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A Lenda de Jubiros & Jibérion

Posted in Imaginarium on setembro 27, 2016 by PRFSSOR-Regiz-Y.

Esta lenda tem muitos nomes, como todas a palavras podem ter muitos significados. A NMS Crew, ou Eqipe, Team, group, tem linguisticamente discutido muitas palavras: Cultura, Contexto, Conteúdo, Propaganda, Amor, por um lado pejorativo, por outros carrega sentidos tão ultrapassados e escrotos, como bichos escrotos de contos de fadas,  como que a palavra “estupro” pode ser uma cultura, como a cultura humana se rebaixa e transforma hábitos, tradição e cultura em coisas tão carregadas de negatividade.

Gotta Live the positive way. unkle régis in da house YO!

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A LENDA DE JUBIROS E JIBÉRION

(Trad. Régis Yasuoka do conto dos Irmãos Grimm)

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(para meus amig@s T,J&V) provavelmente o tibs vai complementar o post com alguma coisa mais pra frente…

A lenda de Jubiros e Jibérion, ou a Lenda de Jorinda and  Jorindel, ou Jorinde und Joringel, ou A Flor Violeta, ou a Flor do Orvalho,  escolha como desejar só sei que foi assim

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Era uma vez um castelo tão velho que ficava sempre ali parado e pesado no meio de uma floresta densa, e nesse castelo vivia uma velha fada malvada. Todos os dias ela voava na forma de uma coruja  e se esgueirava na forma de uma gata, mas as noites ela voltava a ser uma velha de novo. Quando algum jovem do sexo masculino se aproximava a alguns passos perto do castelo, ele se congelava e não podia dar mais nem um passo, até que ela viesse e o libertasse: mas se alguma jovem donzela se aproximasse, elas se transformavam imediatamente em pássaros; e a fada vinha e as botava dentro de uma gaiola e a pendurava na câmara do castelo. Ela já tinha setecentas gaiolas penduradas no castelo, e todas com belíssimas passarinhas dentro.

Agora vou lhe contar também, que existia uma moça que se chamava Jubiros: ela a mais bonita ali do Reino do Rei Johnny Days; e também tinha um professor chamado Jibérion que gostava muito dessa moça, e eles planejavam se casar. Um dia eles foram passear pela floresta para que pudessem ficar a sós. Então Jibérion disse, “Temos que tomar cuidado pra não chegarmos perto do castelo”. Era um maravilhoso entardecer, 18 horas ali naquela região fica tudo meio congestionado, os últimos raios do sol que se punham brilhava através dos longos galhos daquelas árvores adentrando o verde pantânoso, e pássaros azuis bluejays cantavam lamentosamente dos mais altos galhos.

Jubiros sentou pra admirar o sol; Jibérion sentou a seu lado; ambos se sentiram tristes, eles não sabiam porque. Sentiram-se que fossem se separar para sempre. Eles deram mais uma caminhada e perceberam que haviam perdido o caminho de volta.

O Sol estava desaparecendo bem rápido, e metade de seu círculo já tinha desaparecido através da colina: Jibérion olhou para trás e percebeu que sem querer querendo, eles haviam sentado bem perto das velhas paredes do castelo, ele encolheu de medo, ficou pálido, bem acovardado. Jubiros estava cantando;

“A Pomba-Gira piando no Borrifo do Salgueiro,

Mas que lindo-dia! Lindo-dia!

Ele chora pelo fato

De seu adorado amado.

Lindo-dia!”

A música parou de repente. Jibérion se virou para ver porque,  no lugar de Jubiros tinha uma rouxinol; e sua música terminou com um lamentoso jub, jub, jub. Uma coruja de olhos flamejantes voou tres vezes em volta deles, e tres vezes ela gritou uwhu !uwhu! uwhu!

Jibérion não conseguia se mover: fixou-se como um golem de pedra, e não conseguia nem falar, nem chorar, nem mexer uma mão ou um pé. E agora já não havia mais sol; a escura noite havia chegado; a coruja voou para um arbusto; e logo após a velha fada apareceu, pálida e magra, com olhões esbugalhados, e um nariz e queixo que quase se encontravam.

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Jibérion congelado paralisado como se num passe de break.

Ela murmurou alguma coisa para ela mesma, agarrou a Rouxinol, e saiu fora com ela na mão. Pobre Jibérion viu sua Jubinol ser levada – o que ele podia fazer? Ele não conseguia nem sair do lugar em que estava. Por fim a fada apareceu de novo, e cantou com sua voz rouca,

“Prenda o preso bem depressa,

E sua sorte bem escassa,

Fique aí! Vai ficar !

Quando a simpatia encanta ela,

Como um pássaro canta ela,

E se esconde! Foge dela!”

Por um momento Jibérion se viu livre. Então caiu de joelhos diante da fada, que mais parecia uma bruxa, e pediu para ela devolver sua amada Jubiros: mas ela disse que ele nunca mais veria ela de novo e vazou, saiu fora mais uma vez.

Ele rezou para Jah, ele chorou, resmungou, mas tudo em vão. “O que que eu vou fazer?”

Ele não podia voltar para sua própria casa sem Jubiros, então ele foi para um vilarejo vizinho, arrumou um trampo de cuidador de cachorros e ovelhas. Ele corajosamente muitas vezes andava com seus cães rosnando nas redondezas das muralhas do castelo que ele tanto odiava. Milagrosamente uma noite, ele teve um sonho  em que achava uma linda flor roxa, e no meio desta uma pérola brotava; ele sonhou que pegava a flor, e ia com ela em mãos para dentro do castelo, e em tudo que ele encostava a flor, começava a se desenfeitiçar, e assim ele encontrava sua querida Jubiros de novo.

De manhã quando ele acordou, ele começou a procurar no Vale do Anhangabaú por sua preciosa flor de cor violeta; e oito dias se passaram em que el ficou procurando em vão: mas no nono dia numa manhã se bem me lembro, ele encontrou sua maravilhosa flor Violeta; e no meio desta existia mesmo um orvalho tão grande quanto uma pérola preciosa.

Então ele colheu a flor-menina-Violeta, e foi em direção a seu destino, dia e noite até chegar de volta no castelo. Andou mais que cem passos para a perto do castelo e percebeu que não estava mais paralisado, até que chegou na porta.

Jibérion muito contente de ver toda sua façanha: encostou na porta com a flor, e isso logo se abriu, e assim já foi se aprochegando para a corte do castelo, até que ouviu o som de milhares de pássaros cantando.

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Ali ele viu em uma câmara onde ficava a fada bruxa velha, os setecentos pássaros cantando em suas setecentas gaiolas. Quando a bruxa viu Jibérion ela ficou super brava, e gritou de raiva; mas ela não conseguia se aproximar mais dele; a flor em suas mãos o protegia. Ele olhou em volta todo malandrão agora, essa bruxa vai se ver, procurou um rouxinol, mas encontrou tantos, que ele não poderia nem saber qual era Jubiros. Enquanto pensava o que fazer, ele viu que a velha pegou uma das gaiolas e se preparava para arredar o pé pela porta. Ele pulou para cima dela, mas hoje acredito que ele praticamente voou para lá e encostou a gaiola com sua flor, – e sua Jubiros apareceu diante dele novamente. Ela atirou-se num abraço em volta de seu pescoço e se olharam como se o tempo tivesse parado naquele por do sol na floresta.

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Então como um justiceiro ele encostou sua florzinha violeta em todas as outras gaiolas, para que todas pudessem voltar a suas verdadeiras formas; levou sua Jubiros e sua Florzinha Violeta que havia se transformado numa linda menina e a pérola de orvalho que nascia era um dente que saia do meio de suas gengivas, e assim viveram felizes juntos por muitos e muitos anos num Rainbow Country.

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falou meu nome aqui estou, Papa Dipz answering that question who let da birds out hu hu who let da frogs out hu hu hu abrindo as gaiolas do coração e enfiando o dedinho pra brincar com bico de papagaio, homenageando mortos e vivos & amaldiçoando mortos-vivos com versos escangalhados oh sim eu estou tão cansado mas não o bastante pra não trilar o meu trinado, por isso ofereço esses versos pouco treinados  que se declamados certamente seriam desafinados, mas que foram brevemente compartilhados ao redor de uma fogueira na ocasião em que foram registrados nos idos de 16.6.14 as 2:O6 & quase 3 anos passados, enquanto alguém que sabia falar como e com os pássaros se preparava pra alçar vôo e migrar pras paragens do outro lado. Aos vôs que partiram em revoada vai essa, meu blues pros ancestrais, conforme fora uma vez rabiscado:

Tem dias em que tudo o que há me parece mei´ dividido/  Tempero profundo carinho com algo que me deixa aflito/ E no auge do meu sofrimento o dia parece mais divertido/ Você, sujeita de cores, me diz que a vida é pra já e que está pensando em filho/ Eu, P.B. rabugice, deixo manchas com meu silêncio e fantasio com infanticídio/ Você pensando no céu, eu cuidando do piso. Você insistindo nisso e eu repensando naquilo.

Nosso caso – pensa, atenta, reflete – parece em tese louco delírio; mas – percebe, sente; fareja – em sentimento tem o tino pro certo, LÍVIDO ALÍVIO pra, escrava do próprio poder, civilizikaultura violenta do anacronismo. Afim eu tô doutro modo, em paz; mas das veiz faz falta um colírio pra dor pro cansaço prum mundo cada vez mais fora dos trilhos, pro arregaço estafante dum cotidiano tão injusto e doído.

Se tudo fosse sempre mais fácil, diz que a vida perdia o brilho, mas talvez isso seja só nóia, a tal da vozinha do grilo. Ensinar a carne do corpo a aprender a língua do espírito. Ensinar a arte do copo a não ser instalação de suicídio. Brasa, fogueira e fumaça também servem pra espantar mosquitos. Um braseiro pra deuses no peito põe em uivo o que podia ser grito. Remédio pro desespero faz lembrar de enxergar o infinito e de que tudo sempre repete, até o abraço amigo. E quando digo que até logo e até mais lembro que o tempo é bem esquisito. Espremido entre o vais e o fico. Conciso entre a asa e o bico.

E quando da vida o corpo estrito se vai, surgem outros corpos pro vivo, passa a viver nas histórias e na memória dos entes queridos. Todos mudamos com nossas lembranças, de sonho em sonho transito. Tento desvendar em meu peito deus como fé, ópio ou mito; ficam lições, olhares, caminhos e pessoas que são como abrigos. Esforço de dizer “eu te Amo” e a troca disso por mimos. O Amor é apesar de palavras, tá na lágrima, no brinde e no pito. E até nas quietudes pode-se ouvir o som brando do respiro & pelo ar que nos entra e sai fica o dito pelo não dito.

para Arão e Naum que logo serão 1

AS 7 fuçAs do dotô CÃo………………………(homo Canidae Santamarensis)

Posted in Imaginarium, Monstros no Espelho, novidades, produção NMS, Seres Prometéicos, Textos on maio 7, 2016 by ti

«Mas a linguagem tem seu próprio objetivo e razão de existir. Os parapsicólogos podem argumentar em favor da percepção extra-sensorial; psicólogos e neurologistas podem declarar que tal coisa não existe; mas aqueles que amam os livros e amam a linguagem sabem que a palavra escrita é realmente uma espécie de telepatia. Na maioria dos casos, o escritor faz seu trabalho em silêncio, expressando pensamentos em símbolos compostos de letras em grupos, separadas uma das outras por espaço em branco, e , na maioria das vezes, o leitor faz seu trabalho em silêncio, lendo os símbolos e reintegrando-os em pensamentos e imagem. Louis Zukofsky, o poeta (A, entre outros livros), defendia que até mesmo a aparência das palavras sobre a página – a abertura do parágrafo, a pontuação, o lugar da linha onde termina o parágrafo – tem sua própria história para contar. “A prosa”, dizia Zukofsky, “é poesia.”»

– Stephen King, Dança Macabra 

Contos da Crypta-HQ

Temos uma revista estilo Cripta do Terror nas mãos. O topo da capa abriga o título em caixa alta e fonte macabra. Junto à lombada, na borda esquerda, temos sete personagens, personas esquisitas, alter egos anfitriões, recebendo-nos e convidando-nos a mergulhar nas ideias adiante… Não serão exatamente contos, nem tampouco crônicas. Também não se tratam de tratados, artigos ou teses. Estão mais pra relatos, pedaços de registros de pensamentos que flutuam e orbitam ao redor de alguns estudiosos de temas obscuros em comum… Com vocês, AS SETE FUÇAS DO DOTÔ CÃO apresenta:

Um não tão aplicado estudante chamado Goetius, a luz das palavras de Tibérius N. discorre acerca da…

CICATRIZ HISTORIOGRÁFICA

Dotô, Doutor, douto: aquele que recebeu supremo grau em uma faculdade. Há muitas formas de se doutorar na vida. Se for homem, branco e de família abastada então, tudo fica bem mais fácil. Antigamente era só graduar-se em direito ou medicina, qualquer advogado ou homem formado era um doutor para a sociedade. Mas há a definição de doutor relacionada não apenas a uma patente de autoridade latente no homem formado, mas à sua competência no ofício de curar. Para o conhecimento civilizado, o douto é aquele imbuído das altas ciências e linguagens superiores, algo reconhecido por diplomas, trabalhos, graduações e dotoridades distintivas, mas para a sabedoria primieva, para os saberes selvagens, o doutor sempre será, antes de qualquer outra coisa, o curandeiro. E você chama de dotô, aquele em quem você reconhece a capacidade de te curar.

Nunca soube se aquele tal Tiberius N. tinha ou não doutorado, mas a julgar por seus hábitos parecia improvável que fosse qualquer tipo de curandeiro. Parecia mais do tipo pesquisador, investigador cabeção de coisas que fisgassem o seu interesse. Como uma criança velha obstinada por assuntos específicos, incansável até esgotá-los por completo. Filosofia, quadrinhos, filmes, desenhos animados, televisão, música… sua ideia de vida após a morte era responder um quiz épico sobre esses temas diretamente pra deus, diabo, o Incal, São Pedro, Jesus, Khrishna, Kali Durga, Exú, Ampú, Galactus, o Leão de Judá e o Lagarto Rei. Costumava ajudar com interpretação de documentos e fontes diversas. Era esse seu ofício, era isso que fazia. Ajudava a interpretar as coisas. Ajudava as pessoas a lerem melhor a intenção de determinados autores por trás das informações por eles registradas. Pelo menos era o que gostava de fazer. Quando eventualmente conseguia ser pago por isso, melhor. Costumava dizer que “O trabalho de texto científico nada mais é que emendar citações sobre citações ao redor de uma linha narrativa necessariamente atrelada à base teórica pré determinada.

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E ainda que “A verdade é objetivo dos investigadores, mas sobretudo dos espíritos mais tenazes. A verdade é muito mais facilmente percebida do que bradada. A aceitação é inimiga da verdade. A verdade só encontra ambiente fértil para vingar, no exercício da procura. A agonia da dúvida é seu oxigênio, seu habitat natural. Será a verdade mais algo que se procura do que algo a se produzir? Nove em dez vezes ou mais, uma verdade oferecida como resposta ou dogma não passará de outra ilusão fugaz e vulgar. Uma ofensa à inteligência viva e esperta de quem a escuta.

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Nessa época eu lia Clive Barker pela primeira vez, e foi uma sincronicidade danada ele ter dito isso ao mesmo tempo que eu, sentado no fundão, cabeça baixa, tentando ignorar seus discursos e tentativas de evocar a atenção das pessoas ao meu redor, acabava de devorar a passagem da narrativa em que Kirsty, a donzela insegura e meio abobada que flertava com os prazeres do inferno se deparava com seu algoz, Frank, nesse diálogo sublime:

“- Isto não está acontecendo – murmurou para si própria, mas a coisa riu.

– Eu costumava dizer isso pra mim mesmo – ele falou – Todo santo dia. Costumava tentar sonhar pra espantar a agonia. Mas não é possível, acredite em mim. Não dá. A agonia tem que ser sentida.

Ela sabia que ele dizia a verdade, o tipo de verdade repugnante que somente os monstros têm liberdade para contar. Ele não tinha necessidade de lisonjear ou adular; não tinha filosofia para debater ou um sermão a dar. A horrível nudez era um tipo de sofisticação. Ele superara as mentiras da fé e adentrara reinos mais puros.”

– Clive Barker, Hellraiser

Não foi algo que ele disse, ou algo que eu li. Foi o momento de confluência. Foi escutar aquilo ao mesmo tempo em que tentava ler isso. Foi o choque que me fez fechar o livro e prestar atenção no cara…

Esse dotô Tiberius costumava defender a tese de que as ideias são seres vivos. Que habitam as mentes, sorvendo delas a energia para seu sustento. Depois de ouvi-lo falar por um tempo, as ideias que passavam a te acompanhar… ficava difícil saber se eram suas ou dele… Mas ele era enfático ao afirmar: “Ideias não são de ninguém! Quanta arrogância pensar que “teve” uma ideia. As pessoas são acessadas por ideias. Não se possui uma ideia assim. Não deveria se possuir nada assim! Pelo menos não seres vivos…”.

Difícil suspender a húbris intelectual pra admitir-se como pouco mais que um cavalo espiritual pra ideias que vem e vão da tua cabeça ao seu bel prazer… Mas não se trata só disso, não é? A monstruosidade de certas verdades é descortinar os horrores e atrocidades da história. É mostrar onde as coisas foram (em muitos casos ainda são) mutiladas, distorcidas; e quais são as sequelas. Esse dotô Tiberius desenvolveu com mais uns parceiros cientistas loucos estudos que tratam desse tema, chamaram de Abnormal Brains, uma série de artigos sobre os assim chamados Seres Prometéicos, mas outros títulos foram trazidos à vida para denunciar a maneira como, pela perversão da techne pra se criar egrégoras, as ideias podiam ser corrompidas. O mito do prometeu foi multiplicado em infinitas reencarnações, pra frente e pra trás no tempo, desde Osíris até o Incrível Hulk e em todas elas, faz parte fundamental da narrativa, além da conquista do fogo divino (representação do molde e fundição da realidade segundo a luz da razão e o calor da vontade) e a vitória sobre a morte, um eterno suplício, o sofrimento acerca de sua própria natureza monstruosa. Continuar curando a si próprio só pra ser devorado por abutres, vermes, baratas novamente, no ciclo sem fim de pós-vida e não-morte. O caminho desviante da pós-humanidade. A outra alternativa afora o final feliz.

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Quando aplicado em uma persona individual, temos uma narrativa apaixonante de monstruosidade, quando aplicada a um modelo de sociedade, temos o projeto artificial vigente de modernidade contemporânea.

