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Postado em Mapa do Site em outubro 27, 2010 por plauns

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2&meio Contos de Natal

Postado em novidades, produção NMS, Textos em dezembro 24, 2011 por ti

Uma Canção Natalina (para o séc. XXI)

Um demônio nasceu

No ápice do experimento racional,

Quando o homem desceu.

E desandou o entorno.

As coisas se chocaram mais separadamente.

O Anti-Tempo na foice de Cronos.

Castre seu pai! Castre seu pai!

Sele a mácula de sua própria existência!

Os herméticos já sussurravam: “É preciso conter a humanidade…”

Asas nos pés e uma tenda de chill out para os deuses na cabeça.

Lounge para os demônios. Vampiros na discoteca.

Longe demais de casa.

Hoje o apocalipse já era.

Um demônio nasceu, cresceu e virou herói;

Decidiu ser humano enquanto os homens,

Nesses tempos desvairados,

Descobrem-se cada vez mais monstros.

As vísceras de Prometeu no bico da estrige.

Loogaroo faminta e traiçoeira…

Aproveita-se do deslumbramento do pequeno-homem pelo fogo de Prometeu.

A chama rija da solda. O fio rente do corte de Ogum.

A Máquina estatal de Guerra: TECNOLOGIA DA MORTE

Também transforma a morte em tecnologia.

Condução de energia. Transmaterialidade. Metamorfose.

O mal é sutil e carinhoso.

Toda mentira é delicada como uma punhalada lenta e certeira dada no escuro.

O bem é brutal. Algo que destrói o racional.

Destrói o social. Destrói o normal.

Demolição de ilusões.

Em tempos de termos de marketing em discussões amorosas,

Todo entendimento é lisérgico, marginalizado & banido.

O Anti-Cristo é um velho político corrupto que depois de 50 anos de carreira ainda quase se elege…

 só pra provocar.

Diske 666 para uma vida feliz.

Compre um lugar no inferno o quanto antes

{porque o Céu tá interditado

e você não quer acabar aqui…}

Prestações Eternas. Juros sobre Moléculas.

O Diabo é nosso vizinho.

Você provavelmente aluga pro Leviatã sua vaga extra na garagem.

Olhe a TV: Veja a imagem da Besta

Os crentes, evangélicos, presbiterianos, mórmons e satanistas estão certos:

O Diabo Vive. Está entre nós…

É NÓS.

Quem se exclui?

Quem esconjura essas coisas-ruins de volta pras profundezas?

Quem nega o desejo?

Quem refrea a mesquinhez?

Quem alimenta a vontade pela verdadeira construção de uma virtude?

Satã Reina.

É verdade; é verdade, eu vos digo.

Brasas e fumo na manjedoura.

E uma reza rarefeita na fumaça,

Mandando pros anjos e deuses o recado

de quem tem um bem querer mas já não tem mais saudade

pra Mike Mignola

e Flávio Colin, seu pai

.                                                                                      ti<AN – DEZ. 2008

ASCENDENDO  YUGDRASIL

O Natal diz respeito à Odin, mesmo que a maioria das pessoas ignore isso.

Uma vez por ano, ele se disfarça e desce para a terra afim de caminhar entre os homens. Ele se manifesta como um velho sujo, desses imprestáveis que costumamos ver nas ruas da cidade. A coisa dos presentes é na verdade um saque, uma forma de provar a humildade e fraternidade entre os homens de boa vontade que, gozando da bravura e liberdade de que são herdeiros natos ao nascer, habitam Sua criação.

Pois bem, como um velho maltrapilho, Odin, o pai de todos os deuses, exige para si uma prenda, e são os que cruzam com Ele que é melhor que tenham alguma oferenda para presentear, do contrário são mortos. De forma rápida e indolor, tal divindade benfazeja que É, mas ainda assim intranqüila. O tal infeliz que por falta de sorte (e/ou caráter) eventualmente destrata o Velho Odin tem seu baixo ventre aberto por uma lâmina antiga, enferrujada e um tanto cega pelas eras, e seus intestinos, membros, órgãos, pele e coração pulsantes são enrolados ao redor da mais bela e exuberante árvore da região, de forma que os enfeites rubros sirvam de exemplo à comunidade e reguem o solo fértil para tempos mais fraternos, nos quais um velho mendigo possa ser presenteado com qualquer coisa no natal. Não se engane, Odin é um deus bondoso e afetuoso para com seus filhos, visto que coloca o desenvolvimento moral desses à prova apenas uma vez por ano; entretanto, quando a humanidade torna-se enfadonha e previsível, quando ­ -como crianças teimosas- os homens insistem em recorrer nos mesmos erros: na violência vã, na passividade fria, obscura e conivente… Quando as coisas acontecem assim, o odioso velho caolho, cansado e ofendido, ultrajado pelo que se tornou a lenda de seus dias caminhando entre os homens, deve acabar pensando se mais dias como esse não são necessários para a humanidade… ou se não deveria desencanar desse macacos engenhosos de uma vez por todas e partir para longe, como os deuses Maias e Egípcios fizeram…

Mas o que vê o olho de um Deus? O que vê o pai de todos os deuses com seu único olho (aquele que resistiu ao implacável bico negro da morte fazendo-a parar justamente com a expressão do seu olhar, isso ainda nos tempos em que esteve aprisionado no seixo de Yugdrasil)? Será que vê o triste espetáculo de celebração demagoga de coisas boas? Relembrando os idos em que sacrificava os que não lhe davam qualquer coisa que fosse, como galhos soltos achados no chão, desses com algumas folhas, pouca madeira e nenhum uso a não ser o de simbolizar o bem querer de oferecer um carinho para alguém? Presentes simples. Prova de humildade.

Hoje Ele, chamado pelos cristãos de antigamente de São Nicolau, deve atingir uns poucos pobres bastardos com golpes certeiros e preguiçosos, que despedaçam de maneira irremediável e fatal como qualquer ataque divino, mas já sem interesse algum, repletos de um irritante sentimento de fartura, aborrecimento, monotonia e alguma embriaguês de sacro hidromel.

Empapuçado dessa humanidade abarrotada de peru e velhas promessas de ano novo, Santa já nem se importa em decorar as árvores com as vísceras desses infelizes despreparados de Natal. Apenas os abandona no chão para alguns intermináveis momentos de agonia e desespero antes da derradeira morte dos fracos, daqueles a quem os portões de Valhalla estarão sempre selados.

Odin não é um bonachão senhor de barbas alvas dando tapinhas em sua barriga gorda e dizendo “Ho, Ho, Ho”. Ele é implacável. E durante as festas, assim como no resto todo do ano, é comum estarmos tão deslumbrados pelo frenesi de compras e deveres morais que acabamos perdendo todo critério para a reflexão radical proposta pelo bom velhinho: Quem afinal foi “um bom garoto ou garota” durante o ano? Quem merece um presente caro e vistoso ao invés de um pedaço de carvão, como era o costume antigamente entre o Papai Noel (pais preocupado) e os maus meninos? Algo me diz que essa troca de avaliação dos comportamentos por meritocracia tá baixando consideravelmente nossos critérios éticos enquanto coletivo social… Então não se esqueçam dos maus meninos! Não presenteiem canalhas! Creio que conivência é pior que corrupção.

Cantemos noite feliz sem estarmos cegos pro mal, porque ele existe! Até durante a ceia de natal!

 Mas eu estou preparado. Joguei pedaços de unha do meu pé esquerdo (do polegar) junto ao batente da porta. E depois vou guardá-los dentro de uma meia velha (com mais uma ou duas coisinhas que podem ser úteis a qualquer indigente moribundo) e prega-la em algum lugar, de preferência entre algumas árvores… uma praça talvez… ou então a Floresta Negra da Germânia… Sei que o velho caolho ficará feliz com esse presente.

E se há alguma retribuição d’Ele, a resposta é:

É claro que não! (Quer dizer, não além do supracitado fato de ter sua vida poupada por mais um ano…).

 Feliz despretensioso Natal

E no Ano Novo, vamos tentar trocar PRÓSPERO por DONATIVO.

(E quem sabe o próximo não acaba sendo surpreendentemente mais próspero ainda?!)

Humildade Sempre

Sobrevivência Também.

Com saudades,

para todos os Amigos

Tiago Abreu

12-2XX7

tudoAomesmotempoAondevocêpodeestarAgora

Postado em novidades, Textos em dezembro 10, 2011 por ti

Então vi o Aleph.

Chego, agora, ao inefável de meu relato; começa aqui meu desespero de escritor. Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha tímida memória mal e mal abarca? Os místicos, em transe semelhante, gastam os símbolos: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros, Alanus de Insulis fala de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel fala de um anjo de quatro asas que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul. (Não é em vão  que rememoro essas inconcebíveis analogias; alguma relação elas tem com o Aleph.) É possível que os deuses não me negassem o achado de uma imagem equivalente, mas este informe ficaria insolúvel: a enumeração, sequer parcial, de um conjunto infinito. Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que transcreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei.

Na parte inferior ao degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cor, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois, compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico ali estava, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, via a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha  no centro de uma negra pirâmide, vi um roto labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando  em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi num pátio da rua Soler os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão duma casa de Frey Bentos,  vi cachos de uva, neve, tabaco, listras de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca numa vereda onde antes existira uma árvore, vi numa quinta de Agrogué um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada página (em pequeno, eu costumava maravilhar-me com o fato de as letras de um livro fechado não se misturarem e se perderem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um poente em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas, numa praia do Mar Cáspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha, enviando bilhetes postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de alguns fetos no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisontes, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, claras, incríveis, que Betriz dirigira a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia cruel do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem tem olhado: o inconcebível universo.” (O Aleph – Borges, 1978)

EnTão como temos lidado com nosso tempo? Que temos feito do mundo? Do universo contido em nossas vidas? Que pode ser feito desse mar em fúria de informaçãos que tucham-nos garganta/olhos/ouvidos/poros/cú a dentro todo dia a toda hora? Mundo contemporâneo hiper-inforrmacional. Super-exposição à MuLti_mídia. Qual é o resultado? Ferramenta maravilhosA? Certamente que sim, mas a serviço de QUEM? Há de ser possível construir as fábulas e maravilhas que DESEJAMOS com essa fabulosa ferramenta? Há de nos aproximar das fábulas que adoramos? Ou será que nos ata para recebermos QualquER outra coisa? Que nos acostuma a receber qualquer coisa? O que há na tela? O universo? Livre e irrestrito acesso? qual o sentido? Pelo meu cabo de net entram entes na minha casa? Entra vírus na minha máquina? Quem está fazendo barulho na minha sala quando a TV está ligada? Quem lhe deu o direito de falar? A quem pertence o controle remoto? E o controle total? O entretenimento captura a direção das cabeças, para a direita, esquerda, para o alto – enquanto mastigamos em qualquer lanchonete da cidade; para baixo – em nível celular, embalado no ônibus pela solidão apertada dos fones de ouvido. Estamos tão sós… toda essa informação entre nós… nos insensibilizando para o CONHECIMENTO que possa existir fora do Aleph… mas nada escapa o Aleph, quase todos caímos na web… quem é a Aranha? Seremos devorados? Como moscas desatentas? Ou como filhotinhos de aranha que se devoram compulsivamente eclodindo no rito auto-fágico do nascimento/assassinato em irmandade? Sobreviveremos afinal, à essa confusão? E para QUÊ? Para tecer outras teias ou para voar desatentamente?

