican fala de “ideias que podem ser acessadas com determinadas combinações de palavras. Como chaves, selos, sigilos, como encantamentos de evocação e conjuração de ideias” ele está dizendo que esses encantamentos e conjurações não estão limitados a ritualística de estética mística que estamos acostumados a ver nas ficções de suspense, mas em ritos do cotidiano. Acostumar a repetir certas ações. Acostumar às sensações que essas ações repetidas geram em nossos corpos, à forma como essa produção emocional se propaga para as pessoas que convivem ao nosso redor. Criando uma cadeia de repetições. Uma cadeia invisível. A grande fazenda humana que é a civilização do trabalho. A exploração parasítica como cerne vital da nossa sociabilidade. Vivendo como gado. Marcados e felizes, como disse o poeta. Dominados e apaixonados. Amantes da própria dominação.

“Obedecer é morrer. Cada instante em que o homem se submete a uma vontade estranha é um instante que na sua própria vida ele elimina.
Quando um indivíduo se vê constrangido a efetuar um ato contrário ao seu desejo ou impedido de agir de acordo com a sua necessidade, deixa assim de viver a sua vida pessoal; ao mesmo tempo que o homem que dá ordens aumenta a sua dominação da vida, sugada à energia dos que se lhe submetem, aquele que obedece aniquila-se, vê-se absorvido por uma personalidade que lhe é estranha, passando a ser apenas força mecânica, ferramenta ao serviço de um dono.
Quando se trata da autoridade exercida por um homem sobre outros homens, por um soberano despótico sobre os súditos, por um patrão sobre os empregados, por um senhor sobre os criados, imediatamente se percebe que esta personalidade emprega a vida dos que lhe estão submetidos para dar satisfação aos seus prazeres, às suas necessidades ou aos seus interesses; ou seja, para melhorar e ampliar a sua vida pessoal em prejuízo da deles.

Aquilo que em geral não se percebe tão facilmente é a nefasta influência, em tudo isto, das autoridades de ordem abstrata: as idéias, os mitos religiosos ou de outro gênero, os costumes, etc. E no entanto todas as manifestações exteriores de autoridade têm origem numa autoridade mental. Nenhuma autoridade material, seja ela a das leis ou a dos indivíduos, contém atualmente força e razão em si. Nenhuma se exerce realmente por si mesma, todas se baseiam em ideias.”

– Alexandra David-Néel

Screen Shot 2014-04-18 at 3.44.39 PM.png

Os vampiros existem, é a primeira verdade que te faz arrepiar a nuca e dormir um sono agitado. Os vampiros governam, é a segunda verdade que te priva de todo sono e sossego e transforma sua consciência da sociedade em lampejos de ojeriza, asco e terror. A partir daí é entender os vampiros. Observar como funcionam. Como operam. A diversidade de sua cultura. A complexidade de seu projeto. E sabotá-los. Bom, é isso ou sucumbir ao seu poder de encantar e transformar todos seus amantes em putas.

a-beautiful-father-son-moment

Não há diálogo aqui senão de um homem solitário com as vozes em sua cabeça. É chamado Tibes pelos amigos, dos quais se vê cada vez mais distante. Procura registrar, escrevendo avidamente em cadernos e mais cadernos, tudo o que descobrira sobre o império dos vampiros nas comunidades humanas. A forma como o contágio se transmite por pouco mais que um olhar e algumas palavras. No canto do quarto, escuta a respiração da sua mulher e filha. Só quer prepará-las para o pior. Garantir que saibam identificar o opressor oculto a primeira vista. Evitá-lo no geral, erradicá-lo da face da terra quando for oportuno e sabotar seus planos sempre que possível. Mas sobretudo descolonizar-se, para resistir a sua influência nefasta e permanente. Tibes escreve sobre…

AS TENAZES DA LINGUAGEM

William-S.-Burroughs-language virus

A linguagem é um vírus vindo do espaço

Esse código mágiko pra vetorizar pensamentos e emoções. A comunicação de ideias é muito mais do que simplesmente “comunicação de ideias”. Há transmissão de estados emocionais, vivenciados pela experiência da identificação. A chave para uma identificação efetiva é uma boa narrativa. E toda linguagem é parte de alguma narrativa.

“Três cara simples gostavam mais de ouvir e aprender até que fatalidades com certeza e é o seguinte sempre assim, maquiavelic maldade se percebe aqui cuidado é falsidade estopim dois mil grau é ser sobrevivente E nunca ser fã de canalha a luta nunca vale a experiência é Santo Amaro a Pirituba o pobre sofre, mas vive a chave é ter sempre resposta àquele que infringe a lei na blitz pobre tratado como um cafajeste nem sempre polícia aqui respeita alguém em casa invade dá soco ou fala baixo ou você sabe, maldade: uma mentira deles dez verdades.” – Sabotage, Um Bom Lugar

Há palavras capazes de gerar certos sentimentos e influenciar os comportamentos. Há palavras que geram reações imediatas. Há outras que ficam maturando na bile do ressentimento. Podemos estar inclinados a achar que isso depende apenas da personalidade de quem protagoniza o contato com as palavras, cabendo ao sujeito a autoridade ou autonomia para deixar-se abalar ou permitir-se ignorar as tais certas palavras. Mas não. Não só, pelo menos. As próprias palavras possuem seu poder. Sua força. Sua energia inerente. E vibram com efêmera radioatividade dentro dos corpos que as geram ou que as recebem.

Primeira regra da liderança: Se você não pode ganhar suas mentes, então ganhe seus corações.” – Samuel Sterns, vulgo Líder, ensinado os fundamentos da publicidade de Ed Bernays para crianças no episódio Future Shock (6º da 2ª temporada) na série de desenho animado HULK and the Agents of S.M.A.S.H.

Há pessoas que sabem fazer e ganhar muito dinheiro antevendo tendências e manipulando o consumo em massa devido ao uso aplicado da linguagem, através da construção de uma narrativa com grande poder de engajamento. A identificação emocional está sempre no cerne desse tipo de empreitada. Como um literal coração, músculo pulsante que confere força e faz circular o sistema vivo dessa linguagem. Exemplos incluem propaganda publicitária, patriotismo e outros discursos que transmitem o desejo de inserção em determinado grupo ou sociedade ou ainda a sensação de conforto com o estabelecimento de certos padrões de poder, tais como a meritocracia, a hierarquia, a fé religiosa. Todo o discurso que reforce a naturalização dessas narrativas encontrará maior facilidade de aderência, conferindo empuxo para que as ideias sob essas narrativas permaneçam em movimento e exercendo influência sobre as identidades.

11350671_1043432569041265_538405930_n

Em praticamente toda ação da vida diária, tanto nas esferas da política ou dos negócios, em nossa conduta social ou nosso pensamento ético, somos dominados por um número relativamente pequenos de pessoas. Aqueles que puxam os fios com o controle da mente pública.” – Edward Bernays, um puto que merece ser estudado. https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Bernays Em outra passagem ele diz: “Se entendermos a mecânica e os motivos da mentalidade de grupo, será possível controlar e regimentar as massas de acordo com nossa vontade, sem que tomem consciência disso.” – Interessante como ele muda sua associação de uma citação para a outra. Na primeira nós somos a massa dominada, na segunda nós somos os poucos controladores ocultos. Típico de alguém que aplicaria os preceitos da psicologia na publicidade e propaganda, mudando de lado segundo os sabores do vento. Os ventos dos negócios, por assim dizer http://www.activistpost.com/2015/09/the-american-dream-brought-to-you-by-edward-bernays.html. Ed Bernays será importante para fazer-nos entender como fundamenta-se o casamento entes os conceitos do simulacro e do cancro. Essenciais para nossos estudos anti-vampíricos: https://dewthedawn.com/2014/12/16/edward-bernays-and-mass-delusion/.

articulando na transilvania

Controla a língua, porque nela estão os maiores estragos da vida humana.” – o cão Cipião em O Colóquio dos Cachorros de Miguel de Cervantes (1613).