Agne Tijuca comenta sobre seu velho conhecido Tican:

Abnormal Brains meets Mirror Monsters

Eu tava conversando a toa com ele. Falávamos bobagens de como a era da internet trouxe mais informação para as pessoas ou acabava por aliená-las ainda mais. Dilema já clássico em mesa de bar. Lembrou-me que, quando menina nos anos 80, era muito comum as pessoas confundirem Drácula com vampiro. Dizendo coisas como “Aí o mocinho foi mordido e se transformou num Drácula”. Nossa, como isso me irritava! Ele comentava que hoje em dia era difícil ver alguém cometendo esse tipo de erro. Camadas e mais camadas de mercadorias de vampiros e/ou do Drácula já se acumularam na vivência de seus imaginários o bastante para que já saibam distinguir uma coisa da outra. Mas depois, anos mais tarde, percebi que também fazia isso com relação à Medusa, que era apenas o nome de uma das três irmãs com serpentes no lugar dos cabelos e cujo olhar petrificava todos aqueles que as encarasse. Górgones. Havia também Esteno e Euríale. E vai saber quantas mais hoje em dia…

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99% de toda lenda é puro exagero” – um general de Drácula em

FEAR ITSELF: HULK VS DRACULA #2 (Novembro 2011)

Tican riu. Não era nem pretendia ser doutor de porra nenhuma, pelo contrário, pra ele quanto menos erudição melhor, uma vez que quanto mais erudição mais trabalho e evitar todo e qualquer esforço era seu objetivo máximo. Todavia acompanhava essas rodas de debate e discussão a qual chamavam por aí de neomitosofia. Ele gostava principalmente por causa dos gibis, primeiro pra apanhar alguns emprestados pra ler, e depois pra conversar sobre… Tican, não fazia alarde das ideias que balizava, mas fumando um cigarro no corredor era capaz de apontar ângulos bem inusitados para analisar velhos temas. Numa tarde preguiçosa assuntava assim “Outra coisa comum é confundir o registro das ideias com as ideias em si. Há muitas ideias que podem ser acessadas com determinadas combinações de palavras. Como chaves, selos, sigilos, como encantamentos de evocação e conjuração de ideias, mas que por si mesmos, não possuem mais do que o valor artístico, ínfimo e supremo que toda obra de arte tem. Veja por exemplo o Frankenstein:”

Recuperava o fôlego, fazia um triângulo de pele com o franzir da testa, e você já sabia por aquele olhar que ele ia longe.

“Frankenstein contém os horrores da primeira infância e seus longos prelúdios. Trata de como experiências de vidas pequenas e recém formadas influenciam os hábitos de toda uma rede cultural ao redor, e de como alegoricamente podemos pensar esse choque entre modernidade e contemporaneidade. Quer dizer, considerando nossa crença e fé cega no fenômeno de emancipação racional prometido, quase como um milagre democratizado pela modernidade, encaramos em nossas mãos trêmulas de ópio e estimulantes a habilidade e potencial de ressurreição instrumental, mas usar pedaços de ladrões e estupradores enforcados fará o que pela criatura? Se aquelas são suas mãos, pernas, corpo – entre uma e outra sutura – então como esperar que sua alma seja pura? Os corpos carregam sua história na pele. Na carne. Cada remendo uma narrativa, metáfora metalinguística da união entre o que foi, o que é e o que será. Do ponto de vista do apanhado de acontecimentos gerais que chamamos de história, essa neomitosofia serve pra nos fazer indagar que tipo de novo mundo bravio pode ser construído a partir dos horrores e atrocidades dos antigos impérios? Mesmo que esses estejam apodrecendo vivos, eternamente devorados e devoradores de sua condição monstruosa, ou ainda que sejam reduzidos a pedaços, desmembrado como os vampiros devem ser, para que sua sepultura possa descansar em paz.”

Hecate ia passando e Tican me deixava pensando.

O monstro vive, sim. Mas talvez a pergunta seja quantos monstros viveram para que esse se formasse? E quantos mais viverão só como consequência da sua existência? E lógico o grande dilema budista. A subversão da samsara. Como quebrar a lógica da repetição? Que transformações são necessárias?

Essa foi a indagação que Tican plantou na minha mente. Hoje eu olho pras práticas e costumes próprios da nossa sociedade e percebo o anacronismo da sua condição. Ainda sob efeito da colonização. Ainda sob ameaça da escravidão. Uma ameaça aprimorada até a invisibilidade. Onde a vergonha e indignidade da vítima é tamanha, que ela já não admitiria sua condição de escravizada, pelo contrário, imbuir-se-ia de violência e soberba para proteger os interesses e imagem de seu dominador, como se esse fosse seu deus.

Vampire_Children Ubud, Floresta dos Macacos, Bali, Indonesia.

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E quando Tican fala de “ideias que podem ser acessadas com determinadas combinações de palavras. Como chaves, selos, sigilos, como encantamentos de evocação e conjuração de ideias” ele está dizendo que esses encantamentos e conjurações não estão limitados a ritualística de estética mística que estamos acostumados a ver nas ficções de suspense, mas em ritos do cotidiano. Acostumar a repetir certas ações. Acostumar às sensações que essas ações repetidas geram em nossos corpos, à forma como essa produção emocional se propaga para as pessoas que convivem ao nosso redor. Criando uma cadeia de repetições. Uma cadeia invisível. A grande fazenda humana que é a civilização do trabalho. A exploração parasítica como cerne vital da nossa sociabilidade. Vivendo como gado. Marcados e felizes, como disse o poeta. Dominados e apaixonados. Amantes da própria dominação.

“Obedecer é morrer. Cada instante em que o homem se submete a uma vontade estranha é um instante que na sua própria vida ele elimina.
Quando um indivíduo se vê constrangido a efetuar um ato contrário ao seu desejo ou impedido de agir de acordo com a sua necessidade, deixa assim de viver a sua vida pessoal; ao mesmo tempo que o homem que dá ordens aumenta a sua dominação da vida, sugada à energia dos que se lhe submetem, aquele que obedece aniquila-se, vê-se absorvido por uma personalidade que lhe é estranha, passando a ser apenas força mecânica, ferramenta ao serviço de um dono.
Quando se trata da autoridade exercida por um homem sobre outros homens, por um soberano despótico sobre os súditos, por um patrão sobre os empregados, por um senhor sobre os criados, imediatamente se percebe que esta personalidade emprega a vida dos que lhe estão submetidos para dar satisfação aos seus prazeres, às suas necessidades ou aos seus interesses; ou seja, para melhorar e ampliar a sua vida pessoal em prejuízo da deles.

Aquilo que em geral não se percebe tão facilmente é a nefasta influência, em tudo isto, das autoridades de ordem abstrata: as idéias, os mitos religiosos ou de outro gênero, os costumes, etc. E no entanto todas as manifestações exteriores de autoridade têm origem numa autoridade mental. Nenhuma autoridade material, seja ela a das leis ou a dos indivíduos, contém atualmente força e razão em si. Nenhuma se exerce realmente por si mesma, todas se baseiam em ideias.”

– Alexandra David-Néel

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Os vampiros existem, é a primeira verdade que te faz arrepiar a nuca e dormir um sono agitado. Os vampiros governam, é a segunda verdade que te priva de todo sono e sossego e transforma sua consciência da sociedade em lampejos de ojeriza, asco e terror. A partir daí é entender os vampiros. Observar como funcionam. Como operam. A diversidade de sua cultura. A complexidade de seu projeto. E sabotá-los. Bom, é isso ou sucumbir ao seu poder de encantar e transformar todos seus amantes em putas.

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Não há diálogo aqui senão de um homem solitário com as vozes em sua cabeça. É chamado Tibes pelos amigos, dos quais se vê cada vez mais distante. Procura registrar, escrevendo avidamente em cadernos e mais cadernos, tudo o que descobrira sobre o império dos vampiros nas comunidades humanas. A forma como o contágio se transmite por pouco mais que um olhar e algumas palavras. No canto do quarto, escuta a respiração da sua mulher e filha. Só quer prepará-las para o pior. Garantir que saibam identificar o opressor oculto a primeira vista. Evitá-lo no geral, erradicá-lo da face da terra quando for oportuno e sabotar seus planos sempre que possível. Mas sobretudo descolonizar-se, para resistir a sua influência nefasta e permanente. Tibes escreve sobre…

AS TENAZES DA LINGUAGEM

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A linguagem é um vírus vindo do espaço

Esse código mágiko pra vetorizar pensamentos e emoções. A comunicação de ideias é muito mais do que simplesmente “comunicação de ideias”. Há transmissão de estados emocionais, vivenciados pela experiência da identificação. A chave para uma identificação efetiva é uma boa narrativa. E toda linguagem é parte de alguma narrativa.

“Três cara simples gostavam mais de ouvir e aprender até que fatalidades com certeza e é o seguinte sempre assim, maquiavelic maldade se percebe aqui cuidado é falsidade estopim dois mil grau é ser sobrevivente E nunca ser fã de canalha a luta nunca vale a experiência é Santo Amaro a Pirituba o pobre sofre, mas vive a chave é ter sempre resposta àquele que infringe a lei na blitz pobre tratado como um cafajeste nem sempre polícia aqui respeita alguém em casa invade dá soco ou fala baixo ou você sabe, maldade: uma mentira deles dez verdades.” – Sabotage, Um Bom Lugar

Há palavras capazes de gerar certos sentimentos e influenciar os comportamentos. Há palavras que geram reações imediatas. Há outras que ficam maturando na bile do ressentimento. Podemos estar inclinados a achar que isso depende apenas da personalidade de quem protagoniza o contato com as palavras, cabendo ao sujeito a autoridade ou autonomia para deixar-se abalar ou permitir-se ignorar as tais certas palavras. Mas não. Não só, pelo menos. As próprias palavras possuem seu poder. Sua força. Sua energia inerente. E vibram com efêmera radioatividade dentro dos corpos que as geram ou que as recebem.

Primeira regra da liderança: Se você não pode ganhar suas mentes, então ganhe seus corações.” – Samuel Sterns, vulgo Líder, ensinado os fundamentos da publicidade de Ed Bernays para crianças no episódio Future Shock (6º da 2ª temporada) na série de desenho animado HULK and the Agents of S.M.A.S.H.

Há pessoas que sabem fazer e ganhar muito dinheiro antevendo tendências e manipulando o consumo em massa devido ao uso aplicado da linguagem, através da construção de uma narrativa com grande poder de engajamento. A identificação emocional está sempre no cerne desse tipo de empreitada. Como um literal coração, músculo pulsante que confere força e faz circular o sistema vivo dessa linguagem. Exemplos incluem propaganda publicitária, patriotismo e outros discursos que transmitem o desejo de inserção em determinado grupo ou sociedade ou ainda a sensação de conforto com o estabelecimento de certos padrões de poder, tais como a meritocracia, a hierarquia, a fé religiosa. Todo o discurso que reforce a naturalização dessas narrativas encontrará maior facilidade de aderência, conferindo empuxo para que as ideias sob essas narrativas permaneçam em movimento e exercendo influência sobre as identidades.

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Em praticamente toda ação da vida diária, tanto nas esferas da política ou dos negócios, em nossa conduta social ou nosso pensamento ético, somos dominados por um número relativamente pequenos de pessoas. Aqueles que puxam os fios com o controle da mente pública.” – Edward Bernays, um puto que merece ser estudado. https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Bernays Em outra passagem ele diz: “Se entendermos a mecânica e os motivos da mentalidade de grupo, será possível controlar e regimentar as massas de acordo com nossa vontade, sem que tomem consciência disso.” – Interessante como ele muda sua associação de uma citação para a outra. Na primeira nós somos a massa dominada, na segunda nós somos os poucos controladores ocultos. Típico de alguém que aplicaria os preceitos da psicologia na publicidade e propaganda, mudando de lado segundo os sabores do vento. Os ventos dos negócios, por assim dizer http://www.activistpost.com/2015/09/the-american-dream-brought-to-you-by-edward-bernays.html. Ed Bernays será importante para fazer-nos entender como fundamenta-se o casamento entes os conceitos do simulacro e do cancro. Essenciais para nossos estudos anti-vampíricos: https://dewthedawn.com/2014/12/16/edward-bernays-and-mass-delusion/.

articulando na transilvania

Controla a língua, porque nela estão os maiores estragos da vida humana.” – o cão Cipião em O Colóquio dos Cachorros de Miguel de Cervantes (1613).

Há também a linguagem bruta da força. A linguagem da violência. Falar alto. Dar um cala a boca. Que pode estar associado à indignação – dar um basta – ou à autoridade (você sabe com quem está falando [meu bem]?). A autoridade oficial expressa já na sua imagem essa linguagem. Um rato fardado não precisa perguntar “você sabe com quem está falando?!”, a farda fala por si, [& com a identificação escondida no bolso ele provavelmente prefere que seu interlocutor nem saiba com quem está “falando”]. A oficialidade encurta as etapas de comunicação na linguagem da violência. A hierarquia naturaliza essa oficialização. Deixa de existir o humano com quem eu posso me identificar enquanto humano e surge o outro, aquela entidade (in)coorporativa do discurso oficial. Nada pessoal, eu só trabalho aqui. Ordens são ordens. Você tem que aceitar o deus pai. Está comprovado, é científico!

jodo

“He who covers his mouth, covers his life. God give you two ears and one mouth. You talk less and listen more. Cover your mouth!”

Há de se ter uma preocupação com a linguagem. A linguagem também tem o poder de comprometer um sujeito no tempo e no espaço. A deusa natureza te fez com 2 olhos, 2 orelhas, 2 narinas, mas só 1 boca. Veja muito. Ouça muito. Perceba muito. Fale pouco. O sábio tem fala curta. O tolo tem boca solta. As palavras podem conduzir e também marcar. Todo vício, todo mal, está fadado à repetição. A condição cíclica de tudo. O jeitinho especial do universo tentar ensinar pro espírito errado machucado como se endireitar aprumar. Todo vampiro é secular e imortal porque toda sensação de perfídia traz no cerne da sua dor a eternidade. Toda dor que não é banal, é eterna. Por isso o vampiro é ao mesmo tempo um eterno sofredor e um eterno filho da puta. Outra ideia também recorrente nesses manuscritos, a contaminação vampírica é uma representação eficaz do poder transformador e corruptor da linguagem. Observem que o poder E o ponto fraco do vampiro clássico está em sua boca. A vampirização é uma perversão da amamentação: alimentar a sua prole com o fruto do seu corpo, e assim criar um vínculo com ela, um laço tão poderoso que sobrepuja a vontade do mestre sobre a da sua cria. Agora pense nesse fruto como uma ideia, envolvida num tipo de narrativa. Tive a impressão de que Guillermo DelToro e Chuck Hogan se basearam bastante na antiga revista da Marvel, A Tumba do Drácula, sumo do gótico americano em plena dinastia hippie, quando resolveram bolar a trilogia THE STRAIN (levando o conceito de dominação vampírica universal para o patamar epidêmico). Em THE TOMB OF DRACULA #8 (maio/1973) Marv Wolfman conduz uma trama lindamente ilustrada por Gene Colan e Ernie Chua, na qual vemos o anacrônico, mesquinho, um tanto covarde e misógino Conde Drácula perseguindo o artefato tecnológico chamado apenas de “PROJETOR” e que tem a aparência mais ou menos idêntica a de um projetor de cinema comum já pra depois da metade do século XX. Temos aí um Drácula deslumbrado com as possibilidades que esse projetor poderá propiciar-lhe quando combinado aos seus próprios poderes de dominação. Abraçando o artefato e rindo histericamente, o lorde vampiresco, como manda o dogma-clichê, explica seu plano bradando-o alto: “Percebeu, enfim, o escopo do meu plano? Criar todos os soldados de que preciso normalmente levaria anos… mas com o projetor, poderei fazer essa noite, aqui, no cemitério…” – vai pensando que a indústria cultural é só besteirol inofensivo… Tem muitas camadas narrativas operando, mesmo nas banalidades mais vulgares da tv e da revista. É necessário interpretar direitinho issaê…

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“Me digue me explique direito é bem melhor assim, man… Vou questionar os demais operacionais itens” – Noticiário Estéreo, Sombra do álbum Fantástico Mundo Popular (2013).

Vamos então saltar das páginas de um gibi pra outro, temos alguns pontos em comum buscando sinal pra ligação: vamps, projetores e um plano de dominação mundial. Usemos nossa maçaneta mágica e o giz encantado pra abrir uma porta que nos transporte até INESCRITO em Jud Süss Parte 1: O Mentiroso, no qual Mike Carey & Peter Gross generosamente ensinam como opera o conceito do cancro. As personagens Tom Taylor, o mago, Richie Savoy, o jornalista e Lizzie Hexam, uma genial estudante de literatura, veem-se aportados na Stuttgart de 1940, ocupada (na verdade infestada por todos os cantos) pelos nazistas.

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Flanando entre as incongruências da materialidade, o trio de protagonistas se depara com ninguém menos que Josef Goebbels, o famigerado ministro da propaganda de Hitler, que apresenta para uma plateia de nazistas o filme Jud Süss, dizendo assim:

E esse é o Jud Süss. O nosso Jud Süss. Comentários?” – ao que algum nazi da plateia rasga a seda para a produção, sentindo seu anti-semitismo totalmente contemplado pela obra cinematográfica que acabara de testemunhar, dizendo todo afetado de poder: “Isso… Eu não teria acreditado, Herr Reichsminister. Levando em conta a origem… Esse filme é uma obra-prima da era moderna! Cada cidadão e cada soldado da Alemanha deviam assistir.” – a origem mencionada pelo anônimo nazista será explicada melhor nos próximos comentários, e mais adiante, pelas próprias personagens, quando Lizzie Hexan, como se diz por aí, colocar os pingos nos is explicando-nos tudo tim tim por tim tim. Ainda assim, vamos por partes: Virando a página, temos na mesma cena, outro nazi, esse menos entusiasmado e mais amedrontado, compartilhando com o ministro seu receio: “Mas… as pessoas não vão se lembrar do romance? No romance a religião do judeu é o que o salva.” Ao que herr Goebbels justifica prontamente: “E quantas pessoas da nossa plateia leem ficção literária densa? Eu mesmo respondo: Uma em cada mil. O alcance do cinema é maior do que qualquer romance. E, enquanto as pessoas assistem às belas imagens, absorvem a moral da história.”. Indigesto, né? Mas Mike Carey não vai facilitar nem um pouco pro seu leitor em O Inescrito, e nessa altura da saga ele está só começando. O próprio Goebbels apontando para o pôster de Jud Süss, para a imagem que se tornaria um dos maiores ícones do anti-semitismo, explica placidamente, com a calma hipócrita que só um torturador pode ter: “A nova Alemanha precisa de novos mitos. Novos monstros. Não gigantes e dragões, mas representações pungentes das ameaças reais que nosso reich enfrenta.”. Tenso. Tão atual. É evidente que o cancro como técnica narrativa para finalidade de controle dos imaginários, foi utilizada com eficiência germânica pelos nazistas, mas nos tramites entre Aliados e Eixo (todos sabemos que a relação foi bem mais amigável do que os filmes e gibis de herói costumam contar), Estados Unidos da América não só absorveram e apropriaram-se dessa técnica, como aperfeiçoaram-na a um extremo inimaginável fundando com Hollywood a Meca do controle e domínio mental por meio de imagens projetadas e traumas pontualmente ministrados e alimentados. De toda forma, o ministro da propaganda e avô da publicidade explica o poder da sua obra ao que Tom Taylor aponta para o livro original Jud Süss que repousa emblematicamente sobre a lata do rolo de filme da sua adaptação perversa: “O livro, você diz? Foi o material que usamos para nos inspirar. Um romance escrito por um dissidente judeu que fugiu para os estados unidos. Fizemos certas mudanças, claro. No romance, um judeu mundano serve a um nobre corrupto. Assim ganha fortuna e poder, e usa-os de maneira implacável. Mas quando tem a filha assassinada, se arrepende e descobre uma verdade mais espiritual. Esse aspecto da história não me interessa.” Em algum momento do diálogo, o ferino jornalista Richie Savoy ainda indaga a Goebbels se ele “acredita nessa merda ou só tenta vender essa ideia?”, mas a resposta do nazista é implacável: “Acredito que outros devem acreditar. Crenças são coleiras às quais podemos prender as correias.”. Agora procure indagar-se e investigar: Quais são as crenças predominantes da sociedade em que habita? E quem as controla?