Simultaneidade: Enquanto Borges dá a letra, o diabo dá uns toks e Science, sempre ciente, ecôa tudo sorrindo&caminhando>SEMPRE&mMOVIMENTO< ATENTO E Desatento; toma tento! Fica esperto! Antenado, com um satélite na cabeça, como quem equilibra-se em uma cadeira flutuando numa espiral… O tempo das elaborações acabou? Já era a ERA em que os balões pensamento flutuavam sobre as cabeças, ligados a elas por pequenas bolinhas de reflexão? Agora os balões pensamento estão todos no interior das personagens, num interior profundo ao qual raramente temos acesso… e quando temos, o que vemos são fragmentos de pensamentos despedaçados… pedaços largados de razões, cacos de lógica, impossíveis de ser remontados em sua forma original… NADA mais tem forma ORIGINAL. Vivemos MAYA, o mundo feito de ilusões. Onírico UNiverso de referências sobrepostas… que só farão sentido dependendo de que música estivermos ouvindo quando  os confrontarmos; só farão sentido segundo nosso estado emocional… que por sua vez, jamais fará sentido porque SEMPRE há motivo para a miséria&frustração bem como para o RegoziJAr da AUROra de uma nova aLEGRIA.

 

Quanto menos futuro houver para a ORDEM em nossos dias próximos, mAIS ela exclamaRÁ ser ouvida! Mais atenção conclama para si!! É hora de calar a ordem? Ou deveríamos apenas seguir ignorando-a? Todo esse choro… Todas essas notícias ruins e propagandas comerciais sempre irão soar como uma criança mimada esperneando no shopping. GRITANDO por atenção… porque quer ser alimentada com nosso olhar, com nossa expressão… enquanto poderíamos estar fazendo tanto mais. Que façamos então! E deixemos que cuide dessa forma pirralha de civilização seus pais legítimos. Que embora eu desconfie que sejam branquelos como eu, juro que EU não sou!

Homens absurdos! Ridícula civilização! Se teve preguiça de ler mais de três parágrafos longos, cuidado! Pode estar infectado! Os jornais e editoras adaptam-se ao tempo da multimídia… menos textos, mais imagens… menos TEMPO mais DATA, menos pensamento e mais reprodução. Opiniões prontas, só repetidas ad eternum. Mentir fica a cada dia mais fácil. A VERdade fica cada vez mais obsoleta. Alguém grafa e desenha nos muros: VER A CIDADE! VER A CIDADE! Precisamos (DE) VERACIDADE!!

ZAP! a velocidade dum choque! A velocidade da morfina batendo no organismo! ZAP! e tu tá parado! ZAP! trocando de canais como se estivesse em movimento! ZAPeando! PARADO ZAPEANDO!! ilusão de escolha. Ilusão de movimento! Ilusão de ESColha! Não há escolha, há ração para a impaciência, cão cego morando dentro! Que late ZAP! ZAP! ZAP! e passa da enchente pros esportes, da troca de tiros com a polícia pro Bob Esponja e Patrik caçando águas-vivas  com suas redinhas… legalzinho , mas só durante um tempinho… depois vem os comerciais e ZAP! E ainda há tanto mais pra dizer, mas ZAP! E Cérbero é um temível cachorro de três cabeças que protege os portões do HADES, mas distrai-se tão facilmente, embora tenha seis olhos e três focinhos com faro implacável… é só atirar-lhe alguma guloseima que isso basta para escapar das dependências do inferno: ZAP! assim fácil fácil! E renascidos na terra estaremos mais uma vez! Para zapear errantes mais um pouco… quem sabe? ZAP! O impacto que Crumb dá nos nervos com seu bico de nanquim! ZAP! todo meu apoio aos MOVImentos popULAres de ocUPAção terrItoRIAL! ZAP! As palavras flutuam inertes, suspensas pelo brilho tremulante duma cansativa insônia adormecida! ZAP! NADA TEM FIM! ZAP! O ShoW não pode ACABAR! ZAP! O Sonho Continua! ZAP! A LutA CONtinua!  ZAP! Minha enxaqueca, depois de três dias, CONTINUA! ZAP! MAIS Analgésicos! ZAP! MAis alguns anos e quimioterápicos nas farmácias! ZAP! O nível dos MAres Subindo! ZAP! (mas Borges já nÃo disse tudo isso?), ZAP! E os Maias já não haviam escrito tudo isso? ZAP! E Sabota já não rimou tudo isso (Nós travamos, NOSTRADAMUS tava certo e não errou!)? ZAP! Outra reprise! ZAP!  Outra estréia! ZAP! Outro remake! E ZAZ! ZÁS! Zás! Aí vamos nós!! A VERdade do universo (narrada pelo Morgan Freeman) à sua disposição mas ZAP! você não teve paciência de ouvir até o final! Os mais audazes, ativos e extrovertidos dizem orgulhosos: “Dormir? Descansar?! Descansarei quando morrer!”… mas eu pergunto: SERÁ?! Ou no meio do descanso, na parte boa do sono ZAP! tu tá na vida de novo! Chorando, sofrendo sujo de meleca e frustração. Surdo e desatento pelo excesso de televisão! Telemetria da alma: isso sim costumava ser um bom espetáculo! Bisões correndo e saltando à luz das fogueiras nas paredes da minha caverna… mas ZAP! Passaram alguns milhares de anos e aqui estou eu, escreVendo num blog.com e sentindo falta dos primitivos tempos de dor de dente e fome invernal… e hoje espero os intervalos comerciais e me entedio com dublagem tosca da vida, mas aguardo mais um pouco, porque quero ver o final… mas até lá… ZAP!

Eu quero um terraço Com telhas de vidro Na beira de um lago De águas azuis E quatro janelas Abertas pro mundo Mostrando a mim mesmo Os pontos Cardeais Eu quero meu rádio De pilha ligado No mesmo segundo Em quatro estações Sentir o bocejo Da boca do mundo Ouvir num segundo Duzentas canções Deitado meus sonhos Sem nenhum remorso Na beira de um lago De águas azuis Não quero esse dedo No rosto de Pedro Nem quero pra Paulo O peso da Cruz São pontos de vista De dois olhos cegos E clara evidência São pontos de luz Não quero essa boca Jorrando pra dentro Palavras e gritos E berros e luz E línguas e lábios E dentes sangrando No tapa, no berro, No braço e no murro Eu quero é dormir Sem nenhum remorso Na beira de um lago De águas azuis 

PONTOS CARDEAIS  (Alceu Valença)

Os agradecimentos pela inquietação que gerou esse post vão para:

Erik Jardinovsky Debatin, Gabriel  Macedo  Magalhães,  Daniel Go Tanio e Lucas Dutra – que ajudaram a catalogar  A Biblioteca de Babel;

Eduardo Antonio Bonzatto –  especificamente pelo  Capítulo I: Apontamentos sobre  a Tradução Iluminista  do Mito da Caverna de Platão  extraído do seu Manual da Contra-História na Anti-Modernidade (http://pt-br.protopia.wikia.com/wiki/Apontamentos_sobre_a_tradu%C3%A7%C3%A3o_iluminista_do_mito_da_caverna_de_Plat%C3%A3o);

Lyslei Nascimento  pelo apoio teórico e inspiração (http://www.letras.ufmg.br/poslit/16_producao_pgs/NASCIMENTO,%20Lyslei%202007.pdf);

William  Cole –   por  mostrar com orgulho (notícia rara) que juventude e primitivismo ainda  caminham de mãos dadas;

& todo coletivo NMS   – pela insistência em tirar desordem das programações e mágika  da luz que emana das  nossas telas.

ZAP!

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Cantos Profanos

Postado em novidades, produção NMS, Textos em junho 11, 2011 por ti

“Iä! Shub-niggurath! O Bode Negro da Floresta de Mil Filhos!” – Um Sussurro nas Trevas

H.P. Lovecraft escreve sobre lugares. Eu diria que suas palavras evocam a idéia de espaço; e é nesse sentido que sua literatura tece à maestria o clima de horror e loucura. O espaço não é algo sobrenatural, místico, abstrato, cujo entendimento possa ser vago. O espaço é concreto. É algo que está lá, mesmo se fora da vista e além do alcance. Se falamos de paragens amaldiçoadas, paisagens oníricas ou se nos referimos ao espaço sideral, é irrelevante para a verossimilhança do lugar. Ele pode estar na absoluta escuridão, ou na profunda antigüidade imemorial, mas existe com a mesma força que o chão no qual pisamos.

Pessoalmente, o fascínio pelo Horror me indicou esse filho de loucos e suicidas, que morou com tias “silenciosas e frágeis como gatos” quase que por toda a vida e teve claramente inúmeros problemas de adequação e convívio social, por sorte ou por azar, ainda na minha primeira década de vida. Entretanto, o que me ascendeu o impulso para estabelecer um estudo e pesquisa sobre a vida e obra do autor foi a vontade de rastrear a origem do nome Arkham, conhecido por muitas pessoas como o nome do famigerado sanatório da cidade mais louca do mundo: Gothan City. Vejam o que encontrei numa matéria de Marco Aurélio Lucchetti entitulada “HOWARD P. LOVECRAFT”, publicada na revista Mestres do Terror especial  #3, uma edição de colecionador lançada pela editora D-Arte em 1989:

Lovecraft possuía um estilo altamente descritivo e visual. Para ele, o mais importante era o cenário, o ambiente onde as histórias se passavam. Os personagens e a trama desempenhavam uma função secundária.” – e isso dá indícios de como Lovecraft enxergava a importância humana com a visão que emprestava aos seus escritos. Segundo Maurice Lévy: “A aparição da raça humana, para Lovecraft, não constitui senão um fragmento infinitesimal desta massa cósmica de matéria sobre a qual se exercem forças cósmicas e cambiantes”.

Do ponto de vista neomitosófico, entretanto, a relação Estrutura Espacial VS Personagens nos confere ferramentas para ilustrar um conflito conceitual ainda mais radical, presente em nossas discussões desde os primórdios do grupo, e provavelmente também fonte de inquietações para esse autor e seus companheiros de estudo, reflexão e criação. Trata-se do nosso velho tema: Primitivismo VS Civilização. Afinal, me parece que as próprias edificações avultam-se sobre a terra, tingindo o solo primitivo e seus habitantes com a macabra sombra da civilização. Lovecraft funde esses conceitos antagônicos em um denso caldo – ou porque não dizer charco? – dialético, no qual as profundezas do desconhecido (espacial, extraterreno; abismal, oceânico) representam o imenso caos primordial de onde viemos e para onde estamos prometidos a voltar, enquanto a sanidade, a perspectiva e a racionalidade das protagonistas são como símbolos da civilização, edificadas orgulhosamente sobre os bons costumes do novo mundo, mas tal como castelos de areia, tão absolutamente fadados à desconstrução, à decadência, à entropia que desmantela a matéria devolvendo-a ao caos de onde se originou. Não há como fugir do caos. Hakim Bey canta aos sorrisos sua permanência, mas Lovecraft definitivamente tremia e gelava ao confrontar-se com esses pensamentos.