Há também a linguagem bruta da força. A linguagem da violência. Falar alto. Dar um cala a boca. Que pode estar associado à indignação – dar um basta – ou à autoridade (você sabe com quem está falando [meu bem]?). A autoridade oficial expressa já na sua imagem essa linguagem. Um rato fardado não precisa perguntar “você sabe com quem está falando?!”, a farda fala por si, [& com a identificação escondida no bolso ele provavelmente prefere que seu interlocutor nem saiba com quem está “falando”]. A oficialidade encurta as etapas de comunicação na linguagem da violência. A hierarquia naturaliza essa oficialização. Deixa de existir o humano com quem eu posso me identificar enquanto humano e surge o outro, aquela entidade (in)coorporativa do discurso oficial. Nada pessoal, eu só trabalho aqui. Ordens são ordens. Você tem que aceitar o deus pai. Está comprovado, é científico!

jodo

“He who covers his mouth, covers his life. God give you two ears and one mouth. You talk less and listen more. Cover your mouth!”

Há de se ter uma preocupação com a linguagem. A linguagem também tem o poder de comprometer um sujeito no tempo e no espaço. A deusa natureza te fez com 2 olhos, 2 orelhas, 2 narinas, mas só 1 boca. Veja muito. Ouça muito. Perceba muito. Fale pouco. O sábio tem fala curta. O tolo tem boca solta. As palavras podem conduzir e também marcar. Todo vício, todo mal, está fadado à repetição. A condição cíclica de tudo. O jeitinho especial do universo tentar ensinar pro espírito errado machucado como se endireitar aprumar. Todo vampiro é secular e imortal porque toda sensação de perfídia traz no cerne da sua dor a eternidade. Toda dor que não é banal, é eterna. Por isso o vampiro é ao mesmo tempo um eterno sofredor e um eterno filho da puta. Outra ideia também recorrente nesses manuscritos, a contaminação vampírica é uma representação eficaz do poder transformador e corruptor da linguagem. Observem que o poder E o ponto fraco do vampiro clássico está em sua boca. A vampirização é uma perversão da amamentação: alimentar a sua prole com o fruto do seu corpo, e assim criar um vínculo com ela, um laço tão poderoso que sobrepuja a vontade do mestre sobre a da sua cria. Agora pense nesse fruto como uma ideia, envolvida num tipo de narrativa. Tive a impressão de que Guillermo DelToro e Chuck Hogan se basearam bastante na antiga revista da Marvel, A Tumba do Drácula, sumo do gótico americano em plena dinastia hippie, quando resolveram bolar a trilogia THE STRAIN (levando o conceito de dominação vampírica universal para o patamar epidêmico). Em THE TOMB OF DRACULA #8 (maio/1973) Marv Wolfman conduz uma trama lindamente ilustrada por Gene Colan e Ernie Chua, na qual vemos o anacrônico, mesquinho, um tanto covarde e misógino Conde Drácula perseguindo o artefato tecnológico chamado apenas de “PROJETOR” e que tem a aparência mais ou menos idêntica a de um projetor de cinema comum já pra depois da metade do século XX. Temos aí um Drácula deslumbrado com as possibilidades que esse projetor poderá propiciar-lhe quando combinado aos seus próprios poderes de dominação. Abraçando o artefato e rindo histericamente, o lorde vampiresco, como manda o dogma-clichê, explica seu plano bradando-o alto: “Percebeu, enfim, o escopo do meu plano? Criar todos os soldados de que preciso normalmente levaria anos… mas com o projetor, poderei fazer essa noite, aqui, no cemitério…” – vai pensando que a indústria cultural é só besteirol inofensivo… Tem muitas camadas narrativas operando, mesmo nas banalidades mais vulgares da tv e da revista. É necessário interpretar direitinho issaê…

Vampire-grave

“Me digue me explique direito é bem melhor assim, man… Vou questionar os demais operacionais itens” – Noticiário Estéreo, Sombra do álbum Fantástico Mundo Popular (2013).

Vamos então saltar das páginas de um gibi pra outro, temos alguns pontos em comum buscando sinal pra ligação: vamps, projetores e um plano de dominação mundial. Usemos nossa maçaneta mágica e o giz encantado pra abrir uma porta que nos transporte até INESCRITO em Jud Süss Parte 1: O Mentiroso, no qual Mike Carey & Peter Gross generosamente ensinam como opera o conceito do cancro. As personagens Tom Taylor, o mago, Richie Savoy, o jornalista e Lizzie Hexam, uma genial estudante de literatura, veem-se aportados na Stuttgart de 1940, ocupada (na verdade infestada por todos os cantos) pelos nazistas.

1123659-10

Flanando entre as incongruências da materialidade, o trio de protagonistas se depara com ninguém menos que Josef Goebbels, o famigerado ministro da propaganda de Hitler, que apresenta para uma plateia de nazistas o filme Jud Süss, dizendo assim:

E esse é o Jud Süss. O nosso Jud Süss. Comentários?” – ao que algum nazi da plateia rasga a seda para a produção, sentindo seu anti-semitismo totalmente contemplado pela obra cinematográfica que acabara de testemunhar, dizendo todo afetado de poder: “Isso… Eu não teria acreditado, Herr Reichsminister. Levando em conta a origem… Esse filme é uma obra-prima da era moderna! Cada cidadão e cada soldado da Alemanha deviam assistir.” – a origem mencionada pelo anônimo nazista será explicada melhor nos próximos comentários, e mais adiante, pelas próprias personagens, quando Lizzie Hexan, como se diz por aí, colocar os pingos nos is explicando-nos tudo tim tim por tim tim. Ainda assim, vamos por partes: Virando a página, temos na mesma cena, outro nazi, esse menos entusiasmado e mais amedrontado, compartilhando com o ministro seu receio: “Mas… as pessoas não vão se lembrar do romance? No romance a religião do judeu é o que o salva.” Ao que herr Goebbels justifica prontamente: “E quantas pessoas da nossa plateia leem ficção literária densa? Eu mesmo respondo: Uma em cada mil. O alcance do cinema é maior do que qualquer romance. E, enquanto as pessoas assistem às belas imagens, absorvem a moral da história.”. Indigesto, né? Mas Mike Carey não vai facilitar nem um pouco pro seu leitor em O Inescrito, e nessa altura da saga ele está só começando. O próprio Goebbels apontando para o pôster de Jud Süss, para a imagem que se tornaria um dos maiores ícones do anti-semitismo, explica placidamente, com a calma hipócrita que só um torturador pode ter: “A nova Alemanha precisa de novos mitos. Novos monstros. Não gigantes e dragões, mas representações pungentes das ameaças reais que nosso reich enfrenta.”. Tenso. Tão atual. É evidente que o cancro como técnica narrativa para finalidade de controle dos imaginários, foi utilizada com eficiência germânica pelos nazistas, mas nos tramites entre Aliados e Eixo (todos sabemos que a relação foi bem mais amigável do que os filmes e gibis de herói costumam contar), Estados Unidos da América não só absorveram e apropriaram-se dessa técnica, como aperfeiçoaram-na a um extremo inimaginável fundando com Hollywood a Meca do controle e domínio mental por meio de imagens projetadas e traumas pontualmente ministrados e alimentados. De toda forma, o ministro da propaganda e avô da publicidade explica o poder da sua obra ao que Tom Taylor aponta para o livro original Jud Süss que repousa emblematicamente sobre a lata do rolo de filme da sua adaptação perversa: “O livro, você diz? Foi o material que usamos para nos inspirar. Um romance escrito por um dissidente judeu que fugiu para os estados unidos. Fizemos certas mudanças, claro. No romance, um judeu mundano serve a um nobre corrupto. Assim ganha fortuna e poder, e usa-os de maneira implacável. Mas quando tem a filha assassinada, se arrepende e descobre uma verdade mais espiritual. Esse aspecto da história não me interessa.” Em algum momento do diálogo, o ferino jornalista Richie Savoy ainda indaga a Goebbels se ele “acredita nessa merda ou só tenta vender essa ideia?”, mas a resposta do nazista é implacável: “Acredito que outros devem acreditar. Crenças são coleiras às quais podemos prender as correias.”. Agora procure indagar-se e investigar: Quais são as crenças predominantes da sociedade em que habita? E quem as controla?