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Mais adiante, outro assassinato depois, na próxima edição intitulada Jud Süss Parte 2: O Cancro, finalmente Lizzie Hexan mata a charada e elucida de forma direta e simples do que se trata o tal terrível fenômeno. Savoy ainda não se deu conta da importância que o imaginário ficcional representa para a realidade como um todo (mesmo estando dentro de um livro que está dentro de uma HQ!), então inquire: “O que tem de tão especial a respeito de Jud Süss?” permitindo a Lizzie nos educar sobre algo que pode ser identificado claramente em 9 de cada 10 filmes produzidos por Hollywood, seja adaptação ou obra original, pois que o proprio modus operandi da relação entre produção, roteiro, casting e direção, no meio cinematográfico, já inclui a perversão da distorção em seu cerne mais cotidiano… enfim, ela vai direto ao ponto respondendo que “Goebbels virou o filme do avesso.Transformou-o no próprio oposto. Foi um romance escrito por um judeu da perspectiva de um judeu. E se transformou no filme mais anti-semita de todos os tempos. Pense bem. É um cancro. Se você tortura uma história, ela se transforma em um cancro.” – Carey & Gross, O Inescrito #11 (Maio/2010).

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Quando pensamos ou vemos o símbolo da Suástica, sempre associamos ao Nazismo. Porém, a Suástica tem origem de pelo menos 5 mil anos a. C., utilizados por diferentes povos e contendo diferentes significados. A palavra Suástica, deriva fo Sânscrito, “Svastika”; ou seja,”AQUILO QUE TRAZ SORTE”. Para termos uma ideia mais clara, o Suástica ou “cruz gamada”, tem diferente significado; se estiver virado para o sentido horário, tem significado de atrair forças de destruição (O sentido da Suástica usada pelo Nazismo), aliás Hitler, sempre teve atração pelo ocultismo e magia, e acreditava que queria atrair a destruição de seus opositores e atração e magnetismo pessoal. Virada para o sentido horário; atração das forcas energias do bem e também uma referência ao deus sol. A Suástica foi usada por exemplo: Mesopotâmia, se cunhava moeda com o símbolo, há 3 mil anos a.C., no tempo dos primeiros cristãos, pelo povos Maias e até por Índios da America do Norte, os Navajos. OBS: O Nazismo utilizada a Suástica, através da Cabala que evocava o elemento terra, o MALCHUT, em números, era representada pelo 666, o nunero da besta. Na foto fica evidenciado o sentido anti horario.

Isso catalisa as possibilidades de agressão por mal-entendimento e ignorância. Isso prolifera hábitos e entendimentos de maneira epidêmica. Isso colabora para que os paradigmas, as visões de mundo que cada um tem, tendam para uma homogeneização. E isso fundamenta as bases das hegemonias político-econômicas vigentes. O substrato da cultura massificada. Provocará a pichação situ: “A CULTURA? Mas essa é a mercadoria ideal, que obriga a comprar todas as outras. Não é estranho que você queira oferecê-la a todos…”; contraponha essa interpretação a definição do mesmo conceito “A Cultura, aquilo que é próprio, entendido como o que nos distingue e singulariza diante de outras culturas.” – Villoro, Luis. Aproximaciones a uma ética de la cultura. Revista Casa Del Tiempo, n.94, março-abril de 1990, PP. 3-14.

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O criquilhar da crítica. O que mais faz infeliz, dizer da ação Ou dizer da pessoa? Palavras que caracterizem alguém são um forma horrível de violência. A maldição. Transformar a pessoa “naquilo”. Como Barnabás Collins, um vampiro contaminado não por mordida, mas por sortilégio de uma bruxa invejosa. Ou mesmo Drácula, o vlad Tepesh de Stoker, que vampirizou-se amaldiçoando a si mesmo (usando deus como interlocutor). E assim também foi, dizem, com os primeiros lobisomens. Homens marcados por praga de feiticeira ou de padre devido à sua animosidade e assim condenados a vagar como animais. E não esquecemo-nos de citar Cain, o maldito original. Foi com dizeres e um símbolo grafado na testa que deus o condenou… Palavras contribuem para a realidade. Fazem-na acontecer. Palavras são oscilações no longo ritmo de Maya, o mundo-ilusão.

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“O passado não acabou. Nem sequer é passado.” – William Faulkner

E tudo que é proferido ecoa nas espirais da existência. DESDIGA! Desdiga já o que disse de mim! Mas não há de verdade essa coisa de “retiro o que eu disse” ou de “não está mais aqui quem falou” (exceto quando literalmente quem falou já não está lá). Entre 4 paredes, o inferno de OZMO é estar permanentemente sob a ótica de alguém, sendo “aquilo” pra sempre. Então talvez o paraíso seja estar sempre entre gente diferente, ou poder estar só; e poder mudar e ser outra coisa. Poder ser melhor. Ser diferente. Mas toda essa paranoia cristã de céuzão e inferninhos depende da auto-permissão, a sensação de merecimento. Um psicótico lúcido e consciente como Ozmo jamais iria prum paraíso. Ele, mesmo não sendo cristão, nem judeu, nem islâmico, nem temente a deus ou fantasma nenhum, sabe que não merece porque conhece o sofrimento que causou. Céu e inferno não tem tanto a ver com a autoridade de um deus quanto com autocrítica. Pensar no inferno de Ozmo me diz que esse tipo místico e transcendental de sofrimento depende de uma memória perfeita. Uma permanente restauração plena de todas as lembranças. Ou melhor ainda, a total privação do esquecimento.

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O passado é um cachorro morto. Você precisa deixá-lo na sarjeta com as folhas molhadas, as camisinhas usadas e o lixo. Vá embora. Não olhe pra trás. Assim não poderá vê-lo caminhando atrás de você.” – Rapunzel em As Mais Belas Fábulas #2 – O Reino Oculto, por Lauren Beukes, Bill Willingham, Inaki Miranda e Barry Kitson

O esquecimento é a morte dos fantasmas. É a extinção do efêmero. O oblívio é o alívio da existência. O momento vazio depois de um longo último expirar. Promessa e prenúncio do nada. Sozinho só descansar.

“Você acredita que o passado pode voltar?

– Mais do que isso. Ele nunca nos deixa. É o que somos.”

Penny Dreadfull – diálogo entre Ethan Chandler e Vanessa Ives no 1º episódio da 2ª temporada Fresh Hell.

As palavras erguem os mortos então. Traz de volta coisas perdidas nonada. As palavras certas proferida de maneira correta podem fatiar nuvens, trazer pra órbita um cometa, ressuscitar os mortos e curar os vivos. Pode transformar substâncias e energias fluídicas, pode dobrar as forças da natureza. Como ter essa certeza? Por todas as vezes em que já testemunhou o contrário. Todas as vezes em que a palavra errada dita da maneira tão errada arruína tudo ao redor, gera medos, vícios e traumas, faz transbordar lama, chover lixo e cultivar veneno. Palavras erradas imperdoáveis. A infâmia. Ódio e desprezo profundo por si. Então repetir qualquer bobagem que escutou por aí. Só pra preencher a calma opressora do silêncio. Aquele estupro particularmente covarde em que se intoxica a consciência de alguém para lhe abusar, aplicada não a uma vítima de carne e osso, mas à noção de verdade e a subsequente construção de uma “realidade comum”. Dois conceitos são necessários à formulação desse debate: o simulacro e o cancro. Ou talvez só seja importante notar como estão envolvidos.

“Eles estão fazendo um fetiche.

– Que é?

– Uma boneca de vodu. Provavelmente. As Necromantes valorizam o simulacro, as coisas que tomam a aparência de outras coisas. Então é mais fácil de enfeitiçá-las” – Vanessa Ives em Penny Dreadfull Episódio 5 da 2ª Temporada – Above the Vaulted Sky

Corte pra outra cena.

Papa Breu, um professor mal pago e maltrapilho, tirado de bêbado, viciado, hippie e vagabundo, tira as cartas de tarô para uma sala de aula. Uma situação totalmente incomum e inusitada, mas que, a despeito de sua anomalia contextual, realiza-se em relativa tranquilidade. É hora de invocar demônios interiores, evocar deuses anteriores, atiçar as curiosidades inferiores e provocar as certezas posteriores. Isto posto, prestemos atenção a aula que será dada hoje na…

PEDAGOGIA ORACULAR

2015 foi marcado como um ano de turbulento conflito entre gestão do governo do estado e unidades escolares do setor público de ensino. Um projeto agressivo de desmonte e sucateamento planejado intitulou-se “reorganização”; e em resposta um imenso levante insurrecional emergiu em centenas de ocupações do espaço escolar, o que forçou uma espécie de reorganização espontânea de verdade. Hoje, em 2016, os professores veem-se obrigados (do ponto de vista do senso de dever moral/ético) a transformar sua metodologia, o que significa democratizar não só o espaço físico escolar, mas o espaço de ensino, aceitar o protagonismo do outro envolve reinventar seus parâmetros pedagógicos com cada estudante, a cada relação. Respeitar o outro em seu tempo, cativá-lo no seu interesse, ajudá-lo a aprimorar-se como puder.

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Esse Papa Breu, ou dotô Breu, vinha com um chapelão de lona tipo de pescador, todo molhado da chuva encardida de sp, tinha barba e bigodão vasto já branqueado pelo cansaço, principalmente nos cavanhaques, de base larga e longa encrespando a ponta do queixo, vestia uma camisa frouxa e toda amarrotada, bem desabotoada nas golas, por onde se viam as guias e colares de contas e tiras de couro pra amuletos e pedaços de tatuagens escapando nas peles daqui nos peitos ou de lá nos braços, usava calças largas e vestia sandálias de couro. Seus dedos eram repletos de anéis. De dentro de uma bolsa pequena e simples que levava a tira colo, retirou um embrulho de pano de couro, um retalho pouco menor que uma toalha, com um furo e algumas runas inscritas, em seu interior estava um saquinho de papel com um maço de baralho dentro de uma caixinha de papelão e alguns objetos sortidos, tais como miniaturas de metal, bolas de gude, botons, um relógio de bolso, uma caixa de fósforo e um pequeno caderninho. Um livrinho das sombras. Dispôs tudo sobre a mesa e apanhou o baralho, que era um baralho normal, dos mais comuns feitos pra jogar canastra, truco, buraco, pôquer, dizendo aos estudantes estupefatos pela entrada estilo intervenção mística do professor esquisitão:

– Normalmente eu cobro pra fazer isso. 77 reais. É simbólico. Não posso ler o tarô sem ser pago por isso, se não, a leitura não acontece… Mas estou em dívida com vocês, então vou presenteá-los com meu segundo ofício oferecendo-lhes uma consulta como cortesia. Digamos um pequeno presente sortilégico pela deliciosa surra política que deram no governador ano passado. Espero que gostem.

Então começou a abrir as cartas.

O jogo constituía-se em virar três séries de três cartas e então interpretar os resultados:

4 de paus, 4 de espadas, 9 de copas.

Depois ás de copas, 5 de ouros, 9 de paus.

E então valete de ouro, 2 de copas e 9 de espadas.

– Algumas cartas possuem significado mais evidente e específico, tal qual o arcano maior do tarô de Marselha, outras serão interpretadas só pelo número e naipe, segundo seus significados simbólicos. Paus representa a madeira que cresce da terra, a natureza. Sua presença sugere criatividade e imaginação. A espada é a representação da mente humana. Sua capacidade mental de transformar o mundo a sua volta e impor sua vontade. O 9 de copas é carta arcana, a primeira do baralho vira-lata do Papa Breu, chamada O Cavaleiro, relacionada a realização ou promoção de projetos pessoais, considerada uma carta muito positiva. Essa primeira trinca era fabulosa porque realmente encaixava com a situação de tirar esse jogo para uma uma turma inteira em seu primeiro dia de aula, considerar isso e que a última carta da primeira trinca é a de número 1, torna tudo mágiko, sincrônico e especial, mas sem alarde, retomemos a interpretação das cartas…

Deu um gole na garrafinha de água ao seu lado na mesa e retomou a consulta:

– O ás de copas é uma perspectiva feminina direcionado aos homens, pra que exercitassem um espelho do gênero, pra se identificarem com suas companheiras enquanto seres humanos, pelo que possuem em comum mais do que por suas diferenças. Seguido de um 5 de ouros que indica uma medíocre estabilidade financeira, e concluída essa segunda trinca em outra carta arcana, a décima quarta, cujo nome é A Raposa, uma carta que é ao mesmo tempo positiva e negativa, uma carta de CAUTELA que adverte à esperteza, a mentira e a falta de escrúpulos.

Todos se entreolharam, uma certa tensão se formou na sala de aula… Breu prosseguiu:

– Concluímos com uma trinca invocadíssima, dois arcanos nas pontas e o 2 de copas no meio. A primeira é uma carta negativa (são raras no baralho), a décima, chamada A Foice. Representa a ceifa, um rompimento, um fim. Abrir mão de algo. As copas estão relacionadas a vida afetiva, a face emocional das coisas – que é onde acontecerá efetivamente a perda dessa turma de estudantes, pois que são do terceiro termo do ensino de jovens e adultos, ou seja, em vias de se formar ao fim do primeiro semestre.

Essa interpretação clara e nítida como relâmpagos numa tempestade elétrica ainda amarrou-se perfeitamente na última carta da última trinca, a qual o professor de história vodu explicava dizendo assim:

– Outra arcana, a trigésima quinta do baralho, de nome A Âncora, que representa segurança, estabilidade tanto financeira quanto emocional, assegurada por vias do desenvolvimento da crença pessoal, da fé em si próprio. Um ano positivo foi previsto pelo oráculo das cartas. E o mais incrível. As cartas que não eram arcanas apresentaram aos estudantes todos os 4 naipes, em seu significado simbólico, mas seus números, quando somados, 4, 4, 5, 2, totalizavam 15 que era exatamente o número de alunos presentes nesse primeiro dia de aula (mais tarde a turma formaria-se com mais de 50 estudantes, mas nesse primeiro dia, houve uma chuva torrencial e o sistema público de transporte entrou em colapso, de novo, resultando que apenas quinze conseguiram chegar).

Desse jeito as palavras, os signos, as marcas e símbolos e runas e algarismos e letras grafadas e inescritas bailam com a realidade, formando-a e transformando-a a cada passo desse tango encarniçado. Ninguém acredita ou aceita destino que for numa escola (ou numa vida) de luta, mas ainda assim o sistema oracular de um baralho vira-lata virado por um professor auto-iniciado em algum tipo de sacerdócio oculto infernal, é capaz de traduzir a verdade em todo seu esplendor.

 “Eu conheci a História tarde demais; em minha adolescência eu era orgulhoso demais para ler historiadores […] E por volta dos 40 anos descobri a história que tanto ignorava. Bem, eu fiquei aterrorizado […] Pegue qualquer época da história, estude-a a fundo e as conclusões que se tira são necessariamente terríveis […] Sempre tive uma visão, digamos, desagradável das coisas. Mas a partir do momento que descobri a história, perdi toda ilusão. Ela é verdadeiramente a obra do diabo!” – Cioran, Entrevistas.

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Ainda é ambiente escolar, esse, entretanto, mais conservador e decadente. Localizado num antigo casarão colonial em cujos tacos de madeira habitam os rangidos da passagem de pesquisadores de toda sorte e também da fragrância característica de livros velhos de páginas amareladas e capas de couro já refeitas muitas vezes. Tudo ali tem aspecto de restauração… o que talvez seja outra forma de dizer que tudo ali parece decadente e lutando bravamente contra a ação do tempo e do oblívio que a tecnologia impõe com avidez e intransigência. É nesse ambiente que assistiremos a última aula da noite. Uma voz rouca e monótona ecoa pelo corredor amadeirado. Façam anotações se acharem necessário, mas é improvável que esse conteúdo caia em alguma prova… Estamos tratando aqui de…

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SABERES ARCAICOS & CIÊNCIA ARCANA

Corte para o professor velho, encurvado, ressentido. Tiburcius era seu nome, Tiburcino para os poucos amigos que ainda estavam vivos. Que quando fala é todo respingos de perdigotos venenosos pontuando sarcasmos e ironias. Professor de sorriso débil e olhos opacos, professor niilista, que leva repousado em seu ombro um morcego de estimação só para aterrorizar os alunos de nervos mais frágeis. Atrás de si uma lousa imensa, dividida em três grandes colunas, absolutamente preenchida com os seguintes dados:

Russo Arcaico – Upir – Упирь – colofón datado de 6555 (1047 AD) num manuscrito do Livro dos Salmos – escrito por um padre que transcreve o livro do glago lítico para o cirílico, por encomenda do príncipe Volodymyr Yaroslavovych. O padre escreve que seu nome é Upir Likhyi – Оупирь Лихыи – o que é interpretado pelos historiadores como evidência de resistência pagã e uso de alcunhas ao assinar o nome.

Citando, e por citando entende-se lendo em voz alta, Alexander M. da Silva, o professor velhaco esclarece que “o primeiro registro escrito do termo que daria origem a palavra moderna “vampiro” surgiu no ano de 1047 da nossa era na forma de upir. Essa palavra de origem eslava surgiu em uma obra russa chamada O livro da profecia, escrita por Vladimir Jaroslov, príncipe de Novgorod, noroeste da Rússia. Nela um padre era chamado de upir lichy, ou seja, um “vampiro hediondo” dado o seu desvio de comportamento. Essa ligação entre o vampirismo e a religião cristã evoca o fato de a Rússia ter adotado o cristianismo oriental em 980 e, desde então, a Igreja local se esforçou para banir rituais e crenças pagãs eslavas sobre criaturas vampíricas. Ainda que o cristianismo tenha vencido a disputa pelo poder religioso, o vampiro sobreviveu no folclore do povo eslavo, tornando-se a personificação simbólica do convívio conflituoso entre cristianismo e paganismo”. Na coluna do meio ele foi escrevendo enquanto falava, em garranchos apressados de giz, assim:

Tratado antipagão intitulado “Diálogos de São Gregório” – datado entre os séculos XI e XIII – onde é registrado um culto pagão upyri. Então relatos que pipocam por regiões da Bulgária, Macedônia, Croácia, Checoslováquia, pelos próximos séculos e ainda mais tarde pela Polônia, Ucrânia, Russia, Bielorrussia. Escritos dos missionários S. Cirilo e S. Metódio…

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– Percebam por favor que estamos mapeando uma manifestação quase fúngica de pseudovida que irá proliferar nos vincos e umidades da formação dos primeiros projetos de estado-nação europeus… – e na lousa:

Sigismundo de Luxemburgo / Sigismundo da Germânia (14/2/1368 – 9/12/1437) – Rei da Hungria (1410 – 1437) Sacro Imperador Romano-Germânico, Rei da Germânia e Boêmia. Membro da Casa de Luxemburgo, marido de Maria da Hungria. Foi sucedido pelo genro, Alberto, pai ilegítimo de João Corvino, senhor do castelo Hunyadi e seu protegido e conselheiro.