Todavia, vale à pena lembrar, o posicionamento do narrador estudado no presente texto é absolutamente contrário ao nosso. Elemento fundamental para a construção da sua atmosfera narrativa, o próprio Lovecraft nutria um profundo Horror pelo primitivismo e por toda expressão de incivilização. E seu horror ia além do desconforto e insegurança que um materialista sofre quando confronta um mundo que não pode “exatificar”, transformava-se em ojeriza, repugnância e uma noção (tão popular na aurora civilizada do século XX) de superioridade racial teutônico-ariana. Sim, não podemos deixar de ressaltar o caráter racista de H.P.Lovecraft, expresso indiretamente em sua obra e diretamente em algumas das muitas correspondências que trocou durante a vida. Aspecto faltoso em muitas biografias do autor, até então tratada abertamente apenas por Warren Ellis (em “Planetary/ AUTHORITY – Dominando o Mundo” – publicada pela Pixel em Abril de 2008) e recentemente pela editora Hedra nas excelentíssimas republicações do autor (farejo uma boa edição de Nas Montanhas da Loucura vindo aí…); cito alguns trechos de A Sombra de Innsmouth (1931) que possam apontar para os pontos levantados; na trama, o narrador cita sua breve convivência com os habitantes do vilarejo pesqueiro de Innsmouth, na costa de Massachusetts, EUA e os elementos mais asquerosos do zeitgeist do autor já é apresentado logo nos primeiros parágrafos:

Durante o inverno de 1927–8, agentes do Governo Federal conduziram uma estranha investigação secreta a fim de averiguar certas condições no antigo porto de Innsmouth, estado de Massachusetts. A investigação só veio a público em fevereiro, quando ocorreu uma série de buscas e prisões, seguida pelo incêndio e pela dinamitação – ambos conduzidos com toda cautela – de um assombroso número de casas decrépitas, caindo aos pedaços e supostamente vazias ao longo do porto abandonado. Para almas menos desconfiadas, a ocorrência passou por um duro golpe desferido no curso de uma convulsiva guerra contra a bebida.”

“Os que acompanhavam os jornais com maior atenção, no entanto, admiraram-se com o prodigioso número de prisões, o enorme contingente de homens mobilizado para efetuá-las e também com o sigilo que cercava o destino dos prisioneiros. Não se teve notícia de julgamentos nem de acusações; os prisioneiros tampouco foram avistados em cárceres país afora. Houve rumores vagos sobre uma doença estranha e campos de concentração, e mais tarde falou-se sobre a dispersão dos prisioneiros em instalações navais e militares, mas nada jamais se confirmou.”

Dada a contextualização histórica da obra, fica difícil evitar um amargor no próprio hálito ao refletir sobre as alusões feitas a campos de concentração e extermínio secreto de procedência governamental ainda na apresentação do conto. Mas que tipo de “mal” conclamou as mais drásticas medidas civilizatórias? Que elementos culturais evocaram o desaparecimento para Innsmouth? Obviamente, recomendamos a leitura na íntegra para que esse questionamento seja satisfatoriamente atendido, contudo, citamos mais alguns trechos a fim de ilustrar melhor nosso recorte e abordagem:

A semente da repulsa gerada pelo outro era uma violenta contra-identificação, somado a uma anti-identificação ideológica, “movimento cultural” muito popular na propaganda anti-semita que circulou às vésperas da 1ª Guerra Mundial pelo mundo civilizado europeu. E afinal, o que estabelecia um elo entre uma absurda repulsa pelo outro? Desumanidade é o conceito (delicadíssimo) com que pretendo trabalhar; mas para não soar como “aquele velho racista imbecil que achava que os negros procriavam como lagartos ou coisa assim” (Elijah Snow na supracitada edição de Ellis e Jimenez), respondo simplesmente com “perspectiva”, o que fica muito claro, ainda no mesmo conto, quando o narrador nos diz que “naturalmente, aos olhos das pessoas cultas, Innsmouth não passava de um caso de degradação cívica levada ao extremo” – entendamos “perspectiva” como constructo racional desses “olhos de pessoas cultas” que configuram desumanidade a tudo que não seja seu próprio padrão paradigmático, tudo que não possam compreender, subjugar, enfim, tudo aquilo que não possam dominar (mas que tanto se deleitam em explorar).

Um odioso H.P. Lovecraft escrevia sobre horrores reais e talvez por isso sua obra seja tão contundente. Muitas vezes ele descreve assombrosas visões de “sapos-peixes blasfemos de origem inominável” ou formas “vagamente antropoides” e “coisas inomináveis nas profundezas oceânicas”… mas no fim, o horror não são esses elementos (alienígenas ou não) estranhos, mas o efeito que provocam na frágil mentalidade civilizada, tão despreparada, desprovida de alteridade, esterilizada industrialmente para a diferença e a diversidade, conforme ilustra – cheio de pavor e ódio – o trecho a seguir:

Eram adumbrações monstruosas e nebulosas do pitecantropoide e do amébico; vagamente moldadas a partir de algum lodo fétido da terra corrupta, deslizando e escorrendo de um lado para outro nas ruas imundas ou para dentro e para fora de janelas e portas com movimentos que não sugeriam nada além de vermes infestadores ou das coisas inomináveis nas profundezas oceânicas. Quem dera que uma misericordiosa lufada de cianogênio pudesse asfixiar todo aquele aborto descomunal, acabar com a miséria e purgar a região.”

Que, conforme brilhantemente apresentado na introdução de Guilherme da Silva Braga da já citada reedição da editora Hedra de A Sombra de Innsmouth (Janeiro do presente ano), não pertence à produção ficcional do autor, mas a relatos em correspondência nos quais comenta impressões relativas aos habitantes de diferentes etnias e culturas com que cruzou durante uma viagem em 1922 à Chinatown, na cidade de Nova Iorque.

Além do que, observar a forma como o racismo de Lovecraft fora velado por tantos editores que publicaram sua obra ou material sobre ele no passado, aponta talvez para algum preconceito incubado nesses próprios mediadores, que viram-se desconfortáveis em lidar com um tempero tão indigesto para um banquete de horror irrevogavelmente rico e de alta qualidade literária.

Mas haverá alguma relação entre o racismo e a extrema habilidade literária? O talento para a escrita – em suma a alfabetização – e as noções de superioridade racial do autor poderiam ser rastreadas até uma mesma raiz? Afinal, não é a escrita a expressão máxima da civilização? Marco de passagem da Pré para a Antiga História? Obviamente, elocubrações inúteis quando uma certeza paira sobre essa questão, cristalina como a alvorada: ele falava sobre o medo, e que preconceito não nasce no, do e para o medo?

Os indícios documentais apresentam um H. P. Lovecraft absolutamente comprometido com o ato da escrita. Além de escritor profícuo, um correspondente dedicado – tendo trocado entre 60 e cem mil cartas com amigos, leitores e aparentemente qualquer um que se propusesse a escrever pra ele. Em 4 de Outubro de 1935, descreve ao “Sr. Perry” de forma pontuada e detalhada todo o seu processo de trabalho narrativo. Muitas vezes em cartas para amigos também se mostrou ressentido e orgulhoso da forma como sua excelência literária era recebida pelas pessoas, em especial seus editores, mas também seus leitores em geral.

E se essas são as conclusões apontadas por evidências historiográficas, a especulação histórica pode, com auxílio da ambientação necessária, nos oferecer um retrato talvez um pouco mais aprofundado do rancor que abastecia o horror das palavras de Lovecraft. Escrevia para as pulps magazines, que muito bem poderiam – com misto de orgulho & escárnio – ser neomitosoficamente interpretadas como a ralé do meio editorial. Mas, precisamente falando, as pulps eram almanaques sortidos que publicavam um multigênero de histórias de ficção: contos de detetive e de mistério, de aviação, de fantasia, ficção científica, horror, romance, western… essas publicações já existiam no final do século XIX e proliferaram nos EUA durante as primeiras décadas do século XX. Eram impressões baratas, em papel de baixa qualidade, feitos a partir da polpa da celulose, a matéria prima mais em conta para uma publicação impressa – daí seu nome.

E da polpa dessas magazines, Lovecraft era só mais um; escreveu ao lado de uma enorme lista de artistas tão talentosos quanto ele que colaboraram para a construção do imaginário que seria o berço de super-heróis e do vigilantismo mascarado. Cito poucos: Manly Wade Wellman (que por si só também merecia um post), August Darleth, Colin Wilson, Zealia Bishop, Adolphe de Castro e vários outros incluindo até Orson Wells e suas contribuições para o rádio, são exemplos de autores que ajudaram a compor um cenário ficcional dos mais vastos. Então, enquanto as pulps brindavam a diversidade ficcional que vibrava no broto do século XX – é claro (romantismos à parte) já inserida no processo industrial de produção cultural – Lovecraft preferia ocupar (ou ter ocupado) uma cadeira literária mais nobre, parecia sentir que seu talento e intelecto era desperdiçado em uma mídia que provavelmente aceitaria e publicaria qualquer historieta estapafúrdia. E talvez esse descontentamento do autor seja pretexto para inclinar nosso estudo mais uma vez na direção pretendida… o eixo conceitual da sua obra que gostaríamos de ressaltar.

Por ser um típico fruto da Indústria Cutural, as pulps não só eram produzidas de maneira muito rápida, como também seus conteúdos, de forma que sua leitura também fosse dinamizada, acelerada ao máximo, estimulando o leitor (primariamente tratado como consumidor pelos editores) a comprar o máximo possível de pulps (disponíveis para venda numa enorme gama de títulos correlatos como SHOCK!, Detective Comics, Vault of Terror, Suspenstories, Weird Tales etc…); assim sendo, a diretriz editorial era pautada pelo dinamismo acentuado, a presença de um (ou mais) twist no enredo – uma reviravolta, uma cena que causasse impacto e/ou surpresa – e, é claro, a presença garantida dos elementos simbólicos recorrentes no menu icônico em moda no momento (os supracitados vigilantes mascarados, gangsters, marcianos, detetives, etc…); e nesse bojo temático tão amplo, o horror de Lovecraft encontrava certa dificuldade para contemplar as exigências de ritmo e dinamismo editorial das pulps, bem como o rigor intelectual de suas obras também não se adequavam ao padrão vigente de uma ficção que se estruturava num movimento simplificador que supunha quais os temas que “dão certo” e quais “não funcionam”. Há uma contradição entre diretriz editorial e o próprio gênero: a agenda recomendava dar ao leitor aquilo que ele deseja – como a uma criança mimada – entregando-lhe o que quer para que consuma mais e mais… por outro lado, o horror (em particular o horror lovecraftiano) tem por finalidade causar desconforto, gerar algum tipo de incômodo ou aflição no leitor…

E contradições desse tipo pareciam pautar todo o caminho desse escritor maldito. Retratando regularmente em sua obra o conflito entre civilização (associada à ordem e a uma inestimável estrutura modelizante de proceder social) e o primitivismo ancestral (indicador de barbárie e pensamento rudimentar), por mais que pautasse os temas de seu próprio ponto de vista (preconceituoso arauto da civilização, do contrato social e da ordem em última estância), fazia isso como escritor de horror, ou seja, conduzindo sua narrativa por um caminho no qual o seu ponto de vista (supracitado) findasse sempre em derrocada física, psicológica e emocional. Principalmente psíquica, pra ser mais preciso. E aqueles seres primitivos, bárbaros, de pensamento rudimentar, estética vulgar e organização caótica, invariavelmente acabavam por mostrar-se mais espertos, integrados ao espaço, com proceder mais acertado e indiscutivelmente mais poderosos do que o alardezinho positivista-progressista que o homem chama de civilização.