13083212_1066734350031395_4858389757902917754_n

Mais adiante, outro assassinato depois, na próxima edição intitulada Jud Süss Parte 2: O Cancro, finalmente Lizzie Hexan mata a charada e elucida de forma direta e simples do que se trata o tal terrível fenômeno. Savoy ainda não se deu conta da importância que o imaginário ficcional representa para a realidade como um todo (mesmo estando dentro de um livro que está dentro de uma HQ!), então inquire: “O que tem de tão especial a respeito de Jud Süss?” permitindo a Lizzie nos educar sobre algo que pode ser identificado claramente em 9 de cada 10 filmes produzidos por Hollywood, seja adaptação ou obra original, pois que o proprio modus operandi da relação entre produção, roteiro, casting e direção, no meio cinematográfico, já inclui a perversão da distorção em seu cerne mais cotidiano… enfim, ela vai direto ao ponto respondendo que “Goebbels virou o filme do avesso.Transformou-o no próprio oposto. Foi um romance escrito por um judeu da perspectiva de um judeu. E se transformou no filme mais anti-semita de todos os tempos. Pense bem. É um cancro. Se você tortura uma história, ela se transforma em um cancro.” – Carey & Gross, O Inescrito #11 (Maio/2010).

11889563_390751771117284_2581203882316272701_n

Quando pensamos ou vemos o símbolo da Suástica, sempre associamos ao Nazismo. Porém, a Suástica tem origem de pelo menos 5 mil anos a. C., utilizados por diferentes povos e contendo diferentes significados. A palavra Suástica, deriva fo Sânscrito, “Svastika”; ou seja,”AQUILO QUE TRAZ SORTE”. Para termos uma ideia mais clara, o Suástica ou “cruz gamada”, tem diferente significado; se estiver virado para o sentido horário, tem significado de atrair forças de destruição (O sentido da Suástica usada pelo Nazismo), aliás Hitler, sempre teve atração pelo ocultismo e magia, e acreditava que queria atrair a destruição de seus opositores e atração e magnetismo pessoal. Virada para o sentido horário; atração das forcas energias do bem e também uma referência ao deus sol. A Suástica foi usada por exemplo: Mesopotâmia, se cunhava moeda com o símbolo, há 3 mil anos a.C., no tempo dos primeiros cristãos, pelo povos Maias e até por Índios da America do Norte, os Navajos. OBS: O Nazismo utilizada a Suástica, através da Cabala que evocava o elemento terra, o MALCHUT, em números, era representada pelo 666, o nunero da besta. Na foto fica evidenciado o sentido anti horario.

Isso catalisa as possibilidades de agressão por mal-entendimento e ignorância. Isso prolifera hábitos e entendimentos de maneira epidêmica. Isso colabora para que os paradigmas, as visões de mundo que cada um tem, tendam para uma homogeneização. E isso fundamenta as bases das hegemonias político-econômicas vigentes. O substrato da cultura massificada. Provocará a pichação situ: “A CULTURA? Mas essa é a mercadoria ideal, que obriga a comprar todas as outras. Não é estranho que você queira oferecê-la a todos…”; contraponha essa interpretação a definição do mesmo conceito “A Cultura, aquilo que é próprio, entendido como o que nos distingue e singulariza diante de outras culturas.” – Villoro, Luis. Aproximaciones a uma ética de la cultura. Revista Casa Del Tiempo, n.94, março-abril de 1990, PP. 3-14.

barnabasdark6f-1-web

O criquilhar da crítica. O que mais faz infeliz, dizer da ação Ou dizer da pessoa? Palavras que caracterizem alguém são um forma horrível de violência. A maldição. Transformar a pessoa “naquilo”. Como Barnabás Collins, um vampiro contaminado não por mordida, mas por sortilégio de uma bruxa invejosa. Ou mesmo Drácula, o vlad Tepesh de Stoker, que vampirizou-se amaldiçoando a si mesmo (usando deus como interlocutor). E assim também foi, dizem, com os primeiros lobisomens. Homens marcados por praga de feiticeira ou de padre devido à sua animosidade e assim condenados a vagar como animais. E não esquecemo-nos de citar Cain, o maldito original. Foi com dizeres e um símbolo grafado na testa que deus o condenou… Palavras contribuem para a realidade. Fazem-na acontecer. Palavras são oscilações no longo ritmo de Maya, o mundo-ilusão.

drac7

“O passado não acabou. Nem sequer é passado.” – William Faulkner

E tudo que é proferido ecoa nas espirais da existência. DESDIGA! Desdiga já o que disse de mim! Mas não há de verdade essa coisa de “retiro o que eu disse” ou de “não está mais aqui quem falou” (exceto quando literalmente quem falou já não está lá). Entre 4 paredes, o inferno de OZMO é estar permanentemente sob a ótica de alguém, sendo “aquilo” pra sempre. Então talvez o paraíso seja estar sempre entre gente diferente, ou poder estar só; e poder mudar e ser outra coisa. Poder ser melhor. Ser diferente. Mas toda essa paranoia cristã de céuzão e inferninhos depende da auto-permissão, a sensação de merecimento. Um psicótico lúcido e consciente como Ozmo jamais iria prum paraíso. Ele, mesmo não sendo cristão, nem judeu, nem islâmico, nem temente a deus ou fantasma nenhum, sabe que não merece porque conhece o sofrimento que causou. Céu e inferno não tem tanto a ver com a autoridade de um deus quanto com autocrítica. Pensar no inferno de Ozmo me diz que esse tipo místico e transcendental de sofrimento depende de uma memória perfeita. Uma permanente restauração plena de todas as lembranças. Ou melhor ainda, a total privação do esquecimento.

DSCF7494Osmo - 13 03 2015 - Campinas showscampinas

O passado é um cachorro morto. Você precisa deixá-lo na sarjeta com as folhas molhadas, as camisinhas usadas e o lixo. Vá embora. Não olhe pra trás. Assim não poderá vê-lo caminhando atrás de você.” – Rapunzel em As Mais Belas Fábulas #2 – O Reino Oculto, por Lauren Beukes, Bill Willingham, Inaki Miranda e Barry Kitson

O esquecimento é a morte dos fantasmas. É a extinção do efêmero. O oblívio é o alívio da existência. O momento vazio depois de um longo último expirar. Promessa e prenúncio do nada. Sozinho só descansar.

“Você acredita que o passado pode voltar?

– Mais do que isso. Ele nunca nos deixa. É o que somos.”

Penny Dreadfull – diálogo entre Ethan Chandler e Vanessa Ives no 1º episódio da 2ª temporada Fresh Hell.