Sobrou um espaço na base da coluna então disse apontando:

– Aqui vai alguns marcos importantes. Alguma historiografia pertinente ao tema. – e escreveu em tópicos:

* 484 – Cisma entre Igrejas (Oriente VS Ocidente); * 1054 – Nova Cisma da Igreja (idem); * 1190 – primeiros relatos sobre vampiros na Inglaterra -> vampiro de Berwick – norte da Inglaterra; * Peste vampírica no século XVII; família Alfort, Dillsboro, Carolina do Norte, EUA -> caça a vampiros em 1788 e 1789.

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Fórmula Montesi

– Entendam que podemos continuar pontuando, sem nem nos dar ao trabalho de levantar literatura, cinema e ficção em geral, através do desenvolvimento colonial e as decorrentes guerras mundiais. Esses períodos meio que dão a impressão de serem o filé dos temas abordados por historiadores críticos do progresso civilizatório. Mas como vocês, estudantes escolados, devem saber, isso daria conteúdo para um curso inteiro a parte… Ainda assim, perceba que as guerras mundiais só abrem as portas para o miolo da problemática contemporânea: a apropriação e subsequente aprimoramento dos métodos e tecnologia nazi-fascista pelas potências liberais do ocidente, o que nos levaria às ditaduras civil-militares ocorridas na América Latina e aí vocês já sabem, outro curso inteiro a parte. Infelizmente, por mais interessante que seja desenvolver esse aspecto de análise, a proposta desse curso é observar pontos de origem e cruzá-los com manifestações o mais contemporâneas possível…

https://en.wikipedia.org/wiki/Darkhold

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Passou então para a última coluna, arremessando um toco de giz na lixeira no outro canto da sala:

DEBT = SLAVERY -> DÍVIDA = ESCRAVIDÃO; Membros e arquitetos da dominação vampiresca: * J.D. Rockefeller; * Paul Wargurg; * J.P. Morgan; * Baron Rottschild -> O CONCILIÁBULO, A CAMARILLA; Peões a governar, escravos a dominar: * Edward Bernays -> mix de Sig Freud com Joseph Goebbels aplicado em Relações Públicas para Controle Social; * Walter Lippmann -> Opinião Pública massificação industrial da doma humana populacional; * Dwight Eisenhower -> Complexo Militar-Industrial, a ferramenta suprema da dominação vampírica; * Frank Carlucci -> Carlyle Group -> LBO – Leveraged Buyout; * George Soros: Atualização e aprimoramento industrial do mercado escravocrata.

– Alguém pode me ajudar com esse conceito? – inquiriu o professor Tiburcius, ao que alguém leu da Wikipédia pelo celular assim:

– Também conhecido como highly-leveraged transaction, refere-se a uma transação onde se adquire o controle acionário de empresa e uma parcela significativa do pagamento é financiada através de dívida.

– Isso. Obrigado. Percebam como a aliança entre cultura do crédito e opressão policial se aliam quase com a mesma harmonia que o clero e a monarquia de outrora, criando um modelo de estado-nação edificado sobre conceitos como, Força Neoconservadora; Políticas do Medo; Alerta de Terror e Estado Policial. – na lousa, é claro, estavam os conceitos na sua grafia original, o inglês:

* NEOCONSERVATIVE FORCE; *POLITICS OF FEAR; * TERROR ALERT; * POLICE STATE. Tudo ligado em flechas e hastes que apontavam para o conceito original, citado aí em cima: DEBT = SLAVERY. Ou seja: Dívida (ou Débito) é igual à Escravidão.

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Corte para outra cena

A ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE INVISÍVEL

“Por um salário infame, aqueles Nômades altivos haviam perdido a nobreza e a liberdade e viviam confinados em habitações miseráveis, prostrados por absurdas preocupações materiais, cada vez mais prolíficas, de que antes nem sequer tinham consciência. Eles, que haviam conhecido a eternidade dos horizontes, a limpidez do céu sobre os oásis verdejantes e o bem-estar dos despertares sob as tendas, tinham se tornado exilados dentro de seu próprio reino. Samantar seguidamente lamentava a sorte daqueles infelizes, potentados ambiciosos haviam reduzido à condição de escravos de uma potência estrangeira sem alma, a mais pérfida e a mais venal de todas as nações. Mas enquanto se desencaminhavam essas multidões, submetidas às normas de uma ética bárbara, aqui em Dofa a pobreza do país permitira que a vida transcorresse preguiçosamente e que o povo se dedicasse sem esforço aviltante a ocupações benéficas como a pesca, a horticultura, um artesanato confeccionado na indolência e na dignidade; esse povo assinalara, sobretudo, sua resistência às modas decadentes, continuando a se expressar numa linguagem humana. Era essa linguagem humana que encantava Samantar, uma linguagem que fora, no mundo inteiro, substituída por um idioma bastardo – juntado nas lixeiras do comércio e da publicidade – , que já não tinha a ver com o homem e do qual se excluía toda e qualquer noção de emoção ou sentimento.”

– Albert Cossery, Ambição no Deserto

Há alguns séculos, desde a própria criação da primeira universidade, que se fala aos sussurros em uma universidade invisível. Uma sociedade secreta reunida para estudar saberes ocultos. Místicos, conspiradores, malucos solitários e anarquistas eram o público geral, mas no geral, não se podia nomear unicamente um exemplar de estudante ou graduado nessa antiárea acadêmica. Acerca disso, temos alguns relatos de perspectiva esotérica bem organizados em seu registro, um ótimo exemplo é O Livro do Misterioso Desconhecido, de Robert Charroux, narrativa concebida no seio da AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz), que como tantas outras organizações secretas, brincava de criar uma hierarquia paralela, costurar no verso da civilização uma outra estrutura de empoderamento hierárquico dos saberes. Essas organizações, não raro, se autoafirmarão ser em verdade milenares, existindo desde o encontro da cronologia historiográfica moderna com a contagem mítica do tempo. Desde os dilúvios, desde as primeiras civilizações selvagens, desde o surgimento da cultura hebreia-cristã… etc.

Nada contra a filiação a esse tipo de organização. Independentemente da estética da fé, as pessoas parecem realmente gostar da ideia de que salvadores invisíveis vão moderar seu próprio superpoder em pró do desenvolvimento da nossa civilização. De qualquer forma, o lance com a universidade invisível é que essas seitas e clubes de cavalheiros não traduzem sua manifestação, embora persigam-na avidamente, farejando seu perfume criativo e apontando suas ferramentas em seu encalço. A universidade invisível, pra começo de conversa, não é organizada e nem possui hierarquia. É de magia do caos que estamos falando, então o caos é o método, a justificativa e o objetivo. Acontece que as universidades concretas, essas que possuem nomes e endereços, muito provavelmente hospedarão a universidade invisível, porque o ambiente do campus é favorável á sintonia mental desejada para o estudo. Mas a universidade invisível pode acontecer em qualquer lugar, uma escola, um bar, um beco, um banco de praça, uma plataforma do metrô… basta que dois iniciados se encontrem, se reconheçam (não muito difícil dado a leitura semiótica dos corpos e a empatia psíquica dialogada já nos olhares) e comecem a conversar. Então, respondendo ligeiro o subtítulo, a arquitetura da universidade invisível é qualquer uma. E desnecessária, já que os encontros originais, ao contrário do que pensavam aqueles franceses iluministas rosacrucianos, não era entre edificações e pirâmides de civilizações antiquíssimas, mas na floresta tendo como edifícios apenas a mata, como fruto da engenhosidade humana, no máximo, a fogueira, a dança, o transe e, tendo como margem territorial e vizinhança, as estrelas no céu noturno, a lua em seu balé de fases e as criaturas da noite e do dia.

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Os educadores de vanguarda sabem que as melhores turmas, independente, obviamente, de coisas que as encerram, limitam e atrapalham – como classes e salas – são aquelas formadas pela livre associação. Agrupamentos que se formam emergencialmente, a partir de um tema em comum, de um objetivo, de uma realização. Operando nesse espectro, a transmissão de informação e a própria linguagem em exercício, assume uma amplitude e sofisticação transcendentais. A informação se transmite de muitas maneiras, a comunicação acontece de inúmeras formas. A maioria delas é invisível.

“Quem, inadvertidamente, penetrar neste campo linguístico, depara de súbito com um sistema caótico de referências, como uma rede de nomes de códigos e de símbolos relativos a substâncias arcanas em permanente mutação, em que aquilo que é aparente pode ter sempre um significado diferente e em que o próprio recurso ao léxico barroco especializado e ás listas de sinônimos dos tempos modernos não oferece uma orientação segura. Por outro lado, o crescimento igualmente desordenado de conceitos difusos sempre exigiu medidas de simplificação. Foi o caso da tentativa interpretativa do psicanalista suíço C. G. Jung (1875 – 1961), que veio a ter um enorme impacto. Jung considerava que a forma híbrida ou hermafrodita da alquimia constituía a sua face intrínseca, e que as obras químicas exteriores só podiam ser aceitas como uma projeção de fenômenos anímicos cientificamente manipuláveis.”

– Robb, Alexander, O Museu Hermético Alquimia e Misticismo

Do lado de fora da aula do velhaco Tiburcius há um beco, acesso estreito para a rua de trás, de onde desce uma escadaria até a avenida mais adiante. É o beco onde alguns dos estudantes se reúnem pra fumar antes das aulas começarem. Hoje, devido a chuva que caiu antes, estava vazio e molhado. Do mesmo jeito que a cidade ao redor, ligeiramente menos fétido do que num dia seco. Nesse beco está uma figura a qual chamaremos Tican. Ele está pixando o muro, já bastante carregado de intervenções. Vários atropelos, canetão sobre spray sobre rolinho… Ele assina ti<An. Dois vira-latas o acompanham, farejando ao redor das suas pernas. Ele observa a parede como um todo e percebe que há um padrão se formando naquela imundice informacional. Fareja a discussão sobre vamps do outro lado da parede… o som escapando pelas janelas abertas lá em cima. Sua boca se enche de água, não tem o que goste mais do que fazer os vamps sangrar. ti<An conhece muitos outros caçadores de vamps. A maioria deles é cigana ou rastafári, criaturas cujo habitat natural é a rua, pessoas que conversam mais com estranhos do que com família e amigos em seu dia a dia. Flanadores da cidade. Rastreadores. Rasta Slayahman. Alguns nascidos com sangue de dampiro. Possuem o mal do século nas veias, mas seu corpo é programado pra transformar veneno em antídoto sem laboratório, só com o fígado. Guerrilheiros, sabotadores e amigos.

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http://villains.wikia.com/wiki/Vampires_(Marvel)

Vampire_Killing_Kit. Boston. 1840

ti<AN vive na rua. Depois que lembrou suas vidas anteriores foi desapegando mais e mais das coisas. Objetos passaram a ficar cada vez mais pesados e desinteressantes. Isso acontece porque ele vai e volta na samsara – a roda da vida e da morte e da reencarnação – a cada vez que vem gente, noutras sete vem cão. Na maioria das vezes vira-lata de rua, mas umas ou outras de raças esquisitas e enclausuradas pela sociabilidade vampiresca dos humanos. Umas raras vezes, as suas favoritas, vem como um cão selvagem. Cachorro do mato. Que caça e vive e morre só da terra e dos seres que dela vieram e pra ela voltam. Às vezes sonha em nascer lobo.

Como se chama o folheto? – perguntou casulamente.- Intitula-se tratado do Lobo da Estepe. – Oh, Lobo da Estepe é excelente! E o lobo da estepe é você? Aplica-se a você? – Sim, sou eu. Sou uma espécie de meio-lobo, meio-homem, ou pelo menos alguém que se imagina assim.

– O Lobo da Estepe, Herman Hesse

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Por isso ele confunde um pouco as pessoas e os lugares às vezes. Ele é chamado de esquizofrênico com transtorno de múltipla personalidade, mas isso não é verdade, ele só não se apega tanto a detalhes como nomes, números e palavras. Ele nunca foi formalmente alfabetizado. Mas aprendeu a ler os muros da cidade fluentemente. Ele entende a linguagem de cada pixação, reconhece intuitivamente todas as tags. A lembrança de quando fora um alquimista preguiçoso e desleixado vem à tona. Quando no tratado de Robb, publicado pela editora Taschen, ele sugere que Jung referia-se a uma linguagem híbrida e hermafrodita, creio que esteja apontando para as sutilezas da grafia, usar letras para fazer desenhos e vice-versa. Qual a linha que difere? O que impõe uma fronteira que dividirá essas ações e intenções aparentemente tão dispares? Desenhar e escrever? Escrever ou desenhar? Como montéquios e capuletos? Que música soará desse encontro? Que valsa fará essas ações e intenções bailarem juntas?

É que, como já dissemos, antes toda a linguagem era assim. Antes toda grafia nascia do desejo de pintar, de tornar o mundo mais bonito com a marca da sua história nele. Então, o cancro, o simulacro. A perversão radical de conceitos. A transformação de algo no seu oposto absoluto… Já falamos em demasia sobre esse processo nos outros tratados de  segredos sujos prometeicosmonstros no espelho. As estradas interpretativas que trilhamos pra trazer essa pauta – A ascensão do império dos vampiros – a baila mais uma vez.

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Hoje a linguagem selvagem praticamente só sobrevive na margem. Quanto mais próxima dos marcos zeros de contaminação vampírica, mais propenso ao oblívio ou à contaminação ela está. Mas no coração de um sistema totalmente corrupto e comprometido, alguns artistas invisíveis trocam mensagens, falam através de narrativas ocultas, camuflados nas inconcebíveis quantidades da produção industrial de cultura. Ainda como os antigos alquimistas faziam, cruzando imagens e palavras:

“Sempre que falávamos (abertamente), nunca dissemos verdadeiramente nada. Mas sempre que usávamos uma linguagem cifrada ou recorremos às imagens, ocultávamos a verdade. (Rosarium philosophorum, edição de Weinhein, 1990)”

– idem

Robb conclui o raciocínio aqui apresentado, citando C Horlacher, dizendo que:

“Os filósofos herméticos podem ser entendidos de modo “mais livre, senão mais evidente e mais claro, com um discurso mudo ou sem discurso, através da ilustração dos mistérios com enigmans figurados do que através de palavras” (C. Horlacher, Kern und Stern…, Frankfurt, 1707).”

Burlar, esquivar, subverter o poder das palavras é algo necessário para os comprometidos com a verdade. Deixar que a ideia se manifeste livre a partir da chama que arde em cada um de nós, cada um que detém em sua alma a potência prometéica pra se autoiniciar nos poderes e nas teses que apelarem pros seus apetites.

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Grant Morrison fala um pouco sobre isso através do personagem Mason na primeira edição do segundo volume de Invisíveis, cujo arco que se inicia é intitulado Ciência Negra. Toda a célula de Invisíveis está reunida num restaurante de beira de estrada no melhor estilo cena de abertura de Natural Born Killers quando o assunto vem à baila. Procure acompanhar sua linha de raciocínio:

“Velocidade Máxima é sobre evolução, não é? Tá na cara. O ônibus é o mundo. Pode assistir de novo: Tem tudo que é nacionalidade. Não é só isso. O motorista que leva pro desastre tem uma maquiagem de Cro-magnon. Ou escolheram ele porque parece um Cro-magnon. Ele é nossa herança bruta da evolução, conduzindo o mundo ao armagedom enquanto todo mundo fica só discutindo. É tudo simbólico.”

Como se ele não estivesse sendo explícito o bastante com as referência de tema, conteúdo e estilo, ou como se o coloquialismo no texto não estivesse literal e realista o bastante (com as intervenções dos outros personagens meio que entediados da narrativa paranoica de Mason), ele insiste em seu ponto de vista:

“Vejam só quantas vezes aparece o número 23. Está em todas as cenas. Não é coincidência. É um código. Uma mensagem.”

Isso fica um pouco mais evidente conforme ele defende sua tese abertamente, a partir do diálogo com outras personagens à mesa. Mason insiste:

“E aí, no final, depois da jornada tântrica no metrô, eles saem na frente de um cinema onde está passando 2001: Uma odisseia no espaço…”

Ao que Robin complementa:

“Que trata da evolução do homem. Mason, você precisa de um psicólogo.”

Mas ele não para por aí, e nem desconfia de suas faculdades psíquicas. Vai mais fundo:

“Eu vejo tudo que é coisa mística quando assisto filme. Sabem Pulp Fiction…? O troço que brilha na maleta “666” é a alma do Marcellus, não é? O band-aid que ele tem no pescoço, naquela cena do bar com o Bruce Willis… foi dalí que extraíram a alma. Dá pra ficar o dia inteiro falando disso. Mas assistam Velocidade Máxima. Aí fiquem na cabeça que o ônibus é o mundo e que aquele vão nas obras da rodovia é o apocalipse.”

Jolly Roger se irrita e quer partir logo ao que interessa:

“Tá legal, mas quer dizer o quê? Que diferença faz?”

Essa indicação permite a Mason concluir sua tese, ao mesmo tempo em que Fanny, a xamã trava do grupo vai ao banheiro:

“Quer dizer… Sei lá. Quer dizer que tem alguns filmes que são produzidos por invisíveis e que têm mensagens pros outros invisíveis. São os invisíveis conversando no idioma secreto… Os filmes são indicadores. Pra sabermos que tem outros por aí…”

King Mob, alter ego do próprio Gideon Stargrave (anagrama de Grant Morrison) em pessoa, ainda comenta com ironia metalinguística enquanto tenta encarar os corn flakes como “são servidos na América”:

“Mason, você acaba de transformar nossos últimos dez minutos numa cena do Tarantino.”

Ao que coroa sua argumentação com precisão conceitual memorável:

“É isso que eu chamo de triunfo do pós-modernismo.”

The Invisibles Vol. 2#1 (Fev. 1997), Ciência Negra. Parte 1: Socando.

A metalinguagem não é apenas um método estético, não se trata da forma ou do estilo. A metalinguagem é o hocus pocus da narrativa que se pretende emancipada. A metalinguagem permite à narrativa vazar as intenções para além das vias de comunicação que se encerram na grafia. Cruzando as referências e extrapolando as citações, o pensamento lubrifica-se e escapa da linha narrativa onde se viu originalmente cultivado in vitro, e mesmo que retorne a ela para segui-la até o fim, o fará intercalando outros voos, e multiplicando os ângulos de observação e os pontos de vista o bastante para que possa, empregando uma simples simpatia de criatividade mais memória, teletransportar-se para longe da doutrina e da disciplina e da violência linguística sempre que for possível. Perceba que a metalinguagem de Grant Morrison está povilhada por praticamente toda a sua obra. Homem-Animal, Patrulha do Destino, Joe o Bárbaro, Os Invisíveis, mesmo sua abordagem de títulos como a Liga da Justiça em Crise Final, os Sete Soldados da Vitória e Batman… a metalinguagem é o elixir que Morrison derrama na sua escrita. Seu objetivo: comunicar ideias que palavras e desenhos simplesmente não comportam, mas que podem sugerir. Porque em essência, toda mágica é pouco mais do que sugestão.