Lovecraft escrevia sobre seus medos mais profundos. Ele fala no temor em descobrir-se errado. O terror do equívoco. O Horror que há em descortinar suas crenças, sua ideologia, sua fé, toda sua concepção racional e as construções e personificações e demais idolatrias do ego… e revelar que tudo isso é como o reflexo colorido na superfície de uma bolha de sabão e tão frágil quanto. Que estoura em silencio simplesmente desaparecendo… e dando vazão a (ou pondo à visão um) outro lugar, um outro espaço que antes não podia ser visto, dado que a bolha pairava entre, mas que sempre esteve lá. Um mundo primitivo, antigo e mais forte que qualquer coisa. Um pedaço vivo de Pangéia, onde reis predadores ainda caçam. No qual os homens são só um incômodo, como uma infecção fungóide, como manchas de mofo no armário.

Há muitos estudos e interpretações interessantes sobre os mitos de Cthulhu na rede (alguns dos que mais gostei seguem anexo no final do post) mas talvez outro fator a ser considerado além da perícia narrativa e habilidade literária de Lovecraft para a formação dum universo narrativo de força e proporções mitológicas, seja o fato de que foi feito em coletivo. Muitos escritores formaram com ele uma espécie de clube, um grupo de indivíduos que se encontravam para criar, ponderar e conceber panteões inteiros de monstros alienígenas e seitas secretas e mitos de criação & deuses famintos & antigas civilizações… Muitos editores comentavam sobre o círculo, e mesmo os participantes gostavam de expor com o maior primor os frutos desses encontros, “é como um jogo” – disse certa vez Robert Bloch – “como um jogo levado muito – MUITO – a sério”. Esse círculo de escritores tinha por tríade fundadora o próprio H.P. Lovecraft; Clark Ashton Smith, poeta, escultor, pintor, maravilhoso artista multifacetado; e Robert E. Howard, criador do mundo hiperbóreo do bárbaro siberiano Conan. Tudo cozinhado no mesmo caldeirão, por que não dizer, neomitosófico.

A real é que tendo consciência disso ou não, esse grupo criou uma (ou mais) egrégora(s) que segue(m) viva(s) e muitíssima(s) bem alimentada(s). As referências mais recentes a esse universo vão de Alan Moore e Mike Mignola à South Park, Liga da Justiça e jogos de RPG, só pra citar mídias alternativas, porque literatura desse gênero e vocabulário específico provavelmente nunca deixou de ser produzida desde seu surgimento na década de 20 do século XX. Na raíz, a simples hipótese histórica de que imensas civilizações primitivas construíram impérios colossais em setenta ou cem mil anos antes do calendário romano, já é por si só fantástica a despeito do quão arqueologicamente comprovada possa ser. Afinal, insisto, o tema posto em questão é a falência da nossa civilização (enquanto proposta, enquanto projeto e enquanto execução) e como isso aponta para a falência do que costumamos chamar de humanidade. Se essa humanidade está edificada na sanidade, na capacidade de articular com elementos estranhos, ocultos e desconhecidos, e/ou com a própria civilização supracitada; então os Mitos de Cthulhu nos escancaram o quão frágil é também nossa humanidade. Tão vulnerável. Tão fraca ante a roda da fortuna e da transformação.

Esses autores, artistas e estudiosos cantam versos blasfemos para essas outras possibilidades. Sua ficção meio utópica meio niilista apresenta – explicita – o quão efêmera é a realidade – apoiada em outros mitos, em hinos sagrados e convenções sociais reconhecidos e compartilhados por muitos, mas há tão pouco tempo, que sua força é descartável estandarte ocupando o meio do salão. E nos cantos se pronunciam outras melodias, profanas, que apelam para verdades antigas travestidas de contos fantásticos. A dúvida, a incerteza, a presença inegável do caos, são as vigas, as estrofes, o sentido nos versos desses cantos. Cantos recobertos de sombras; mas lá, palpáveis, quase inexprimíveis. Tão verdadeiros quanto o cristo ou a democracia. Tão perigosos quanto. Mais certos de sua força e de seu triunfo… quando a posição dos astros estiver correta e os cânticos certos forem pronunciados. Algo jaz nas profundezas oceânicas abissais, esse espaço desconhecido existe, é real, está lá… esperando… vivendo pleno e saudável seu sonho divino a despeito de nós ou de nossa frágil consciência ignota.

ti<AN

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links recomendados:

http://www.hplovecraft.com/

http://alhazret.blogspot.com/

http://www.sitelovecraft.com/mitosdecthulhu.html

http://mundotentacular.blogspot.com/

http://neomitosofia.wordpress.com/2010/03/11/neomitosofia-x-neomitologia/

neo-FolK-LOre em 3 curtas animados Nacionais

Postado em Filmes e Séries, Filmes e Séries, links de citações em junho 9, 2011 por ti

Uma animação brasileira de alta qualidade!! Baseada em literatura de cordel e narrada por um repentista!!
Creditos a Italo Cajueiro e Elvis Kleber Figueiredo!!

“Curupira” é uma animação nacional, dirigida por Humberto Avelar, e financiada pela prefeitura do Rio de Janeiro. Faz parte de uma coleção chamada “Juro que vi”, uma série de animações sobre personagens do nosso folclore.

E mais uma de lobisomem, com música de Manu Maltez e Fabio Barros.

………………………………

E pra fechar, bonustrack: uma reinterpretação neomitosófica de “Sing in the Rain”:

http://www.stopmotionbrasil.art.br/2009/05/1986-16mm-cor-13-min.html

PRiMiTiVoS URBAnOS ………………………………………………………….[ou baLada de un cucArAchA]

Postado em novidades, produção NMS, Textos em abril 13, 2011 por ti

Foi dito aqui que procuraríamos publicar material antigo, principalmente as tabelas conceituais que nosso coletivo neomitosófico vêm estudando e desenvolvendo desde meados de 2004. O material que eu apresento agora faz referência diretíssima – e a queima roupa – à talvez uma das principais dicotomias conceituais com qual apreciamos entrar em discussão, ora a maneira científica e pontual, dissecação da verdade, ora como em briga de foice. Sem delongas, já adianto o tema:

CIVILIZAÇÃO X(vs)X PRIMITIVISMO

De qualquer forma, é habitual do proceder neomitosófico posicionar-se sem medo em situações de amor&ódio com o conhecimento, e já admito que esse tema em particular me persegue e assombra há décadas. Enxergo-o em uma infinidade de gibis, livros e filmes e é provável que me flagrem discorrendo sobre isso mais de uma vez. Mas em especial houve um texto escrito em abril do ano de 2002, praticamente psicografado no busão, escrito por mãos cansadas sob comando de uma cabeça tão cheia de fumaça, encantamento e desilusão que conjuraram palavras que não são exatamente minhas… são de uma legião, viva, pulsante, manifesta que prolifera-se faminta pelo futuro.

São um canto, uma homenagem à sobrevivência. Carregam um apelo quase desesperado por alguma esperança, pela idéia de que seja lá o que sobreviva ao próximo fim-de-mundo, que (por favor!) seja algo melhor do que isto: E isto, no caso, é a Civilização em sua concepção mais radical. Suas abastadas conquistas: as esteiras de tanque chamadas progresso metralhado pra todas as direções que um satélite pode triangular; um procedimento suíno – mixórdia de mesquinharia e desperdício – e, enfim, o produto final: um conforto que transforma o homem em um arremedo pálido e flácido do que poderia ser.

Mas a idéia, lá em 2002, não era cantar pra esses civilizados, mas pros seus belos algozes, seu nêmesis supremo, o Primitivo. Porque manter-se primitivo, nesses tempos cyberpunks do século XXI, é tarefa cada vez mais difícil. De forma que os primitivos que resistem certamente estão cada vez mais fortes.

MANIFESTO PRIMITIVO URBANO

Acontece que os Primitivos Urbanos são sobre muitas coisas.

Primitivismo Urbano é uma metáfora tentando, por meio da indelicadeza e da agressividade, se emancipar da condição de metáfora. Metáforas não surpreendem mais, não trazem nada de novo, por isso o primitivismo urbano – através do uso ancestral de substâncias entorpensantes e atividades ilibertárias – busca a transgressão de uma realidade a outra. E a metáfora transcendente se transforma em terrorismo futurista. E o terror se transforma em poese.

Terrorismo poético, essa é uma boa forma de se interpretar o primitivismo urbano, mas não só de terror e poese vive o primitivo urbano, ele também existe apesar da soma e da ancestralidade dessas duas manifestações do primitivismo urbano. A soma obviamente será parte de alguma ação de sabotagem, sua ancestralidade é o inconformismo e absoluto desencaixe com qualquer modelo ou sistema que esteja posto para uma coletividade e, apesar desses fatores o Primitivo Urbano atua primordialmente em função da sobrevivência, mesmo que o caminho para ela passe pela autodestruição.

O primitivismo urbano tem há ver com dar um basta. Dizer chega à uma existência performática, teatralizada, contida e exagerada para fins fúteis e mentirosos, porém capazes de realizar encantos poderosos, induzir o transe e gerar paralisia, através de seus sedutores discursos, de suas tentadoras promessas. O Primitivo Urbano desenvolveu sua percepção e sensibilidade para reconhecer um mentiroso quando olha para um. O Primitivo Urbano está farto de mentiras, cinismo, fingimento e ilusionismo, está pronto para negar o mais sensual convite à traição.

Mas apesar do vigor da negação, o Primitivo Urbano caminha na direção do pleno desenvolvimento das capacidades físicas, mentais, psíquicas e transcendentais do ser.

Assim sendo, o primitivismo urbano preenche o indivíduo em manifestação porque torna-o completo e absoluto apesar de tudo o que há em volta. O Primitivo Urbano sabe que o grande segredo do universo é que, nele (o universo), tudo o que há além dele (o Primitivo Urbano) é território, e que todo sucesso no sentido da sobrevivência só depende do seu posicionamento territorial.