As palavras erguem os mortos então. Traz de volta coisas perdidas nonada. As palavras certas proferida de maneira correta podem fatiar nuvens, trazer pra órbita um cometa, ressuscitar os mortos e curar os vivos. Pode transformar substâncias e energias fluídicas, pode dobrar as forças da natureza. Como ter essa certeza? Por todas as vezes em que já testemunhou o contrário. Todas as vezes em que a palavra errada dita da maneira tão errada arruína tudo ao redor, gera medos, vícios e traumas, faz transbordar lama, chover lixo e cultivar veneno. Palavras erradas imperdoáveis. A infâmia. Ódio e desprezo profundo por si. Então repetir qualquer bobagem que escutou por aí. Só pra preencher a calma opressora do silêncio. Aquele estupro particularmente covarde em que se intoxica a consciência de alguém para lhe abusar, aplicada não a uma vítima de carne e osso, mas à noção de verdade e a subsequente construção de uma “realidade comum”. Dois conceitos são necessários à formulação desse debate: o simulacro e o cancro. Ou talvez só seja importante notar como estão envolvidos.

“Eles estão fazendo um fetiche.

– Que é?

– Uma boneca de vodu. Provavelmente. As Necromantes valorizam o simulacro, as coisas que tomam a aparência de outras coisas. Então é mais fácil de enfeitiçá-las” – Vanessa Ives em Penny Dreadfull Episódio 5 da 2ª Temporada – Above the Vaulted Sky

Corte pra outra cena.

Papa Breu, um professor mal pago e maltrapilho, tirado de bêbado, viciado, hippie e vagabundo, tira as cartas de tarô para uma sala de aula. Uma situação totalmente incomum e inusitada, mas que, a despeito de sua anomalia contextual, realiza-se em relativa tranquilidade. É hora de invocar demônios interiores, evocar deuses anteriores, atiçar as curiosidades inferiores e provocar as certezas posteriores. Isto posto, prestemos atenção a aula que será dada hoje na…

PEDAGOGIA ORACULAR

2015 foi marcado como um ano de turbulento conflito entre gestão do governo do estado e unidades escolares do setor público de ensino. Um projeto agressivo de desmonte e sucateamento planejado intitulou-se “reorganização”; e em resposta um imenso levante insurrecional emergiu em centenas de ocupações do espaço escolar, o que forçou uma espécie de reorganização espontânea de verdade. Hoje, em 2016, os professores veem-se obrigados (do ponto de vista do senso de dever moral/ético) a transformar sua metodologia, o que significa democratizar não só o espaço físico escolar, mas o espaço de ensino, aceitar o protagonismo do outro envolve reinventar seus parâmetros pedagógicos com cada estudante, a cada relação. Respeitar o outro em seu tempo, cativá-lo no seu interesse, ajudá-lo a aprimorar-se como puder.

The-Book-of-Vishanti

Esse Papa Breu, ou dotô Breu, vinha com um chapelão de lona tipo de pescador, todo molhado da chuva encardida de sp, tinha barba e bigodão vasto já branqueado pelo cansaço, principalmente nos cavanhaques, de base larga e longa encrespando a ponta do queixo, vestia uma camisa frouxa e toda amarrotada, bem desabotoada nas golas, por onde se viam as guias e colares de contas e tiras de couro pra amuletos e pedaços de tatuagens escapando nas peles daqui nos peitos ou de lá nos braços, usava calças largas e vestia sandálias de couro. Seus dedos eram repletos de anéis. De dentro de uma bolsa pequena e simples que levava a tira colo, retirou um embrulho de pano de couro, um retalho pouco menor que uma toalha, com um furo e algumas runas inscritas, em seu interior estava um saquinho de papel com um maço de baralho dentro de uma caixinha de papelão e alguns objetos sortidos, tais como miniaturas de metal, bolas de gude, botons, um relógio de bolso, uma caixa de fósforo e um pequeno caderninho. Um livrinho das sombras. Dispôs tudo sobre a mesa e apanhou o baralho, que era um baralho normal, dos mais comuns feitos pra jogar canastra, truco, buraco, pôquer, dizendo aos estudantes estupefatos pela entrada estilo intervenção mística do professor esquisitão:

– Normalmente eu cobro pra fazer isso. 77 reais. É simbólico. Não posso ler o tarô sem ser pago por isso, se não, a leitura não acontece… Mas estou em dívida com vocês, então vou presenteá-los com meu segundo ofício oferecendo-lhes uma consulta como cortesia. Digamos um pequeno presente sortilégico pela deliciosa surra política que deram no governador ano passado. Espero que gostem.

Então começou a abrir as cartas.

O jogo constituía-se em virar três séries de três cartas e então interpretar os resultados:

4 de paus, 4 de espadas, 9 de copas.

Depois ás de copas, 5 de ouros, 9 de paus.

E então valete de ouro, 2 de copas e 9 de espadas.

– Algumas cartas possuem significado mais evidente e específico, tal qual o arcano maior do tarô de Marselha, outras serão interpretadas só pelo número e naipe, segundo seus significados simbólicos. Paus representa a madeira que cresce da terra, a natureza. Sua presença sugere criatividade e imaginação. A espada é a representação da mente humana. Sua capacidade mental de transformar o mundo a sua volta e impor sua vontade. O 9 de copas é carta arcana, a primeira do baralho vira-lata do Papa Breu, chamada O Cavaleiro, relacionada a realização ou promoção de projetos pessoais, considerada uma carta muito positiva. Essa primeira trinca era fabulosa porque realmente encaixava com a situação de tirar esse jogo para uma uma turma inteira em seu primeiro dia de aula, considerar isso e que a última carta da primeira trinca é a de número 1, torna tudo mágiko, sincrônico e especial, mas sem alarde, retomemos a interpretação das cartas…

Deu um gole na garrafinha de água ao seu lado na mesa e retomou a consulta:

– O ás de copas é uma perspectiva feminina direcionado aos homens, pra que exercitassem um espelho do gênero, pra se identificarem com suas companheiras enquanto seres humanos, pelo que possuem em comum mais do que por suas diferenças. Seguido de um 5 de ouros que indica uma medíocre estabilidade financeira, e concluída essa segunda trinca em outra carta arcana, a décima quarta, cujo nome é A Raposa, uma carta que é ao mesmo tempo positiva e negativa, uma carta de CAUTELA que adverte à esperteza, a mentira e a falta de escrúpulos.

Todos se entreolharam, uma certa tensão se formou na sala de aula… Breu prosseguiu:

– Concluímos com uma trinca invocadíssima, dois arcanos nas pontas e o 2 de copas no meio. A primeira é uma carta negativa (são raras no baralho), a décima, chamada A Foice. Representa a ceifa, um rompimento, um fim. Abrir mão de algo. As copas estão relacionadas a vida afetiva, a face emocional das coisas – que é onde acontecerá efetivamente a perda dessa turma de estudantes, pois que são do terceiro termo do ensino de jovens e adultos, ou seja, em vias de se formar ao fim do primeiro semestre.

Essa interpretação clara e nítida como relâmpagos numa tempestade elétrica ainda amarrou-se perfeitamente na última carta da última trinca, a qual o professor de história vodu explicava dizendo assim:

– Outra arcana, a trigésima quinta do baralho, de nome A Âncora, que representa segurança, estabilidade tanto financeira quanto emocional, assegurada por vias do desenvolvimento da crença pessoal, da fé em si próprio. Um ano positivo foi previsto pelo oráculo das cartas. E o mais incrível. As cartas que não eram arcanas apresentaram aos estudantes todos os 4 naipes, em seu significado simbólico, mas seus números, quando somados, 4, 4, 5, 2, totalizavam 15 que era exatamente o número de alunos presentes nesse primeiro dia de aula (mais tarde a turma formaria-se com mais de 50 estudantes, mas nesse primeiro dia, houve uma chuva torrencial e o sistema público de transporte entrou em colapso, de novo, resultando que apenas quinze conseguiram chegar).