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Mas essa sugestão transforma toda a realidade, mesmo que por um instante. E isso é poderosíssimo. Como aqueles sapos ou aranhas de plástico com uma mangueirinha embaixo ligada a uma pequena bomba manual de ar, e que saltam com um apertão. E que em desavisados pode dar a ilusão de um animal que se move, um sustinho bobo, mesmo que por um micro milésimo de segundo… a engenhosidade, as condições ambientais, a mente do enganado e a malícia do magus confluem para transmutar genuinamente aquele brinquedo vulgar em um animal vivo de verdade. A magia é o suprassumo da rebeldia cultural. Magos são trapaceiros da realidade. Sabotam até mesmo as leis da física. Sobretudo praticantes das formas auto-iniciáticas de mágica do caos. Sem seitas nem hierarquias eclesiásticas, sem estruturação ritualística. O rito se apresenta pro seu autor no momento em que está sendo realizado, se muito.

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Comuns os que os realizam sem sequer perceberem. Repetindo palavras de amarração, reproduzindo gestuário de maldição, alimentando egrégoras de ressentimento, travando pactos sinistros com as piores partes de si. Mais comum do que se pensa. Fecha os olhos, ergue as mãos, grita, pede, implora, reprime em nome do bem, crê com força num deus, mas quem responde é a catarse catalisada pelo medo. Toda mística é ameaça em potencial a toda ortodoxia. E toda ortodoxia realizará sua imposição pelo pavor, o terror de que se esteja “vivendo errado sem ela”, a dependência infantil de uma constante atualização da autorização concedida ao sistema de crenças e valores vigente.

“Medo. Todos acham que já sentiram medo. Pensam que sabem qual é a sensação. A vida passando diante dos olhos e tudo o mais. Besteira. A verdade é que a gente fica entorpecido. Desacelera, perde o controle… Você se torna uma casca com um pequeno “eu” enfiado em algum lugar lá dentro, assistindo.”

 – Tig em I, Vampire #5 (Dan Abnett & Andy Lanning + Fernando Blanco)

E a engrenagem fundamental desses motores que operam e transformam a realidade, é a linguagem. Insisto: Há de se ficar atento à linguagem! No livro Chuva de Estrelas, Peter Lamborn Wilson analisa, citando as palavras do estudioso francês Jean Bottéro, as origens primordiais dessa coisa de traçar riscados como feitiçaria pra alterar a (percepção da) realidade (e por consequência a realidade concreta propriamente dita):

Não devemos esquecer que os antigos habitantes da Mesopotâmia, inventores daquele que é o mais antigo sistema de escrita conhecido, criado três mil anos a.C., foram profundamente influenciados por essa inovação. Não apenas porque ela lhes permitia iniciar a tradição escrita, mas também devido ao fato de esse sistema ter inspirado e moldado, de certa forma, sua forma de pensar. A escrita era profundamente pictográfica em sua origem (e continuou parcialmente assim para sempre), o que quer dizer que ela aludia à mente coisas que teriam que ser expressas por símbolos que representavam tais coisas, tanto direta (como um grão para a palavra “cereal” ou um triângulo para “mulher”), quanto indiretamente (o perfil das montanhas significava “terra” e “terra estrangeira”, um pé significava “ficar de pé”, “andar”, “trazer” etc.). Na verdade, representavam conceitos e ações através de outras coisas, os próprios desenhos, que por sua vez se referiam aos objetos. Esse método incendiou a imaginação dos antigos mesopotâmicos e, como vemos, deu à sua “lógica” um certo número de padrões.”

Mais adiante, em suas próprias palavras, Wilson aproxima-se do ponto levantado nesse ensaio, justificando seu objeto de pesquisa assim:

Até mesmo a escrita cuneiforme não foi inventada para propósitos proféticos, ela imediatamente começou a informar a cultura da Mesopotâmia através de uma visão essencial do mundo, baseada na ressonância entre escrita e realidade. E mesmo se nós, felizes modernos, sabemos (graças a filologia comparativa etc.) que todos esses sistemas são arbitrários, não podemos declará-los insignificantes, nestes termos. Ao menos pelo bem do entendimento histórico, temos que admitir que “crenças” são tão importantes quanto “fatos” e que não há uma linha precisa para dividir as duas categorias.”

 – Chuva de Estrelas, O sonho iniciático no sufismo e taoísmo

Peter Lamborn Wilson.

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Então falar da metalinguagem – trazendo-a do campo da teorização para o empirismo da sua experiência de leitura – é falar da descrição textual do texto que se apresenta diante dos seus olhos: Surge como um texto de ensaio e estudo sobre aspectos aflitivos (em especial o vampirismo político) da sociabilidade contemporânea que evoca um gibi imaginário de terror para, desenvolver alguns subtemas e reflexões, inclusive citando passagens inteiras de outras obras, sejam elas HQs, cinema, séries de tv, música e o que mais tiver à mão, e o resultado é um baita post tentando amarrar uma série de outros posts, fragmentos do mesmo estudo, supracitados em hiperlinks, que reforçam basicamente a mesma ideia: A de que é observando bem a linguagem que se protege da influência vampiresca.

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No man ever seen the face of his foe no
He ain’t made of flesh and bone
He’s the one who sits up close beside you girl, and When he’s there you are alone

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

No man ever seen the face of my Lord no
Not since he left his skin
He’s the one you keep cold on the outside girl, he’s At your door let him in

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

I will forgive your wrongs, I am Abel
For my own I feel great shame
I will offer up a brick to the back of your head boy
If I was Cain

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongues singin’
In the black soul choir

Every man is evil yes and every man’s a liar
Unashamed with the wicked tongue
The black soul choir

Oh, he rises in my way
Oh, he rises in my way

Anda ligeiro então. Bem cruzado e imunizado.

Corpo fechado & mente aberta.

Estado de espírito: Bastante desconfiado.

Alma acordada & cabeça esperta

&até a próxima edição… ou outro post relacionado…

Estudo em Vermelho Imaginário by RégiZ-Y. Tibes A.Breu

Posted in Imaginarium, novidades with tags , , , , , , , , , , , , , on março 28, 2016 by PRFSSOR-Regiz-Y.

THE ENDLESS COLDWAR or Red CommiECs CRiSis

A GUERRA FRiA INfiNitA ou A CRiSe dOs CoMUNaQuAdriNhOs VERMELhOs

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Comunistas! O que são? Onde vivem? O que comem? Começamos este post em conjunto, em momentos como este que a unity faz a força e é gente prá caralho. Têm-se discutido muito o que é socialismo, comunismo, capitalismo, e até mesmo  anarquismo,  que poucos compreendem, mas todos querem dar sua opinião. Todo mundo qué dá pitaco. Alheios ou não a máxima de que quanto mais certeza tem o orador, mais seu discurso fica um saco.

2012-01-23

Ultimamente, andamos refletindo sobre as condições atuais do golpe ao neodesenvolvimentismo no Brasil. A agenda neoliberal está preparada, carregada, apontada e muito bem lubrificada, operando as mil maravilhas no senado, mas como consequência social, afrouxou as correias  de alguns fanáticos “nacionalistas” e outros bolsonazis enrustidos na necromântica intenção de desenterrar a velha caça as bruxas comunistas. Mas as camadas de ilusão são tão densas que nem os acusadores patrióticos são tão nacionalistas assim (http://www.esquerdadiario.com.br/Wikileaks-EUA-criou-curso-para-treinar-Moro-e-juristas fossem não idolatrariam um juiz entreguista que conspira com o imperialismo internacional para vender pro mercado estrangeiro a economia e soberania brasileira a preço de bananas e putas menores de idade) e nem os alvos são tão comunistas assim… Vejamos então os pormenores simbólicos desses conflitos. Atentemos para o que  os signos, as cores&valores, nos oferecem como evidência pra desvendarmos esse mar de ilusões, esse diorama de acusações e idolatrias, esse louco delírio fantasmagórico que evoca o assombro de Vargas com seu buraco fumegante no coração, Lincoln Gordon com seu olhar vampiresco escondido sempre sob óculos escuros e McCarthy, cujo semblante para sempre representará o desejo de uma nação por ser governado por alguém que seja mais estúpido e imbecil do que o mais estúpido e imbecil dentre a massa de eleitores. Quem não quer ser governado por um idiota? Idiotas são facilmente conduzidos, são previsíveis, inofensivos… É seguro ser governado por um idiota. Só que é comum esquecermos o quão também é perigoso. E o fascismo, em sua instrumentalidade técnica, inclinação para procurar as soluções mais fáceis e governança agressiva e irrefletida, representa o triunfo dessa idiotice. A imposição de um modelo pela força bruta (seja ela marcial, judicial, burocrática ou midiática) sempre parecerá mais fácil do que o aprimoramento do mesmo. Trata-se de com se relaciona com o trabalho: Labuta ou ars? Obrigação ou beleza? Sofrimento ou feitiçaria?

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Cut to commentator in garden with earphones on, and in front of microphone, which is on a garden table.

Commentator: Ready to smash the communists, wipe them up, and shove them off the face of the earth…(his voice rises hysterically) Mash that dirty red scum, kick ‘em in the teeth where it hurts.(commentator rises from his canvas chair, and flails about wildly, waving script, kicking over table, knocking down sunshade) Kill! Kill! Kill! The filthy bastard commies, I hate ‘em! I hate ‘em! Aaargh! Aaargh!

Wife: (off-screen) Norman! Tea’s ready.

He immediately looks frightened, and goes docile.

Corta para o comentador num jardim com fones de ouvido, e com um microfone em sua frente, o qual está numa mesa de jardim.

Comentador: Pronto para esmagar os comunistas, varre-los para fora, e desová-los da face da Terra.. (sua voz se eleva histericamente) dixavar esta escória suja e vermelha, chutá-los no meio dos dentes onde machuca (comentarista se levanta exaltado da cadeira, malhando selvagemente, lança o roteiro ao foda-se, chutando a mesa de jardim, socando a sombrinha) Matar, Matar, Matar estes bastardos imundos comunas. Como eu os odeio, os odeio! Arrghh Arrggha!

Esposa: (fora de cena) Norman ! O chá está pronto !

(Ele imediatamente olha submisso e vai dócil)

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Radicalmente, o comunismo tem a ver com tornar algo comum. A ação de compartilhar um espaço, uma ferramenta, uma ação ou experiência. Mesmo nas fábricas, o antro mais íntimo do capitalismo, há a ação cotidiana do comunismo, da parceria no trabalho, do companheirismo e da ajuda mútua nos afazeres árduos do ganha-pão. Revolução, Revolussomos nós. cantar sobre revolução porque estamos falando sobre uma mudança, é mais do que só evolução, bem você sabe que você tem que dar aquela limpada geral no cerébro, o único jeito que podemos nos levantar de fato é quando você tira o seu pé das suas costas…

Logo tornar-se comum é tão natural quanto respirar. Somente quem não compreende estar próximo a seus semelhantes é que não aceita o compartilhamento mútuo como desdobramento natural da experiencia humana. Ironicamente, um conglomerado de naturalizações constituem as ilusões necessárias ao reaça para suprimir a empatia intrínseca a esse tipo de convívio. Estão isolados demais. Aterrorizados demais. Sozinhos demais.

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Jessé de Souza – Sociedade e Brasilidade

Jessé de Souza, em entrevista divulgando seu livro “A Tolice da Inteligência Brasileira” afirma que entre os teóricos que nortearam sua pesquisa e seu trabalho, está Max Weber, sobretudo a questão do simbólico explorada por esse pensador clássico da sociologia. Jessé nos diz que “para as pessoas, tão importante quanto um prato de comida e as coisas materiais, é a dimensão simbólica, que é, antes de tudo, dar sentido à vida, legitimar sua vida.”  e ainda insiste dizendo que “as pessoas no fundo não sabem o que são. A primeira necessidade dos seres humanos não é a verdade, os seres humanos fogem da verdade como o diabo da cruz. A primeira necessidade é a legitimação da própria vida, independente de ser verdadeiro ou não.” Isso explica a tranquila convivência da “família brasileira de bem” com as práticas e discursos fascistas  nas chamadas manifestações coxinhas: a massa autoriza e legitima seus comportamentos. Nada mais importa pois estou cercado de outros que pensam como eu. Mas pra que uma identificação possa ser garantida com tanta eficiência num contexto imerso em tão imensa irreflexão, se faz necessária a presença do “outro”, o inimigo, a ameaça, o bode expiatório. É o ódio ao outro e a diferença que dá liga pro discurso por trás do golpe midiático em curso. E é a missão da neomitosofia interpretar esses símbolos, desvendá-los, farejá-los, jogá-los no ventilador. Neomitomancia política é uma brincadeira suja.

Reacionários e golpistas, como os fascistas, nazistas, sempre estão tentando suprimir os direitos da população. Assim surgem os microditadores, que por meio do signo do medo, amedrontam toda uma população de acordo com seus interesses particulares. Estes pequenos reis egocêntricos querem ser o centro das atenções. Na psicologia há a fase egocêntrica das crianças, mas nesses adultos infatilizados esta fase os acompanha até a morte. Dentro da sociedade real e da imaginária, das histórias em quadrinhos, da literatura fantástica, sempre há os que tem o rei na barriga, que querem ter o controle de tudo e de todos, o Rei Maluquinho, incontrolado e violento.

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No Brasil e no mundo, temos visto o crescimento de pessoas que só se interessam por seu particular, e dificilmente aceitam projetos sociais como uma forma de melhoria da sociedade. Chamamos essas pessoas de reacionários ou Fascistas, que vão contra os interesses sociais, comuns, gerais, só se importam com seu ganho, com seu lucro, de modo que consigam subir nas costas de seus funcionários, e assim sugar seu sangue.  Harder they come, harder they burn. Se eles querem meu sangue, terão o meu sangue só no fim. http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FPolitica%2FO-Fascismo-do-Seculo-XXI-e-o-papel-da-Classe-Media%2F4%2F35777

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Esta é a idéia básica do capitalismo, a venda e a troca de produtos, por dinheiro, capital. O simples fato de vendermos água e não bebermos a água da torneira, denuncia a desconfiança pelos público corruptível.  E aí criamos um ambiente particular como resposta. Desconfiança do amor e convívio social. O que é amor? Como se vende e se troca amor por um pedaço de papel? Isto é o que trataremos neste início de post, “o capitalismo contêm em si o germén de sua própria destruição…”. Dar amor e receber amor até não poder mais, é a única solução… The total destruction is the only solution… checking the real situation..

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Vamos do princípio; George Orwell foi o gênio que escreveu 1984 e A Revolução dos Bichos, obras visionárias que ilustram a forma como o poder se estabelece enquanto fenômeno social no contexto atual. A ingenuidade e a maldade são faces diferentes de uma mesma moeda de troca. O medo e o ódio são o resultado dessa transação. O grampo, o sarrafo, o sarampo, escutas telefônicas perseguem cada suspiro da máfia de colarinho branco.

1984, vivemos a Era do BBB, “#nãovaitergolpe” é um slogan obsoleto, uma vez que o golpe já foi dado. Mas não se enganem, o BBB não é nem o Grande Irmão que a tudo observa, uma vez que esse é nós, foi introjetado por cada pessoa com um celular na mão e uma conta em rede social, observando como ação primordial da vida, articulando sua observação e planejando como serão observados, toda uma vida contida em milhões de fotos e vozes armazenados nos ipods, e nem tampouco BBB é um programa tosco de tv. BBB é uma pauta de controle mental, com fins de garantir a realização da Agenda BBB, ou seja, os interesses in plenarium das bancadas da Bala, da Bíblia e dos Bancos. Os Homens-Púrpura de terno, que ostentando retórica religiosa ou policial, trabalham pro mesmo chefe e fim, a conviniência de banqueiros, fazendeiros, industriais e megaempresários que só fazem pilhar os bens públicos em detrimento dos seu interesse particular.

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O personagem Napoleão é Joseph Stálin, o comuna que virou um fascista, nada parecido com o Lula Molusco. Que às vezes aparece tocando seu clarinete, de vermelho e irritado com o Bob Esponja, que sempre está feliz com seu emprego proletário e cuja exploração e mais valia fica por conta do Sr. Sirigueijo. Percebem? A esquerda pode ser cabeçuda e irritante. Existem filósofos como Florestan Fernandes florecendo entre troskos toscos em cada reunião de sindicato. Não é astuto confundir neodesenvolvimentismo com esquerda. Assim como nem toda esquerda é comunista. Assim como nem todo sindicato é uma mini célula mafiosa. Vide Sindicato dos Ladrões (On The Waterfront, 1954) com Marlon Brando do diretor Elia Kazan. Um operário que luta contra a corrupção. Napoleão por outro lado, usa de força militar para intimidar seus adversários.

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The Big brother is watching you…Como neste Superman, o filho vermelho de Krypton, o pau mandado de Stalin nesta vida, mostrando aos EUA e aos porcos capitalistas dominantes que o jogo se inverteu por pouco, por um desvio da pequena nave que vinha do espaço, onde the american dream se perdeu e mergulho no horizonte de eventos do consumismo sem fim.   endless..endless..endless..

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Nesta apresentação, colocaremos os principais expoentes deste movimento, a vanguarda vermelha, os que vieram da Rússia, vulgo; URSS, já colocado pelo clássico Street Fighter II’, antes da dissolução, numa época que a perseguição nao se restringia só a filmes, quadrinhos, aos estereótipos que enquadravam literalmente, os personagens vermelhos, ditos comunistas, libertários e opositores ao sistema vigente. STF surgiu em 1991 e no mesmo ano a União Soviética acabaria.

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Zangief, o Ciclone Vermelho, cresceu em meio aos ursos da Sibéria, defensor do proletariado, foi se opor ao imperialismo americano e ao controle mental da Shadaloo de M. Bison.

Lembramos que este controle mental faz referência a projetos como o Ultra-K e outros cujo objetivo da inteligência norte americana (CIA, ASN etc) é o aprimoramento e múltipla instrumentalização da lavagem cerebral. Não que a KGB não tivesse sua versão, mas só citando por mais estereotipados que pareçam esses adoráveis comunistas.

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Vermelho do Urucum

Vermelho dos olhos

Vermelho do sangue

Vermelho de Raiva

Vermelho do Vestidinho

Vermelhô como naquela música da Fafá

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O Dínamo Vermelho apanharia na rua hoje ?… ou não. Pois que a massa nervosinha ataca tranquilamente hippies de bicicleta e moças sozinhas ou mães com bebês de roupinha vermelha, mas não se mostram muito valentes contra uma armadura vermelha previamente preparada.