E como bons sobreviventes os Primitivos Urbanos dominam com habilidade o uso de seu território, transformam-no em ferramenta de ataque, proteção, criação ou comunicação. Armadilhas, barricadas e passagens ou caminhos secretos, oficinas, feiras e grandes áreas comuns são parte presente e gritante da vida nas ruínas; e tudo isso coberto de sinais. Há todo o momento, a toda volta, estamos cercados de sinais. O primitivismo urbano ensina a lê-los, a compreendê-los. O Primitivo Urbano só se reconhece enquanto tal quando é capaz de gravar seus próprios sinais, seja no mundo, seja em si mesmo.

Os Primitivos Urbanos não são sobrenaturais, apenas permitiram-se capacitar-se além da falsa idéia de limite. Os Primitivos Urbanos não são místicos, apenas estão mais esclarecidos sobre a realidade que os cerca. Esclarecidos o bastante para enturvar com as cores da embriaguez os fragmentos de suas visões. Os Primitivos Urbanos não são crentes, eles desconfiam até das próprias sombras. Tão pouco são religiosos, apesar de, por meio de suas metamorfoses, religarem-se a todo momento, de formas diferentes, ao mundo e a si mesmos.

O Primitivo Urbano permite a si mesmo redescobrir-se, dessa maneira acaba sempre por surpreender-se salvando seu próprio rabo no último instante.

Ou não… muitos Primitivos Urbanos tombam no processo. É um mundo cruel. Não há como saber se foi sempre assim, mas no estágio em que as coisas estão é assim que vai ficar.

Mas antes de mais nada, o Primitivo Urbano está pronto para a morte. Sabe que ela não passa de um grande segredo, uma promissora revelação, da qual pode-se no máximo, através de arriscados flertes, extrair uma ou outra dica. Um nuance, um rápido reflexo, até uma sorriso encantador, mas nunca um beijo. Todos os beijos da morte são derradeiros, ninguém jamais a beijou e sobreviveu para contar a história.

E apesar de conhecer muito bem sua história, o Primitivo Urbano flerta tranqüilamente com a morte, e faz isso em parte porque sabe que o primitivismo urbano é como as baratas: um sinônimo de sobrevivência. E quando as baratas dominarem a superfície da terra, Primitivos Urbanos sairão dos subterrâneos para caminhar sobre, ou entre, elas e reconstruir-se a partir das ruínas. E os que não forem Primitivos Urbanos, aqueles que não estiverem prontos, vão ter que estar. Ou irão sucumbir. Vão cair como tudo o mais que já caiu no decorrer do armagedon.




O primitivismo urbano é profético porque no futuro será essencial. É pós-apocalíptico durante e antes do apocalipse porque prevê o fim dos tempos aceitando-o sem medo e desafiando sua importância.

Durante todo esse movimento de previsão da realidade historicamente comprovada — memorável, distante, inacessível— estará presente o primitivismo urbano, compreendendo toda a natureza como uma só e a si como parte do organismo. Parte que, através da realização mágika de suas potencialidades, somada à percepção libertária da realidade como possibilidade de autonomia em ação, poderia atuar como uma discreta célula: igual a tantas outras; ou como um elemento lisérgico subversivo: pintando com outras cores os olhares sobre o mundo; ou ainda como o vírus entrópico que corrói e deteriora implacavelmente sem jamais ser pego, isolado, tratado, combatido, quando não, em muitas vezes, nem sequer é detectado.

De qualquer forma, o Primitivo Urbano estará atento, consciente, sempre alerta a tudo que o cerca. Enquanto a diferença entre os Primitivos Urbanos e o resto dos habitantes de algum espaço, essa estará apenas na forma de pensar, na lógica que monta suas autoconsciências e no apego das mesmas às realidades responsáveis por mantê-las cativas.

Certos de que restarão, os Primitivos Urbanos continuam. Ávidos por viver mais história. Prontos para o pior.

Antenados e ligeiros.

Como as baratas.

ti<AN

13 de Abril de 2002; na Cardoso de Almeida, a bordo dum Pedra Branca sentido Cidade Universitária.

PS: Acrescento uma contribuição levantada pelo camarada Regis, que lá de Londres acertou uma flecha direto no coração desse post. Uma viagem primitiva por um contexto horrivelmente urbano:

Translation – NMS info (09/12/2009)

Postado em informes do NMS em março 10, 2011 por plauns

Isto é uma tradução de um dos nossos antigos informes (de 9 do 12 de 2009 – escrito pelo Ti, membro do NMS), do português para o inglês. Meu inglês não é grande coisa, mas fiz mesmo assim. Desculpem os eventuais erros. Aproveitem… Para quem quiser ler o original em português, segue o link:http://neomitosofia.wordpress.com/2010/02/17/9dezembro2009/

This is a translation of one of our past news (of 9, December, 2009 – wrote by Ti, NMS member), from portuguese to english. My english isnt a great thing, but i made it anyway. Sorry by the eventual mistakes. Enjoy… For those who want to read the original in portuguese, here is the link: http://neomitosofia.wordpress.com/2010/02/17/9dezembro2009/

Is there in fact one or more groups, that the iner circles and well arrenged, are capable of manipulate secretly the ways of politic and global economy?

Everyone already hear about the Illuminatti Mith, that has a strong and mysterious hierarchy behind the strong hierarchy publicy known. There is some peoples that says, that the conspiracy theories are nothing less then theories, and that the mad and anarchists people are inclinable to believe that bullshits, but in otherway, will be more comum in that posture that one of the free men? Citizen of the world? The fortunated son of democracies? And hasnt be these “free men”, unavoidably, part of the small parcel with an economic success? Dont they already has intagrated one small parcel of privilegeds? Or better saing: Who is free at least?

If is there some script committed in hide evidences of OVNIS, the Big Foot, and Dirty Secrets of Big Corporations and the Androgen and Nefarious Sexuality of Celebrities, that is right and isnt really hard to break this intrigue to obtain “real” points about this evidences. But the NeoMithSofic question is how to interpret the metaphors presents in these symbols … meaning, inst really amazing that there is one pyramid in the one dollar note bank: the pyramid, meaning a sign of hierarchy, is the base that is substantiated all of capitalist liberalism; in that way, isnt really amazing too that there is one powerfull cupola determined to manipulate the collective reason of one or more nations, in meaning to preserve their power. Make ilusions and manipulate the people has been one ordinary and well success trick for a long time… But the ask that most make us intrigued is: Will be needful, to undo these illusionism, to observe it with more precision and accuracy? Or will be better simply ignore all the carnivalle? But isnt ignore what the most people have been doing despairingly? We of NMS have affliction of ignore the things… We prefer to be obsessed and conspiratorial than ignore some force that manipulate us.

Citations:

Some examples of Secret Organizations in the Comics: Xeque mate; OMEC; S.H.A.D.O.W (DC Comics). S.H.I.E.L.D., B.L.A.D.E., A.R.M.O.R. (Marvel Comics), B.P.D.P (Dark Horse)…

Some examples of Secret Organizations of Non Fiction: Masonry, Templars, Order of Saint Dumas, Rose Cross Fraternity, AMORC, Hell Club (yes, it has exists outside of the comics of X-Men…)…

And for those who are disposed to discover how organizations really real, manipulates the common sense of reality, we recommend the exercise of search about the following themes:

- The appearance of the governments and the nations;

- The origin of the ONU and the OMC (and how both organizations are related), as well the appearance of the CIA, KGB, Scotland Yard, MOSSAD;

- What has been the THULE and the AHNENERBE?

& more

- “The Black Veil”, Michelle Balanger; and how the subculture of vampirism is related with the disappearance of the journalist Susan Walsh in New Jersey, 1996?

- How is related Grihori Rasputim and the Romanov familie?

By the end, to disentangle the liver of these oppressive search of manipulation, we recommend the song:

- Batedores (Resistindo ao Arrastão Global) do Mundo Livre S/A.

Totally looks Like

Postado em novidades em fevereiro 26, 2011 por monstrodopantano

O problema  de cópias e direitos autorais só é entendido através da correlação entre os fatores dominantes que compõem a sociedade.  Há os econodwarves, que são os economistas que defendem a propriedade intelectual como a única forma de estimular economicamente a inovação. Mas para mim o direito autoral reclama para si a obra que é do mundo, eis que entram as cópias. No filme F for Fake (1975) de Orson Welles, isso é mostrado através do pintor Elmyr Horyque faz cópias de Modigliani, melhores que as próprias obras do Modigliani. “O proprietario, o ladrão, o opressor, o soberano – todos esses títulos são sinônimos – impõem sua vontade como lei, sem objeções ou controle; isto é, fazem o papel do poder legislativo e executivo ao mesmo tempo . . . a propriedade engendra despotismo . . . A essência da propriedade é tão clara que, para vê-la,  basta observar o que acontece à sua volta. A propriedade é o direito do uso e do abuso . . . se bens são propriedade, porque os proprietarios não seriam reis, reis despóticos. . . ? E se cada proprietario é um senhor soberano dentro da esfera de sua propriedade, um absoluto rei dentro de seu próprio domínio, como poderia um governo de proprietarios ser outra coisa além de caos e confusão?” . Pierre Proudhon

Retirar da sociedade o que lhe pertence é o pior de todos os roubos. Devemos propagar a informação, passar de mão em mão tudo que todos podem absorver. A cópia da cópia, um ready-made que não significa nada mais que radicalizar a idéia de arte; é o que precisamos cultivar para o futuro do cotidiano moderno. A arte imita a vida ou a vida imita a arte, essa frase de Oscar Wilde poderia ser entendida como a própria percepção humana diante de todo o imaginário que compõem seus mitos, diante da sua própria incapacidade de criar ou de inventar, então sua capacidade de copiar e re-copiar para re-inventar e assim se assimilar ou assemelhar com outros de sua espécie. Joseph Campbell em sua análise mitológica e simbólogica diz que “Aquilo que os seres humanos tem em comum se revela nos mitos

As crianças em seu imaginário sombrio, sem noção do mundo cruel que existe em sua volta, busca ajuda em seus amigos imaginários, o que é decorrente de um mundo afastado, principalmente agora com blogs, e twitters, e facefooks da vida que nos limitam a ter amigos virtuais, e assim crescemos e esquecemos nossos amigos a qual conversamos sozinhos, atuamos no espelho, fazemos pactos demoníacos ou até mesmo oramos a noite pedindo proteção. I see dead people. Eu não vejo nada além do própio mundo, mas dentro de minha mente vejo infinitas realidades e possibilidades. Eu vi duendes, eu sou cético, Moliere em seu teatro O Doente Imaginario (Le Malaide Imaginaire) de 1673 questiona o papel de um doente, será que o que ele precisa é atenção, será que a doença da mente existe realmente, ele está debilitado ou finge essa doença. O poeta é um fingidor como diria Pessoa, ou só precisamos de uma cura, de um nepente, so precisamos tomar um remedinho para aliviar a mente. Precisamos de um relaxante para a imaginação, para depressão. Deixo essa parte da doença mental para meus colegas NMS, pois é um assunto que doutoramos (psicologia, psicopatia, psicossomatico etc..) Esse assunto tão sério vai acabar virando uma piada dentro deste meu post, pois o que analisei aki são as cópias, as semelhanças, o imaginário se repetindo no real e o real no imaginário. Não abandonemos nosso imaginário senão eles terão de entrar na fila de espera na Mansão Foster para amigos imaginários e quem sabe eles nunca mais tenham um amigo de verdade.