Desse jeito as palavras, os signos, as marcas e símbolos e runas e algarismos e letras grafadas e inescritas bailam com a realidade, formando-a e transformando-a a cada passo desse tango encarniçado. Ninguém acredita ou aceita destino que for numa escola (ou numa vida) de luta, mas ainda assim o sistema oracular de um baralho vira-lata virado por um professor auto-iniciado em algum tipo de sacerdócio oculto infernal, é capaz de traduzir a verdade em todo seu esplendor.

 “Eu conheci a História tarde demais; em minha adolescência eu era orgulhoso demais para ler historiadores […] E por volta dos 40 anos descobri a história que tanto ignorava. Bem, eu fiquei aterrorizado […] Pegue qualquer época da história, estude-a a fundo e as conclusões que se tira são necessariamente terríveis […] Sempre tive uma visão, digamos, desagradável das coisas. Mas a partir do momento que descobri a história, perdi toda ilusão. Ela é verdadeiramente a obra do diabo!” – Cioran, Entrevistas.

huxley final revolution

Ainda é ambiente escolar, esse, entretanto, mais conservador e decadente. Localizado num antigo casarão colonial em cujos tacos de madeira habitam os rangidos da passagem de pesquisadores de toda sorte e também da fragrância característica de livros velhos de páginas amareladas e capas de couro já refeitas muitas vezes. Tudo ali tem aspecto de restauração… o que talvez seja outra forma de dizer que tudo ali parece decadente e lutando bravamente contra a ação do tempo e do oblívio que a tecnologia impõe com avidez e intransigência. É nesse ambiente que assistiremos a última aula da noite. Uma voz rouca e monótona ecoa pelo corredor amadeirado. Façam anotações se acharem necessário, mas é improvável que esse conteúdo caia em alguma prova… Estamos tratando aqui de…

VampireLandlord1882

SABERES ARCAICOS & CIÊNCIA ARCANA

Corte para o professor velho, encurvado, ressentido. Tiburcius era seu nome, Tiburcino para os poucos amigos que ainda estavam vivos. Que quando fala é todo respingos de perdigotos venenosos pontuando sarcasmos e ironias. Professor de sorriso débil e olhos opacos, professor niilista, que leva repousado em seu ombro um morcego de estimação só para aterrorizar os alunos de nervos mais frágeis. Atrás de si uma lousa imensa, dividida em três grandes colunas, absolutamente preenchida com os seguintes dados:

Russo Arcaico – Upir – Упирь – colofón datado de 6555 (1047 AD) num manuscrito do Livro dos Salmos – escrito por um padre que transcreve o livro do glago lítico para o cirílico, por encomenda do príncipe Volodymyr Yaroslavovych. O padre escreve que seu nome é Upir Likhyi – Оупирь Лихыи – o que é interpretado pelos historiadores como evidência de resistência pagã e uso de alcunhas ao assinar o nome.

Citando, e por citando entende-se lendo em voz alta, Alexander M. da Silva, o professor velhaco esclarece que “o primeiro registro escrito do termo que daria origem a palavra moderna “vampiro” surgiu no ano de 1047 da nossa era na forma de upir. Essa palavra de origem eslava surgiu em uma obra russa chamada O livro da profecia, escrita por Vladimir Jaroslov, príncipe de Novgorod, noroeste da Rússia. Nela um padre era chamado de upir lichy, ou seja, um “vampiro hediondo” dado o seu desvio de comportamento. Essa ligação entre o vampirismo e a religião cristã evoca o fato de a Rússia ter adotado o cristianismo oriental em 980 e, desde então, a Igreja local se esforçou para banir rituais e crenças pagãs eslavas sobre criaturas vampíricas. Ainda que o cristianismo tenha vencido a disputa pelo poder religioso, o vampiro sobreviveu no folclore do povo eslavo, tornando-se a personificação simbólica do convívio conflituoso entre cristianismo e paganismo”. Na coluna do meio ele foi escrevendo enquanto falava, em garranchos apressados de giz, assim:

Tratado antipagão intitulado “Diálogos de São Gregório” – datado entre os séculos XI e XIII – onde é registrado um culto pagão upyri. Então relatos que pipocam por regiões da Bulgária, Macedônia, Croácia, Checoslováquia, pelos próximos séculos e ainda mais tarde pela Polônia, Ucrânia, Russia, Bielorrussia. Escritos dos missionários S. Cirilo e S. Metódio…

talbot_1978

– Percebam por favor que estamos mapeando uma manifestação quase fúngica de pseudovida que irá proliferar nos vincos e umidades da formação dos primeiros projetos de estado-nação europeus… – e na lousa:

Sigismundo de Luxemburgo / Sigismundo da Germânia (14/2/1368 – 9/12/1437) – Rei da Hungria (1410 – 1437) Sacro Imperador Romano-Germânico, Rei da Germânia e Boêmia. Membro da Casa de Luxemburgo, marido de Maria da Hungria. Foi sucedido pelo genro, Alberto, pai ilegítimo de João Corvino, senhor do castelo Hunyadi e seu protegido e conselheiro.

Sobrou um espaço na base da coluna então disse apontando:

– Aqui vai alguns marcos importantes. Alguma historiografia pertinente ao tema. – e escreveu em tópicos:

* 484 – Cisma entre Igrejas (Oriente VS Ocidente); * 1054 – Nova Cisma da Igreja (idem); * 1190 – primeiros relatos sobre vampiros na Inglaterra -> vampiro de Berwick – norte da Inglaterra; * Peste vampírica no século XVII; família Alfort, Dillsboro, Carolina do Norte, EUA -> caça a vampiros em 1788 e 1789.

montesiformula

Fórmula Montesi

– Entendam que podemos continuar pontuando, sem nem nos dar ao trabalho de levantar literatura, cinema e ficção em geral, através do desenvolvimento colonial e as decorrentes guerras mundiais. Esses períodos meio que dão a impressão de serem o filé dos temas abordados por historiadores críticos do progresso civilizatório. Mas como vocês, estudantes escolados, devem saber, isso daria conteúdo para um curso inteiro a parte… Ainda assim, perceba que as guerras mundiais só abrem as portas para o miolo da problemática contemporânea: a apropriação e subsequente aprimoramento dos métodos e tecnologia nazi-fascista pelas potências liberais do ocidente, o que nos levaria às ditaduras civil-militares ocorridas na América Latina e aí vocês já sabem, outro curso inteiro a parte. Infelizmente, por mais interessante que seja desenvolver esse aspecto de análise, a proposta desse curso é observar pontos de origem e cruzá-los com manifestações o mais contemporâneas possível…

https://en.wikipedia.org/wiki/Darkhold

img003

Passou então para a última coluna, arremessando um toco de giz na lixeira no outro canto da sala:

DEBT = SLAVERY -> DÍVIDA = ESCRAVIDÃO; Membros e arquitetos da dominação vampiresca: * J.D. Rockefeller; * Paul Wargurg; * J.P. Morgan; * Baron Rottschild -> O CONCILIÁBULO, A CAMARILLA; Peões a governar, escravos a dominar: * Edward Bernays -> mix de Sig Freud com Joseph Goebbels aplicado em Relações Públicas para Controle Social; * Walter Lippmann -> Opinião Pública massificação industrial da doma humana populacional; * Dwight Eisenhower -> Complexo Militar-Industrial, a ferramenta suprema da dominação vampírica; * Frank Carlucci -> Carlyle Group -> LBO – Leveraged Buyout; * George Soros: Atualização e aprimoramento industrial do mercado escravocrata.