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Anansi Tarantula Reza a Lenda Kwaku, a aranha vermelha, a alma do imaginário simbólico ancestral, a lenda africana da aranha pintada de urucum dos indígenas brasileiros, que ensina que trapacear não é maneira certa de viver. Um país mestiço como o Brasil ainda e uma sociedade fundamentada em preconceitos. Pelo menos a alma salva, não é seu Cardeal Dom Odilo? Também foi chamado de comunista, mais um preocupado com a marginalização social que o capitalismo cria.

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Classes sociais bem definidas, o rico é o controlador da fábrica, o empregado que ele contrata produz os bens, que ele mesmo vai consumir comprando novamente de seu patrão, uma cadeia infinita de submissão ao dinheiro, e os controladores do dinheiro só acumulam cada vez mais e mais riqueza, a governanta que cuida dos filhos do patrão mantêm a cadeia dessa luta em evidência, da desigualdade social.

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São só uns bandos de menininhas ricas e mimadas, estilo Paris Hilton que estão querendo meter os pés pelas cabeças em uma ditadura que deixa o rico mais rico e o pobre mais pobre. O ciclo eterno de uma guerra fria infinita. #NãoPassarão

Ei você querendo me tirar porque eu uso vermelho! Vá se foder! O simbolismo do vermelho ostenta raízes ancestrais. Nossos ancestrais brasileiros não ostentavam verde e amarelo, ao contrário, pintavam suas peles de vermelho. É a cor de Exú, lembre-se disso&foda-se você! Antes de existir anarquistas, existiram governos; &antes de exitirem governos já existia Exú, e o vermelho como reprsentação de uma vida vivida de forma intensa e visceral. Se seu projeto é reprimir o uso do vermelho, boa sorte amigo. Você tá lascado! E por mais que você buzine sua vuvuzela, pata em sua panela, grite e cuspa em meus amigos, lembre-se que por dentro, você também é vermelho. E é o vermelho que corre em suas veias animando toda essa sua babaquice e é o vermelho que você deve preocupar-se em não derramar com champanhe a toa por aí. Eu gosto da minha cerva gelada, minha tv barulhenta e meus homossexuais ARDENDO! I like my beer cold, my TV loud, and my homosexuals FLAMING! – Homer Simpson #prontofaleitudo

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A Linhagem Rasputin X

Nos fabulosos X-Men temos o tovarisch Piotr Rasputin, Colossus, que saiu de uma fazenda comunitária de camponeses e juntou-se aos X-Men da América, numa equipe feita de imigrantes, estrangeiros, mas unidos pela mutação. Desenvolveu seus poderes quando viu sua irmãzinha em perigo, a pequena floquinho de neve, Illyana, logo se transformou no Proletário de Aço a combinação perfeita para os trabalhadores russos que viam-se orpimidos tanto por seu partido quanto pelos conquistadores da Europa e América.

nessa ele foi dominado pelo Arcade e voltou a acreditar na ideologia da Mãe Rússia Socialista

nessa ele foi dominado pelo Arcade e voltou a acreditar na ideologia da Mãe Rússia Socialista

Seu Irmão mais velho Mikhail Rasputin, com poderes de alterar a matéria, o materialista histórico perfeito.

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E Illyana Rasputin, a Magia, com poderes de discos de teletransporte, passagens que quebram a realidade, atingindo as profundezas do Inferno ao inimaginável.

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E aí chegamos no Rasputin sênior, tão bem retratado por Mike Mignola em Hellboy universe, e cujo membro está preservado em uma jarra com formól em algum museu obscuro do século XIX. O Rasputin original representa a instrumentalidade da subversão nas relações políticas. A transformação da punhalada nas costas em um manobra política aceitável é alquímica. A magia, diferente do que a maioria dos wicca new age acredita, não possui pressuposto ético nem acata a forças da dicotomia culpa-moralidade inerente ao paradigma hebraico-cristão. Ela atua com forças ancestrais, anteriores as noções de bem e mal, luz e sombras, virtude  e pecado, verde-amarelo e vermelho.

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E para complementar o Pau do Sr. Raspuin Bruxo do Czar da antiga Rússia, imperialista, encontra-se muito bem ainda preservado, teve a premonição de sua própria morte, se fosse por parte da família real algo muito ruim aconteceria a esta família, e foi o que aconteceu quando ouve a insurreição bolchevique.

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Na Marvel Comics, temos também o Fantasma Vermelho e os Super Macacos, Ivan Kragoff irradiados por raios cósmicos, os mesmos do Fantastic Four. Genialidade expressa-se de muitas maneiras, seja pela sabotagem ou pela criatividade. Uma família de astronautas com super poderes, um cientista controlando macacos superinteligentes, dasvadania? Qual a diferença fora a contraposição geográfica? Porque essa contra-disposição geográfica determina o cenário político? Percebamos as semelhanças para além das diferenças.

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Omega Vermelho e seus filhos, as armas X da URSS, a recriação do Arma X canadense na Rússia, os tentáculos da morte, que emitem partículas radioativas e sugam a energia vital dos porcos capitalistas representa a área de intersecção entre projetos díspares e modelos rivais de governo e civilização. O vampirismo tecnológico e instrumentalizado foi proceder edificante nos dois lados da cortina de ferro. A corrida espacial, a corrida tecnológica, aponta duas setas opostas para uma mesma direção de alvo. É onde os governos se tornam a mesma coisa. O mesmo jogo. O mesmo baralho erigindo diferentes casas de cartas. Game of Cards. House of Thrones.  Breaking Anarchy. Sons of Bad.

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Nossa crítica é posicionada. Não faremos coro ao mito da imparcialidade. Isso num existe. Queremos apontar o campo de intersecção entre os projetos. Quando a civilização é a meta final, não importa os meios, exploração do trabalho e dominação social farão necessariamente parte do processo. Aí está a contradição atual. Defender a continuidade de uma gestão popular, segundo os preceitos da democracia, lamentavelmente coexiste com a aprovação de uma lei anti-terrorismo sancionada por essa mesma “democracia popular” em ameaça e mais fragilizada do que nunca. É irônico mas não surpreendente. Para sobreviver no meio do caos destes particularismos egoístas, precisamos nos posicionar criticamente para assim transformar a realidade.

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 Então vamos falar sério? Esqueça terminologias como esquerda, direita, neoliberalismo ou nodesenvolvimentismo, comunismo e capitalismo e pense que o germe desses conceitos na ação humana está na obediência. A ação difarçada. O verbo oculto. Obedecer é suprimir uma ação e por isso se parece com uma não-ação. Mas não é. É uma ação também. Obedecer é ativamente interceder pelo opressor. É tornar-se instrumento da dominação. S’o que They Live (1988), de John Carpenter, nos resgata na memória a presença mais ancestral, que admite a rebeldia como parte fundamental constituinte da natureza humana. O homem é rebelde por natureza. Ou melhor dizendo, ninguém nasce apreciando a obediência, ninguém gosta de acatar. Até que a violência lhe ensine isso. Mas estamos aqui pra mascar chiclete e chutar bundinhas. Eles chutam na tua porta da frente e chegam entrando com a inquisição espanhola.

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The Day the Earth Stood Still (1951), O dia em que a terra parou como prenunciou Raulzito em outra de suas proféticas cancões, que um alien pousa na terra (Starman (1984) com Jeff Bridges, The Man Who Fell to Earth (1976) com David Bowie) com a missão de propor uma convivência pacífica aos homens, cuja evolução imperialista representaria uma ameaça a vida de outros planetas para além do nosso sistema solar.

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Rondó da Liberdade – Carlos Marighella
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
O homem deve ser livre…
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir até quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Aumentar sua resistência física, aprender a atirar, ficar forte, guardar o folego, pra subir e descer o morro…Multidões… Bandido da minha cor, o novo messias, super herói mulato, Marighella, Revolução no Brasil tem um nome, clama por socorro, prá não dizer que não falei das flores, capoeria mata um mata mil, vida difícil, povo feliz, um anjo vai morrer, cada um deve aprender a lutar…

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Acorda amigo, o boato era verdade
A nova ordem tomou conta da cidade
É bom pensar em dar no pé quem não se agrade
Sendo você eu me acomodaria…
Não custa nada se ajustar às condições
Estes senhores devem ter suas razões
Além do mais eles comandam multidões
Quem para o passo de uma maioria?

Progrediremos todos juntos, muito em paz
Sempre esperando a vez na fila dos normais
Passar no caixa, voltar sempre, comprar mais
Que bom ser parte da maquinaria!
Teremos muros, grades, vidros e portões
Mais exigências nas especificações
Mais vigilância, muito menos excessões
Que lindo acordo de cidadania!

Sai!
A gente brinca, a gente dança
Corta e recorta, trança e retrança
A gente é pura­ponta­de­lança
Estrondo, Marcha Macia!

Vossa Excelência, nossas felicitações
É muito avanço, viva as instituições!
Melhor ainda com retorno de milhões
Meu deus do céu, quem é que não queria?
Só um detalhe quase insignificante:
Embora o plano seja muito edificante
Tem sempre a chance de alguma Estrela irritante
Amanhecer irradiando dia!

Sai!
A gente brinca, a gente dança
Corta e recorta, trança e retrança
A gente é pura­ponta­de­lança
Estrondo, Marcha Macia!
SIBA “De Baile Solto”.

Na Marcha macia  não está tranquilo e nem favorável. Quem trabalha nem sempre come, mesmo saindo do mapa da fome. Ademais há o problema da miséria que compartilha corpos com a obesidade. A miséria pode proliferar-se em meio a refeição agora garantida no acesso igualitário ao mecdonaldis e ao passeio no xópiscentis. Ela não desaparece assim como a colonização não desapareceu. Há de se realizar um exercício constante de descolonização. Há de se travar uma desconstrução permanente da miséria e de sua proliferação midiatizada.

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Perceba que a constituição das massas não liga pra pormenores da diversidade cultural. Não importa as idiossincrasias entre anarquistas, socialistas,  comunistas e suas variações… mesmo Ian Hart, depois de toda a luta em Terra e Liberdade (1995), teve sua cabeça obsediada pelo espírito de Valdemort, aquele cujo nome não se pode dizer, mas cujo número mágiko é 45.

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Pra formação do discurso opressor, toda diversidade deve ser suprimida. Todo companheirismo deve ser viciado, contaminado pela desconfiança própria do sistema vigente de dominação. No esquema da cidade, no veneno, no picpac, o próximo é sempre suspeito. O irmão sempre casa com a figura do traidor.

Num tô dizeno que é, tá ligado…? Só tô sugerino que pode ser… Isso que é o que representa a metáfora da velha cobra que bota ovos na mente dos seus súditos. A serpente que toma a mente, que impõe a hierarquia e a obediência. Os Cobra, a Hidra. Que são só um dos desdobramentos, outro departamento, dos G.I.Joe e/ou da SHIELD. A velha e supracitada outra face a moeda e tal. Cobra Criada… Diz que Deus num dá asa pra cobra, mas aki deu…Diz que dá e diz que Deus dará… vale + o q se ama ou o q é teu?

No que diz respeito ao acúmulo de poder, não importa o projeto, não importa a nação. O poder se faz onipotente. Ele passa por cima do resto. A disputa de poder entre poderes dispares é uma ilusão, e não se realiza de verdade. Como o discurso da meritocracia, que supõe uma equivalência de condições entre concorrentes que n verdade não há, mas que brilha com o fulgor de uma bandeira resplandecente, ocultando o massacre que jaz sob o caminho dos vencedores, dos que passam nos concursos, conquistam um emprego, conquistam a casa própria, conquistam as tribos para uma américa que seja virgem novamente, para o bravo mundo novo.

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“Nas ruas do Memphis um Preto foi morto  . . . e em Los Angeles um Branco Caiu. Algo está errado. Alguma coisa está nos matando todos. Um odioso câncer está carcomendo nossa alma por completo!”

Porque o Oliver meteu uma flecha no escoteiro de Metropolis? Porque ele impediu o grande nacionalista de continuar defendendo os valores do Império?

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Brother Power? Give me fuel ! Give me fire ! Cuidado ao virar a esquina! Puppets on fire ! Marionetes pegando fogo e forjando o fogo que erige a babilonia. Segregados como brinquedos na mão de crianças. O povo debaixo do Sol, trampando, debaixo de chuva, carpinando em cima da terra, prá colher os frutos prum maldito de um patrão. People come on. Viva EZLN ! 22 años d luta!

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Poder. Power. Esse o conceito chave. Todo poder ao povo. Isso assusta o povinho que tem poder, num sabe? O poder, quando concentrado, acumulado nas mesmas mãos, corrompe, como disse o frederico, o poder superconcentrado é  origem do mal. A chefia. “O poder de decisão” essa falácia que acompanha aquilo que os “homens de bem” estão autorizados a performar. Todo terror. Toda destruição para um “bem comum”, os nefastos fins eternamente injustificáveis em face dos meios que galgaram sua sina.

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Kraven é um desses, deteve poder demais. Passou a regozijar-se de caçar seres humanos. De um lado, uma barbárie horripilante, de outro, talvez mais justa do que seguir caçando antílopes, gorilas e elefantes. Porque a ruína do homem deveria impressionar mais? Que outra espécie merece um final tétrico e maligno ante os males que cometera contra si e contra as demais espécies e irmãos planetários? Esse pensamento justifica a barbárie? Naturaliza a violência?

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Não importa. Sergei Kravinovitz caça porque é de família rica e poderosa. Ele não julga sua presa, não é o justiceiro. Ele tem um esporte. Tem um hobby. E é matar gente. Diferente de seu irmão Dmitri Smerdyakov, o Camaleão, o mestre do disfarce como Dr. Lao, com mil e sete faces, o Mestre do Disfarce, Lon Chaney Sr. O verdadeiro homem Camaleão. O espião da KGB, logo, os comunistas se tornaram também uma ameaça oriental. Onde o paradigma diferente torna-se uma ameaça só por ser diferente.

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Por que? Pois compromete os planos de dominação,tais responsáveis pela criação dos comunistas, anarquistas estereotipados. Heróis ou Vilões? Qual é a cara do ladrão?  Ainda na Marvel, temos Natasha Romanoff, a Viúva Negra, a fazedora de viúvas, treinada pelos melhores agentes da Rússia. Bucky Barnes, ex parceiro de Capitão América, sofreu lavagem cerebral por estes memos que treinaram Natasha, se transformou na arma viva, O Soldado Invernal.

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Para o império inglês a maior ameaça foram os desertores que abraçavam a vida pirata e os aspectos mais libertários da cultura islâmica. A rainha Victória  contra os piratas desajustados.

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Pirates Band of Misfits (2012)

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Vietnam nah go a war with no more kung fu nun chuckle

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Full Metal Jacket (1987) de Stanley Kubrick, um chefe pra obedecer, um colega que se suicida, os orientais comunistas, a carreira militar ideal dos preguiçosos. Odiar é mais fácil, matar é mais fácil, a fúria do Egg Fu contra a Mulher Maravilha, no ponto do Klashnikov e nós saímos matando uns aos outros. Quando é olho por olho todos saímos cegos e caolhos e tal.

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O Homem Coletivo organiza suas armas, o homem social, a união de todos os poderes, não só homens; homens e mulheres juntos, conectados pela simples razão de viver e de fazer o bem, de compartilhar.

o mutant chinês, conhecido como homem coletivo abilidades que o permitem estar em todos os lugares travando batalhas, quanto mais é mais forte fica, esse é o poder da união

o mutant chinês, conhecido como homem coletivo abilidades que o permitem estar em todos os lugares travando batalhas, quanto mais é mais forte fica, esse é o poder da união

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Linka a garota russa com poderes do ar, dos ventos, atleta sempre em contato com o seu corpo, seu pai era um minerador

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Saber se posicionar e dar sua opinião própria, não é torcer, é se alfabetizar de novo. Existe uma mídia controladora de opinião, que não divulga os fatos verdadeiros, mas que incentivará e estimulará a todo custo uma forma binária de interpretar os acontecimentos. O tal livre arbítrio que nos é concedido de forma divina mitológica não é seguir caminhos que nos são apresentados, mas trilhar nossos próprios caminhos. Nas relações políticas imediatamente aparentes, há um predomínio de infantilidade, um maniqueísmo anacrônico e bobalhão que rege as brigas por gostos como fossem grandes manifestos. E o resultado são manifestações, protestos e o caráter de posicionar contra, perderem seu valor em meio a uma bobageira que vai da volta ao regime militar até o hino sem vandalismo.

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Assim imitamos a infantilidade das crianças e por consequência elas são obrigadas a nos copiar como mini adultos. Como explicar, na era em que tomo mundo pode (e deve!) tuitar, que Walter Benjamin, ao afirmar que “Quem não sabe tomar partido, deve calar-se” estava sendo generoso e não grosseiro?

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Escolha bem seus amigos no Facebook, vi muitas pessoas se declarando abertamente em redes sociais. Excluindo, bloqueando amigos que hoje se tornam inimigos, quem lutará ao seu lado? Querem ameaçar sua vida e de sua família. Querem controlar, mas são todos descontrolados. Fascistas a solta na caça as bruxas, uma multidão descontrolada punindo camisetas, levando seus monstros internos ao pódium do egocentrismo. Sem discussão lógica e ideológica sobre a vida numa sociedade, os imbecis se multiplicam. Lá vão eles ser, carrasco, juiz, júri e executor . . . (Daredevil – 2015 – ep. Nelson vs Murdock) Foggy Nelson para Matt Murdock : – “Já não basta você ser o Juíz, você quer ser o carrasco também ?”

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Hordas de zumbis com a camiseta da cbf, chupins desmemoriados que pedem volta de ditaduras, que ameaçam crianças, hordas de zumbis querendo escravizar uns aos outros pela simples exibição de poder e violência gratuita. Pediam cola na prova de história e hoje não entendem nada.

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O novo Rocksteady da inseparável dupla, Bebop and Rocksteady, na versão do desenho novo das TMNT(2012),  Ivan Steranko se muta com um rinoceronte e se torna aquele antigo Rocksteady Rudy Boy dos anos 80, nessa versão tem direito a soco inglês comuna, e armas como a  foice e o martelo.

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Abaixo uma versão de Solomon Grundy, quando morreu na Sibéria, do jogo Injustice : Gods Among Us.

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Nos Jovens Titãs (Teen Titans  2003), conhecemos o Red Star, o Estrela Vermelha, jovem titã honorário superforça, capacidades sobrehumanas, o verdadeiro supersoldado, mas sua Estrela Vermelha representa o poderio nuclear, o controle da energia radioativa.

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O Anarquia, da galeria de vilões do Batman, considerado um terrorista, o black block que atinge patrimonios publicos para ameaçar os conservadores da ordem e do progresso. Como ele, os anarquistas são sempre colocados como terroristas e tem suas cabeças perseguidas em qualquer sistema, tanto socialista como capitalista.

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Alguns filmes:

REDS (1981) com Warren Beatty e Diane Keaton, jornalista John Reed, os 100 dias que abalaram o mundo, que deu seu sangue pelo partido e para melhorar a condição dos trabalhadores na América.