A cópia, o humor, a sobriedade, as coisas quando parecidas, causam estranhamento, ou; é tutto parte de um jogo, de um destino humano, de seu duplo, doppelganger. Separei umas imagens que relacionam-se entre si, entre quadrinhos entre a mitologia e simbologia, entre a imaginação e a confusão, imagens quem vem de uma série da internet que se chama Totally Looks Like, portanto é algo mais para entreter, refletir, imaginar e criar. “Primeiro, quando vocês se sentarem para meditar, recitem alguns versículos sobre a glória de Deus, de modo que os pensamentos que estão espalhados possam ser recolhidos. Então, gradualmente, enquanto fizerem a repetição do nome, tragam para diante do olho da mente a forma que esse nome representa. Quando sua mente vagar na recitação do nome, fixe-se à imagem da forma. Quando ela afastar-se da imagem da forma, conduza-a ao nome. Deixe-a permanecer nesta ou naquela doçura. Tratada assim, a mente poderá facilmente ser domada. A figura imaginária que vocês delinearam se transmutará na imagem emocional, querida ao seu coração e fixa na sua memória; gradualmente, ela se tornará o Sakshathkara chithram – quando o Senhor assumir essa Forma para realizar o seu desejo.“  Sai Baba

Neste gibi de Suehiro Maruo vemos um personagem muito parecido com Michael Jackson espancando uma criança que pergunta whose bad:

to be cotinued…

Método NMS

Postado em novidades, produção NMS, Textos em fevereiro 16, 2011 por ti

A arte não é, como a ciência, uma lógica de referências, mas uma libertação da referência e uma expressão da experiência imediata: Uma apresentação de formas, imagens ou idéias de maneira a trazer em primeiro lugar não um conceito ou mesmo um sentimento, mas um impacto.

Joseph Campbell, As Máscaras de Deus VOL.1 – Mitologia Primitiva.

Desde que o post Magik foi escrito (http://neomitosofia.wordpress.com/2010/05/25/magik/), algo ficou no ar pedindo por uma extensão da pauta. Esse texto relaciona-se com ela, mas trata principalmente da metodologia neomitosófica.

Como já dissemos tantas vezes, a origem do nosso proceder filosofágico vem dos quadrinhos. Do estudo das HQs relacionado à reflexão filosófica. O poder de síntese das HQs capacitam-nas para ser o veículo ideal a transportar qualquer idéia. Como o carro do tarot, a carruagem sagrada.  Como o lápis dazuli na taboa de esmeralda ou o cavalo de oito patas de Odim.  Gostaríamos portanto, de nos aprofundar um pouco no procedimento NMS. Nossas táticas e estratégias de estudo. Nosso método por assim dizer.

Talvez de todos os veículos meméticos já observados, o cujo proceder mais se assemelha ao nosso é o da alquimia. Recorrendo ao compendium de Alexander Roob, o Museu Hermético da Alquimia & Misticismo, me pus a refletir sobre a forma com que a ficção moderna pode conter verdades filosóficas raramente encontradas em tratados teóricos, essa forma de transmissão do real pelo uso da fantasia, chamamos método neomitosófico:

“A literatura alquimista desenvolve, através dos seus representantes mais ilustres, uma linguagem de grande riqueza sugestiva pelo recurso a alegorias, homofonias e jogos de palavras que veio a influenciar profundamente a poesia dos românticos (Blake, Novalis), a filosofia do idealismo alemão (Hegel, Schelling) e a literatura moderna (Yeats, Joyce, Rimbaud, Breton, Artaud). As vozes que, dentro das próprias fileiras, se insurgiram contra o “modo de expressão obscuro” dos alquimistas formaram um coro polifônico. Revela-se igualmente pouco encorajante o que os próprios alquimistas tinham para divulgar sobre suas técnicas de comunicação: “Sempre que falávamos abertamente, nunca dissemos (verdadeiramente) nada. Mas sempre que usávamos uma linguagem cifrada ou recorremos a imagens, ocultávamos assim alguma verdade. (Rosarium philosophorum, edição de Weinhein, 1990).”

E ainda: “Quem, inadvertidamente, penetrar neste campo lingüístico, depara de súbito com um sistema caótico de referências, com uma rede de nomes de código e de símbolos relativos a substâncias arcanas em permanente mutação, em que aquilo que é aparente pode ter sempre um significado diferente e em que o próprio recurso léxico barroco especializado e às listas de sinônimos dos tempos modernos não oferece uma orientação segura.” Assim: “os filósofos herméticos podem ser entendidos de modo mais livre, senão mais evidente e mais claro, com um discurso mudo ou sem discurso, através da ilustração dos mistérios, do que através de palavras.

Dito isso, para exemplificar um pouco, é possível afirmar que em matéria de conteúdos, Promethea de Alan Moore e J.H.Williams III resume tudo o que de básico é preciso saber sobre magia. Assim como Planetary de Warren Ellis e John Cassaday contém toda a história da arte pulp desde seus primórdios até o que carrega de mais moderno: a livre metalingüística crítica e provocativa. Algo que funde em um só caldo polifonia e intertextualidade.

E para interpretar os conceitos enraizados nas camadas dessas (pra citar só 2) e outras [tantas] obras neomitosóficas, nos valemos dos caderninhos de anotações espiralados com folhas brancas e limpas (ou nem tanto) em que despejamos idéias e convidamo-nas a cruzar e rinhar… Ao mesmo tempo nosso caldeirão e nossa cuspideira. Instrumento que contém semelhantes proporções de poemas de amor e juras de maldição. A caligrafia, para os egípcios, era uma ação sagrada. Sua escrita era uma arte mágika. Não existia burocrafia. Não rabiscavam formulários de nada. Toda grafia era poese. Imaginamos que a caligrafia babilônica, hindu, zoroástrica seguissem, cada uma segundo seu sistema alfabético, a mesma lógica.

Temos na bolsa todo nosso laboratório alquímico. Componentes de experiências explosivas carregados na mochila; entre chaveiros cartunescos, alguns outros gibis, estojo, isqueiro, tinteiros de nanquim e pincéis atômicos para desenhar portas e abrir portais para outras dimensões.

Qualquer idéia viva vale a pena ser escrita na parede. Vale a pena entoar a voz dos mortos na fumaça urbana que tragamos. Escutar o impronunciável. Falar com o invisível.

Nesses caderninhos, misto de livro de receitas, caderno de estudos e anarquist coock-book of shadows, também encontramos espaço para outro método muito recorrente em nossos exercícios de interpretação neomitosófica: as tabelas conceituais. Prática inaugurada no grupo pelo integrante fundador PLAUNS, nelas organizamos em linhas e colunas situações e arquétipos de personagens fictícias para aplicar em realidade especulativa conceitos concretos e bem presentes na vida cotidiana. Essas tabelas nos permitem aplicar idéias e observá-las se movimentar; e do cruzamento entre conceitos verticais e horizontais, criam-se novas idéias, colhidas com a riqueza das trufas frescas e oferecidas como ebós em encruzilhadas.

São muitas e variadas as fontes de inspiração que acarretam uma construção/indagação/AD-Miração filosófica como a dessas tabelas. Muitas vezes elas surgem como um ou 2 conceitos/arquétipos relacionados que vão ganhando mais corpo a medida que transformamo-los  em perguntas e discutimos sobre isso… 1 exemplo:

Desde que o post magik foi publicado, senti-me idiota por não ter falado do Promethea… resolvi relê-la para comentá-la com mais propriedade e me vi cada vez mais intrigado com algumas relações lingüísticas relacionadas à magia. Estive em Buenos Aires e com o castelhano ainda ecoando na cabeça, juntei que Feiticeiro traduz-se para o espanhol Hechicero; atribuí como raiz semântica da palavra hechicero, o verbo hacer e aplicando a mesma lógica ao português, rastreamos feitiçaria à ação de fazer. Feitiço = algo feito.

Pensando um pouco sobre isso, levantei o que mais tarde começamos a chamar de tabela de feitiçaria ou quadro de feitos mágikos. À coluna de Feitos, levantamos outras duas de Efeitos. Uma com exemplos que recorram à nossa bagagem de referências pra ilustrar interpretações desses feitos, e outra com a mesma intenção, contudo desempenhando o propósito de forçar uma inversão valorativa, tentando romper vícios moralistas de entendimento desses feitos, buscando exemplos interpretativos que apontem num sentido radicalmente contrário do primeiro imaginado. A essa segunda versão, chamamos interpretação subversiva do conceito.

O resultado:

Tabela de Feitos Mágikos/ Feitiçaria

1 – CURA: Companhia/Conexão Direta/Permanente com a Vida/Morte

2 – ILUMINAÇÃO: Engrandecimento Interior/Desapego; Sámadhi/Nirvana

3 – MUTAÇÃO: Transformação/Ativação de Cadeia de Mudanças; Metamorfose

4 – CONVENCIMENTO: Trapaça/Truque/Persuasão

5 – ÊXTASE: Sensação Extrema

6 – CONSAGRAÇÃO: Fé/Unidade

7 – DOMÍNIO: Arte; Ars X Techné

Interpretações:

1 – O Xamã (Segundo estudos de Mircea Eliade e Joseph Campbell)

2 – Buda (A Saga de Sidarta Gautama)

3 – X-Men (conceito também bem explorado no filme Splice)

4 – O cigarro de J. Constantine (Hellblazer com intencional destaque para as fases de Warren Ellis e Brian Azzarello)

5 – As costas do Homem-Cavalo (Jesus Cristo de Nazaré é o exemplo mais óbvio, quis temperar com Um Homem Chamado Cavalo)

6 – Dër Wolk (Organismos sociais agressivos; nazifascismo; fundamentalismos)

7 – As Mãos de Stephen Strange {ou de Steve Ditko?} (Brincadeira que remete à habilidades extremas, exímia perfeição em desempenhar um ofício ou tarefa, a idéia de Karma-Yôga ou o conceito de perfeição pinkfloydiana)

Interpretações Subversivas:

1 – Vampiro/Desmorto (Sorver a vida alheia para prolongar sua existência)

2 – Popstar (Os poderes e a embriaguês do ego)

3 – Esquizo/Aberrante (Monstros em geral, Mr.Hide, Ed Gein, Charles Manson, Shoko Asahara e o Aum Shirinkyo)

4 – Político/Corrupto (Não carece exemplos né?)

5 – Viciado/Junk/ Ninfo (idem)

6 – $ (ibidem)

7 – Autômato/ A Maldição de Prometeu (trabalhador fabril, urbanóides neuróticos; também não faltam exemplos cotidianos)

E por aí vai…

Cada arquétipo vale não só uma reflexão acerca dum conceito, como ainda faz a ponte a outros exemplos que por sua vez levam a outros arquétipos e Samsara segue ouroborando seu rabo até o pescoço sem jamais engasgar…

O pensamento é escamas pra dentro e dentes pra fora. A Kundalini de todas as pessoas pode falar, é esse o segredo da religião bruxa de Alan Moore. Ela se alimenta e nutre (d)a criatividade. Movimento ao Pensamento; essa é a meta. O resto flui naturalmente. Aparece quando for de surgir. Desperta num bote e ataca a alma de alguém numa picada mortal. Ficamos mortificados. Sincronicidade existe. Funciona. É infalível e independe de qualquer coisa. Ocorre como o fenômeno mais fugaz da natureza; a brisa, uma nuvem de mosquitos, a aurora boreal.