– Alguém pode me ajudar com esse conceito? – inquiriu o professor Tiburcius, ao que alguém leu da Wikipédia pelo celular assim:

– Também conhecido como highly-leveraged transaction, refere-se a uma transação onde se adquire o controle acionário de empresa e uma parcela significativa do pagamento é financiada através de dívida.

– Isso. Obrigado. Percebam como a aliança entre cultura do crédito e opressão policial se aliam quase com a mesma harmonia que o clero e a monarquia de outrora, criando um modelo de estado-nação edificado sobre conceitos como, Força Neoconservadora; Políticas do Medo; Alerta de Terror e Estado Policial. – na lousa, é claro, estavam os conceitos na sua grafia original, o inglês:

* NEOCONSERVATIVE FORCE; *POLITICS OF FEAR; * TERROR ALERT; * POLICE STATE. Tudo ligado em flechas e hastes que apontavam para o conceito original, citado aí em cima: DEBT = SLAVERY. Ou seja: Dívida (ou Débito) é igual à Escravidão.

001

Corte para outra cena

A ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE INVISÍVEL

“Por um salário infame, aqueles Nômades altivos haviam perdido a nobreza e a liberdade e viviam confinados em habitações miseráveis, prostrados por absurdas preocupações materiais, cada vez mais prolíficas, de que antes nem sequer tinham consciência. Eles, que haviam conhecido a eternidade dos horizontes, a limpidez do céu sobre os oásis verdejantes e o bem-estar dos despertares sob as tendas, tinham se tornado exilados dentro de seu próprio reino. Samantar seguidamente lamentava a sorte daqueles infelizes, potentados ambiciosos haviam reduzido à condição de escravos de uma potência estrangeira sem alma, a mais pérfida e a mais venal de todas as nações. Mas enquanto se desencaminhavam essas multidões, submetidas às normas de uma ética bárbara, aqui em Dofa a pobreza do país permitira que a vida transcorresse preguiçosamente e que o povo se dedicasse sem esforço aviltante a ocupações benéficas como a pesca, a horticultura, um artesanato confeccionado na indolência e na dignidade; esse povo assinalara, sobretudo, sua resistência às modas decadentes, continuando a se expressar numa linguagem humana. Era essa linguagem humana que encantava Samantar, uma linguagem que fora, no mundo inteiro, substituída por um idioma bastardo – juntado nas lixeiras do comércio e da publicidade – , que já não tinha a ver com o homem e do qual se excluía toda e qualquer noção de emoção ou sentimento.”

– Albert Cossery, Ambição no Deserto

Há alguns séculos, desde a própria criação da primeira universidade, que se fala aos sussurros em uma universidade invisível. Uma sociedade secreta reunida para estudar saberes ocultos. Místicos, conspiradores, malucos solitários e anarquistas eram o público geral, mas no geral, não se podia nomear unicamente um exemplar de estudante ou graduado nessa antiárea acadêmica. Acerca disso, temos alguns relatos de perspectiva esotérica bem organizados em seu registro, um ótimo exemplo é O Livro do Misterioso Desconhecido, de Robert Charroux, narrativa concebida no seio da AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz), que como tantas outras organizações secretas, brincava de criar uma hierarquia paralela, costurar no verso da civilização uma outra estrutura de empoderamento hierárquico dos saberes. Essas organizações, não raro, se autoafirmarão ser em verdade milenares, existindo desde o encontro da cronologia historiográfica moderna com a contagem mítica do tempo. Desde os dilúvios, desde as primeiras civilizações selvagens, desde o surgimento da cultura hebreia-cristã… etc.

Nada contra a filiação a esse tipo de organização. Independentemente da estética da fé, as pessoas parecem realmente gostar da ideia de que salvadores invisíveis vão moderar seu próprio superpoder em pró do desenvolvimento da nossa civilização. De qualquer forma, o lance com a universidade invisível é que essas seitas e clubes de cavalheiros não traduzem sua manifestação, embora persigam-na avidamente, farejando seu perfume criativo e apontando suas ferramentas em seu encalço. A universidade invisível, pra começo de conversa, não é organizada e nem possui hierarquia. É de magia do caos que estamos falando, então o caos é o método, a justificativa e o objetivo. Acontece que as universidades concretas, essas que possuem nomes e endereços, muito provavelmente hospedarão a universidade invisível, porque o ambiente do campus é favorável á sintonia mental desejada para o estudo. Mas a universidade invisível pode acontecer em qualquer lugar, uma escola, um bar, um beco, um banco de praça, uma plataforma do metrô… basta que dois iniciados se encontrem, se reconheçam (não muito difícil dado a leitura semiótica dos corpos e a empatia psíquica dialogada já nos olhares) e comecem a conversar. Então, respondendo ligeiro o subtítulo, a arquitetura da universidade invisível é qualquer uma. E desnecessária, já que os encontros originais, ao contrário do que pensavam aqueles franceses iluministas rosacrucianos, não era entre edificações e pirâmides de civilizações antiquíssimas, mas na floresta tendo como edifícios apenas a mata, como fruto da engenhosidade humana, no máximo, a fogueira, a dança, o transe e, tendo como margem territorial e vizinhança, as estrelas no céu noturno, a lua em seu balé de fases e as criaturas da noite e do dia.

William_Blake's_Cain_and_Abel

Os educadores de vanguarda sabem que as melhores turmas, independente, obviamente, de coisas que as encerram, limitam e atrapalham – como classes e salas – são aquelas formadas pela livre associação. Agrupamentos que se formam emergencialmente, a partir de um tema em comum, de um objetivo, de uma realização. Operando nesse espectro, a transmissão de informação e a própria linguagem em exercício, assume uma amplitude e sofisticação transcendentais. A informação se transmite de muitas maneiras, a comunicação acontece de inúmeras formas. A maioria delas é invisível.

“Quem, inadvertidamente, penetrar neste campo linguístico, depara de súbito com um sistema caótico de referências, como uma rede de nomes de códigos e de símbolos relativos a substâncias arcanas em permanente mutação, em que aquilo que é aparente pode ter sempre um significado diferente e em que o próprio recurso ao léxico barroco especializado e ás listas de sinônimos dos tempos modernos não oferece uma orientação segura. Por outro lado, o crescimento igualmente desordenado de conceitos difusos sempre exigiu medidas de simplificação. Foi o caso da tentativa interpretativa do psicanalista suíço C. G. Jung (1875 – 1961), que veio a ter um enorme impacto. Jung considerava que a forma híbrida ou hermafrodita da alquimia constituía a sua face intrínseca, e que as obras químicas exteriores só podiam ser aceitas como uma projeção de fenômenos anímicos cientificamente manipuláveis.”