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Goodbye Lenin (2003)… se o capitalismo imperialista baseia-se na prática permanente de imergir na ilusão do consumo e da propaganta publicitária, que tal inverter os contextos radicalmente? De que maneira a ilusão pode ser dobrada e desdobrada para adaptar-se a um paradigma absolutamente oposto ao do imperialismo capitalista? Essa bela fábula familiar nos mostra que a ilusão é mais maleável que a ideologia e é desse material que as ideologias são feitas…

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Trumbo (2015), com Bryan Cranston, a história de Dalton Trumbo, comunista assumido lutando contra a lista negra nos EUA, a caça as bruxas, os 10 comunistas mais procurados eram também os melhores roteiristas qualificados de hollywood

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Rambo e seu nêmesis, o Sargento Yushin, a eterna luta dos americanos contra os comunistas, contra os vietnamitas, a surra eterna que levaram para casa, e somente um personagem de ficção como Rambo poderia vencer. (Rambo – First Blood Part II – 1985). Lembrando que no original Rambo – Programado para Matar, de 1982, não se trata de apresentar uma imagem vencedora e bem sucedida do soldado americano, pelo contrário. O filme original, baseado na obra literária de David Morrell, ilustra como a guerra deixa em frangalhos o espírito e o emocional de um homem que, tendo sobrevivido a guerra, já não encontra lugar ao retornar para sua nação, encontrando em solo materno só solidão, preconceito, discriminação e violência policial e respondendo a isso com uma rebeldia anárquica que só um ex-combatente poderia ostentar. Engraçado que Rambo tenha se tornado sinônimo coloquial de machão, durão, sem sentimentos, quando Jhon Rambo termina o primeiro filme chorando copiosamente como um garotinho traumatizado nos braços de seu coronel Trautman. Mas claro, os demais filmes são todos bastante ideológicos e tratam do velho soldado ideal voltando ao dever do combate e da obediência para com sua nação, caçando implacavelmente comunas orientais, terroristas árabes e cartéis latino-americanos.

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Rocky IV (1985) contra Ivan Drago, o vermelho, líder da infantaria comunista, boxeador conhecido como, O Touro Siberiano, O Trem Expresso da Sibéria e até Death from Above, Acima da morte,  responsável pela morte de Apollo Creed e assim colocou a América contra ele, um estereótipo do vilão da União Soviética. Não pode ser derrotado, como uma muralha imbatível.

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Em Muppets 2 : Most Wanted (2014), Caco fica preso num Gulag Russo, onde tenta passar aos  detentos suas habilidade teatrais, junto de Tina Fey que é Nadya sua carcereira.

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Indiana Jones 4 O Reino da Caveira de Cristal(2008), sua inimiga é Cate Blanchett como Irina Spalko, uma agente da KGB, oficial militar e cientista, artefatos perdidos e alienígenas.

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Nas Aventuras de Rocky E Bullwinkle (2000), um desenho clássico do astuto Rocky o castor e Bullwinkle o atrapalhado alce, temos como vilões: Boris e Natasha, espiões russos que sempre comandados pelo Fearless Leader, o Destemido Líder, no filme é Robert De Niro quem interpreta.

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Em Team America The World Police, dos diretores Trey Parker e Matt Stone, os carinhas do South Park, o vilão é o já falecido King Jong Il, o supremo líder da Coréia do Norte, um ditador, um péssimo exemplo para o Socialismo mundial.

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Ou ainda Kim Jong-Un , seu neto, que segue na mesma linha, e segundo o besteirol de James Franco e Seth Rogen A Entrevista, é um ditador tirânico que adora ouvir Kate Perry no tanque de guerra. A comédia besta vale pelo sarcasmo, mas sobretudo pela máxima da intolerância: “They Hate Us, Cause They Aint Us” ou seria “They Hate Us cause They Anus”? Nos odeiam porque não são como nós? Ou nos odeiam porque são uns cú? A lição é dada. Fodam-se. Ria do ódio. Haters são pequenos, patéticos e engraçados como poodles, como Plankton com sua monovisão e seus planos diabolicamente egocêntricos…

& para trazer charme a essa lista, temos James Bond e suas belas parcerias comunas, nem sempre tão parceiras mas, ah você sabe do que tô falando, 007-  a agente sóvietica Tatiana Romanova, From Russia With Love (1963), Anya Amasova a agente da KGB conhecida como agente XXX, The Spy Who Loved Me (1977) e Natalya Simonova,cientista russa para as forças espaciais, Golden Eye (1995).

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Dr. Fantástico – Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1965) de Stanley Kubrick, Peter Sellers interpreta diversos papéis, um dele ele é o Presidente Merkin Muffey dos EUA, justamente tem um encontro com o Embaixador Russo Alexi de Sadesky, para por em dia os tratados de falsa paz, manter a marcha macia caminhando. O momento de medo dos americanos se repete no presente. A infraestrutura do passado se repete na superestrutura do presente. Medo. Terror. Tiro. Porrada. Bombas.

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Os queridos smurfs  também foram perseguidos neste jogo, inocentes duendinhos azuis organizados por seu líder de barba e roupa vermelha, cada um com sua função social na sociedade que fazem parte, sempre ajudando uns aos outros combatendo Gargamel, um velho reacionário que quer engolir tudo e a todos.

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Os capitalistas sempre prontos para te engolir!

Até o encanador salvador de princesas, Mario. Que sempre teve seu emprego honesto, martelo sempre em mãos. Só quer sossego dessa horda de goombas valentões.

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Tá Tranquilo, Tá Favorável, Mario ?

Corinthians no jogo contra o Palmeiras de 1945, para arrecadar fundos ao Partido Comunista - O Jogo Vermelho

Corinthians no jogo contra o Palmeiras em 1945, para arrecadar fundos ao Partido Comunista – O Jogo Vermelho

Ainda hoje vi a Guarda Imperial sair para ir ajudar os Avengers americanos, vi eles lutarem contra a corrupção num dia quente de verão.

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A Comuna de Paris, talvez a mais relevante experiência histórica de comunismo, nos ensina antes de mais nada que a convivência comunal é mistura e diversidade de pensamentos organizando-se para uma finalidade coletiva. O bem comum, a comunidade, o carinho que se tem pela quebrada: “A Comuna são seus fatos espaçosos e abertos, polirrítmicos e ressonantes. É uma mixórdia que envolve vários componentes ideológicos, com uma ambiguidade que se sustenta em estrondos: guerra sobre túmulos, monumentos que se derrubam em atos públicos. Em um trecho de Zaratustra onde se invoca o Estado – esse “cão hipócrita” – , Nietszche comenta os fatos da Comuna para exemplificar com eles tudo aquilo que produz “ruídos e fumaça”. Assentada a poeira , tudo ficava igual. Nada diferente escrevera Marx quando proferiu a famosa sentença: é absurdo compreender a história levando em conta apenas “as ações ressonantes dos chefes de Estado”. ” – A Comuna de Paris, os Assaltantes do Céu – Horácio González Ed. Brasiliense. No companheirismo de luta é importante lembrar, principalmente antes de querer repetir a glória e o glamour das lutas romantizadas do passado, que quem resolveu o incômodo da Comuna pra coroa francesa, foram os exércitos alemães, os exércitos do inimigo da França. Nenhum inimigo do Estado faz mais ameaça do que seu próprio povo emancipado. E depois é só assinar um tratado como o de Versalhes como forma de resolver essa mancha política da história francesa. Lembrem-se quem escreve a história no Brasil! Não são historiadores (a profissão mal é reconhecida por aqui, só existe bacharelado – muito mal remunerado diga-se de passagem – em História) e nem cientistas, nem a intelectualidade… quem escreve a história é a mídia e o Estado (o Estado, mais precisamente representado no poder judiciário). É a mídia coorporativa e os tribunais de justiça que produzem os documentos históricos que contam nossa história. Qualquer coisa pra além disso, deverá manifestar-se pela subversão, ludismo e criatividade.

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Por fim somos cínicos cuzões suficiente para ver o circo pegar fogo, uma mídia de merda que produz cérebros de merda. Neomitosofia contra a escória.

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Hoje um dia de Páscoa realizamos este post,  nos despedimos, guardando os segredos, pois quanto mais escondidos ficam, mais vivos. Os comentadores infarto-juvenis que infestam os jornais, as folhas, os power rangers vermelhos unidos, vai katá oniguiri encham os bolsos nazis com a miséria humana (oniguiri prá quem não sabe é aquele bolinho de arroz japonês quanto aos colunistas calunistas, vcs sabem quem são seus inimigos) Mantenha os inimigos perto, conheça seu inimigo ! Peace is the mission, dawg ! Skeletons in yuh closet !

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Nô de brecha! No mundo das listas, no mundo dos segredos, tínhamos uma estorieta que começava bem assim ô da paltrona…

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pósfácio póscréditos difícil ossos do ofício gente é pra brilhar, gente quer cumer e ser feliz

A EXTRAORDINÁRIA AVENTURA VIVIDA POR VLADÍMIR MAIAKOVSKI NO VERÃO NA DATCHA

(Púchkino, monte Akula, datcha de Rumiántzev, a 27 verstas pela estrada de ferro de Iaroslávl)

A tarde ardia com cem sóis.
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava.
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casa dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato.
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
“Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!”
E grito ao sol:
“Parasita!
Você, aí, a flanar pelos ares,
e eu, aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!”
E grito ao sol:
“Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?”
Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas,
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com voz de baixo:
“Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!”
Lágrimas na ponta dos olhos
– o calor me fazia desvairar –
eu lhe mostro
o samovar:
“Pois bem,
sente-se, astro!”
Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta,
etc.
E o sol:
“Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!”
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro,
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
“Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.”
O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.

1920

( Wladimir Mayakovsky) (tradução de Augusto de Campos)

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SETE DIAS

Posted in Imaginarium, novidades on outubro 1, 2015 by ti

“Nesta vida, 

pode-se aprender três coisas de uma criança:

estar sempre alegre,

nunca ficar inativo

e chorar com força por tudo o que se quer.”

– dedicatória de GUERRA DENTRO DA GENTE

Paulo Leminski

filoneofilomitofilosofia, amor pelo saber, amor pela narrativa, amor pelo novo, amor pela magika <3

filoneofilomitofilosofia, amor pelo saber, amor pela narrativa, amor pelo novo, amor pela magika ❤

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“ITS ALIVE! ITS ALIIIVE!!

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No man live forever, but never say never / Every good he want better, just be a go-getter / And always be clever in every endeavor / The drastic time call for drastic measure / Your girl tied to pleasure from your neighbor since ever / The land and the treasure work for whatever / Just don’t be a beggar, the Alpha Omega / Will bless every soul no matter which name you prefer / The immortal stepper believe in every skin / No matter which color they are / Would never let, Him not care which kind of weather / You’re destined to rise like the Son of Rebbecca / Don’t stop for a second / Every man reckon it sure would be good to be there / Whether Zion or Mecca / When the gates are finally closed / And the saints go marching in / When the Armageddon’s dark and dread (I get up and make it happen) / A lot of weak-hearted weep and moan (I get up and we get it cracking) / Only the strong will continue / Do you have it in you? / Come, we’ve got a journey to go / And when the battle get sour and dread (I get up and I get it going) / A lot of weak-hearted wither and moan (We get up and we keep it flowing) / Only the strong will continue (only the strong will continue) / I know you have it in you / I know you have it in you

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refletindo sobre as responsabilidades de ser um bom exemplo

um post um pouco mais autoral pra variar..

um post um pouco mais autoral pra variar..

FILHOTE A CAMINHO (primeiro prelúdio)

Madrugada de 21 para 22 de Janeiro  – 2X15

CHOVE em SP mas os fios de luz gotejam mais que o céu.

Sentimos efeitos colaterais dum silêncio forçado. Maomenos cefalite; maomeno enjoo; maomeno pirirí. MULTIDORES NOS PLURICORPOS – tosse estranha & arrastada. Dorsinha do ladinho. 1 lágrima (Q eu vi).

A cabeça abriga explosões sobre explosões de pensamentos de todo tipo: “nunca conseguirei ler um gibi novamente”; “o quão opressiva não é uma ideia que não admite deixar de ser pensada”; “Filhote, se algum dia, qualquer um – absolutamente qualquer pessoa MESMO – te fizer chantagem emocional, responda com um imediato e assertivo ´tomá no seucú´ pra que a pessoa não repita jamais a tentativa”; nomes, nomes, nomes, Lourenço; Severino; sim Ernesto – de punho em riste; ou Bernardo ou Benjamin… Violeta é consenso máximo para uma moça. Mais pensamentos: “Quão forte pode ser uma criatura que nunca – jamais – passou nenhuma fome?”; “ou frio?”; “ou pegou carona?”; “ou pulou muro?”; “ou tomou uns sopapos?”; ou…

Coisas pra fazer amanhã:

– Inventar alguns deuses a mais pra acreditar.

– Rezar pra não ficar idiota.

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PLANO DE PARTO (segundo prelúdio)

Broto desponta de dentro da sua semente. Racha semente, deixa pra traz tal qual casca vazia. Descama como cascavel. Avança na vida. A mente também brotará no corpo. O corpo também despontará do solo. Alcança outras crias. Cria e cura feridas. Expande-se em  subida e descida. Abaixo as raízes daquilo que deixar pra trás serão suas partes mais fortes. As raízes sempre são os pedaços mais resistentes da existência. Acima estenderá suas extremidades . As folhas que brotarão das pontas dos seus dedos serão a realização/manifestação/ do encontro entre potencial criativo e o espaço que o mundo te dá pra fazer. O mundo folha inteiro em branco, esperando pra ser desenhado. Aquilo que dirá a que veio & que está pro que der e vier.

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7 DIAS

“Eu to com aquela sensação de furo na mão e no pé. Só que sem o furo.” – Ju Litvin, poetisa & filósofa sobre o início do trabalho de parto.

DIÁLOGO SOBRE O SABOR DO LEITE

Eu:

– Doce e ultrasuave, quase com gosto de…

Ela:

– Achei doce, doce que nem pé de manga doce.

A casa é uma máquina viva de contar nossa história. A história do que estamos fazendo. Cada objeto é vivo e conta nossa trajetória. ANIMISMO DO LAR. Meu primeiro diálogo com a filhota foi sobre sua coleção de discos, de como ela vai gostar dos cantos da tradição Juruna na voz de Marluí Miranda em Fala de Bicho, Fala de Gente, sem contar Vengo com Ana Tijoux, tantos da Nação Zumbi (Dá-lhe viver! Dá-lhe viver! Dá-lhe viver!) e uma tonelada de música preta linda pra compor os entremeios da seleção. Música é das formas mais eficientes de transmitir carinho, afeto, bem querer em cada canção. Equalizando as almas e subindo o volume da amizade.

demolidor #8

CAPA DO DEMOLIDOR #8 com elástico em cima: A história do que poderia ter ocorrido: O feitiço do “e se?” a corroer as bordas da realidade. Repetindo em espiral feito o dia da marmota. E se eu tivesse estourado o elástico? Arrebentado ele de propósito? Teria sido mais destemido, não? Quando se é destemido como o diabo, Deus te recompensa com boa sorte e a alegria da sobrevivência. Não sem sustos e soluços.

A metamorfose do corpo. Contração. Expansão. Tensão versus tranquilização. Massageando a solidez até transformá-la em liquidez. Extração. Nutrição. A absoluta falta de solidão. Que será do dia de amanhã? Que será da calma? Do silêncio? O corpo então se transforma, se retransforma, quase mas nunca destransforma – medita, silencia, dói, ri & chora. Compartimenta em chumbo e chaves os maiores medos. Criando sua própria pandora. Eventualmente libertando demônios famintos, tornando-os anjos de viola. Fazendo o melhor possível, botando os bicho pra fora. Trazendo pra perto os amigos, tecendo uma teia invisível a cada minuto de cada hora.

“Ninguém morre!”

“Onde há vida há esperança.” – DEMOLIDOR # 8

27 – 9 – 15

Lua Cheia. Eclipse noturno. Uma lua cheia vermelha no céu. Amanhã minha filha fará sete dias. Ela vive(u) algum tempo numa unidade de tratamento intensivo e passou as primeiras setenta e duas horas em protocolo de hipotermia para preservação neural; algo que se parece muito com o laboratório do jovem Frankenstein, chei de máquinas, tubos, motores e apitos. Na cidade futurista de Neo-Sampa há todo um universo social de crianças como ela, bailando o tango de rosa e punhal nos dentes com a gravidade de seus casos. Suas vizinhas e vizinhos de leito. Dezenas. Certo que Centenas. Na cidade toda talvez milhares.  Como comentou nossa adorada neonatologista, a Dra. Gato, “bebês highlander”, por sua plasticidade adaptativa e capacidade de encontrar novos caminhos pra por sua vida em curso. Violeta, virgo; que nasceu junto com Bill Murray, Leo Cohen e Stephen King. Santo Murray, Santo Cohen, Santo King, abençoem essa menina que tem os pés do Hank McCoy e um olhar de pirata. A vida é dura (já sabíamos). Viver é barra (redescobrimos). Mas o nenê é feroz.

Violinha: receio que ja esteja apaixonado..

Violinha: receio que ja esteja apaixonado..

28.9.2015

Pela primeira vez pegamos Violeta no colo. Estou totalmente desconectado do mundo da internet, das notícias espetaculares e da rotina do trabalho. Queimando karma em fogo alto. Dedicando-me integralmente ao que é orgânico e vital. Depois de anos de malacabadagem, não bebo, não fumo, não sinto falta de nada. Faço planos de treinar boxe e tai chi chuan. De dançar com a pequena Viola nos braços ao som de Tetê & o Lírio Selvagem.

Quando tivemos alta, caminhar pra longe do filhote era como nadar pra cima as águas de uma catarata. Deixar o edifício depois de quase uma semana fazia o mundo ainda mais surreal. No caminho pro carro, na rua da hospiternidade, cruzamos, entre um temporal e outro, com um grupo de Hare Krishnas ensopados cantando e batendo tambores e pandeiros. No rádio, Kashmir na ida, Dancing Barefoot e Take It Easy My Brother Charles na volta. Na rua, vimos uns caras pichando o posto de gasolina na esquina da maternidade, riscando runas urbanas com tinta spray, rolinho e canetão. Em casa, dormimos como acrobatas da cama, como cegos com hipersentidos saltando através das coberturas dos prédios. E entre um soluço e outro susto, sonhamos sonhos agitados e quase inelembráveis, que correm pra se esconder ligeiros nos bueiros da consciência aos primeiros instantes de despertar.

SETE DIAS. Finalmente pude escrever. Pra poder convencer o universo pela magika endemoniadamente ousada do verbo somado de intenção (no caso gráfica), de que eu sou eu. De que nós somos nós. De que meu amor é meu amor. Ela tem sete dias e nunca chorou. Nem um pouquinho. Nem por um instante. Começa agora a testar em pequenos grunhidos sua voz. Eu e sua mãe cruzamos sem vara a corda bamba de ocupar-se antes com o após. No banheiro, álcool em gel, fralda, algodão, hipogloss. Deus parece oscilar entre bonachão benevolente e selvagem atroz,

& pra amanhã a lembrança das sábias palavras ditas pelos avós, de que no final das contas o bebê é um bicho feroz.

Pra Ju e Violeta Litvin

VAI Q VAI

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Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã.
Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã.

Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.

Deixa a gira girar…
Saravá, Iansã!
É Xangô e Iemanjá, iê.
Deixa a gira girar…

Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã.
Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã.

Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.

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Homenagem ao Moebius

Posted in Imaginarium, Textos with tags , , , on março 11, 2012 by plauns

Jean Giraud (nascido em 8 de maio de 1938) é um artista francês de história em quadrinhos que também colaborou na produção de diversos filmes. Giraud é também conhecido pelos pseudônimos de Moebius e Gir. Ele começou a publicar suas primeiras tiras aos 18 anos, logo tornando-se um dos ilustradores mais consagrados da Europa.” Morreu no dia 11/03/2012 aos 73 anos.

Quer um histórico do cara, procura na Wikipédia, quer ver mais imagens, fussa nos blogs, este texto não tem a intenção de ser uma biografia resumida, ou algo do tipo. Escrevo com a vontade de homenagear esse grande artista dos quadrinhos, que faleceu recentemente. Portanto, nada melhor do que mostrar alguns de seus trabalhos.

Um mestre das ilustrações de Hqs, um artista criador de desenhos absurdamente detalhados, com uma noção de luz e sombra admiráveis, com MUITA IMAGINAÇÃO, com paisagens que parecem retiradas de um sonho, com seres que parecem vir de um mundo lisérgico, serviu e ainda serve de inspiração pra muita gente; inclusive eu.  

O principal assunto que me vem em mente quando eu penso no Moebius, é a criatividade. Alguns alegam que com a revolução industrial, o conseqüente surgimento das Universidades e a supervalorização do diploma; ou seja da especialização, estão minando a criatividade das pessoas; o que permite que seja implantado um sistema que transforma as pessoas em meras engrenagens que devem compor a máquina que é o capitalismo. A metáfora com as engrenagens não é de graça, como já mostrava Chaplin em Tempos Modernos, o trabalho é mais importante que o trabalhador, o automatismo é mais valorizado que a criatividade, o sonho não passa de um descanso, a vontade não é mais individual; a máquina engole diplomas, pessoas, florestas e faunas inteiras sem se importar com nada além do lucro. OK, imagino que quem esteja lendo isso já esteja cansado de ouvir falar dessas coisas, ou de ver notícias que derrubam cada vez mais um otimismo que talvez nem exista mais. Minha proposta é simples, escreva algo, filme algo, desenhe algo, toque algum instrumento, faça algum tipo de arte marcial, ou dança, ou teatro, ou pintura… Enfim seja criativo e produza algo. 

Eu tendo a imaginar que os maiores artistas da nossa atualidade não são necessariamente considerados artistas, pelo significado usual dessa palavra; mas pra mim, uma pessoa que recicla, que reutiliza água da chuva, que tenta de algum jeito melhorar a qualidade de vida de outras pessoas; sem necessariamente expressar o que sente através de uma obra de arte, pode ser considerada uma artista, a ação pode ser tão criativa quanto a produção; ou quem sabe até mais criativa. Enfim seja criativo e se não quiser produzir algo, pelo menos aja de modo criativo.

Como já mencionamos em posts passados: “imaginário neurótico”, “imaginário londrino” e “imaginário longínquo”; na nossa concepção, o imaginário atual está enfermo, debilitado e piorando. As genialidades cada vez mais se voltam para um mundo de pesadelos, com muita explosão cinematográfica, mortes espetaculares e perversões pornográficas.

Você bloqueia a internet para seus filhos? Você supervisiona o que ele assiste na TV? Você tenta ignorar, ou pelo menos não se importar com a violência ficcional? Ultimamente tenho pensado como cada vez mais me sinto entorpecido pela violência, como se uma notícia no jornal tivesse o mesmo impacto que um filme de terror; como se uma morte seja ela ficcional, seja ela real possuem quase o mesmo significado pras minhas emoções. Agora imagine alguém que você ama aparecendo em um filme que retrata sua morte; você acreditaria, ou pensaria que ela simplesmente atuou? Eu infelizmente acho q duvidaria pelo menos por alguns instantes. Sinto que é necessária uma doze periódica de obras de arte que retratem uma realidade mais positiva e otimista; pra tentar reverter essa enfermidade do imaginário, pelo menos um pouco, pelo menos em mim mesmo. Já o artista genial que foi Moebius, pode ser ingenuamente considerado pervertido, ou louco, ou até profano; o que infelizmente o torna inacessível pra quem tenta limitar o conhecimento por filtros muitas vezes equivocados e radicais; como vemos em muitas religiões. Não bloqueie a informação, apenas tente indicar as informações que lhe parecem mais indicadas; e se possível priorize o otimismo.

A arte, a filosofia, a ciência, a magia, a espiritualidade, etc; tiveram suas origens em intenções positivas e otimistas, nada mais justo do que terem resultados e reações no mesmo sentido.

E que esse fabuloso gênio dos quadrinhos viva eternamente em nossa imaginação…

O tempo da Contra-Cultura

Posted in Imaginarium, novidades, Textos with tags , , , , on novembro 2, 2010 by loyola25

“A história diz que uma Revolução conquista ‘permanência’, ou pelo menos alguma duração, enquanto o levante é ‘temporário’. Nesse sentido, um levante é uma ‘experiência de pico’ se comparada ao padrão ‘normal’ de consciência e experiência. Como os festivais, os levantes não podem acontecer todos os dias – ou não seriam ‘extraordinários’. Mas tais momentos de intensidade moldam e dão sentido a toda uma vida.”

A década de 1960 foi um dos períodos mais marcantes do século XX. Período conturbado, a Segunda Guerra não fazia 30 anos ainda, o mundo continuava em choque e cada dia que passava era mais evidente um conflito atômico entre as potências, porém, a radiação não obedece a fronteiras, estourasse uma guerra atômica e o mundo entraria em colapso. A sensação dos homens da época era de impotência diante das armas e dos poderes centrais. Eram anos difíceis para se acreditar na vida e no ser humano.

Surge nesse cenário um novo personagem. O Jovem, a juventude. Essa juventude indignada e com medo decide agir! Agir contra o poder, contra a guerra nuclear, contra a rotina, contra o consumismo, contra o preconceito. Organiza-se de forma desorganizada, e desconstrói, irrita e cutuca todo tipo de repressão, pelo simples motivo de não querer participar da lógica sangrenta que a modernidade e o capitalismo trouxeram. Com eles vão surgir os Hippies, os situacionistas, os Provos, novos anarquistas, pacifistas, todos em busca de um novo meio de vida. Faça amor, não faça guerra…

Estes são momentos de intensidade, momentos de pico, que se configuram temporariamente, nunca de forma permanente, mas que marcam a sociedade eternamente. E como os levantes devem ser eles agem como uma grande festa, grandes festivais, badernas, exposições, são verdadeiros Happenings quase que generalizados durante a década, onde um termina, outro começa.

E não foi diferente na Holanda onde grupos de jovens cabeludos, baderneiros, inspirados por anarquistas realizam sua própria TAZ, “uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la.” O Provo não era partido nem movimento, formou um grupo instável e heterogêneo, que no ápice de seu sucesso não contava com mais de vinte pessoas, e se dissolve, pois como um jogo deve ser rápido

“Como ação sagrada, o jogo pode servir para a sanidade do grupo, mas agora com modos e meios diferentes dos que foram empregados para a imediata satisfação das necessidades vitais. O jogo se distingue da vida habitual por lugar e duração. Ele se caracteriza pela sua natureza acabada, sua limitação (…)”

Durante a década de 1960 jovens holandeses descidem que não querem viver na sociedade de consumo capitalista e começam a questionar dentro de suas cidades o quão prejudicial esse sistema pode ser a vida do planeta e das pessoas. São formados cultos como a Igreja da Dependência Consciente da Nicotina, jogos como o Marihu Project que para zombar da polícia cria cigarros com ervas secas do parque, maconha, palha, algas, cortiça e raminhos, para serem distribuídos pela cidade de Amsterdam com as regras do jogo que consistiam em trinta regras completamente absurdas e um sistema de pontos que “além dos pontos que podem ser encontrados dentro dos pacotes de Marihu, os participantes podem obter mais pontos, se forem interrogados pela polícia (10 pontos), se sua casa for revistada (50 pontos), se forem presos (100 pontos) ou se, de vontade própria, fizerem uma visita aos agentes de narcóticos (150 pontos).”

Experiências com o próprio corpo são testadas como o “pastor” da Igreja da Dependência Consciente da Nicotina que recolhia os cigarros para si para livrar o mundo do vicio e do “Kanker” (câncer) causados pela indústria do cigarro. Ou então um jovem cientista e cobaia com experiências com LSD que a partir de pesquisas conclui que a melhor maneira de expandir a consciência sem fumar uma ótima cannabis indiana ou ficar durante quinze minutos com a cabeça baixa é a trepanação do cérebro, formando assim uma espécie de terceiro olho, enquanto seus colegas de forma artística decidem tirar as roupas e colocá-las para lavar.

Surge nesse mesmo período o chamado: Provo. Este cria até uma espécie de provotariado. Um grupo de cabeludos anarquistas que disseminam idéias inovadoras e questionadoras pela cidade através de seu jornal. Alguns planos valem a pena serem citados para entendermos como liberam áreas geográficas, temporais e imaginativas sem confrontar o Estado diretamente.
Um desses planos é o Plano das Bicicletas Brancas. A bicicleta branca vem na contramão dos carros, estes por sua vez assassinos. Os carros tiram o espaço da arte, o espaço da dança para qual deveria servir a rua, eles reduzem os seres humanos a condição de pedestres. Eles matam o homem e a terra, pois a poluem com altos níveis de monóxido de carbono (assim como as chaminés das fábricas e para isso existe também o Plano das Chaminés Brancas). As bicicletas devem ser gratuitas em contraste com o alto preço dos carros, a bicicleta é de todos, indo contra a propriedade privada tão importante ao capitalismo.

O provotariado luta de maneira pacífica, utiliza-se de bombas de efeito moral para rir da cara das autoridades, agradece a cada surra que leva da polícia pelo grande espetáculo que ela causa, atira galinhas brancas na carruagem da rainha, fazem de tudo para irritar. E depois de uma grande encenação dispersam-se para juntarem-se novamente. Defendem os direitos das mulheres para que retornem ao seu estado natural de amantes da vida em contraposição a mulher passiva. A mulher que o provo quer é aquela que tem direito a contraceptivos, direito ao Aborto, direito a organizar e viver sua própria vida sendo independentes e recebendo sempre as informações necessárias e o material disponível para a prevenção da gravidez indesejada. Lutam pela polícia amiga do povo, que não usa armas, mas serve o povo nas suas necessidades como distribuição dos contraceptivos e suporte as bicicletas brancas quebradas.

Muitas outras questões poderiam ser tratadas para falar dos Provos, mas é importante notar que após dois anos de atividades eles decidem se dispersar, pois o seu meio de divulgação – a mídia – estavam os transformando em produtos, e isso não é nada bom… mas deixam um rastro gigante pelo caminho, marcando a cidade de Amsterdam para sempre e influenciando diretamente grupos que se juntam por toda a Europa e principalmente o Hippies de São Francisco

“Quanto tempo haverá de passar antes que a chamada esquerda acorde diante do que está acontecendo em Amsterdam, onde duzentos jovens de cabelos compridos e camisas floridas se manifestam contra os nossos homens do Ku Klux Klan que queimam os discos dos Beatles? Temos de ouvi-los nos dizer que o que a América está fazendo com os Beatles corresponde exatamente ao tratamento que a Alemanha reservou para Bertold Brecht há 33 anos? A quantos de nós ocorreu cantar rindo ‘estão cindo para nos levar embora, ah, ah, ah!’ quando a polícia chega para interromper nossos fúteis atos de desafio?”

E como todo jogo deve ser como toda festa deve terminar para que não deixe de ser extraordinária e deixe a sua lembrança quase que invisível ao mundo que nada vê cego pelo consumo e pela moral. É necessário que o fim chegue, algumas vezes de formas trágicas como ocorreu a muitos hereges cristãos no século XIII, XIV e XV e algumas de forma estratégica como os Hippies (que mesmo assim tornam-se produtos para serem vendidos durante todo o século) e os Provos que se despedem não lamentando mais propondo uma conscientização da juventude Alemã e pedindo autorização ao governo alemão para que possam acabar com a imagem de Hitler no país germânico. E como sempre há tempo para uma última piada ai vai:

“(…) os Provos espalham o boato, por intermédio de jornalistas complacentes, de que havia negociações em andamento para a venda do arquivo completo do movimento a uma universidade americana. Não só não existe nenhum comprador, como nem sequer existe um arquivo. A Universidade de Amsterdam, por orgulho, decide surrupiar o negócio dos colegas americanos e, após ter pago uma enorme quantia, dá por si tendo nas mãos uma caixa cheia de panfletos.”

Imaginário neurótico

Posted in Imaginarium, novidades, Textos on outubro 19, 2010 by plauns

PS inicial, este texto contém espoilers importantes do filme “Fight Club”. Quem não assistiu, eu recomendo.

Porões cheios de homens, voluntários brigam, roda de espectadores esperando a sua vez, nenhuma aposta é feita, não existe um prêmio em dinheiro, eles lutam simplesmente pela vontade de sentir algo diferente; assim surge parte do nosso imaginário atual sobre a loucura. Como um marco cinematográfico das teorias psicológicas, o filme “Fight Club” (Clube da Luta), ilustra bem como o imaginário está enfermo, doente, decadente e mais triste que tudo indesejado.

Quando falamos de sonhos, ideais, virtudes, espiritualidades, desejos, mitologias, etc; estamos falando de algum modo dos nossos imaginários, pelo menos do ponto de vista mais otimista. Porém quando temos um conjunto de imagens, que representam um certos valores (tanto emocionais quanto racionais), corrompidas pelo excesso de informações e pela conseqüente alimentação descontrolada dos espectadores; o cenário que se vê não é dos mais animadores.

Com isso todos nós urbanos somos diagnosticados no mínimo como neuróticos. Mas essas “simples” neuroses tendem a evoluir para patologias um pouco mais complicadas; como: disfunções, esquizofrenias,  psicoses, etc.

No filme vemos que essas patologias podem ser encontradas nas pessoas que menos sugerem um potencial para essas neuroses evoluídas; como é o caso do protagonista, que nem o nome nós sabemos, sabemos só o nome de sua outra personalidade (Tyler Durden). Um fato curioso em relação aos nomes, é que tanto o Tyler Durden quanto a Marla Singer, são nomes que se gravaram em minha memória de um jeito meio estranho, já que quase nunca lembro nomes de personagens e muito menos seus sobrenomes. No começo do filme, aparentemente não encontramos nada fora do normal no psicológico dele; mesmo depois de sua mudança de casa, mesmo com a visível decadência social e econômica, ainda não conseguimos enxergar nada psicologicamente anormal nele; mesmo participando das brigas poderíamos argumentar que ele estava apenas descontando a raiva, ou que não era nenhum crime, ou que faz parte da natureza do sexo masculino, ou algo assim. Quando o grupo deixa de lutar entre si e começa a lutar contra o “sistema”,  os argumentos em defesa da sanidade dele perdem um pouco da força, mas ainda podemos dizer que não é uma patologia das mais sérias, que os idealistas radicais, podem ser tão violentos e terroristas quanto, que ainda pode ser apenas uma neurose. Mas depois de acreditarmos que o verdadeiro psicótico era Tyler, durante quase todo o filme, a surpresa da dupla personalidade nos mostra a loucura patológica do ponto de vista de um louco que tem a consciência da própria loucura.

Levando em conta o conceito de imaginário no filme (FC), apesar de seus desejos serem os mesmos da grande maioria dos seres humanos, esses desejos são moldados de acordo com as vontades de um imaginário coletivo, que de algum modo hipnotiza e captura as vontades do imaginário individual. Como a aparência é tudo no mundo de hoje, a intenção, como motivação e movimento para uma ação, vem perdendo cada vez mais suas forças para com os indivíduos, já que para o coletivo ela já não tem quase nenhum valor. A falta dessa intenção deixou nosso imaginário cada vez mais pessimista; filmes e notícias sobre guerra, violência urbana, catástrofes e por que não pornografia tem sido cada vez mais comuns e até mais radicais; em contra-partida, os filmes e notícias sobre fantasias, romances e heróis que não sejam platônicos, nem utópicos para os parâmetros atuais, são cada vez mais raros. É só vermos o que o oscar vem premiando…

Mas apesar de doente, esse imaginário não está morto. Filmes como “Upperdog” (desconsiderem o nome, pois meio que depõem contra o filme, vale mesmo a pena) que nos mostra a beleza nas imperfeições, ou a alegria em situações estranhas, renovam as esperanças de que esse imaginário ainda irá gritar a plenos pulmões: BASTA, QUE SE FASSA A LUZ!!! Ainda temos imagens que podem nos encantar ou nos enfeitiçar, em vez de hipnotizar, basta procurar um pouco mais e ter paciência.

Mas mesmo assim “O mundo perece por falta de magia” – Ahmed Al Hasan –  imagens de qualidade (tanto estética, quanto ética, quanto lógica) estão cada vez mais em falta. Mas isso não impede o personagem principal de expressar seus sentimentos no fim do filme “Fight Club”, tanto como Tyler, quanto como “Cornélios”, ou como “Humpert” (nomes que ele usa no começo do filme, esse último não tenho certeza), ficando com a Marla e explodindo prédios. O que me leva a pensar qual era o imaginário mais saudável pra ele, o que ele tinha no começo do filme, o que ele tinha no meio, ou o que ele tinha no fim? Mesmo a imagia marginal do consciente coletivo – deixando de lado a brincadeira de palavras – a expressão autêntica, autoral e underground do nosso imaginário coletivo, produz atualmente principalmente a apologia ao hiper-realismo, onde a emoção e a magia raramente são objetos da expressão e da interpretação. Afinal a beleza está nos olhos de quem vê, não é? E se a beleza realmente fosse mais genérica, menos padronizada, será que teríamos essas neuroses que temos atualmente? A beleza está nos olhos de quem vê, ou de quem sente? Afinal a beleza é melhor representada pela imagem, ou pela magia?

Ao vermos o nascer do Sol, várias coisas podem nos parecer belas, em princípio a imagem é a mais importante neste quesito, mas poucas vezes evocamos o lado misterioso, espiritual e mais emocional; quando pensamos nessa beleza abstrata, de algum modo estamos mais próximos de um mesmo sentimento. Por isso nada mais justo do que intensificarmos nossas interações subjetivamente consideradas belas. Sem magias, sonhos, ideais, virtudes, espiritualidades, desejos, mitologias, alegrias, belezas abstratas, imaginários individuais,  o mundo morre um pouco mais a cada dia.

PS: Sonhe o sonho do sonho de você sonhando que está sonhando pra idealizar o ideal do seu ideal mais ideal do ponto de vista ideal magicamente mágico onde o espírito vaga pelo campo espiritual em busca do elo espírito-coletivo no espirito-corpo desejando o desejo dos desejos mais desejado dos desejados desejável e desejante mito das mitologias mitológicas virtuosa virtude alegremente alegre que gera alegria e belas abstrações da beleza interpretada abstratamente imaginada individualmente como uma imagem mágica de magia e sem margem onde o mundo florece em seu fulgor lúdico.

Abraços PLAUNS