Durante 2012 nosso blog vai editar mais das suas tabelas conceituais. Esperamos que gostem e que as mantenham em movimento.

“Só existe um conhecimento verdadeiro: o que ajuda a ser livre.

Qualquer outro é mera diversão.”

Vishnu Purana

ti<AN;1:16h 17-2-2X11

DesMOrTe

Postado em Desenhos, Mídias, produção NMS, Textos, Zumbis em dezembro 23, 2010 por ti

A morte, assim como a virtude, tem suas graduações.

– James O’Barr

Pertenço à 3ª geração urboderna de zumbis (sendo a primeira o carpe diem dos poetas malditos do romantismo mal do século e a segunda a geração oitentista punk-gótica com a qual compartilhei minha infância e cujo lema era “fuck it all: we all are dead”). Estudo sua figura e significado mitológico desde meus primeiros anos de idade. De verdade. Há muito pra ser apreendido pela desmorte.

O conceito vem da palavra Undead; mas o visitei no português pela primeira vez no 2º capítulo do 2º Volume de Monstro do Pântano – publicada aqui pela Abril Jovem, ainda em formatinho, como uma história de segunda ou terceira importância em algum gibi de Super-Heróis (“SuperPowers”, se não me engano, era o nome da revistinha); publicado originalmente em The Saga of Swamp Thing # 29 – Outubro 1984 – cujo título é “Amor e Morte”.

Na história do mago Moore a desmorte se apresenta como uma dupla vida. Uma pós-vida sustentada por práticas de convivência (cultura convencional) da burguesia pós-moderna, expressa majoritariamente por 2 dois elementos – o Trabalho, os empregados do escritório “Rio Negro Recorporações”, onde trabalha também Mathew Joseph Cable – o Matt, personagem que também nos conduz ao o segundo elemento; o Casamento – marido de Abigail, amante (e co-protagonista da saga) do Monstro do Pântano.

Talvez não haja polifonia direta entre Alan Moore e George Romero, talvez sejam fãs mútuos, mas sua “neomitologia desmorta”, com linguagens totalmente díspares e distintas, está conceitualmente afinada no sentido em que estabelece uma relação representativa do cotidiano-civilizado pela morte-em-vida, a desmorte. A não-morte profana. A ironia religiosa judaico-cristã dos últimos dias: Todos os mortos se levantam à volta do messias… mas ele falta ao seu compromisso bíblico. Esquece de cumprir a profecia da Salvação, arruma outro programa no dia do Apocalipse…

Compreensivo, o Universo deve ser vasto pro messias. E sua agenda deve ser quente… ou talvez, ele próprio, por motivos divinos maiores, tenha morrido antes de ver todos os mortos voltarem a andar. Deixando-os sozinhos pra se decompor a passos trôpegos, lentamente, a espera de algo que nunca acontecerá. Deixando-nos sozinhos com eles.

Mas se o foco da desmorte está no cotidiano da civilização pós-moderna, o que Alan Moore observou nas relações sociais, em nível pessoal, íntimo, como a construção dramática da sua narrativa exige, George Romero vê no conflito entre a fome, a voracidade, e (versus) a sobrevivência; elementos representativos da ação mais básica no cotidiano da civilização pós-moderna: o consumo. Hiper-comunicação. Interatividade. Consumo desenfreado, elevado a proporções monstruosas. Parasitismo paradisíaco. Tudo isso é óbvio na morosidade podre de um zumbi, abrindo vísceras com os dedos pra comer cru, mastigando cérebro e crânio estilhaçado, crocante, mole e molhado como um pote de sucrilhos. Só que mortos-vivos não usam colher.

E de repente as armas de fogo são necessárias para a sobrevivência urbana? De repente as pessoas estão vivendo em uma tribo formada só de estranhos e outros sobreviventes traumatizados? De repente o dinheiro perde absolutamente toda sua importância e estão todos ilhados e o refúgio é um shopping-center? São metáforas tão precisas que sua poese quase se esvanece. Quase se perde na similaridade com a realidade. Quase passa despercebida em sua verossimilhança. Quase.

Também vale lembrar que a mitologia morta-viva, entre quadrinhos, filmes, séries de TV, games, publicidade, literatura e onde mais a transmídia conseguir chegar, tem sua origem impressa na Bíblia: “Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não mais a conseguirão; desejarão morrer, mas a morte fugirá deles.” – Apocalipse; 9,6.

Mas vamos partir do que um estudioso de verdade diz sobre o tema: Luís da Câmara Cascudo – em sua Antologia do Folclore Brasileiro – oferece diversas definições para o verbete “Zumbi”, e oferece valiosas pistas apontando para sua origem:

Zumbi – Ser muito popular no Brasil, herdado dos africanos:

Entre os angolenses, gente que morreu, alma do outro mundo.

Na tradição oral de muitas nações africanas, fantasma, Diabo, que anda de noite pelas ruas; e quando os negros vêem uma pessoa astuciosa que se mete em empresas arriscadas, dizem: “Zumbí anda com ele”, isto é, o Diabo anda metido no corpo dele.

No Rio de Janeiro intimidavam-se muitas pessoas com o Zumbi de Meia-Noite, espectro que vagava alta noite pelas ruas.

Câmara Cascudo ainda, muito elegantemente, nos brinda com um estudo epistemológico através das palavras do Sr. Dr. Macedo Soares em seu artigo “Sobre algumas palavras africanas introduzidas no português que se fala no Brasil” (Revista Brasileira, IV. 1880, página 269) em que Zumbi é voz com que as amas negras amedrontam às crianças choronas: olha o Zumbi! Outros dizem: Olha o Bicho! e acrescenta: Serão sinônimos? Será o Papão português? Parece.

Acresçamos a essa interpretação de nacionalidade Afro-Latino-Americana algumas definições retiradas do verbete Zumbi, dessa vez no Dicionário do Folclore Brasileiro, ainda de Câmara Cascudo:

Zumbi. Vem do quimbundo nzumbi, espectro, duende, fantasma. Confunde-se com o seu homófono Zumbi, provindo de nzámbi, divindade, potestade divina e, por translação, aos chefes sociais, m’ganga Zumbi, dizem os negros cabindas, referindo-se a Deus. Zumbi foi o título de chefe dos rebelados pretos que se refugiaram no quilombo dos Palmares, na serra da Barriga, em Alagoas, a “Tróia Negra” de Nina Rodrigues.” (…)

“Há vagamente uma tradição de um Zumbi retraído, misterioso, taciturno, saindo apenas à noite, referido por Nina Rodrigues. Nesta acepção é a nota de Pereira da Costa comentando a frase estar feito zumbi, com insônia, velando, vagando durante a noite.”

E ainda:

“O Zumbi no Haiti (Zombie) é um cadáver animado por força mágica e obrigado a trabalhar para o encantador. Insensíveis, alimentados parcamente, terão a penitência finda se provarem o sal.”

Temos disso que, independente dos mortos vagarem por todas – absolutamente todas – as cidades do mundo, no Brasil há uma identificação folclórica herdada provavelmente de raízes africanas.

O que nos conduz a uma intensificação ainda mais delicada do neo-mito, e finalmente, pisando em ovos, escorregando em sangue coagulado, e sussurrando nervosamente para não despertar os mortos inquietos, somos levados a discutir uma camada mais profunda desse consumo ilustrado por Romero: a escravidão. Seu uso moderno foi evocado da exploração racial, o domínio étnico. Dominação em massa pela violência. Destruição sumária de toda uma multiplicidade de cosmogonias e universos teológicos. O holocausto da fé começou quando os primeiros povos africanos, indígenas, aborígenes foram colonizados pela primeira vez; e segue até hoje porque, ainda, mais fé continua nascendo.

Outro estudioso-guia pode nos oferecer auxílio e companhia nessa indigesta e antropofágica interpretação neomitosófica: Wade Davis. Mas para tanto, seria necessário retomar a história do local que pode ser considerado, definitivamente, a Meca dos Morto-Vivos: o Haiti.

Os índios arauaquestaínos e os caraíbas foram os primeiros seres-humanos a pisar nessa ilha, denominada então como Quisqueya, na ocasião em que nela chegaram, há mais de 7000 anos. Mais tarde, em 5 de dezembro de 1492Cristóvão Colombo chegou a uma grande ilha, à qual deu o nome de Hispaniola. Pouco depois passou a ser chamada de São Domingos pelos franceses. Dividida entre dois países, a República Dominicana e o Haiti, é a segunda maior ilha das Grandes Antilhas. Após a visita de Cristóvão Colombo, em 1492, o processo colonizador se iniciou. No fim do século XVI, quase toda a população nativa havia desaparecido, escravizada ou morta pelos conquistadores.

Após uma revolta de escravos da qual nenhum branco escapou vivo, em 1794, o Haiti tornou-se o primeiro país do mundo a abolir a escravidão. Nesse mesmo ano, a França passou a dominar toda a ilha. Em 1801, o ex-escravo Toussaint Louverture tornou-se governador-geral, mas, logo depois, foi deposto e morto pelos franceses. O líder Jean Jacques Dessalines organizou o exército e derrotou os franceses em 1803. No ano seguinte, foi declarada a independência, promovendo o Haiti ao posto de segundo país a se tornar independente nas Américas. Como forma de retaliação, em 1804, os escravistas europeus e estadunidenses mantiveram o Haiti sob bloqueio comercial por 60 anos.

Da segunda metade do século XIX ao começo do século XX, 20 governantes sucederam-se no poder. Desses, 16 foram depostos ou assassinados. Tropas dos Estados Unidos da América ocuparam o Haiti entre 19151934, sob o pretexto de proteger os interesses norte-americanos no país. Em 1946, foi eleito um presidente negro, Dusmarsais Estimé para então, após a derrubada de mais duas administrações governamentais, o médico François Duvalier ser eleito presidente em 1957. François Duvalier ficou conhecido como Papa Doc, apoiado pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, instaurou uma feroz ditadura, baseada no terror policial dos tontons macoutes (bichos-papões) – sua guarda pessoal – e na exploração do vodu. Presidente vitalício, a partir de 1964, Duvalier exterminou a oposição e perseguiu a Igreja Católica. Papa Doc morreu em 1971 e foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier, conhecido como Baby Doc. Entretanto a ditadura do bebê Doc, como qualquer ditadura, não pode sustentar-se indefinidamente. A opressão e a violência cada vez mais despertavam revolta e indignação no povo haitiano. Em 1986, Baby Doc decretou estado de sítio. Os protestos populares se intensificaram e ele fugiu com a família para a França, deixando em seu lugar o General Henri Namphy. Eleições foram convocadas e Leslie Manigat foi eleito, em pleito caracterizado por grande abstenção.