– Robb, Alexander, O Museu Hermético Alquimia e Misticismo

Do lado de fora da aula do velhaco Tiburcius há um beco, acesso estreito para a rua de trás, de onde desce uma escadaria até a avenida mais adiante. É o beco onde alguns dos estudantes se reúnem pra fumar antes das aulas começarem. Hoje, devido a chuva que caiu antes, estava vazio e molhado. Do mesmo jeito que a cidade ao redor, ligeiramente menos fétido do que num dia seco. Nesse beco está uma figura a qual chamaremos Tican. Ele está pixando o muro, já bastante carregado de intervenções. Vários atropelos, canetão sobre spray sobre rolinho… Ele assina ti<An. Dois vira-latas o acompanham, farejando ao redor das suas pernas. Ele observa a parede como um todo e percebe que há um padrão se formando naquela imundice informacional. Fareja a discussão sobre vamps do outro lado da parede… o som escapando pelas janelas abertas lá em cima. Sua boca se enche de água, não tem o que goste mais do que fazer os vamps sangrar. ti<An conhece muitos outros caçadores de vamps. A maioria deles é cigana ou rastafári, criaturas cujo habitat natural é a rua, pessoas que conversam mais com estranhos do que com família e amigos em seu dia a dia. Flanadores da cidade. Rastreadores. Rasta Slayahman. Alguns nascidos com sangue de dampiro. Possuem o mal do século nas veias, mas seu corpo é programado pra transformar veneno em antídoto sem laboratório, só com o fígado. Guerrilheiros, sabotadores e amigos.

hunt

http://villains.wikia.com/wiki/Vampires_(Marvel)

Vampire_Killing_Kit. Boston. 1840

ti<AN vive na rua. Depois que lembrou suas vidas anteriores foi desapegando mais e mais das coisas. Objetos passaram a ficar cada vez mais pesados e desinteressantes. Isso acontece porque ele vai e volta na samsara – a roda da vida e da morte e da reencarnação – a cada vez que vem gente, noutras sete vem cão. Na maioria das vezes vira-lata de rua, mas umas ou outras de raças esquisitas e enclausuradas pela sociabilidade vampiresca dos humanos. Umas raras vezes, as suas favoritas, vem como um cão selvagem. Cachorro do mato. Que caça e vive e morre só da terra e dos seres que dela vieram e pra ela voltam. Às vezes sonha em nascer lobo.

Como se chama o folheto? – perguntou casulamente.- Intitula-se tratado do Lobo da Estepe. – Oh, Lobo da Estepe é excelente! E o lobo da estepe é você? Aplica-se a você? – Sim, sou eu. Sou uma espécie de meio-lobo, meio-homem, ou pelo menos alguém que se imagina assim.

– O Lobo da Estepe, Herman Hesse

wolfman (2)

Por isso ele confunde um pouco as pessoas e os lugares às vezes. Ele é chamado de esquizofrênico com transtorno de múltipla personalidade, mas isso não é verdade, ele só não se apega tanto a detalhes como nomes, números e palavras. Ele nunca foi formalmente alfabetizado. Mas aprendeu a ler os muros da cidade fluentemente. Ele entende a linguagem de cada pixação, reconhece intuitivamente todas as tags. A lembrança de quando fora um alquimista preguiçoso e desleixado vem à tona. Quando no tratado de Robb, publicado pela editora Taschen, ele sugere que Jung referia-se a uma linguagem híbrida e hermafrodita, creio que esteja apontando para as sutilezas da grafia, usar letras para fazer desenhos e vice-versa. Qual a linha que difere? O que impõe uma fronteira que dividirá essas ações e intenções aparentemente tão dispares? Desenhar e escrever? Escrever ou desenhar? Como montéquios e capuletos? Que música soará desse encontro? Que valsa fará essas ações e intenções bailarem juntas?

É que, como já dissemos, antes toda a linguagem era assim. Antes toda grafia nascia do desejo de pintar, de tornar o mundo mais bonito com a marca da sua história nele. Então, o cancro, o simulacro. A perversão radical de conceitos. A transformação de algo no seu oposto absoluto… Já falamos em demasia sobre esse processo nos outros tratados de  segredos sujos prometeicosmonstros no espelho. As estradas interpretativas que trilhamos pra trazer essa pauta – A ascensão do império dos vampiros – a baila mais uma vez.

empire-of-the-dead-01

Hoje a linguagem selvagem praticamente só sobrevive na margem. Quanto mais próxima dos marcos zeros de contaminação vampírica, mais propenso ao oblívio ou à contaminação ela está. Mas no coração de um sistema totalmente corrupto e comprometido, alguns artistas invisíveis trocam mensagens, falam através de narrativas ocultas, camuflados nas inconcebíveis quantidades da produção industrial de cultura. Ainda como os antigos alquimistas faziam, cruzando imagens e palavras:

“Sempre que falávamos (abertamente), nunca dissemos verdadeiramente nada. Mas sempre que usávamos uma linguagem cifrada ou recorremos às imagens, ocultávamos a verdade. (Rosarium philosophorum, edição de Weinhein, 1990)”

– idem

Robb conclui o raciocínio aqui apresentado, citando C Horlacher, dizendo que:

“Os filósofos herméticos podem ser entendidos de modo “mais livre, senão mais evidente e mais claro, com um discurso mudo ou sem discurso, através da ilustração dos mistérios com enigmans figurados do que através de palavras” (C. Horlacher, Kern und Stern…, Frankfurt, 1707).”

Burlar, esquivar, subverter o poder das palavras é algo necessário para os comprometidos com a verdade. Deixar que a ideia se manifeste livre a partir da chama que arde em cada um de nós, cada um que detém em sua alma a potência prometéica pra se autoiniciar nos poderes e nas teses que apelarem pros seus apetites.

pepermintbuttler

Grant Morrison fala um pouco sobre isso através do personagem Mason na primeira edição do segundo volume de Invisíveis, cujo arco que se inicia é intitulado Ciência Negra. Toda a célula de Invisíveis está reunida num restaurante de beira de estrada no melhor estilo cena de abertura de Natural Born Killers quando o assunto vem à baila. Procure acompanhar sua linha de raciocínio:

“Velocidade Máxima é sobre evolução, não é? Tá na cara. O ônibus é o mundo. Pode assistir de novo: Tem tudo que é nacionalidade. Não é só isso. O motorista que leva pro desastre tem uma maquiagem de Cro-magnon. Ou escolheram ele porque parece um Cro-magnon. Ele é nossa herança bruta da evolução, conduzindo o mundo ao armagedom enquanto todo mundo fica só discutindo. É tudo simbólico.”

Como se ele não estivesse sendo explícito o bastante com as referência de tema, conteúdo e estilo, ou como se o coloquialismo no texto não estivesse literal e realista o bastante (com as intervenções dos outros personagens meio que entediados da narrativa paranoica de Mason), ele insiste em seu ponto de vista:

“Vejam só quantas vezes aparece o número 23. Está em todas as cenas. Não é coincidência. É um código. Uma mensagem.”

Isso fica um pouco mais evidente conforme ele defende sua tese abertamente, a partir do diálogo com outras personagens à mesa. Mason insiste:

“E aí, no final, depois da jornada tântrica no metrô, eles saem na frente de um cinema onde está passando 2001: Uma odisseia no espaço…”

Ao que Robin complementa:

“Que trata da evolução do homem. Mason, você precisa de um psicólogo.”

Mas ele não para por aí, e nem desconfia de suas faculdades psíquicas. Vai mais fundo:

“Eu vejo tudo que é coisa mística quando assisto filme. Sabem Pulp Fiction…? O troço que brilha na maleta “666” é a alma do Marcellus, não é? O band-aid que ele tem no pescoço, naquela cena do bar com o Bruce Willis… foi dalí que extraíram a alma. Dá pra ficar o dia inteiro falando disso. Mas assistam Velocidade Máxima. Aí fiquem na cabeça que o ônibus é o mundo e que aquele vão nas obras da rodovia é o apocalipse.”

Jolly Roger se irrita e quer partir logo ao que interessa:

“Tá legal, mas quer dizer o quê? Que diferença faz?”

Essa indicação permite a Mason concluir sua tese, ao mesmo tempo em que Fanny, a xamã trava do grupo vai ao banheiro:

“Quer dizer… Sei lá. Quer dizer que tem alguns filmes que são produzidos por invisíveis e que têm mensagens pros outros invisíveis. São os invisíveis conversando no idioma secreto… Os filmes são indicadores. Pra sabermos que tem outros por aí…”

King Mob, alter ego do próprio Gideon Stargrave (anagrama de Grant Morrison) em pessoa, ainda comenta com ironia metalinguística enquanto tenta encarar os corn flakes como “são servidos na América”:

“Mason, você acaba de transformar nossos últimos dez minutos numa cena do Tarantino.”