E foi nesse contexto histórico que Wade Davis, um etnobotânico canadense, desembarcou em Porto Príncipe, em 1982 a pedido do Dr. Nathan S. Kline, que havia elaborado a teoria de que uma droga podia ser responsável pelas experiências supostamente comprovadas de zumbis. Uma vez que tal droga poderia ser usada medicinalmente no campo da anestesiologia, Kline esperava reunir amostras, analisá-las e determinar se e como funcionavam. Davis observou que os haitianos que acreditavam em zumbis também acreditavam que eles eram criados pela feitiçaria de um sacerdote (e não por um veneno ou uma droga).  Segundo a sabedoria local, o sacerdote pega o ti bon ange da vítima, ou seja, a sua alma, para transformá-la em zumbi; mas durante sua pesquisa, Davis descobriu que o sacerdote usava pós elaborados, feitos de plantas secas e partes de animais em seus rituais. Davis reuniu oito amostras desse pó em quatro regiões do Haiti e, como resultado de suas investigações, afirmou que uma pessoa viva pode ser transformada em um zumbi injetando-se duas substâncias específicas na sua corrente sanguínea (geralmente através de uma ferida): A primeira, chamada pelos nativos de “coup de poudre” (do francês: tiro de pó), inclui a tetrodotoxina (TTX), uma poderosa neurotoxina e freqüentemente fatal encontrada na carne do baiacu (ordem Tetraodontidae). A segunda consiste numa poção com drogas dissociativas tais como a datura. Acredita-se que estas substâncias associadas induzem um estado de morte no qual ficam inteiramente sujeitas às vontades do bokor (o sacerdote vodu responsável pelo preparo e uso da poção). Davis também popularizou a história de Clairvius Narcisse, que alegou ter sucumbido a essa prática e “vivido” como um morto-vivo por muitos anos.

De acordo com a teoria de Davis, o pó, quando aplicado, primeiramente irritava e rachava a pele da vítima, para então a tetrodotoxina adentrar a corrente sangüínea, paralisando a vítima e causando sua morte aparente. A família enterraria a vítima e o sacerdote retiraria o corpo do túmulo. As investigações de Davis ainda apontam para o quão comum era que uma pessoa envenenada pelo pó recuperasse a consciência no caixão ou logo depois de ter sido retirada de lá. O trauma e a violência psicológica contidos nesse processo de vivência da morte, quando somado ao padrão cultural vigente que reconhece a autoridade dos bokor e a condição maldita dos zumbis, acaba provando à vítima e seus familiares que, de fato, aquele que fosse enterrado e por ventura avistado mais tarde vagando ou trabalhando em lavouras havia se tornado um zumbi, e isso era o bastante para que fosse proscrito da sociedade.

O processo descrito em seus livros (The Serpent and the Rainbow,1985 e Passage of Darkness: The Ethnobiology of the Haitian Zombie, 1988) acontece a partir de um estado inicial de morte, com animação suspensa, seguido pelo re-despertar, normalmente depois de ser enterrado, em um estado psicótico. Davis sugeriu que a psicose induzida por drogas e pelo trauma psicológico de ter sido enterrado, reforçavam as crenças culturalmente aprendidas e levavam os indivíduos a reconstruir sua identidade como a de um zumbi, uma vez que, após a experiência a que eram submetidos, eles passavam a “acreditar” que estavam mortos e não teriam mais outro papel para desempenhar na sociedade haitiana. Segundo Davis, os mecanismos sociais de reforço desta crença serviam para confirmar para o indivíduo a sua condição de zumbi e tais indivíduos passavam a ser conhecidos por passear em cemitérios, exibindo atitudes e emoções deprimidas.

Dessa forma, o composto narcótico, aliado a uma estrutura cultural e religiosa, garantia a esses feiticeiros-exploradores acesso a manufatura de escravos que jamais se insurgiriam, e esses, completamente desumanizados, viam-se submissos ao poder de seus senhores e submetidos a efeitos que suprimem sua própria força de vontade, autonomia, memória e identidade.

A teoria de Davis é que a cultura e a crença fazem com que alguns haitianos acreditem ser zumbis após se recuperarem dos efeitos do pó. Alguns sacerdotes dizem que a alimentação de um zumbi inclui uma pasta de Datura stramonium, conhecida localmente como “pepino de zumbi”. Chamada de “erva jimson” nos EUA e de “figueira do diabo” no Brasil, essa planta provoca febre, alucinações e amnésia, aumentando potencialmente a crença da vítima de que houve uma transformação e contribuindo para o trabalho de controle e dominação psicológica exercida pelos bokor.

Esse estudo sobre os processos formadores dos Zumbis da vida real nos faz levantar outra reflexão neomitosófica acerca do tema: A relação entre a Desmorte e a Emoção, ou como o estado emocional a nutre, define e troca com a condição desmorta. Decerto, o grande drama dos filmes de zumbi envolve o sacrifício de entes queridos que já não mais respondem a nenhum estímulo emocional. Tornam-se monstros por, além do aspecto mórbido e a voracidade irracional, não sentir emoção alguma.

Em A Noite Mais Densa, saga dos Lanterna Verde publicada atualmente pela DC Comics, há uma relação intrínseca entre os Lanterna Negros (que evocam uma epidemia desmorta de proporções cósmicas) e o uso combativo das emoções empreendido pelos patrulheiros espaciais de diversas tropas, cada qual primando por uma emoção: Lanterna Verde – Força de Vontade; Vermelha – Ira; Amarela – Medo; Azul – Esperança; Violeta – Amor e assim por diante. A partir disso é possível estabelecer uma ligação entre a condição desmorta e o vampirismo psíquico, teoria na qual se supõe que determinadas pessoas são capazes de drenar energia emocional de outras, esvaziando-as, inoculando depressão e apatia por meio de um convívio igualmente nocivo e sedutor.

Dessas reflexões, observamos que há uma fórmula de conivência social subtraindo a vida das pessoas, sem necessariamente exterminá-las. Usurpando de sua energia. Dominando sua vontade. Convencendo-os de que o vagar sem fim, a fome sem fim, a não-vida sem fim é algo desejável. Dessa fórmula, nos parece que subserviência, servidão e obediência são elementos importantes da equação. E afinal, a fome de cérebros pode significar uma patologia exagerada de compensação para um não uso da mente, da reflexão, do exercício da autonomia.

A sociedade pós-moderna nos diz: “Vivam Intensamente! Vivam ao extremo! Vivam para o agora, porque o amanhã reserva apenas velhice e morte em potencial”… e desse hedonismo cego um número cada vez maior de pessoas dilui identidade na individualidade, comunidade na convivência nuclear epidêmica, amor na sexualidade vã e compulsória. Nosso objetivo não é bradar moralismos inquisidores, nem caçar demônios ou condenar o sexo e a paixão. Não iremos apontar para o quanto o vício é demolidor da força de vontade ou retomar que o crack e a heroína transformam pessoas em bonecos, chupando em becos por outra dose, dizendo sim, aceitando toda e qualquer violência. Mas pensemos, nos indaguemos, se eventualmente a ambição por um aumento, por uma promoção não gera esse mesmo tipo de comportamento autômato… Se o desejo de consumo, seja ele em becos, guetos ou shoping centers, não tem o poder de converter alguém no mesmo tipo de besta faminta. Que se esvazia a cada novo banquete.

Afinal, talvez toda essa recente febre de zumbis em filmes, séries, HQs e manifestações públicas não seja uma urgência em convocar as pessoas para priorizar os elementos básicos para sua sobrevivência. Não é isso que pretende Max Brooks? Sensibilizar as pessoas para prepararem-se melhor? Para fortalecerem-se? Talvez o grande antagonista do sobrevivente numa hecatombe desmorta ou de um legítimo caçador de mortos inquietos não seja os mortos-vivos em si, mas o sofá, a internet e o ar condicionado, que transformam o homem moderno num arremedo pálido, flácido e fraco; vergonhoso aos olhos de seus antepassados, esteja ele na cultura que for. A civilização enfraquece. O conforto acelera o apodrecimento e a decomposição.

Apelamos para a esperança de que ainda seja possível conhecer-se o bastante para que possamos distinguir preenchimento e esvaziamento da alma. Porque na vida real, esperamos, ainda há cura para os zumbis.

ainda andando

ti<AN – especial para o dia dos mortos – 3;NOV/2010

PS: Para referências, dos posts que encontrei sobre o tema esse me pareceu o mais completo e interessante:

http://4wall.wordpress.com/2010/10/17/a-popularizacao-dos-zumbis/

E além, claro, do excelente Robert Kirkman (um dos grandes mais recentes expoentes responsáveis a popularizar os zumbis), recomendo a brilhante HQ “TAG” de Keith Giffen e Kody Chamberlain, que pode ser baixada aqui:

http://vertigemhq.blogspot.com/search/label/Tag

MCO

Postado em novidades com as tags , , , , , , em novembro 20, 2010 por loyola25

Este manifesta é em homenagem a ocupação de reitoria mais relâmpago da história, 2 dias de festa…

Movimento Contra-Ocupacional

O Movimento Contra-Ocupacional (MCO) não constitui um movimento organizado, não tem líderes e provavelmente não tem membros. O movimento nada defende e nada propõe, apenas reclama, ou seja, é um movimento de baderneiros que são vergonhosos, desmoralizados, vagabundos, sem moral e que não querem ser levados a sério. Não é contra ocuparem o local e sim como se organiza a ocupação do local.

O MCO acha que tem uma função muito interessante para a Ocupação: de mostrar a seus líderes ou aos seus democratas os erros históricos que são cometidos, além de deixar evidente até que ponto a democracia mata os que não concordam com ela e não querem ocupar outro espaço, ou seja, a reitoria.

MCO é contra a proibição de qualquer coisa, pessoa ou ato que seja votado pela maioria. Não compreende a democracia como um sistema eficaz tendo em mente a exclusão das minorias, estas podem ser diversas: drogados, bêbados, baderneiros de plantão, chatos, defecadores anti-vaso-sanitário, anti-sanitaristas, sujos, canibais, pró-altas mensalidades, pró-reitores, incestuosos, ociosos, cachorros e toda a escória que envergonhará o movimento estudantil.

O MCO tem convicção de que não é possível uma resistência, ou um levante, uma saída pela margem, quando se está a favor das regras. O Movimento condena a hipocrisia! Como pode ser permitidas festas na PUC, bebidas, drogas, e cigarros dentro da universidade, sabendo-se que é proibido? E porque quando a proibição é feita pelos estudantes é necessário que se obedeça? Isso nos cheira muito parecido com algumas situações históricas lindíssimas (ou trágicas). Sai uma empresa (PUC) e entra outra (Estudantes), é isso? Sai um partido e entra outro? Parece-nos sempre a mesma palhaçada. Como diriam alguns intelectuais a Ideologia permanece, o que muda é a doutrina…

Talvez a única sugestão que o MCO dê ao chamado Movimento Estudantil seria o de retirarem e censurarem o que é banal, engraçado e oposto.

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