Ao que coroa sua argumentação com precisão conceitual memorável:

“É isso que eu chamo de triunfo do pós-modernismo.”

The Invisibles Vol. 2#1 (Fev. 1997), Ciência Negra. Parte 1: Socando.

A metalinguagem não é apenas um método estético, não se trata da forma ou do estilo. A metalinguagem é o hocus pocus da narrativa que se pretende emancipada. A metalinguagem permite à narrativa vazar as intenções para além das vias de comunicação que se encerram na grafia. Cruzando as referências e extrapolando as citações, o pensamento lubrifica-se e escapa da linha narrativa onde se viu originalmente cultivado in vitro, e mesmo que retorne a ela para segui-la até o fim, o fará intercalando outros voos, e multiplicando os ângulos de observação e os pontos de vista o bastante para que possa, empregando uma simples simpatia de criatividade mais memória, teletransportar-se para longe da doutrina e da disciplina e da violência linguística sempre que for possível. Perceba que a metalinguagem de Grant Morrison está povilhada por praticamente toda a sua obra. Homem-Animal, Patrulha do Destino, Joe o Bárbaro, Os Invisíveis, mesmo sua abordagem de títulos como a Liga da Justiça em Crise Final, os Sete Soldados da Vitória e Batman… a metalinguagem é o elixir que Morrison derrama na sua escrita. Seu objetivo: comunicar ideias que palavras e desenhos simplesmente não comportam, mas que podem sugerir. Porque em essência, toda mágica é pouco mais do que sugestão.

tumblr_mkawdwjmXH1rkffkzo1_500

Mas essa sugestão transforma toda a realidade, mesmo que por um instante. E isso é poderosíssimo. Como aqueles sapos ou aranhas de plástico com uma mangueirinha embaixo ligada a uma pequena bomba manual de ar, e que saltam com um apertão. E que em desavisados pode dar a ilusão de um animal que se move, um sustinho bobo, mesmo que por um micro milésimo de segundo… a engenhosidade, as condições ambientais, a mente do enganado e a malícia do magus confluem para transmutar genuinamente aquele brinquedo vulgar em um animal vivo de verdade. A magia é o suprassumo da rebeldia cultural. Magos são trapaceiros da realidade. Sabotam até mesmo as leis da física. Sobretudo praticantes das formas auto-iniciáticas de mágica do caos. Sem seitas nem hierarquias eclesiásticas, sem estruturação ritualística. O rito se apresenta pro seu autor no momento em que está sendo realizado, se muito.

nightstalk 1

Varnae

 

Ba'al-Hadad_(Earth-616)_001

Ba’al-Hadad

Baalists

Comuns os que os realizam sem sequer perceberem. Repetindo palavras de amarração, reproduzindo gestuário de maldição, alimentando egrégoras de ressentimento, travando pactos sinistros com as piores partes de si. Mais comum do que se pensa. Fecha os olhos, ergue as mãos, grita, pede, implora, reprime em nome do bem, crê com força num deus, mas quem responde é a catarse catalisada pelo medo. Toda mística é ameaça em potencial a toda ortodoxia. E toda ortodoxia realizará sua imposição pelo pavor, o terror de que se esteja “vivendo errado sem ela”, a dependência infantil de uma constante atualização da autorização concedida ao sistema de crenças e valores vigente.

“Medo. Todos acham que já sentiram medo. Pensam que sabem qual é a sensação. A vida passando diante dos olhos e tudo o mais. Besteira. A verdade é que a gente fica entorpecido. Desacelera, perde o controle… Você se torna uma casca com um pequeno “eu” enfiado em algum lugar lá dentro, assistindo.”

 – Tig em I, Vampire #5 (Dan Abnett & Andy Lanning + Fernando Blanco)

E a engrenagem fundamental desses motores que operam e transformam a realidade, é a linguagem. Insisto: Há de se ficar atento à linguagem! No livro Chuva de Estrelas, Peter Lamborn Wilson analisa, citando as palavras do estudioso francês Jean Bottéro, as origens primordiais dessa coisa de traçar riscados como feitiçaria pra alterar a (percepção da) realidade (e por consequência a realidade concreta propriamente dita):

Não devemos esquecer que os antigos habitantes da Mesopotâmia, inventores daquele que é o mais antigo sistema de escrita conhecido, criado três mil anos a.C., foram profundamente influenciados por essa inovação. Não apenas porque ela lhes permitia iniciar a tradição escrita, mas também devido ao fato de esse sistema ter inspirado e moldado, de certa forma, sua forma de pensar. A escrita era profundamente pictográfica em sua origem (e continuou parcialmente assim para sempre), o que quer dizer que ela aludia à mente coisas que teriam que ser expressas por símbolos que representavam tais coisas, tanto direta (como um grão para a palavra “cereal” ou um triângulo para “mulher”), quanto indiretamente (o perfil das montanhas significava “terra” e “terra estrangeira”, um pé significava “ficar de pé”, “andar”, “trazer” etc.). Na verdade, representavam conceitos e ações através de outras coisas, os próprios desenhos, que por sua vez se referiam aos objetos. Esse método incendiou a imaginação dos antigos mesopotâmicos e, como vemos, deu à sua “lógica” um certo número de padrões.”

Mais adiante, em suas próprias palavras, Wilson aproxima-se do ponto levantado nesse ensaio, justificando seu objeto de pesquisa assim:

Até mesmo a escrita cuneiforme não foi inventada para propósitos proféticos, ela imediatamente começou a informar a cultura da Mesopotâmia através de uma visão essencial do mundo, baseada na ressonância entre escrita e realidade. E mesmo se nós, felizes modernos, sabemos (graças a filologia comparativa etc.) que todos esses sistemas são arbitrários, não podemos declará-los insignificantes, nestes termos. Ao menos pelo bem do entendimento histórico, temos que admitir que “crenças” são tão importantes quanto “fatos” e que não há uma linha precisa para dividir as duas categorias.”

 – Chuva de Estrelas, O sonho iniciático no sufismo e taoísmo

Peter Lamborn Wilson.

aamshed_drake2

Então falar da metalinguagem – trazendo-a do campo da teorização para o empirismo da sua experiência de leitura – é falar da descrição textual do texto que se apresenta diante dos seus olhos: Surge como um texto de ensaio e estudo sobre aspectos aflitivos (em especial o vampirismo político) da sociabilidade contemporânea que evoca um gibi imaginário de terror para, desenvolver alguns subtemas e reflexões, inclusive citando passagens inteiras de outras obras, sejam elas HQs, cinema, séries de tv, música e o que mais tiver à mão, e o resultado é um baita post tentando amarrar uma série de outros posts, fragmentos do mesmo estudo, supracitados em hiperlinks, que reforçam basicamente a mesma ideia: A de que é observando bem a linguagem que se protege da influência vampiresca.

ac625050ea3decd7c973b4628f867688

No man ever seen the face of his foe no
He ain’t made of flesh and bone
He’s the one who sits up close beside you girl, and When he’s there you are alone

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

No man ever seen the face of my Lord no
Not since he left his skin
He’s the one you keep cold on the outside girl, he’s At your door let him in

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

I will forgive your wrongs, I am Abel
For my own I feel great shame
I will offer up a brick to the back of your head boy
If I was Cain

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

Anda ligeiro então. Bem cruzado e imunizado.

Corpo fechado & mente aberta.

Estado de espírito: Bastante desconfiado.

Alma acordada & cabeça esperta

&até a próxima edição… ou outro post relacionado…